01
maio
13

A crônica de Guto Piccinini: Binarismos

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Binarismos ou Das inquietudes que o estranho evoca quando o fitamos de frente, por Guto Piccinini

Não era um evento incomum, mas algo começou a ganhar forma neste início de dia. Ele abre os olhos, e eles se abrem tortos. O primeiro bocejo acompanha o movimento de recolocar no lugar um dos braços que durante a noite parou-lhe no meio das costas. A cabeça nos pés. No banheiro, escova os dentes com força. Vê sangue escorrer-lhe da boca. Não é incomum, e sorri. Gostava de ver o líquido espesso sair por entre os dentes, de um espaço tão estreito que parecia que nunca sairia nada. Lava o rosto, e ao olhar novamente para o espelho vê um rosto outro. Na sequência de mais um enxague, um outro rosto a lhe encarar os olhos. É como um misto de reconhecimento e estranheza que agora fita. Veste o uniforme. Sai. No trabalho, se vê de posse de um controle incontrolável. Este seria o dia. A cidade a seus pés esmagam o corpanzil duro em meio a ronda despretensiosa. O carro acelera. Pé botina, pé martelo. A abordagem é límpida no rosto que se desloca na velocidade das rodas. É hora. Saca do coldre o soldo recheado de munição ideológica. Inova, repetindo o mesmo: o pé tijolo acelera o ato punitivo. Não há tempo a perder. Não há mais tempo. Deitado sob seus pés, o meliante cumpre.

Ele acorda. Demora a descobrir-se do mundo o corpo esguio. É negro de um negro que muitos desconhecem: carrega no bolso uma variedade infinita de nomes. Levanta. Oscila no raiar do dia, entre o ódio e um pão com manteiga. Caminha até a parte da casa que pode ser definido como a cozinha. Passa entre os filhos, a mulher, dois irmão mais novos, três mais velhos, dois tios e a mãe. Essa já estava acordada há um tempo. Ele a vê no horizonte desde que acordara para a vida. Toma um resto de café. Sai. Na rua, mais do mesmo. O asfalto é um mar de oportunidades. Ele sente na pele o corpo ofuscado na urbe. Um espelho marcado, pensa. Saca do coldre o vazio recheado de história: algo nele falta, e sua busca tem demarcações holofóticas. Ganha aí sua roupagem. É um instante. No carro, de um outro, acelera a adrenalina dos deuses. Em meio a ação, se confunde na autoria principal. Uma horda de coadjuvantes ganha a cena: ele sente, na sincronicidade do destino, o datado na perseguição. Um fio de sangue escorre, mas ali isso pouco importa. Cabeça nos pés. Em mutação com o asfalto, o pé martelo lhe esmaga as têmporas, enquanto o tempo contorna uma nova máscara.

 

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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