23
jun
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A crônica de Emir Ross: Turistas Japoneses no País do Carnaval

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Turistas Japoneses no País do Carnaval, por Emir Ross

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SONY DSC.

Sempre que posso, observo os turistas japoneses. Praticamente os sigo. Eles são a espécie mais engraçada que os japoneses inventaram.

Quando eu era criança, e lá se vai muito tempo, queria ser japonês. Mas não turista. Talvez porque os japoneses não param de inventar coisas. E os turistas japoneses vêem o mundo através de uma Sony. Por isso eu queria ter cabelos negros e lisos; olhos esticados; e usar quimono. E, claro, quebrar tábuas com golpes de caratê.

Os golpes de caratê são a forma mais perfeita do autoconhecimento, que, devido a minha intimidade comigo mesmo, prefiro chamar de auto-conhecimento. Dá-se um golpe e pronto. Acabou o lero-lero.

Ando pensando em sugerir um projeto de lei para meus queridos amigos deputados:

Faixa preta em caratê ser pré-requisito para candidaturas à Assembléia e aos diplomas de engenharia.

Afinal, o que tem-se visto de obras públicas in-acabadas, mal-acabadas ou in-operantes daria para se encher um dojô do tamanho do Japão.

Viadutos e estradas são os campeões.

Quando os políticos não sabem para onde direcionar certas verbas, decidem construir um viaduto. O objetivo não interessa. O que vale é fincar placa, tirar foto e preparar discurso. Político tira mais foto ao lado de placa que patricinha ao lado de ator global. A inauguração de obras é o facebook do mandato. É tanto golpe sem direção que o seu Miyagi mandaria esses cidadãos lava-carro, pinta-parede, lixa-chão por meses a fio.

Eu, como leigo cidadão, escritor sem leitores, que nada entende de engenharia ou cálculos, posso enganar-me facilmente. Mais, inclusive, que falar bobagem.

Mas tenho plena convicção que não é necessário construir um viaduto para ligar o nada ao lugar nenhum.

Assim como tenho a santa compreensão de que as coisas mudam e não podemos construir uma rodovia cujo projeto foi elaborado há quinze anos, depois levou uma eternidade para ser aprovado e acaba obsoleto antes mesmo de entregue à população.

Outro ensinamento do Sr Miyagi: antecipe-se aos golpes.

Mas nossos queridos apenas armam a defesa quando já foram atingidos e o estrago está feito.

Tenho a impressão de que os turistas japoneses não entendem muito de caratê. Mas há algo em seu DNA. Eles estão sempre preparados com as câmeras a postos. Principalmente quando visitam o Brasil:

registram as favelas, obras-primas da arquitetura.

os mendigos, fazendo estupendos monólogos com suas roupas características.

Somos um país com atrativos sem igual. Mas eles registram, principalmente, grandes obras de arte feitas a base de ferro e cimento, espalhadas pelo país. Algumas são cortadas ao meio. Outras, parecem estradas para o céu. Ao final de tudo, talhados à Hollywood, esses turistas japoneses vão para suas casas. Assistem com os amigos e tentam desvendar o que os sensíveis artistas queriam expressar com estas intrigantes instalações espalhadas pelo País do Carnaval.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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