24
maio
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Milan Kundera (ou Do riso)

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Milan Kundera (ou Do riso), por Jaime Medeiros Júnior

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risiveis-amores.

Ignoro se  alguna vez creí en la Ciudad de los inmortales:
pienso que  entonces me bastó la tarefa de buscarla.
[Borges – El inmortal – El aleph]

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Propus para o clube de leitura da Palavraria lermos Risíveis amores, pois o tinha lido nos já bem distantes anos 80. Quase nenhum recuerdo feito de início, meio e fim, só guardara a sensação de que tinha sido bom lê-lo. E também a lembrança de uma conversa com a amiga Adriana Lunardi, onde havíamos concluído que Kundera escreve melhor contos do que romances.

Apesar de aceita a proposta, houve o contradito: será que podemos falar de um livro de contos na sua inteireza, ou teremos de falar da particularidade de cada um dos seus contos? Algo em mim antevia a possibilidade de se extrair sumo não só de cada um dos quadros mas também de todo o percurso da exposição. Esta aposta se dava na sensação, algo vaga, que guardava, de que alguma coisa neste livro fazia com que os contos funcionassem como um todo e não apenas de modo isolado.

Além disso, não fazia muito topara com um ensaio de Alain Finkielkraut sobre A brincadeira de Kundera. O qual me pareceu apresentar a chave não só do romance ali abordado, mas também parecia ser capaz de destravar os caminhos do percurso dos contos de Risíveis amores [ambos foram compostos à mesma época]. Qual seja? O riso.

Finkielkraut começa por lembrar-nos que Kundera em sua A arte do romance cita o provérbio judaico – O homem pensa, Deus ri . Depois situa-nos no grande espectro da nossa postura diante do rir. Espectro em que numa das extremidades havemos de encontrar o agelasta [aquele que não se deixa irromper em riso nunca, tudo é muito sério para que se possa achar graça]. No outro extremo temos o riso do deboche, do escracho, de quem não consegue ver senão motivos de riso no mundo posto diante de si.

Os personagens de Kundera parecem ser portadores de um riso em confronto equívoco com a experiência de uma vida oficial agelasta, baseada na paranoia oficial da Tchecoeslováquia totalitária em que vivem. Essa mesma paranoia obriga a que os personagens tenham de coibir seu riso, o qual há de transmutar-se em jogo. Aqui o jogo torna-se talvez o instrumento do riso de Deus, que desafia a todo momento o cogitar humano que quer pôr ferros à vida. Aqui é impossível conviver com o riso. Qualquer brincadeira, por mais inocente que possa ser, traz em si energia suficiente para desencadear toda uma sucessão de pequenos desastres que forma ao fim de tudo uma grande comédia de erros. Comédia  que  há de condenar também o leitor a rir, riso cheio de comiseração pela dor daquelas personagens que estão sempre a supor saber qual será o próximo lance do jogo.

E então ouvimos o grito do protagonista do primeiro dos contos do livro. Preso entre um Estado incapaz de assimilar o blefe, blefe que nasce da necessidade de parecer aquilo que supõe que os agentes do estado estão a querer dele. Diz então à sua amante: Veja Klara, você pensa que uma mentira vale tanto quanto outra, mas está errada. Posso inventar qualquer coisa, zombar dos outros, criar toda espécie de mistificações, fazer todo tipo de piadas e não tenho a impressão de ser um mentiroso; essas mentiras, se quiser chamá-las mentiras, sou eu, tal como sou; com essas mentiras não simulo nada, na verdade com essas mentiras estou dizendo a verdade. Mas existem coisas sobre as quais não posso mentir. Existem coisas que conheço a fundo, e que amo. Não brinco com essas coisas. Mentir sobre isso seria me diminuir, não posso fazê-lo, não exija isso de mim, não o farei.

Aqui partimos em direção dos próximos quadros em exposição e percebemos que também nestes haveremos de encontrar sempre o mesmo mote, o jogo que as precavidas suposições das personagens obrigam-nas a jogar. O jogo agora já não permeia apenas as relações de ofício, mas invade as relações amorosas, de amizade. Invade a intimidade. Até culminar no jogo que se origina das expectativas que as personagens têm para consigo mesmas, onde o sempre presente riso de Deus mostra também quão improvável é o controle que elas pretensamente têm sobre seus desejos e pulsões.

Extrapolemos agora os limites da obra de Kundera. Finkielkraut anuncia que vivemos a vitória do riso. Que nosso tempo é o do escracho e o da zombaria, onde já não guardamos mais lugar nenhum em que não se imiscua o riso [exemplificando: tempo de Pânico ou Cqc]. Tempo em que sacrificamos todos os valores no altar do riso [perde-se o amigo mas não a piada]. Aquele grito em prol do que se conhece a fundo, do que se ama, parece ter sido emudecido pela necessidade onipresente de parecer ser, de se conformar as expectativas, de dizer sempre o inteligente, o engraçado e o perspicaz pré-concebidos.

Esse jogo a que nossas expectativas nos obrigam, parece fazer recair sobre o outro a mofa, aqui partimos sempre de certezas, das certezas de mercado, das certezas de ocasião, que parecem nos condenar a perda do outro, porque simplesmente não o escutamos, pois já sabemos o que ele quer ouvir. A nossa resposta se torna reflexa, pouco nossa. Joga-se. Blefa-se. E por consequência temos também a perda do sujeito, que agora não é senão reflexo de um outro sem substância.

Como sair desta enrascada? Pois parece que o caminho escolhido pelo Jorge de O nome da rosa, condenar o riso ao desaparecimento, envenenar as páginas da Estética que tratam sobre a comédia parece estar interdito. Pelo menos àqueles que não crêem na prescrição pura e simples da verdade de Estado, religiosa ou outras que tais. Teremos de ser acometidos de paralisia facial, para que não possamos rir? Mesmo isso não apagaria a nossa intenção de rir, o riso se faz antes do esgar dos lábios.

Aqui talvez coubesse lembrar a cena final do Symposium. Os convivas dialogam e bebem, a noite acomete-os, o cansaço, o torpor aos poucos os dominam. Poucos restam. Por fim Sócrates é quem sobra, após ter posto para dormir a comédia [Aristófanes] e a tragédia [Ágaton]. A filosofia quer superar esse par de opostos. Aqui havemos de conhecer a ironia socrática, que não deixa de guardar lugar para o riso. Mas este riso não quer se chocar com um outro suposto, e sim ser meio para chegar ao encontro com um outro substancial. Um outro a ser descoberto, a ser desvelado no percurso do diálogo. Talvez nunca encontremos a Cidade dos Imortais, mas cabe-nos a tarefa de buscá-la.

jaime medeiros júniorJaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz(crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica no seu blog Simples Hermenáutica.

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2 Responses to “A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Milan Kundera (ou Do riso)”


  1. 2 Mirian Marinsek
    25 de maio de 2013 às 18:54

    Infelizmente não pude comparecer no dia 07/05 no encontro do Clube da Leitura. Perdi um momento muito rico e interessante. Sendo assim, apreciei muito o que Dr. Jaime colocou sobre “Risíveis amores”. Há alguns anos li esta obra, mas senti que não havia aproveitado devidamente. Agora, ao ler novamente, com mais maturidade, pude de alguma forma, apreciar o que Kundera ali expõe. Há nos contos a necessidade humana pela simulação, representação e incapacidade de experimentar sentimentos verdadeiros. Há estranhamento mútuo de parte dos amantes, eles tratam-se como objetos. É o jogo, onde há mentiras e dissimulações. É uma visão difusa do outro… Por isso, talvez, risiveis…


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