25
maio
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A crônica de Luiz-Olyntho Telles da Silva: O engano de Calvero

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O engano de Calvero, por Luiz-Olyntho Telles da Silva

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Calvero-Chaplin
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Calvero foi um homem bom. Entrou no século XX com a experiência e a bagagem adquirida no século anterior. Grassava uma grande insatisfação entre o povo que, pelas mãos dos anarquistas, começou a matar os governantes. Primeiro mataram o Presidente da França, Sadi Carnot, em 1894; o fato chamou a atenção porque seu assassino, o anarquista italiano Geronimo Caserio, em vez de fugir, ficou correndo em torno da carruagem presidencial gritando Viva a Anarquia! Viva a Anarquia! Três anos depois, assassinaram o Primeiro-Ministro da Espanha, Antonio Canovas. No ano seguinte, foi a vez da Imperatriz Elizabeth da Baviera, a inesquecível Sissi, casada com o Imperador Francisco José. Na virada do século, em 1900, acabaram com a vida do Rei Humberto I, da Itália. Em setembro de 1901 aconteceu o assassinato de William McKinley Jr., o vigésimo quinto presidente dos Estados Unidos da América. A insegurança generalizada alcançou o ápice com o assassinato do Príncipe Francisco Ferdinando da Áustria e de sua esposa, em Sarajevo, no dia 28 de junho de 1914, estopim da Primeira Guerra Mundial. Nesse clima aparece Calvero. Como palhaço, divertindo as multidões, tornou-se famoso. Mas se entediou!  Ao alcançar um momento de sua vida, quando sua percepção da realidade já não lhe permitia cooptar com o status quo, abandonou a profissão. Se o riso ajuda a desabafar e a prosseguir, ele já não pode fazer nada que possa servir de antolhos. Sem um pouco de depressão as pessoas não pensam! Mas, além de divertir as pessoas, acreditando não poder fazer outra coisa, Calvero pensa que não sabe fazer mais nada! E entrega-se à bebida.

Embriagado, salva Thereza, uma jovem dançarina, de uma tentativa de suicídio, acompanhando-a durante toda sua convalescença, ajudando-a a recuperar seu amor-próprio e a incentivando a retomar sua carreira. Isso também o anima. Precisa fazer alguma coisa. A ribalta o chama! Mas ele o faz com pseudônimos, e fracassa, uma vez depois da outra. Não sabe que o nome conquistado serve para valorizar novas conquistas. Nada é para sempre! Sua piada mais sem graça envolvia uma sardinha apaixonada por uma baleia. Uma vítima da Síndrome de Estocolmo avant la lettre! As barbatanas horizontais da cauda da baleia o fascinavam! Na outra cena, Thereza, que também precisava fazer algo para sobreviver, atende em uma livraria onde, para proteger um jovem compositor, chamado Neville, vende pautas de música por um preço menor e dá troco à maior. Charles Chaplin, o autor, ator e diretor de Luzes da Ribalta, sabe o que faz! O nome de de bastismo atribuído ao compositor lembrou-me de Herman Melville, e tomei-o por homenagem ao autor de Moby Dick, a baleia. Aí, além de chamar a atenção para a peculiar barbatana da cauda da baleia, diferente de todos os outros peixes que as têm sempre na vertical, Melville deixa claro que, em um barco de caça – metáfora de nossa vida -, todos têm de ajudar uns aos outros.

Ao final, quando Thereza retorna ao balé, reconhecido por um grande empresário, Calvero também volta à ribalta, agora com seu próprio nome. O sucesso de ambos é estrondoso! Calvero, contudo, mesmo com o seu beau geste de convidar Buster Keaton – seu antigo rival no cinema mudo -, já no estertor desse tipo de teatro, para contracenar nos esquetes, acreditando que o sucesso vinha de atuar embriagado, bebe antes de subir ao palco e, na gag da última cena, cai mal, fere a coluna vertebral e morre.

Seu engano: pensar que nossa embriaguez faz bem aos outros, enquanto se trata justamente do contrário. Fazer bem ao outro é que é embriagador. Embora os dicionários tendam a dar como primeiro significado da palavra o estado alcançado pela ingestão de bebidas alcoólicas, não podemos esquecer que seu segundo sentido, tornado aqui primeiro, diz de uma exaltação, de uma enlevação, de um êxtase causado por grande alegria ou admiração. Talvez Aristóteles estivesse com razão ao falar de retorno à natureza. Se ambos os sentidos de embriaguez dizem de uma intoxicação pela natureza, a derivada do álcool e similares são sempre, necessariamente, artificiais, enquanto a embriaguez pela alegria de ajudar o próximo advém  de uma conquista sobre nossa humanidade!

 

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Luiz-Olyntho Telles da SilvaLuiz-Olyntho Telles da Silva é psicanalista e escritor, membro fundador da Biblioteca Sigmund Freud, espaço de formação e interlocução psicanalítica. Convidado por diversas instituições psicanalíticas, já apresentou seus trabalhos, além de Porto Alegre, em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Vitória, Brasília, Salvador, Recife, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago, Barcelona, Canes, Ville de Grace, Paris e Nova Iorque. No Brasil, publicou Pagar com palavras ([Organizador] Movimento, 1984), Da miséria neurótica à infelicidade comum (Movimento, 1989 [1ª ed.] e 2009 [2ª ed. revista, corrigida e ampliada]), FREUD / LACAN: O desvelamento do sujeito (AGE, 1999), Leituras (AGE, 2004), e estreou na literatura com o livro de contos Incidentes em um ano bissexto (EDA, 2009). Publicou recentemente Ponto contraponto (HCE, 2012) e estará lançando, o próximo dia 28 de maio, na Palavraria, Um elefante em Albany Street (HCE, 2013). Publica também na página: www.tellesdasilva.com

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