10
jul
13

A crônica de Guto Piccinini: Fim de noite

.

.

Fim de noite, por Guto Piccinini

O primeiro passo é sempre por necessidade. Digamos que essa é a justificativa. No meu caso faço principio com um mea culpa. Admito minha simpatia com a cena: a garrafa entornada num sorvo engolfante, as gotas de resplandecência a escorrer de dentro e fora da garganta. De fora a fora o gozo de alívio. Somos consumidos pelas imagens, pelo colorido da tela e pelos contornos da histórias. Sou consumido pela construção de personagens. Não são poucos os livros que nos deparamos com esta veneração a figura do herói maldito. Pincelado em honra e hombridade, emplastados pela bebedeira irresponsável e brados idílicos. Voamos baixo na intensidade dos caracteres redigidos e seus enquadres fantasmáticos. A insanidade navega por mares arredios. Suscito o romântico neste asco que circunda a experiência das histórias que se esparramam pela psicodelia como carros desgovernados. A franqueza com que exalam a textura de sua pele úmida e latejante, ritmada pelo arfar pesado. Nosso herói é uma caricatura perambulando no tênue fio que separa o gozo e a violência. Tenho minha queda por este enquadre sujo, grotesco. A cidade oferece o estímulo necessário a esta tonalidade. Como palco contém o amparo decadente e sedutor, em seus traços de concreto. Vejam: caminho pelas ruas cercado pela madrugada. Seguro duas garrafas com as mãos, balançando o corpo com um desdém inaudito. Vago pela projeção desta rostidade, pelo asco espalhado nas ruas escuras de asfalto molhado, impondo sua tônica fria. Vago com a sujeira encrustada das esquinas, semeando jornais lançados ao vento. No entorno, pessoas andarilham como zumbis em busca de qualquer coisa. Não são nada mais do que janelas preenchidas pela luminosidade esperançosa de que um dia algo há de semover em sua divina força centrípeta. Eis os contornos de uma cena. A inocência tem destas coisas.

Já passavam das seis horas da manhã quando atravessei a porta que separa o quarto da pequena sala de estar. Aquela visão matutina não impedia que os resquícios da noite anterior me fitassem a cara amassada: a luz do abajur ainda acesa, as garrafas espalhadas pelo chão, o cheiro insuportável de cigarro. Um cheiro azedo com mofo que me revira o estômago. De relance lembro a teoria forjada entre um cigarro e outro. Havia tecido alguma relação entre a frequência dos cigarros em minha boca e a possibilidade de medir o tempo. Encadeados um no outro a ideia fazia algum sentido. Naquele momento a lembrança apenas aumenta a sensação da cabeça latejando. Passo o olho para sala. Não contém mais do que oito metros quadrados. Despojados por cima do tapete vermelho, dois pequenos sofás e uma mesinha central compõe o enquadre. No canto direito, uma televisão antiga, saída diretamente dos anos 90. Provavelmente não serve mais do que a reprodução infinita de novelas e programas de auditório. Durante a noite tive a nítida impressão de ter visto pequenas porções de Bombril nas pontas da antena. A qualidade de imagem é fundamental para ver bem os beijos e os barracos do próximo capítulo. Isto me fez sentir um pingo de saudades da minha avó, mas isto não durara muito. Eu odeio a Regina Duarte. O relance de sua existência faz meus olhos se contorcerem. Olhei para trás e destaquei da penumbra meia bunda em cima da cama. Escapava serelepe para fora dos lençóis amarrotados e com brilho bagaceiro. Da janela semicerrada lançavam-se os primeiros bocejos matutinos em ritmo crescente. Este avançar maroto configurava uma iluminação gradativa àquela semi-bunda despretensiosa. Era bonito, ao seu modo, a ponto de me arrancar um semi-sorriso malicioso. Assim como veio, seguiu seu curso, solapado pela nova pontada que atravessa minha cabeça e me traz à memória as garrafas de qualquer líquido barato entornadas a passos largos rumo à vitória. Gloriosa função esta que seguiu saudosa no amargor do hálito recém surgido. Súbito desejo de eternidade. Por outro lado, a hora era de partida. Como dizem: o dia é o maior inimigo da noite. Furtivo, encaminhei os passos para a saída, antes que qualquer contorno da cena caísse com o raiar da manhã.

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.

Anúncios

0 Responses to “A crônica de Guto Piccinini: Fim de noite”



  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s


julho 2013
S T Q Q S S D
« jun   ago »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

Categorias

Blog Stats

  • 710.801 hits
Follow Palavraria – Livros & Cafés on WordPress.com
Anúncios

%d blogueiros gostam disto: