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maio
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A crônica de Ademir Furtado – Recados de Londres: A pátria dos expatriados

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A pátria dos expatriadospor Ademir Furtado

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Pink Street Photography - London England - Graffiti
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Uma das coisas mais fascinantes numa viagem é a necessidade que a gente tem de se livrar dos referenciais do cotidiano e se reestruturar no novo espaço. É uma maneira de descobrir os aspectos que são realmente importantes da nossa personalidade, e os que a gente deveria abandonar, ou pelos menos trabalhar um pouco sobre eles. Nesse processo, a gente pode descobrir novas perspectivas, ou desenvolver potencialidades que ficaram adormecidas ao longo da nossa formação. Como a sociabilidade, por exemplo.  Eis uma qualidade que muita gente não desenvolve porque não precisa dela. Mas ser sociável num pais estrangeiro, onde não se conhece ninguém e não se domina o idioma, é quase uma questão de sobrevivência.

Pois tenho notado aqui em Londres, de parte dos imigrantes, uma receptividade que me surpreendeu. Minha experiência anterior na Europa foi na Alemanha, um pais que se mostrou muito carente desse sentimento de aceitação do outro. Mesmo para mim, com uma evidente descendência, e que cheguei lá com um conhecimento razoável de alemão. Mas lá os estrangeiros sempre foram vistos com muita desconfiança, quando não com aversão explícita.

Aqui em Londres, parece que os estrangeiros vivem num estado de espírito mais tranquilo, o que os torna mais simpáticos. É claro que se trata de impressões de terceira semana de viagem, de alguém que não está disputando espaço com ninguém. O que importa é que a sensação é boa. Não há aqui aquela tensão vivida na Alemanha nos momentos em que a comunicação se tornava difícil. Basta se mostrar um viajante que a curiosidade é imediata. E, por incrível que pareça, eles, em geral, gostam do Brasil, o que me dá um pouco de crédito para um bate-papo. Como o caso do garçom que, ao perceber meu inglês forçado, quis saber minha procedência. Era um português, e não precisou mais nada para desandar a falar de si. Casado com uma brasileira, tinha morado em São Paulo e exibia um inconfundível sotaque paulistano. Ou, ainda, o barbeiro libanês, o único que encontrei domingo de manhã. Foi só saber da minha origem para se pôr a falar de futebol e carnaval, provavelmente as únicas coisas que conhecia do Brasil. No final, nos despedimos com abraços e saí com a promessa de retornar em duas semanas, que é o tempo que minha barba leva para me deixar com cara de homeless.

Uma das hipóteses que desenvolvi é que a condição de estrangeiro deixa as pessoas mais tolerantes e receptivas. Como se fosse uma necessidade de encontrar o outro numa comunidade de exilados. Naturalmente que os ingleses nativos estão longe de parecerem pessoas antipáticas. Pelo menos aqueles com quem tive algum contato. Daí, eu fiquei divagando a respeito do sentimento deles sobre o lugar que ocupam nesta cidade. Considerando-se a quantia de imigrantes que se vê nas ruas, não seria de estranhar que os autênticos londrinos se sintam expatriados. Ou talvez, em tempos de globalização, o conceito de pátria precise de uma revisão. Um caminho que parece viável é que as fronteiras não sejam mais geográficas e sim espirituais, definidas apenas por esse desejo de ir ao encontro do outro.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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