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jul
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A crônica de Luiz-Olyntho Telles da Silva: O rapto de Lucrécia

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O rapto de Lucrécia, por Luiz-Olyntho Telles da Silva

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Ticiano Sesto Tarquínio e Lucrécia
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Lucrécia tinha trinta e seis anos quando procurou ajuda, e isso só depois de muita insistência de seu marido. Minha colega a descrevia como uma pessoa desbotada. Deveria ter tido seus dias, mas agora, tão descuidada, pálida, mais parecia um fantasma! Três anos atrás fora atacada sexualmente por um primo de seu marido, um homem que na verdade nunca tinha visto na vida a não ser em uma fotografia na qual aparecia, junto com seu esposo, em uma caçada de marrecos. Seu nome costumava vir à tona quando o assunto fosse caça. E nada mais! Até que um dia, sem ser esperado, justamente quando o marido estava de viagem, aparece o primo com armas e bagagens; enganara-se em uma semana da data de uma nova expedição e terminou ficando para passar a noite. Jantaram, seus dois filhos estavam encantados com as histórias contadas pelo primo, e depois se recolheram todos.

Enquanto minha colega começava a contar os detalhes de como o primo se aproveitara do sono da casa para invadir o quarto de Lucrécia, outras lembranças começaram a invadir minha mente. Esboçaram-se na forma de uma pintura de Ticiano, representando Sesto Tarquínio e Lucrécia, no momento em que ele, armado de adaga, a obriga a entregar-se a ele. Entremearam-se às lembraças as primeiras linhas de um poema de Shakespeare a ela dedicadas:

From the besieged Ardea all in post,
Borne by the trustless wings of false desire,
Lust-breathed Tarquin leaves the Roman host,
And to Collatium bears the lightless fire
Which, in pale embers hid, lurks to aspire
And girdle with embracing flames the waist
Of Collatine’s fair love, Lucrece the chaste.

Era a história de outra Lucrécia, descrita por Tito Lívio, um poeta romano que viveu nos dias do nascimento de Cristo. Quando nos relata a história da constituição da república romana e fala do último rei, Tarquínio, o Soberbo, Tito Lívio conta-nos que o mesmo tinha um filho absolutamente desagradável, justamente esse Sesto Tarquínio de Ticiano. O episódio envolvendo Lucrécia deu-se no sexto século a.C., durante o assédio a cidade de Ardea, um porto fortificado no litoral do Lácio, quando os filhos do rei, junto com outros nobres, para matar o tempo, divertiam-se voltando a Roma, às escondidas, para espiar suas próprias mulheres.

Entre os nobres traquinas, Lúcio Tarquínio Collatino – que depois, junto com Bruto foram os primeiros Cônsules da República –, sabia que nenhuma mulher seria mais calma, trabalhadora e fiel que a sua Lucrécia. E foi com essa convicção que levou os amigos, entre eles seu primo Sesto Tarquínio, no meio da noite, para espiá-la! Como constataram, lá estava Lucrécia pacatamente tecendo suas lãs, junto de suas criadas, enquanto as noras do rei se divertiam em um orgíaco banquete.

Mas isso de espiar as mulheres nunca deu certo! Heródoto já havia nos contado alguns desastres resultantes do voyeurismo. O jovem Werther não se apaixonou por Lotte ao vê-la passar manteiga no pão? Pois Sesto Tarquínio, cunhado de Lucrécia, também ficou fascinado e preso ao desejo de possuí-la. Tanto que poucos dias depois, escondido do marido, retornou a casa deles, a Vila Collazia, com um só homem de escolta, e é recebido com grande hospitalidade. Mas depois do jantar, adormecida a casa – tal como na história que eu agora escutava -, ele se introduziu nos aposentos de Lucrécia que, acordada de sobressalto, viu-se agredida por um homem armado de uma grande adaga. Ela ainda tentou rechaçá-lo, mas Sesto, muito mais forte, a ameaçou: se ela não consentisse em satisfazer seus desejos, ele a mataria e ao seu lado poria o corpo mutilado de um escravo, sustentando depois tê-la flagrado em flagrante adultério.

Chegada a este ponto, antes que deixar enxovalhar eternamente seu nome, Lucrécia foi constrangida a ceder aos desejos do filho do rei de Roma. Mas assim que Sesto partiu, ela enviou um mensageiro à Roma, para seu pai, e outro à Ardea, para o marido, suplicando viessem correndo junto com um amigo de confiança porque uma grande infelicidade havia acontecido.

Quando chegam os parentes, suas lágrimas até então contidas explodiram! E quando o marido lhe pergunta se está tudo bem, Lucrécia lhe responde: – E como poderia andar tudo bem para uma mulher que perdeu sua honra? Na tua cama, meu amado Collatino, estão as marcas de outro homem. Mas quero te dizer que só meu corpo foi violado, o meu coração permanece puro e eu o provarei com minha morte. Jura-me que o adultero não ficará impune. Foi Sesto Tarquínio! Foi ele que ontem à noite veio aqui e, retribuindo hostilidade em troca da hospitalidade, armado com a força, abusou de mim. Se forem homens de verdade, fazei com que esse relato não seja fatal apenas para mim, mas também para ele.

Um depois do outro, todos juraram, procurando consolá-la como este argumento: antes de tudo, a culpa recai sobre o autor dessa ação abominável e não sobre ela que tinha sido a vítima, e depois, não é o corpo que peca, mas a mente e, logo, se falta a intenção, não se pode falar de culpa. E ela replica: – Vocês podem estabelecer quem a merece. Quanto a mim, mesmo que me absolva da culpa, não significa que não terei punição. E de hoje em diante, mais nenhuma mulher, após o exemplo de Lucrécia, viverá na desonra! Depois, agarrada ao punhal que trazia escondido sob o vestido, plantou-o no coração e, dobrando-se sobre a ferida, entre os gritos do marido e do pai, tombou exânime por terra, como corpo morto cai.

Assim que o marido de Lucrécia soube do episódio – continuava o relato de minha colega –, processou o primo que foi imediatamente preso e logo solto por falta de provas, aguardando ainda o julgamento em liberdade.

O marido da outra Lucrécia, junto com o pai e o amigo Lúcio Giunio Bruto expulsaram toda a família do rei, obrigando-os a refugiarem-se na Etrúria, atos que possibilitaram a criação da República Romana no ano de 509 a.C. Dante, vinte e um séculos depois, colocou-o no primeiro giro do sétimo círculo do inferno, junto com Pirro, o filho de Aquiles, e não o rei de Epiro.

E Lucrécia, essa de hoje, vinte e sete séculos depois, não se suicidou, mas, tão desbotada,  nunca mais foi a mesma! 

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Luiz-Olyntho Telles da SilvaLuiz-Olyntho Telles da Silva é psicanalista e escritor, membro fundador da Biblioteca Sigmund Freud, espaço de formação e interlocução psicanalítica. Convidado por diversas instituições psicanalíticas, já apresentou seus trabalhos, além de Porto Alegre, em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Vitória, Brasília, Salvador, Recife, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago, Barcelona, Canes, Ville de Grace, Paris e Nova Iorque. No Brasil, publicou Pagar com palavras ([Organizador] Movimento, 1984), Da miséria neurótica à infelicidade comum (Movimento, 1989 [1ª ed.] e 2009 [2ª ed. revista, corrigida e ampliada]), FREUD / LACAN: O desvelamento do sujeito (AGE, 1999), Leituras (AGE, 2004), e estreou na literatura com o livro de contos Incidentes em um ano bissexto (EDA, 2009). Publicou Ponto contraponto (HCE, 2012) e, mais recentemente, Um elefante em Albany Street (HCE, 2013). Publica também na página: www.tellesdasilva.com

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1 Response to “A crônica de Luiz-Olyntho Telles da Silva: O rapto de Lucrécia”


  1. 21 de julho de 2013 às 12:41

    Excelente texto este do Olyntho. Para mim, um conto


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