15
maio
13

A crônica de Guto Piccinini: Retorno

.

.

Retorno, por Guto Piccinini

Seguia atento a minha caminhada com o passo firme. Resoluto. Não tenho o costume da errância Ela tem um pingo de erro que me desacomoda e não me acompanha. Eu muito menos a sigo. Seguia em contornos pré-definidos. Seguia. A concentração era tanta que me via ali, puro passo, antecipação e couraça. Me fazia ouvir nos passos, o traçado que por muito tempo vivi no chão duro de asfalto. A gente vai se apegando aos detalhes do caminho, e no meu caso, o caminho certo era o meu caminho. Caminho. Numa das pontas, eu, demasiado (“justo a mim coube ser eu”). Na outra, aquele pedaço de mundo que há muito se fora. O tempo é uma coisa engraçada. Principalmente quando passa. Em mim o tempo tem algo que insiste. Um movimento ruminante de vai e volta, que regurgita este engodo de uma suposta história. É um pouco triste até, esta ingerência que subverte minhas esperanças quanto a firmeza do passado lá onde ele não mais existe. Vocês vejam: no tempo os passos deixam rastros, marcas. Não existe aquela metáfora do prego na madeira? É algo mais ou menos assim. Ali, nestes passos que me deslocam, vejo os passos do próprio tempo que rastejam em mim. Resisto o que posso.

Dia desses andarilhava por minha rota rotineira. Acompanhei de sobressalto um indício de água que escapulia de um registro. Mirei de longe o vazamento baixinho, de um chiado inexistente. Na passagem conhecida, os pulos de sempre, os cheiros de sempre, o alarido foi crescendo, ganhando corpo, até que pude vislumbrar seu corpo exposto, um solitário e úmido grito por socorro. Por três dias acompanhei o suplício daquele que um dia foi uma estrutura de vigor jovial. Por três dias segui meu caminho supondo um porvir. Mastigava esse tempo de acontecer, fazia eu parte daquele acontecer sem nome, enredado nos fios de água que inundavam vagarosamente o entorno. Estava eu inundado pelo suplício. No quarto dia, o vazamento já não existia. A parede aberta, expunha na minha cara estes dias de devir espasmódico, por um volume de espera e demora. Sentindo em mim o cimento ainda novo, não pude gozar de nenhum tostão de glória: no tempo deste existir, havia em mim um desamparo de surpresa. Algo daquele fluxo me pertencia. Nestes passos que me acompanham, já tomado pela secura, vejo no tempo o que ele nos oferece de melhor! Confesso: “Dar tempo ao tempo”. Nunca compreendi a razão de uma assertiva que redunda nela mesma. Apenas visto a carapaça.

Hoje já é um outro dia. Insisto. O corpo rijo, em velocidade constante e retilíneo segue os traçados de um outrora já percorridos. Sigo nesse fluxo de permanência. No passo compassado do tempo o amargo da boca prenuncia a chegada. Exito, mas hoje já é outro dia. Já dentro da sala, revisito os sentidos perdidos agora reencontrados. Aquele que um dia ali também esteve lhe possui: as paredes sujas e coloridas de memórias, um cheiro levemente azedo da falta de sol e circulação, os papéis. Nunca soube de onde surgiam tantos papéis. E eles estavam ainda dispersos e descompostos em ordem própria. Fui testemunhando aquele encontro no que era viável da umidade que me apossava, e das luminárias semi funcionais que assim ainda permaneciam. Um pouco desmontado, segui tateando pelo espaço, remoendo o ranger dos dentes, e retomando aqueles cantos de palavra que via pela primeira vez. Foi num destes cantos que me deparei, depois destes longos anos, com o antigo sofá, companheiro de muitas horas de descanso. O mesmo sofá (!), ainda incrivelmente mais sujo do que as paredes que lhe circundam e de um azul de poucos amigos. Parei para admirá-lo, e sentia o mesmo olhar direcionado a mim. Por um instante acreditei que aquele sacana deveria estar pensando o mesmo que eu! Foram segundos deste reencontro inusitado. E eu que acreditei estar preparado para tudo? Não exitei instante ao encontro do velho amigo, e desabrochei os passos em seus braços. Ali, os dois abraçados na sujeira dos anos, dormimos o sono dos injustos, lado a lado. Vos digo: há coisas deste mundo que não me atrevo a dizer, mas neste dia sonhamos juntos nossa singela dança de um dia de semana blue.

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.

Anúncios

0 Responses to “A crônica de Guto Piccinini: Retorno”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


maio 2013
S T Q Q S S D
« abr   jun »
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

Categorias

Blog Stats

  • 618,200 hits
Follow Palavraria – Livros & Cafés on WordPress.com

%d blogueiros gostam disto: