Arquivo para 10 de julho de 2013

10
jul
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A crônica de Luiz-Olyntho Telles da Silva: O rapto de Lucrécia

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O rapto de Lucrécia, por Luiz-Olyntho Telles da Silva

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Ticiano Sesto Tarquínio e Lucrécia
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Lucrécia tinha trinta e seis anos quando procurou ajuda, e isso só depois de muita insistência de seu marido. Minha colega a descrevia como uma pessoa desbotada. Deveria ter tido seus dias, mas agora, tão descuidada, pálida, mais parecia um fantasma! Três anos atrás fora atacada sexualmente por um primo de seu marido, um homem que na verdade nunca tinha visto na vida a não ser em uma fotografia na qual aparecia, junto com seu esposo, em uma caçada de marrecos. Seu nome costumava vir à tona quando o assunto fosse caça. E nada mais! Até que um dia, sem ser esperado, justamente quando o marido estava de viagem, aparece o primo com armas e bagagens; enganara-se em uma semana da data de uma nova expedição e terminou ficando para passar a noite. Jantaram, seus dois filhos estavam encantados com as histórias contadas pelo primo, e depois se recolheram todos.

Enquanto minha colega começava a contar os detalhes de como o primo se aproveitara do sono da casa para invadir o quarto de Lucrécia, outras lembranças começaram a invadir minha mente. Esboçaram-se na forma de uma pintura de Ticiano, representando Sesto Tarquínio e Lucrécia, no momento em que ele, armado de adaga, a obriga a entregar-se a ele. Entremearam-se às lembraças as primeiras linhas de um poema de Shakespeare a ela dedicadas:

From the besieged Ardea all in post,
Borne by the trustless wings of false desire,
Lust-breathed Tarquin leaves the Roman host,
And to Collatium bears the lightless fire
Which, in pale embers hid, lurks to aspire
And girdle with embracing flames the waist
Of Collatine’s fair love, Lucrece the chaste.

Era a história de outra Lucrécia, descrita por Tito Lívio, um poeta romano que viveu nos dias do nascimento de Cristo. Quando nos relata a história da constituição da república romana e fala do último rei, Tarquínio, o Soberbo, Tito Lívio conta-nos que o mesmo tinha um filho absolutamente desagradável, justamente esse Sesto Tarquínio de Ticiano. O episódio envolvendo Lucrécia deu-se no sexto século a.C., durante o assédio a cidade de Ardea, um porto fortificado no litoral do Lácio, quando os filhos do rei, junto com outros nobres, para matar o tempo, divertiam-se voltando a Roma, às escondidas, para espiar suas próprias mulheres.

Entre os nobres traquinas, Lúcio Tarquínio Collatino – que depois, junto com Bruto foram os primeiros Cônsules da República –, sabia que nenhuma mulher seria mais calma, trabalhadora e fiel que a sua Lucrécia. E foi com essa convicção que levou os amigos, entre eles seu primo Sesto Tarquínio, no meio da noite, para espiá-la! Como constataram, lá estava Lucrécia pacatamente tecendo suas lãs, junto de suas criadas, enquanto as noras do rei se divertiam em um orgíaco banquete.

Mas isso de espiar as mulheres nunca deu certo! Heródoto já havia nos contado alguns desastres resultantes do voyeurismo. O jovem Werther não se apaixonou por Lotte ao vê-la passar manteiga no pão? Pois Sesto Tarquínio, cunhado de Lucrécia, também ficou fascinado e preso ao desejo de possuí-la. Tanto que poucos dias depois, escondido do marido, retornou a casa deles, a Vila Collazia, com um só homem de escolta, e é recebido com grande hospitalidade. Mas depois do jantar, adormecida a casa – tal como na história que eu agora escutava -, ele se introduziu nos aposentos de Lucrécia que, acordada de sobressalto, viu-se agredida por um homem armado de uma grande adaga. Ela ainda tentou rechaçá-lo, mas Sesto, muito mais forte, a ameaçou: se ela não consentisse em satisfazer seus desejos, ele a mataria e ao seu lado poria o corpo mutilado de um escravo, sustentando depois tê-la flagrado em flagrante adultério.

Chegada a este ponto, antes que deixar enxovalhar eternamente seu nome, Lucrécia foi constrangida a ceder aos desejos do filho do rei de Roma. Mas assim que Sesto partiu, ela enviou um mensageiro à Roma, para seu pai, e outro à Ardea, para o marido, suplicando viessem correndo junto com um amigo de confiança porque uma grande infelicidade havia acontecido.

Quando chegam os parentes, suas lágrimas até então contidas explodiram! E quando o marido lhe pergunta se está tudo bem, Lucrécia lhe responde: – E como poderia andar tudo bem para uma mulher que perdeu sua honra? Na tua cama, meu amado Collatino, estão as marcas de outro homem. Mas quero te dizer que só meu corpo foi violado, o meu coração permanece puro e eu o provarei com minha morte. Jura-me que o adultero não ficará impune. Foi Sesto Tarquínio! Foi ele que ontem à noite veio aqui e, retribuindo hostilidade em troca da hospitalidade, armado com a força, abusou de mim. Se forem homens de verdade, fazei com que esse relato não seja fatal apenas para mim, mas também para ele.

Um depois do outro, todos juraram, procurando consolá-la como este argumento: antes de tudo, a culpa recai sobre o autor dessa ação abominável e não sobre ela que tinha sido a vítima, e depois, não é o corpo que peca, mas a mente e, logo, se falta a intenção, não se pode falar de culpa. E ela replica: – Vocês podem estabelecer quem a merece. Quanto a mim, mesmo que me absolva da culpa, não significa que não terei punição. E de hoje em diante, mais nenhuma mulher, após o exemplo de Lucrécia, viverá na desonra! Depois, agarrada ao punhal que trazia escondido sob o vestido, plantou-o no coração e, dobrando-se sobre a ferida, entre os gritos do marido e do pai, tombou exânime por terra, como corpo morto cai.

Assim que o marido de Lucrécia soube do episódio – continuava o relato de minha colega –, processou o primo que foi imediatamente preso e logo solto por falta de provas, aguardando ainda o julgamento em liberdade.

O marido da outra Lucrécia, junto com o pai e o amigo Lúcio Giunio Bruto expulsaram toda a família do rei, obrigando-os a refugiarem-se na Etrúria, atos que possibilitaram a criação da República Romana no ano de 509 a.C. Dante, vinte e um séculos depois, colocou-o no primeiro giro do sétimo círculo do inferno, junto com Pirro, o filho de Aquiles, e não o rei de Epiro.

E Lucrécia, essa de hoje, vinte e sete séculos depois, não se suicidou, mas, tão desbotada,  nunca mais foi a mesma! 

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Luiz-Olyntho Telles da SilvaLuiz-Olyntho Telles da Silva é psicanalista e escritor, membro fundador da Biblioteca Sigmund Freud, espaço de formação e interlocução psicanalítica. Convidado por diversas instituições psicanalíticas, já apresentou seus trabalhos, além de Porto Alegre, em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Vitória, Brasília, Salvador, Recife, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago, Barcelona, Canes, Ville de Grace, Paris e Nova Iorque. No Brasil, publicou Pagar com palavras ([Organizador] Movimento, 1984), Da miséria neurótica à infelicidade comum (Movimento, 1989 [1ª ed.] e 2009 [2ª ed. revista, corrigida e ampliada]), FREUD / LACAN: O desvelamento do sujeito (AGE, 1999), Leituras (AGE, 2004), e estreou na literatura com o livro de contos Incidentes em um ano bissexto (EDA, 2009). Publicou Ponto contraponto (HCE, 2012) e, mais recentemente, Um elefante em Albany Street (HCE, 2013). Publica também na página: www.tellesdasilva.com

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10
jul
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A crônica de Guto Piccinini: Fim de noite

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Fim de noite, por Guto Piccinini

O primeiro passo é sempre por necessidade. Digamos que essa é a justificativa. No meu caso faço principio com um mea culpa. Admito minha simpatia com a cena: a garrafa entornada num sorvo engolfante, as gotas de resplandecência a escorrer de dentro e fora da garganta. De fora a fora o gozo de alívio. Somos consumidos pelas imagens, pelo colorido da tela e pelos contornos da histórias. Sou consumido pela construção de personagens. Não são poucos os livros que nos deparamos com esta veneração a figura do herói maldito. Pincelado em honra e hombridade, emplastados pela bebedeira irresponsável e brados idílicos. Voamos baixo na intensidade dos caracteres redigidos e seus enquadres fantasmáticos. A insanidade navega por mares arredios. Suscito o romântico neste asco que circunda a experiência das histórias que se esparramam pela psicodelia como carros desgovernados. A franqueza com que exalam a textura de sua pele úmida e latejante, ritmada pelo arfar pesado. Nosso herói é uma caricatura perambulando no tênue fio que separa o gozo e a violência. Tenho minha queda por este enquadre sujo, grotesco. A cidade oferece o estímulo necessário a esta tonalidade. Como palco contém o amparo decadente e sedutor, em seus traços de concreto. Vejam: caminho pelas ruas cercado pela madrugada. Seguro duas garrafas com as mãos, balançando o corpo com um desdém inaudito. Vago pela projeção desta rostidade, pelo asco espalhado nas ruas escuras de asfalto molhado, impondo sua tônica fria. Vago com a sujeira encrustada das esquinas, semeando jornais lançados ao vento. No entorno, pessoas andarilham como zumbis em busca de qualquer coisa. Não são nada mais do que janelas preenchidas pela luminosidade esperançosa de que um dia algo há de semover em sua divina força centrípeta. Eis os contornos de uma cena. A inocência tem destas coisas.

Já passavam das seis horas da manhã quando atravessei a porta que separa o quarto da pequena sala de estar. Aquela visão matutina não impedia que os resquícios da noite anterior me fitassem a cara amassada: a luz do abajur ainda acesa, as garrafas espalhadas pelo chão, o cheiro insuportável de cigarro. Um cheiro azedo com mofo que me revira o estômago. De relance lembro a teoria forjada entre um cigarro e outro. Havia tecido alguma relação entre a frequência dos cigarros em minha boca e a possibilidade de medir o tempo. Encadeados um no outro a ideia fazia algum sentido. Naquele momento a lembrança apenas aumenta a sensação da cabeça latejando. Passo o olho para sala. Não contém mais do que oito metros quadrados. Despojados por cima do tapete vermelho, dois pequenos sofás e uma mesinha central compõe o enquadre. No canto direito, uma televisão antiga, saída diretamente dos anos 90. Provavelmente não serve mais do que a reprodução infinita de novelas e programas de auditório. Durante a noite tive a nítida impressão de ter visto pequenas porções de Bombril nas pontas da antena. A qualidade de imagem é fundamental para ver bem os beijos e os barracos do próximo capítulo. Isto me fez sentir um pingo de saudades da minha avó, mas isto não durara muito. Eu odeio a Regina Duarte. O relance de sua existência faz meus olhos se contorcerem. Olhei para trás e destaquei da penumbra meia bunda em cima da cama. Escapava serelepe para fora dos lençóis amarrotados e com brilho bagaceiro. Da janela semicerrada lançavam-se os primeiros bocejos matutinos em ritmo crescente. Este avançar maroto configurava uma iluminação gradativa àquela semi-bunda despretensiosa. Era bonito, ao seu modo, a ponto de me arrancar um semi-sorriso malicioso. Assim como veio, seguiu seu curso, solapado pela nova pontada que atravessa minha cabeça e me traz à memória as garrafas de qualquer líquido barato entornadas a passos largos rumo à vitória. Gloriosa função esta que seguiu saudosa no amargor do hálito recém surgido. Súbito desejo de eternidade. Por outro lado, a hora era de partida. Como dizem: o dia é o maior inimigo da noite. Furtivo, encaminhei os passos para a saída, antes que qualquer contorno da cena caísse com o raiar da manhã.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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10
jul
13

Vai rolar na Palavraria, neste sábado, 13, Sarau das 6 & Sessão de autógrafos com Aldyr Garcia Schlee

program sem .

13, sábado, 18h: Sarau das 6 – Edição O dia que Schlee veio a Porto Alegre, com Gabriela Silva, Jeferson Tenório e Lígia Sávio e a participação especial do escritor Aldyr Garcia Schlee. Após o sarau, sessão de autógrafos com o autor (edições ardotempo).

sarau das 6 - schlee

Estarão em foco – tanto no sarau como na sessão de autógrafos – as mais recentes edições deste importante autor gaúcho promovidas pela edições ardotempo: O dia em que o Papa foi a Melo (2013), Contos de futebol (2012), Contos de verdades (2011), Uma terra só (contos, 2011), o romance Dom Frutos (2010) e Os limites do impossível – Contos gardelianos (2009). Você está convidado para participar com suas leituras e seus comentários e também para conversar com Aldyr Garcia Schlee.

aldyr garcia schlee 1

Aldyr Garcia Schlee (Jaguarão, 22/11/1934) é escritor, jornalista, tradutor, desenhista e professor universitário. Doutor em Ciências Humanas, publicou vários livros de contos e participou de antologias, de contos e de ensaios. Alguns livros seus foram primeiramente publicados no Uruguai pela Ediciones de la Banda Oriental. Traduziu a importante obra Facundo, do escritor argentino Domingos Sarmiento, fez a edição crítica da obra do escritor pelotense João Simões Lopes Neto. Foi professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pelotas – UFPel, por mais de trinta anos, onde foi também pró-reitor de Extensão e Cultura. É torcedor do Brasil de Pelotas, clube que chegou a ser tema do conto “Empate”, publicado em “Contos de futebol”. Criou o uniforme verde e amarelo da seleção brasileira de futebol, mais conhecido como Camisa Canarinho. Recebeu duas vezes o prêmio da Bienal Nestlé de Literatura Brasileira e foi cinco vezes premiado com o Prêmio Açorianos. Aldyr Garcia Schlee, que atualmente vive em um sítio em Capão do Leão, município vizinho de Pelotas,  é convidado destaque da Jornada Literária de Passo Fundo, com sua obra original e singular como o mais destacado autor brasileiro de linguagem de fronteira. Aliás esse é o tema de suas palestras agendadas, a convite, em outubro na Université de Paris Sorbonne Nouvelle, Université de Rennes e Maison de l’Amerique Latine em Paris.

Os animadores do Sarau:

gabriela silva 02Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem.

Jeferson Tenório 01Jeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS.

Lígia SavioLígia Savio. Amante do poeta francês Rimbaud desde a adolescência, é professora de literatura, do município de Porto Alegre e doutora em Letras pela UFRGS. Participou de antologias independentes na década de 70 (Teia, Teia II e Paisagens) com a participação de Caio Fernando de Abreu e Wesley Coll. entre outros.

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10
jul
13

Vai rolar na Palavraria, nesta sexta, 12, Conversas afinadas na Palavraria, promoção do IEPP

program sem .

12, sexta, 18h: Conversas afinadas na Palavraria: O tempo e o vento, bate-papo com Altair Martins e Marta Leal. Promoção do Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia-IEPP.

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