25
maio
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A crônica de Emir Ross: Bundas e ombros

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Bundas e ombros, por Emir Ross

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Antigamente os árbitros vestiam preto. Vez em quando, uma camisa amarela. Bem vez em quando. O preto era o símbolo da imparcialidade. Da austeridade. Mas os tempos mudam. Hoje, eles vestem camisa, calção e meias verde-limão, rosa-choque ou outra cor brilhante que aparecer. Fúcsia sempre é uma ótima opção. A mudança na cor foi só o começo. Em suas bundas e ombros vibram marcas de lojas, de equipamentos eletrônicos e de etecétera. É o fim da imparcialidade. Como confiar em alguém que vende suas bundas e ombros para as marcas que pagam mais?

O mundo está mudando. O futebol é apenas o reflexo mais vistoso. Tudo parece à venda. Ou para aluguel.

Não me será estranho o dia em que a denominação do nosso planeta for licenciada por períodos de tempo. Vejo os repórteres em matérias de telejornais: “A população do Planeta Terra Coca-Cola aumentou em doze por cento no último ano segundo dados revelados hoje.”

Como no mundo das grandes marcas tudo é ação-reação, o concorrente terá de ser criativo: no intervalo do mesmo telejornal, veicula filme de trinta segundos: pessoas num parque ensolarado, passeando felizes. E uma assinatura: “No Planeta Terra Coca-Cola, todos ficam mais felizes quando o Sol Pepsi brilha.”

Mas não é apenas o planeta em que você mora e a estrela que ilumina suas manhãs que terão nomes de grandes marcas. Você poderá ter que alugar seu próprio nome.

No Brasil, a família Silva perderia a hegemonia. Pelo desconto de dez por cento na compra de seu ar condicionado, você se chamará José da Silva Cônsul por dois anos. Mas seu nome não poderá aparecer em fichas sujas. Caso aconteça, o desconto vai pro brejo e a multa é alta.

Nesse caso, não sei se o pior é pagar a multa ou manter o Cônsul no nome. Ainda mais se seu time de futebol alugar o nome para a Eletrolux. “Cônsul torce para o Eletrolux.”. Quando o time perde, o presidente explica: “precisamos dar um choque de ânimo nos jogadores.” É estranho, mas é a vida. Será normal. Estranho seria não aproveitar as oportunidades.

Estas são igual pernas de pirigueti, se abrem a todo momento.

Quando esse dia chegar, e vai chegar, seu animal de estimação também entrará na jogada. Se chamará Motorola por três minutos e você ganhará mil bônus na compra do próximo videofone. Para isso, é só postar uma foto engraçada dele no Motobook.

Nesse aparelho, é proibido parecer menos feliz que os outros redenautas. Mas esse papo não é novidade.

Novidade será daqui a cento e quarenta e sete anos alguém desdizer isso.

Enquanto esse tempo não chega, sintonizo os canais de futebol. Vejo a grama verde e a torcida entusiasmada. E os árbitros alugando bundas e ombros. Mas, o que fazer, melhor nos deles do que no meu.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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