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abr
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A crônica de Guto Piccinini: Uma vida extra-ordinária

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Uma vida extra-oridinária, por Guto Piccinini

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Logo após a jornada de trinta minutos desde a admissão no hospital à saída da sala de parto, a equipe responsável por aquela menina de vinte e sete anos chegou a mais óbvia das conclusões: este  caso poderia ser registrado como o trabalho de parto mais simples da vida de cada um dos profissionais ali presentes. Enquanto saíam consternados com o acontecimento histórico, não puderam perceber a autora da proeza, que num misto de surpresa e choque, permanecia impávida, na tentativa de compreender este ser que minutos antes destacou-se de seu corpo de uma forma escorregadia e flácida em comparação com a dureza do mundo. Carregava consigo as inúmeras histórias de dor relatadas por companheiras de gravidez ou conhecidas próximas. E enquanto permanecia ali, com este ser em seus braços, sentiu apreensão por não identificar ao certo qual o sentido de ser mãe. Curiosa, seguiu com os olhos este mal fadado corpo, enquanto ela própria estranhava seu corpo. Sem perceber, nesse andar vagaroso compôs uma sintonia sutil, uma função penetrante, que apenas aos dois fariam sentido. Sem perceber, mirava os olhos desta pequena criatura com amor e ternura. Foi a primeira vez que algo brilhou naquele corpo intruso e esguio: tomado de puro ímpeto, inflou como um balão.

Embora permaneça um mistério para as muitas teorias científicas que buscaram produzir contornos para a caso, a vida deste garoto não fugia do que consideraríamos normal e corriqueiro a qualquer ser humano ordinário que frequentemente surge de bobeira por aí. Para a surpresa dos médicos, sua constituição surpreendentemente flácida garantia um tônus muscular (ou o que quer que seja aquilo que lhe compunha um corpo) suficiente para sustentar seu corpo em qualquer atividade do dia. Ainda mais nos momentos em que a cena descrita de seus primeiros minutos de vida repetia-se, e seu corpo inflava tal qual um balão, e o corpo lânguido ganhava contornos rijos e de uma vistosidade incomparável ao estado anterior. Assim permanecia até que novamente seus contornos iam relaxando vagarosamente até o ponto em que não havia tensão alguma visível. Vazio.

Sua impressão era de que deveria ter uma estima menor do que todos seus conhecidos. Mas não se sentia mal com sua diferença. Não mais do que qualquer um em sua volta. Era por vezes atravessado pelos olhares inquisidores e incompreendidos de pessoas que se surpreendiam com sua presença inusitada. Nestes momentos era tomado por um descontrole singular, que resultava em seu corpo inflado. Sofreu ordinariamente como todo ser humano em função dos amores da vida. Diferente, talvez, por sua condição especial, que conferiu um outro contorno às decepções amorosas: um furo com consequencias imprevistas. A cena se repetiu diversas vezes, mas ele não a temia mais do que cada um teme estar só com sua própria solidão. Por isso cercou-se de pessoas que mantinham este temor afastado. Neste carinho dos mais próximos, algo que ele não supunha relembrava o primeiro olhar oferecido por sua mãe, no primeiro respirar de sua pele.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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