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A crônica de Jeferson Tenório: Um mergulho na perda sem choro e nem vela

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Um mergulho na perda sem choro e nem vela: Apontamentos numa noite insone sobre o livro “A condição Indestrutível de ter sido”, de Helena Terra, por Jeferson Tenório

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a condição indestrutível

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Semana passada estive na Livraria Palavraria para assistir um evento sobre o “Tempo e Vento”, do Érico. Na saída vi que o livro “A condição indestrutível de ter sido”, de Helena Terra, estava para venda. Comprei. Minha intenção era lê-lo ao logo da semana. Cheguei em casa, jantei e fui dormir relativamente cedo.  A 1h da manhã perdi o sono. Acendi a luz do abajur. Olhei a pilha de livros na cabeceira. O livro da Helena sem mais nem menos furou fila de leitura. Passou na frente dos 14 livros que eu tinha de desbravar. Abri-o e comecei a ler. Li numa tocada só. Entrei na história madrugada adentro, ignorando que teria de estar de pé às 5h 30, para dar aula. Eram 4h da manhã quando terminei a leitura.

E a primeira coisa que posso dizer é que fui atingindo. Atingindo porque trata-se não apenas de uma história, mas de um mergulho na dor da perda afetiva. A interdição do pranto que a narradora anuncia já nas primeiras páginas “Cedo, condicionaram-me a não chorar” me empurrou para o meio do livro. Pois eu precisava saber aonde isso ia me levar. Mais adiante, a narradora diz que “Piazzolas” nos salvam, levantei as duas da manhã, peguei um vinil e coloquei “Oblivion”, queria ser salvo também.

O livro de Helena é o afeto visto com honestidade, mesmo que ele fira. É uma história sobre o processo doloroso e delicado da aceitação do deserto, do vazio e da ausência. A madrugada avançava ao mesmo tempo em que e o texto me incomodava. No interior das palavras iam surgindo as ruínas dos afetos e os detalhes ocultos do fim de um relacionamento que cada um de nós carrega calado. Até me deparar, talvez, com a frase mais inquietante do livro: saber que “as tarefas do afeto são penosas e impossíveis de delegar”, porque ninguém poderá doer por nós. O livro mostra que estamos todos no mesmo barco da condição humana: o eterno desamparo, aquele incomodo sentimento da falta. E buscamos no amor o regresso do aconchego, a ilusão de que não estamos sós.

Há no livro os elementos dos relacionamentos pós-modernos mediados pela tecnologia da internet, blogs, emails, instrumentos em que as relações vão se dando ao longo da narrativa, revelando, que por vezes, um click no mouse ou a espera de um email que não vem, pode nos derrubar o dia. Estamos longe das antigas trocas de cartas, dos telegramas e dos telefonemas em cabines telefônicas num dia chuvoso. Temos, agora, a frieza da tela branca do computador. Lugar onde os sentimentos parecem caminhar na mesma velocidade dos gigas e megas. Mas o tempo do coração é outro. E é disso que o livro de Helena nos lembra. Porque as tecnologias podem ser diferentes de cem anos atrás, mas as dores serão sempre as mesmas.

Por fim, se no livro não há choro, também não há vela, pois não se trata de uma história em que o amor já morreu e foi enterrado, mas é a fotografia de um amor agonizante. Aquele que ainda está morrendo, aos poucos. Não é o tempo do luto. A linguagem para expressar este momento tão específico se mostra rigorosa e bem lapidada, percebe-se um rigor quanto as escolhas das imagens e metáforas, já que se poderia correr o risco de cair num melodrama: “A fruta cai sozinha, mas o vento faz sua parte. A vontade humana é o vento e testa virtudes, paciências e fomes. A vontade humana deveria ser dissecada para comprovar se estamos verdes ou prontos para nos submetermos a ela.”

Após a leitura, fui dormir. Eram 4h30. Uma hora depois tive de levantar. Fui dar aula enquanto o texto ressoava ainda em minha cabeça. Passei o dia parecendo estar de ressaca, e pensando como Nietzsche que apesar de tudo, o amor ainda é a nossa última trincheira, nossa ultima chance para não cairmos no abismo de olhos fechados. Num abismo se cai de olhos abertos, numa experiência vertiginosa “Via a vertigem de uma queda se aproximando, do meu corpo tombando na palidez do chão”. Mas não há chão. O que quero dizer é que não há abrigo no texto de Helena. E a boa literatura é isso mesmo; desabriga, descentra e incomoda.

 

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Jeferson Tenório 01Jeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS. É um dos idealizadores e apresentadores do Sarau das 6, evento de leituras e comentários sobre literatura apresentado mensalmente na Palavraria.

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Palavraria - livros a

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2 Responses to “A crônica de Jeferson Tenório: Um mergulho na perda sem choro e nem vela”


  1. 26 de junho de 2013 às 09:24

    Depois desse apaixonado relato,
    reservo-me ao direito de sonhos
    e ansiedade de ler o romance.

    forte abraço, Jeferson;
    beijo carinhoso, Lelena.

  2. 2 Helena Terra
    14 de junho de 2013 às 21:47

    Adorei 🙂


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