06
jun
13

A crônica de Claudia Coelho: Pragmatismo feminino

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Pragmatismo feminino, por Claudia Coelho

05 pragmatismo

Dias desses escutei um relato de uma senhora que “pediu as contas” ao companheiro de tantas décadas e partiu para uma vida de solteira aos 62 anos de idade.

Segundo ela, antes melhor se separar, a continuar coabitando um espaço solitário com o seu marido acomodado. E não pensem que ele ficou lépido e faceiro. Ele recolheu o time de campo prague­jando. Como disse ela: “Para ele estava cômodo daquele jeito…”.

É sabido que os homens adoram atualizar o seu modelo de mu­lher, tal qual fazem com o modelo do carro. Então nunca foi surpresa homens se divorciarem aos 60 anos de idade.

Entretanto, o que realmente é novidade para mim, é saber que as mulheres estão optando pelo divórcio, inclusive em faixas etárias nas quais normalmente a solidão pode assombrar mais.

“Antes só do que mal acompanhada” era a frase que eu escu­tava; é a frase com a qual cresci escutando da boca das mulheres da minha família. Inclusive da minha avó que completa este mês 80 anos, mas separada desde os 60.

Vejam vocês, eu muito impressionada com o relato da senhora desconhecida, e minha avó pra lá de moderninha há 20 anos.

Todavia, o que soa incoerente para mim é pensar que a mulher leva a fama de ser romântica e sonhadora, quando, em geral, é ela quem resolve desmanchar o Castelinho do Casamento.

Aliás, depois de tanto escutar histórias de casamentos desfeitos ou mantidos, comecei a ficar intrigada com esses conceitos adquiri­dos no decorrer da vida a dois e resolvi inverter a lógica: seriam os homens tão ou mais conservadores e idealizadores no casamento do que as mulheres? Pensando bem, esse conservadorismo ao qual me refiro também poderia ser uma boa e velha desculpa para se manter uma esposa infeliz em casa e uma amante apaixonada lá fora. Para que se separar, se está tudo tão ajeitadinho? Parece que os homens se agarram tanto à instituição do casamento quanto as mulheres, pagando o pior dos preços: a incompletude e a infelici­dade.

Existem homens que acham melhor permanecer casado. Assim, financeiramente, seria menos dispendioso e ficariam livres de mais uma despesa: a pensão alimentícia. Juro por Deus que já escutei isso inúmeras vezes!

A diferença entre eles e elas é que as mulheres não estão dei­xando esquentar o banco e estão dando preferência ao descarte dos homens, sem direito à troca, a um novo amor, a uma nova chance, a um corpo masculino e jovem. Elas parecem estar pondo-os de lado simplesmente pelo direito e dever de não viverem infelizes.

Já alguns homens parecem montar um castelo baseado naquilo que é correto aos olhos da sociedade, da família e do que os amigos esperam deles.

No entanto, para homens e mulheres, o casamento pode ser idealizado da mesma forma, a diferença está na solução. O homem nega e se paralisa; a mulher nega e se debate, não aguenta o confli­to. Alguns homens preferem se fechar em copas e também em copos e em corpos alheios. Ninguém está dizendo aqui que as mulheres não estão fazendo o mesmo. Mas parece que habitualmente o final da história é sempre o mesmo, um dia ela olha para ele e diz: “Acorda!”.

Outro dia, li que antigamente era comum, na Europa, alguns homens matarem as suas esposas após terem recebido o dote do casamento. Vejam vocês, os moçoilos não queriam nem saber da pobrezinha e se a sua candidata escolhida valia ou não a pena. Po­rém, naquela mesma época, as mulheres, sabendo do risco de morte, antecipavam-se e matavam os maridinhos para ficarem com o seu próprio dote. Pobres desavisados!

Meus caros, isso prova que as mulheres já eram romanticamente racionais naquele tempo. Tal questão não é de agora e nem da época da minha avó. O pragmatismo feminino tem levado algumas mulhe­res a optar por “matar o seu sonho”, mesmo que seja tarde e mesmo que nunca o realizem.

 

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claudia coelhoCláudia Coelho nasceu em Porto Alegre, é formada em Psicologia desde 1993 pela PUCRS. É  Psicóloga Clínica e Consultora em Gestão de Pessoas. Especialista em Psicologia do Trânsito e  Projetos Sociais e Culturais.  Atua em  avaliações psicológicas comocredenciada  do DETRAN/RS e  Polícia Federal. Sem dúvida, a característica polivalente da autora propiciaram-lhe vivências enriquecedoras e multifacetadas. Em 2008  começou a escrever suas primeiras crônicas em seu blog (http://psiclaudiacoelho.blogspot.com.br/).  É aluna de  Desenho e Pintura  do Atelier Livre  da Prefeitura de Porto alegre,  onde desenvolve trabalhos que dialogam com suas crônicas. As crônicas aqui publicadas estão em Lógicas Invertidas – crônicas / Cláudia Coelho. ( Evangraf, 2012)

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