29
maio
13

A crônica de Guto Piccinini: Contornos

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Contornos, por Guto Piccinini

Chegamos ao setor indicado perto da metade da manhã. O sol, tórrido, flertava com o bom humor companheiro da jornada, e a comicidade de nossa caminhada nos oferecia amparo às expectativas de qualquer encontro. Pensando agora, era do encontro que se tratava. Nossa tarefa seria, de certo modo, bastante simples: entrar, balbuciar palavras, “oi, tudo bem?”, e de resto aquilo que todos, normalmente, sabem: “Temos um nome, peso e altura. Pendemos como sacola rasa e, de vida curta, seguimos, como pau para toda obra!”. Em suma, notem que de longe o conteúdo importa. Chegamos e logo deparei, com estes olhos de bravata que a terra ainda há de comer como porco em melancia (e deixemos espaço para esta bela imagem), o ser que aqui nos serve de musa inspiradora. Despertei uma disposição imaginária de imediato. As palavras estão aí para dar algum contorno ao mundo das coisas e, nesta historieta, é exatamente do contorno que se trata. Mas não se enganem: nada daqui se compara do que fora possível ao momento. Faço um esforço e, guardadas todas as prevenções diante do abismo, sigamos a trilha.

Vejam que é na baixa expectativa que o mundo se apresenta. Atento aos movimentos, os ouvidos em riste e a busca por uma abertura transcendental ao instante, entramos porta adentro neste saliente pouco caso. Afinal, se há algo que nos acompanha é um certo senso de estratégia. Puro low profile. Logo de cara sentimos o duro golpe: nossas pretensões são duramente desmascaradas. Como tirar doce de criança. Tão certo quanto a morte. Menos pela expressão, e mais em função da imagem. Neste misto de surpresa e gozo, estava eu diante deste ser, mal fadado ao momento, que do topo de sua existência nos encara e sorri. Por detrás do vidro, sorri. Mas não somente aquela expressão irônica que nos surge do canto da boca e nos explode elegantemente. Não. Ela sorria com a boca, com os olhos, com o nariz e com tudo o mais que nos oferece aquele rosto. Sorria o sorriso dos justos: riso de gozo que, em alto e bom som, denuncia nossa presença como a escória do mundo. Sem reação, sentia meu corpo lambuzado deste acidente. Com chave de ouro, foi nesta paralisia tão instantânea como passageira, que percebia em meio a toda cena pedaços de amendoim que dançavam em ritmo escaldante por entre seus dentes de galhofa (e eis que, então, retomamos a licença poética reservada as melancias).

Vislumbrei aí minha salvação. Desvencilhei-me destes lábios escusos e penetrantes, e ao dar um passo à frente, descolo um “tudo bem?”. Perdi no caminho minha saudação inicial, na antecipação catártica de nossa protagonista. Vi uma brecha para rir da cena. Internamente me desmanchava. “Não está morto quem peleia!”, agora penso. Nada como uma expressão bem utilizada. Esta é a grande força da ironia: o encaixe do estranho, do grotesco. É como um saco de urina venenosa ou uma bomba de fezes explosivas: inofensivas, mas dão o que falar! E foi neste clima envolvente que a vi sentir uma áurea mal cheirosa. Foi com um aceno de cabeça que minha (alienada) inimiga retrucou meu gracejo, enquanto nos dirigia a uma outra sala, de onde todos conversaríamos com mais aconchego. Naquele momento sabia que os riscos já eram demasiados. A intensidade da cena me tomou em hipnose. Deixei a palavra aos colegas, e num silêncio autofágico, passei a observar os contornos deste esdrúxulo ser que ali nos oportunizava presença. Dos pés à cabeça, devorei aquela imagem, e dei graças por não ser pego em flagrante.

A sinuosidade de seu corpo compunha um característico destaque com as calças estilo legging, pressionando à altura dos joelhos e possibilitando certa rigidez a este setor responsável pela locomoção diária. Criei uma teoria ligeira, entretido na dobra de suas pernas, de que a pequena dificuldade em seus passos seria função da pressão produzida pela tal peça de roupa. Pura especulação. Já por outro lado, da área central do corpo e somando-se as coxas, jazia um imenso pullover verde escuro, com detalhes em relevo, compondo maciez com a dureza provável de sua constituição corpórea. As mangas, elevadas até o cotovelo, deixavam expostas os pelos loiros do braço, uma porção destas fitinhas clássicas estilo Senhor do Bonfim, bem como um discreto relógio dourado. Suas unhas, com o esmalte já corroído pelo tempo, acompanhavam de mau grado os dedos que, felizes, seguiam as mãos nos gestos e gesticulações do falatório.

Mais acima, retornamos ao palco da abertura deste enrosco: o rosto, a máscara, a persona. Janela da alma. Às vezes parece que tudo passa pelo rosto e seu conjunto de características peculiares. No nosso caso, testemunhávamos um grande pescoço, espesso e corajoso. Diante de sua tarefa, permanecia impávido. As orelhas, um pouco flácidas, distendiam delicadamente pela ação dos brincos que dali pendiam. As bochechas, róseas como duas maçãs, eram cobertas por uma fina manta de fios louros, mas que de longe chegavam a constituir feições masculinas. Era um rosto feminino, em sua estranheza, mas essencialmente feminino. Lembro de uma fala de Saramago, fantasiando a hipótese de que nossos olhos fossem tão eficientes quanto os de uma águia, e que assim veríamos tantos detalhes do corpo humano, a ponto sermos todos de uma estranheza grotesca, visíveis nossas inúmeras imperfeições, crateras e escoriações. Tudo tão demasiadamente à mostra.

Talvez seus olhos tivessem assim esta eficiência ótica. Como duas grandes bolotas regidas por um eixo central, ela nos direcionava o foco de sua vista. Foi no auge deste olhar de tom cerúleo, que vislumbrei uma beleza indescritível. Eram lindos com o céu. Por muito pouco me arrependi de estar ali, centrado tão oniricamente na geografia da cena, vislumbrando a futura escrita, e em meio à reunião em decurso. Por pouco. Mas então reencontrei, em meio às palavras intermináveis, o amendoim eterno, a ruminar no princípio do sistema digestivo. Multiplicação dos amendoins. Na presença de um milagre, e segui adiante.

Estava eu no topo. Cravei uma bandeira naqueles cabelos de cor indefinida e subdivididos em duas porções. Era como se fossem dois cabelos numa cabeça só. Na retaguarda, o ondulado dos fios desmascaravam um corte ultrapassado, mas ainda guardando altivez e compostura. Para minha surpresa, na parte da frente havia uma outra porção de cabelos, tal qual aqueles chapéus utilizados no casamento da família real inglesa, a despeito de sua independência democrática. Tudo tão tanto, ali, entre a porção medial do couro cabeludo, e  a formação de uma franja que nos encara, solene e matreira. Foi o que pude. Quando vi, todo este corpo me envolvia num abraço aconchegante, num tom de amêndoas e de um perfume ocre que fingiam discutir com minhas glândulas olfativas a melhor forma de negociar o instante. Fechei os olhos, e tão logo iniciei a imaginar toda a historieta,estava eu sentado, novamente em meu caminho.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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