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maio
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A crônica de Gustavo Lagranha: O Tempo e O Perseguidor

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O Tempo e O Perseguidor*, por Gustavo Lagranha

Há algo de errado com o tempo. Os dias voam, como se durassem uma piscada. Tal reclamação não é exclusividade minha; pensei que fosse em virtude de meu atarefamento que surgia essa impressão. Contudo ao questionar desde senhores aposentados a jovens e adultos desocupados, vem sempre um: nossa, já e metade do ano e parece que o réveillon foi ontem.

Deixarei de lado as especulações astrofísicas e astrológicas, ou místicas, como se prefira. Há toda a sorte de teoria nesses campos. Enveredo pelo caminho que me atrai: a literatura, a escritura, a palavra no papel ou na tela.

Em suma, o tempo literário é uma narração (mythós), uma ficção de tempo engendrada paralelamente ao decurso real – esse fluxo pretensamente constante e ininterrupto. Ilustrando o que afirmo, recordo a frase de Johnny Carter em O Perseguidor de Cortázar, a respeito de um fabuloso solo de sax alto interrompido abruptamente: “eu já toquei isso amanhã.” Há, neste conto longo do argentino que muito admiro, diversas construções do alter ego de Charlie Parker a respeito do tempo. Elucubrações que soam despropositadas, decorrentes do uso que o personagem faz de maconha, mas que, lidas hoje à luz de nosso cotidiano maluco, possuem uma assombrosa contundência. Mais adiante no texto Johnny diz: “(…) quando comecei a tocar, ainda menino, entendi que o tempo mudava.” E pouco além prossegue: “essa questão do tempo é complicada, vive me pegando de tudo que é jeito. Aos poucos eu começo a reparar que o tempo não é como uma sacola que a gente vai enchendo. Quero dizer que mesmo que a gente mude o que vai colocando na sacola, só cabe uma determinada quantidade, e pronto. Está vendo minha mala, Bruno? Cabem dois ternos e dois pares de sapatos. Bem, agora imagine que você esvazia a minha mala e depois vai pôr de novo os dois ternos e os dois pares de sapatos e de repente vê que só cabem um terno e um par de sapatos. Mas o melhor não é isso. O melhor é quando você percebe que pode botar uma loja inteira na mala, centenas e centenas de ternos, como eu às vezes ponho a música no tempo quando estou tocando.”

A brilhante criação de Cortázar traz à nossa falta de tempo uma lição, que converge justamente ao ponto de vista que desejo revelar: o momento, através da arte – literária ou não – pode se alargar, ou paralisar, ou até correr mais rápido. Ler a Odisséia é e sempre será voltar ao tempo – entenda-se essa volta aqui não como simples figura de linguagem – dos gregos; Ler Walden de Thoreau é não só visitar os bosques norteamericanos em meados do século XIX, mas também, de mãos dadas com o autor, passear novamente pelo tempo dos gregos.

São exemplos, somente, que ilustram e convidam. A arte e a literatura – e aqui acho uma referência para a qualidade na arte – genuína, original, relevante, possui sempre essa capacidade de liquidar o tempo – de o prostrar, derrotado, à condição de coadjuvante. Então talvez não haja algo errado com o tempo; talvez nosso excesso de referências nos ponha cada vez mais angustiados diante da volatilidade do que se produz, dando um xeque naquele velho sonho humano de se tornar eterno.

Escutando mais um pouco Johnny Carter: “você percebe o que poderia acontecer num minuto e meio… Então um homem, e não só eu mas também essa aí e você e todos os rapazes, poderiam viver centenas de anos, se a gente encontrasse a maneira poderíamos viver mil vezes mais do que estamos vivendo por culpa dos relógios, por causa dessa mania de minutos e de depois de amanhã…”

*Excertos de O Perseguidor extraídos de As Armas Secretas, de Júlio Cortázar, tradução de Eric Nepomuceno – 4ª Edição, Editora José Olympio, 2006

gustavo lagranhaGustavo Lagranha é bancário e estudante de Direito. Mora em Vacaria, cidade dos campos de cima da serra onde nasceu, longe dos estertores da capital. Morou em POA por cinco anos, onde virou fã, frequentador e amigo da Palavraria, tendo publicado nessa época contos nas antologias 103 que Contam e Novos Contos Imperdíveis, ambas organizadas por Charles Kiefer.

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2 Responses to “A crônica de Gustavo Lagranha: O Tempo e O Perseguidor”


  1. 1 Maria Lagranha
    3 de junho de 2013 às 03:34

    Gustavo…continue nos presenteando com tuas otimas reflexoes….super beijo


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