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A crônica de Guto Piccinini: Um último suspiro

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Um último suspiro, por Guto Piccinini

 

Nos deparamos com estes casos um tanto óbvios, mas não trago o assunto à tona por puro maneirismo. A morte é uma notícia que nunca será bem vinda. Nada mais justo do que redobrarmos a atenção, pois a história que aqui relato nos permite deslizar um tanto por essa verdade tão primordial quanto estúpida. A morte é um destes fenômenos imperativos, o que por vezes desmerece a palavra. Mas já que mesmo o óbvio, por vezes, tenha de ser dito, vemos o quanto a morte e suas ruínas carregam mesmo é a necessidade de palavra. Àquele corpo imóvel na cama, a morte surgia como algo natural. O termo, mesmo recheado de imagens de tons raros à vista crua, tocava de um modo muito particular. Desde o encontro com a mal-fadada notícia, foi possível perceber um estranho movimento de complacência invisível. “O senhor fez tudo o que podia”, disse, e eu pude testemunhar a sentença proferida num misto de sorriso apático e agressão explícita. Não havia nada a ser feito.

Para além do corpo, estava deitado ali um verdadeiro estorvo à onisciência da produção cientifica contemporânea. Reza a lenda que após a morte somos todos iguais, sejamos reis ou escravos, a desfalecer gradualmente abaixo da terra. Digo que a diferença está em como todo este processo ocorre. Não estamos diante de um rei, mas de alguém que, se não goza da realeza, ao menos conta com alguma condição financeira suficiente, ao menos, para sustentar o cuidado e a curiosidade profissionais envolvidos. E não poderíamos condená-los por falta de intenção. Com os olhos voltados à extravagante experiência, passaram a dissecar os detalhes, as correntes, os tecidos. Do corpo rastreado sobraram dúvidas, uma grande lacuna no lugar de um diagnóstico definitivo e uma pequena formação inadequada no joelho esquerdo nunca antes percebida. As esperanças esvaíam-se a cada conversa e aqueles olhos já cansados acompanhavam no ponteiro do relógio o inevitável destino seguir seu curso. Mais do que ninguém sentia esse pesado caminho.

Foi nesta mesma tranquilidade que ouvimos seu primeiro urro, durante a madrugada. Até hoje são poucos os que acreditam neste relato que lhes compartilho. Confesso que me pergunto por vezes se de fato essa história pertenceu a vida vivida. Quando chegamos ao quarto encontramos a própria exaustão do instante. Não compreendemos o que se passara em nossa ausência, e provavelmente resistimos permitir compreender este primeiro momento de choque. Parados entre a porta e o corpo ainda agitado, víamos o fígado do pobre homem que lhe saltara do corpo.

Assim como dantes, não foi possível a ninguém solucionar o mistério. Estavam todos aturdidos pelo ocorrido, pelo ineditismo e improbabilidade grotesca. Como que em fuga desesperada, o dito órgão saltara com uma força suficiente para lhe rasgar a pele e as roupas. Foi difícil encontrar o seu paradeiro. Diante da incomensurável dor e espanto, o grito que nos chegou fora de um som seco e curto. Restara um pouco menos que um fio de vida que se agarrava insistentemente aquele corpo. Rapidamente foram feitos os procedimentos necessários, mas pela tristeza que assolava a todos, não havia muito a ser feito. Destino traçado, permanecia nossa surpresa com a força que ali resistia. E com mesma surpresa víamos esta força surrupiada. Um dia após o ocorrido, era um dos rins que de um só pulo explodia corpo afora. No outro dia, fora o terceiro órgão a reivindicar sua liberdade. Era como se rebelassem do próprio corpo! Como um exército que bate em retirada, tendo em vista a derrota eminente. Dia após dia, vimos um corpo esvaziar seu poder de resistência, um corpo a viver cada parte sua destituída, sucessivamente. Antes do golpe derradeiro, pudemos ver um misto de tristeza e felicidade nos percorrer a todos. Insistente, até que de seu longo e último suspiro, restara somente um corpo vazio.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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