09
maio
13

A crônica de Claudia Coelho: Gracias pelo merci!

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Gracias pelo merci!, por Claudia Coelho

03 merci

Prometi que falaria do meu enjoo com os franceses, e aí percebi que fui perdendo o interesse de falar mal deles. Em geral, travo uma briga interna para cumprir minha palavra quando combino alguma coisa com alguém.

Palavra dada, vamos lá! Tudo o que se fala do povo parisiense, no que diz respeito a seus hábitos, é a mais pura verdade. Nesse sentido, formulei algumas teorias bem exageradas, até porque passei pouco tempo em Paris para observar. Ah! Me perdoem a generalização, mas só assim para fazer uma sátira.

Paris deveria se chamar “Merci”. Sim, certamente é a palavra mais pronunciada pelos parisienses e por qualquer pessoa que tenha amor aos seus dentes… Isso quer dizer que se você não agradecer, saia pelo menos da frente! Você tomará bufada e cara feia! Isso tudo que estou contando não é novidade; novidade mesmo foi perceber o quanto podem ser mal-educados de tanto exigir educação. É algo semelhante como, quando dizemos em português, na ausência de um “obrigado”, um “De nada, né?!”. Infelizmente, eu já sabia dessa fama.

Quanto aos espanhóis, antes de viajar, li num site que eles bufam por qualquer coisinha… e é verdade. Vai ver que foi com eles que os pobres animaizinhos das touradas aprenderam a bufar diante de tantos “Olés!”

Aliás, além dos espanhóis, percebi que os franceses de Paris tam­bém dão a sua bufadinha… Será que toda a Europa também bufa???

Na minha opinião, “bufar” combina mais com os espanhóis. Ah, os espanhóis! Bufam, pra valer!!! E agora só me vem à mente outra vez a imagem de um touro raspando as patas no chão e mirando o toureiro. Algumas pessoas me disseram: “Mas na Espanha eles são assim mesmo, uns grosseirões!”. Sim, uns grosseirões, mas combina com eles, eu prefiro assim! E sabem por que prefiro? Porque o espa­nhol tem uma intensidade “azeda”, que para mim transmite energia, alma…

Lembro-me de uma apresentação de flamenco a que fomos as­sistir em Madri. A cantora Sara Salado parecia que ia incorporar sem charuto! Forte, eloquente, nos levou às lágrimas de tanta emoção. O que vou dizer agora, tem um “quê” de dramalhão mexicano, mas outro cantor espanhol desse mesmo show, cujo nome não lembro agora, em determinado momento, dizia a seguinte frase: “Eu jogaria minhas entranhas no fogo por ti!”. Ai, que dor!!! E que convincente também! Consegui imaginar o fogo… as entranhas!!!

Está na cara que gostei mais da Espanha, tanto que me empol­guei e esqueci os franceses. E quer saber? Talvez eles nem queiram ser lembrados!!! Brincadeirinha… Mas se me perguntam o que achei da viagem, eu digo que a Espanha tem alma; Paris, especificamente – não sei das outras cidades da França –, tem uma elegância cartesia­na, pragmática como a Torre Eiffel.

Afinal, o que não gostou em Paris, Cláudia? É que Paris se basta! Só louco para dizer que não gostou. Contudo, o parisiense não preci­sa nem de mim, nem de você, nem de ninguém! Talvez isso tenha me enjoado. Paris deveria estar localizada numa ilha chamada “Merci”! No fundo achei a Espanha mais coerente. Lá as coisas acontecem aos trancos e barrancos, mas andam. Paris é requintada e soberba, of course!!! Ops! Não fale inglês em Paris, o povo não gosta muito, viu?!

Mas preciso contar que, bem no final da minha viagem, eu vi a simbiose perfeita das personalidades aqui relatadas (franceses + espanhóis). Foi no aeroporto de Orly, ao Sul de Paris, quando estava indo embora. Fui até o balcão da Ibéria, companhia aérea espanhola, para me informar sobre o horário do check-in. Pensei que seria uma maravilha, pois iria me comunicar em espanhol com aquela moça do balcão e iríamos realmente nos compreender. Seria o paraíso! Então eu disse um “Hola!” vibrante, e um “Por favor, una información?”. Ela me olhou, foi caminhando em silêncio para a sua mesa, balançou uma cabeleira escura e crespa no estilo anos 80, e com uma ligeira bufada, me meteu os chifres de touro dizendo: “Para empezar… Bue­nos Diaaasss!”. Putz! Não queria acreditar! Juro que tive vontade de mandá-la longe! Pensei que não era possível eu ter encontrado uma espanhola com ares de “merci” compulsório! A tal me tratou como os espanhóis e me exigiu a educação dos franceses. Eu joguei pedra na cruz!!! Sim, fiquei muda! Pensei ter sido suficientemente educada (aliás, me esqueci de dizer que o pior de tudo é a gente se sentir mal­-educada sem-pre!)

Voltando à tourada, digo, ao balcão, continuei muda, escutando a informação e, ao fim e ao cabo, continuei muda, pois pensei “o que será que a criatura bufante esperava de mim?” Um gracias ou um merci? Na dúvida, não diga nada! E uma voz parecia dizer, dentro de mim: “Você tem o direito de ficar calada e qualquer coisa que disser será usado contra você!”. O que fiz??? Saí muda “à francesa”! Essa é a expressão perfeita para a situação! Vou sair bem mal-educada mesmo e não me despedir de ninguém!

Viu só como tenho razão? Por trás desse “merci”, tem algo que não cheira bem! Ah! Aproveita e coloca um perfume francês aí! Mer-ciiiiii!!!

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claudia coelhoCláudia Coelho nasceu em Porto Alegre, é formada em Psicologia desde 1993 pela PUCRS. É  Psicóloga Clínica e Consultora em Gestão de Pessoas. Especialista em Psicologia do Trânsito e  Projetos Sociais e Culturais.  Atua em  avaliações psicológicas comocredenciada  do DETRAN/RS e  Polícia Federal. Sem dúvida, a característica polivalente da autora propiciaram-lhe vivências enriquecedoras e multifacetadas. Em 2008  começou a escrever suas primeiras crônicas em seu blog (http://psiclaudiacoelho.blogspot.com.br/).  É aluna de  Desenho e Pintura  do Atelier Livre  da Prefeitura de Porto alegre,  onde desenvolve trabalhos que dialogam com suas crônicas. As crônicas aqui publicadas estão em Lógicas Invertidas – crônicas / Cláudia Coelho. ( Evangraf, 2012)

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