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maio
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A crônica de Luiz-Olyntho Telles da Silva: Maria e Herodes

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Maria e Herodes, por Luiz-Olyntho Telles da Silva

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Pietro Cavallini - Anunciação
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In mense autem sexto missus est angelus Gabrihel a Deo in civitatem Galilaeae cui nomen Nazareth, ad virginem desponsatam viro, cui nomen erat Ioseph, de domo David et nomen virginis Maria. Et ingressus angelus ad eam dixit: have gratia plena Dominus tecum benedicta tu in mulieribus. Quae cum vidisset turbata est in sermone eius et cogitabat qualis esset ista salutatio. Et ait angelus ei: Ne timeas Maria, invenisti enim gratiam apud Deum ecce concipies in utero et paries filium et vocabis nomen eius Iesum.

(LUCAS, I :26-31.)

 

O Papa Gregório X voltara da nona cruzada a São João de Acre, junto com o rei Eduardo I, da Inglaterra, de quem era conselheiro, preocupado com a conquista de Jerusalém. Era difícil e caro, motivo suficiente para convocar um Concílio. Tomadas as providências, dois anos depois, em 1274, instalava-se em Lyon, na França, o décimo quarto Concílio da Igreja Católica.

Quem também queria ir a essa reunião era o Cardeal Bertoldo Stefaneschi. Seria uma bela oportunidade de encontrar-se com Tomás de Aquino, convidado especial do Concílio e amigo comum, tanto dele como de Teobaldo Visconte, mesmo antes de ser elevado ao setial de São Pedro. Mas resolveu não ir. Verdade que Tomás de Aquino, que não andava bem de saúde, fazia tempo, tendo morrido no caminho, faltou ao encontro. Assim que a resolução de ficar, no final, pareceu acertada ao Cardeal. Estava ocupado com a construção da Basílica de Santa Maria, no além Tibre, e isso lhe dava muito trabalho. Maria, a mãe de Jesus, era um tema comovente para ele. Sentia-se enternecido com sua história, a qual, não raro, ocupava suas conversas com o Papa. Certa feita precisou visitá-lo, no Acre, por assuntos eclesiásticos, e aproveitou uma folga, nas entrevistas com Sua Santidade, para visitar Nazaré, em busca de algum indício que o ajudasse a decidir sobre qual dos dois lugares, segundo se apontava, teria ocorrido a Anunciação. Visitou o Poço de Maria, santuário em homenagem à Virgem, alguns sítios arqueológicos, mas um dos lugares, aquele no qual os católicos acreditavam ter havido a Anunciação, já estava ocupado com a Igreja da Anunciação, e o outro espaço, o que os ortodoxos acreditavam, já estava ocupado, por sua vez, com a Igreja Grega Ortodoxa da Anunciação. Contudo, mesmo não tendo encontrado nenhum indício material, não estava frustrado! Ainda que vagamente, pairava sobre sua cabeça a ideia de que o importante era a Anunciação propriamente dita. Havia aí algo que parecia ir além do óbvio.

De volta a Roma, ocupado com os planos de decoração das cúpulas da igreja, deparou-se com antigos projetos para o campanário, cuja construção fora autorizada ainda pelo Papa Inocêncio II, há mais de cem anos. E, então, inteira-se de que aquele local fora escolhido porque, cerca de quarenta anos antes do nascimento de Cristo, aí começara a brotar um óleo, e esse fenômeno fora interpretado, na época, como um prenúncio da vinda do Messias. – Da vero, exclamou o Cardeal estupefato! O tema da Anunciação o perseguia. E as associações que em seguida lhe ocorreram cada vez mais lhe reforçavam a importância do episódio. Se de um lado havia descrédito na história da concepção de Maria, sem pecado – singelo eufemismo para sem coito -, por outro, havia gente que havia lhe dado muito crédito, talvez até crédito demais! Herodes, o grande, por exemplo.

Se São João de Acre, quando estivera em Jerusalém, não passava de um porto fortificado, imagine-se o tamanho da vila de Nazaré mil anos antes! Como num lugar pequeno não há como guardar segredos, alguém ouviu dizer que por aqueles dias ia nascer o Rei dos Judeus e foi logo levar a notícia quentinha para o paranoico Rei de Israel, o odiado idumeu Herodes, o qual, sem muito pensar, mandou matar todos os primogênitos. Se alguns dizem que foram milhares, enquanto outros dizem que não passou de poucas dúzias e haja até quem diga que isso não aconteceu (sempre há destes, não é mesmo?), o que importa é que ele deu crédito. E que não se diga que esse sujeito, pai do outro tarado que mandou cortar a cabeça do João Batista, não sabia como se fazia filhos. O que Herodes percebeu – que burro não era! -, é que alguém, como estava acontecendo com ele, podia mesmo ser fecundado pelo ouvido.

Tomado pelo valor subversivo da ideia, Bertoldo chama seu amigo Pietro Cavallini para conversar. Gregório X por certo havia se dado conta da alegoria e, esperto, fora-se à França: é pelo ouvido que se pode plantar uma ideia na cabeça de outro; espere-se um tempo e, se plantada na cabeça certa, ela germinará!

Bertoldo Stefaneschi não era tão prático. Pensava mais longe. Não tinha deixado de observar que, na meia cúpula da abside, Maria aparecia, pela primeira vez na arte cristã, ao lado do Cristo, no trono celestial, usando roupas e uma coroa de rainha. Tinha sido aí, na sua igreja, que a Virgem se tornara a Rainha do Céu. Devaneava assim quando recebeu o já renomado Cavallini: que planejasse uma série de mosaicos para a abside retratando a vida de Maria, começando por seu nascimento e terminando por sua morte. A Anunciação deveria ser o segundo, posicionado, com discrição, depois do primeiro, para dizer, sim, mas sem chamar demasiadamente a atenção. Fecundado pelo ouvido pode-se alcançar o topo do mundo!

De Santa Maria in Trastevere, cujos mosaicos foram concluídos em 1291, a ideia espalhou-se, aparecendo logo em Pádua, na Capela Crovegni, o afresco de Giotto; em Florença, na Basílica da Santa Cruz, a escultura dourada de Donatello, e, na Basílica de Santa Maria Novella, o afresco de Ghirlandaio. Logo depois, Leonardo Da Vinci, Boticelli e tantos outros também renderam homenagens ao tema da Anunciação.

Em seu devaneio, o Cardeal Stefaneschi ainda pensava nos teóricos da Igreja que, para justificar a gravidez de Maria, haviam recorrido à antiga teoria egípcia de que só havendo abutres fêmeos, eles eram fecundados pelo ar: – Certamente não tinham entendido nada!

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Luiz-Olyntho Telles da SilvaLuiz-Olyntho Telles da Silva é psicanalista e escritor, membro fundador da Biblioteca Sigmund Freud, espaço de formação e interlocução psicanalítica. Convidado por diversas instituições psicanalíticas, já apresentou seus trabalhos, além de Porto Alegre, em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Vitória, Brasília, Salvador, Recife, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago, Barcelona, Canes, Ville de Grace, Paris e Nova Iorque. No Brasil, publicou Pagar com palavras ([Organizador] Movimento, 1984), Da miséria neurótica à infelicidade comum (Movimento, 1989 [1ª ed.] e 2009 [2ª ed. revista, corrigida e ampliada]), FREUD / LACAN: O desvelamento do sujeito (AGE, 1999), Leituras (AGE, 2004), e estreou na literatura com o livro de contos Incidentes em um ano bissexto (EDA, 2009). Publicou recentemente Ponto contraponto (HCE, 2012) e estará lançando agora em maio, na Palavraria, Um elefante em Albany Street (HCE, 2013). Publica também na página: www.tellesdasilva.com

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1 Response to “A crônica de Luiz-Olyntho Telles da Silva: Maria e Herodes”


  1. 1 Fausto
    28 de dezembro de 2013 às 17:32

    Olá,Lots! Não muito afeito às buscas em blogs ( mas penso que agora sei onde te achar) li neste intermezzo Natal-Ano Novo tua crônica . Veio à minha mente as várias vezes nas quais ,durante nossas Tertúlias Dantescas, surgiu a questão do ouvido sua relação com a escuta, notadamente na Psicanálise , e algumas das cenas de grandes obras, como o caso de Macbeth e se bem me lembro na Divina também aludiste alguma coisa. Podes me recordar por supuesto! é sempre uma dádiva e um bálsamo quando nos elevamos através da poesia ou da arte ,para pensarmos que talvez ainda reste esperaça para nós, humanos superarmos as tantas barbáries deste nosso pequeno mundo.
    Um grande abraço e Feliz Ano Novo a ti e aos teus e espero que haja uma janela( não para o céu, seria pedir demais) mas para bebericarmos um champagne ou espumante juntos.
    Ernani ,tuo fratello.


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