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jun
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A crônica de Emir Ross: Ditadura do Faustão

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Ditadura do Faustão, por Emir Ross

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danca-dos-famosos-2013-el.

Cada vez que se fala do surgimento de um futebolista, taxa-se: jamais chegará aos mil gols de Pelé.

Eu não entendo porque os mil gols são tão importantes. Conheço boleiro que já fez mais de cinco mil gols. É só ir para essas canchas de futebol aos finais de semana e perguntar que se encontra aos montes. Mas, então, se tanta gente faz tantos gols, porque os importantes são os de Pelé?

O que importa na verdade, em qualquer que seja o assunto, não é o que acontece, mas o que está ao alcance de um conhecimento limitado de pessoas.

Bem sabido isto, é deprimente nos dias correntes ser um desconhecido que já fez mais de cinco mil gols.

Trocando em miúdos, é fácil deprimir-se ainda mais se começarmos a falar em música, literatura e outras artes onde a maioria do que é bom não chega ao alcance do público.

Estamos vivendo a ditadura cultural do Domingão do Faustão.

Quando um indivíduo entrega-se a ela, seus ouvidos e cérebros não conseguem mais se locomover. Na sofreguidão caquética dessa ditadura, deixa-se de gostar de música, de literatura ou de cinema. Tem gente que não vai assistir a determinado filme apenas por ‘não gostar de cinema nacional’. Nestes termos as discussões da semana não giram em torno dessa ou daquela obra e sim sobre quem apareceu no Faustão e que roupa vestia.

Um mês depois do aparecimento, ninguém lembra da grande obra do artista de um domingo que vendeu horrores na segunda e, do nada, deixou de existir.

Ganha a naba que apareceu na telinha, ganha o plim-plim, ganha o selo que o patrocina. Sabe quem perde?

Em poucas linhas, perguntarão o que Pelé tem a ver com isso. Respondo que, se Pelé fizesse dez mil gols ali no campo da Redenção, ninguém saberia que ele teria existido, apesar do estupendo recorde de gols.

Conheço algumas bandas de Porto Alegre que podem ser comparadas tranquilamente ao The Who, ao Jethro Tull ou ao Belle & Sebastian pela qualidade do seu trabalho. Mas, por fazerem seus gols no campo da Redenção, Deus e o Diabo, Bilirrubina, Irmãos Rocha e Input Output deixaram de existir após um ou dois álbuns. Depois surgem outras marcando inúmeros gols: Apanhador Só, Procura-se Quem Fez Isso. Não vou me estender falando de escritores, cineastas, artistas plásticos que sequer conheço e certamente teriam um trabalho para se aproveitar exaustivamente. Mas o que fazer, eles não chegam ao Domingão do Faustão e não usam chapinha. Melhor parar por aqui e aproveitar os shows dos referidos enquanto existem.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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1 Response to “A crônica de Emir Ross: Ditadura do Faustão”


  1. 1 Carlos Grassioli
    9 de junho de 2013 às 21:41

    O que acontece na Redenção, no boteco da esquina, nos livros, no cinema, nos palcos da vida, ou até mesmo em alguma garagem… NA RUA!!! Nada disso importa, Emir, e chega ser insuportável para as pessoas ( e que são tantas) que apostam na ignorância satisfeita. Quando esse assunto me deprime, encontro consolo em me saber , não do outro lado, mas do lado de fora. Na rua! … ou mergulhando numa boa leitura, por exemplo, das CRÕNICAS LÍRICAS E EXISTENCIAIS, DE Paulo Mendes Campos, em “ O AMOR ACABA”.


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