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A crônica de Claudia Coelho: Faces da traição

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Faces da traição, por Claudia Coelho

06 faces

Traição é sempre um tema controvertido. Mas como determinar uma traição? Deslealdade e infidelidade seriam sinônimos de traição? Conceituar esse assunto é fácil, difícil é entender o que se passa na cabeça de homens e mulheres que traem.

Talvez eu crie uma polêmica sobre o assunto, mas acredito que traição só se configura quando a parte corneada toma ciência de seus chifres.

Quando observo os puladores de cerca compulsivos, sempre penso que eles não acreditam que estão fazendo algo de tão errado. Então, isso me leva a crer que somente a descoberta configura o cri­me. Não acredito que uma pessoa, que faça manobras mirabolantes em seu cotidiano, morra de remorso depois… Não acredito! Seria muita racionalidade em detrimento dos sentimentos.

O comportamento “pulante” se incorpora ao sujeito de tal for­ma, que ele mesmo acaba naturalizando esse jeito, a ponto de olhar a cara de sua corna ou seu corno de plantão e pensar: se ela/ele não sabe, não estou magoando; se não estou magoando, não sou tão mau assim; logo, não me sinto culpada/culpado. Hummm… Que ho­ras mesmo combinei de dar uma puladinha de cerca amanhã?

É por essa razão que os seres “pulantes” passam anos a fio traindo e passando incólumes sem uma punição, e com sua consciência levíssi­ma. Que fique bem claro, essa hipótese não é uma verdade, é a forma que encontrei para compreender ou, quem sabe, inocentar a traição.

Já escutei tantas histórias de traição, que até perdi a conta! O conteúdo recorrente, em alguns relatos, me deixa intrigada, mas, para mim, o pior dos requintes da traição é a proximidade existente entre o criminoso e a vítima. A traição, para ter graça, tem que ser realizada bem pertinho do cornudo. Não esqueçamos que, em toda piadinha infame, o ser “pulante” geralmente está dentro do armário. O essencial na traição é a sensação de friozinho na barriga, mesmo porque, o ser “pulante” é viciado em adrenalina! Explicando: ele tem que ser “quaaase”descoberto, ou seja, tem que estar na iminência de ser descoberto.

Por conta dessa tendência kamikaze, o traidor aumenta as chan­ces de ser descoberto e a ilusão quanto à impunidade de seus atos, fazem com que cometa erros crassos na sua pulada errante.

Um dos piores erros, sem dúvida, é o comportamento de risco na relação sexual pelo desuso de preservativos. A displicência inequívoca geralmente é descoberta numa consulta ao médico. Por questões sabidas, esses vestígios de traição são mais aparentes na mulher. Em geral, a corna sai da consulta abalada moralmente por N motivos, além de ser impossível não ter ficado com cara de trouxa na frente do médico. Aliás, se ficou com cara de trouxa, foi porque no fundo sempre foi!

Mesmo sabendo da dura realidade, ela reunirá forças para se convencer do contrário. Chegará em casa e investigará no Google as ínfimas possibilidades de supostos contágios que possam inocentar o seu ser “pulante”… Tadinha! Vale qualquer coisa para anular o pre­núncio de seus chifres.

Mas dó mesmo, tenho daqueles que descobrem que, além da pulada básica, o parceiro se bandeou para o outro time. É choque de 220 volts! É pra matar! Acho que o “pulador” bissexual deveria ser condenado duplamente e com todo o rigor da lei dos cornudos! Homem casado buscando um parceiro? Ah, faça-me o favor!

Adoro essa liberdade que homens e mulheres gozam de pode­rem optar pela bissexualidade ou homossexualidade. Mas sou taxa­tiva ao condenar uma vida dupla de deslealdade! Pó pará!!! Vá se resolver! Não querem abrir mão de nada? A mulher traída dessa for­ma tem um sentimento amplificado, seria como: “Alguém anotou a placa?”. É devassador!

Tem outra coisa sobre esse assunto, que não me convence. É quando alguém me conta que trai há anos e o outro nem desconfia… Ah, não! Esse é o típico caso de corno-cúmplice! Na real, o cornudo suspeita, se faz de tonto, se faz de morto, dá graças a Deus que o parceiro “pulante” está mais na rua do que xaropeando dentro de casa. Sendo assim, o principal motivador desse traidor é a falta de sexo. Pois bem, o corno cúmplice não está mais a fim e inconscien­temente libera a farra do outro lado do muro. É claro que isso não é uma regra.

Uma vez uma amiga casada declarou que transava regularmente com o marido, sobretudo acreditando que assim ele nunca a trairia. Pobrezinha, além de ter sido traída, deu o flagrante da “pulada inima­ginável”. Portanto, esse método de empapuçar um marido de sexo pode ser “um tiro que sai pela culatra”!

Convenhamos, muitas pessoas bancam sexo dentro e fora de um relacionamento com eficiência e maestria. É como diz um antigo ditado gaúcho: “Cachorro que come ovelha, só matando!”. E se vê um pelego no chão? Se joga em cima feito louco! Portanto, quem trai compulsivamente, não enxerga que vive tudo de maneira incompleta. O traidor vive com a mentira impregnada, vive para trair, e o pior, não enxerga que pula uma cerca que ele mesmo construiu!

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claudia coelhoCláudia Coelho nasceu em Porto Alegre, é formada em Psicologia desde 1993 pela PUCRS. É  Psicóloga Clínica e Consultora em Gestão de Pessoas. Especialista em Psicologia do Trânsito e  Projetos Sociais e Culturais.  Atua em  avaliações psicológicas comocredenciada  do DETRAN/RS e  Polícia Federal. Sem dúvida, a característica polivalente da autora propiciaram-lhe vivências enriquecedoras e multifacetadas. Em 2008  começou a escrever suas primeiras crônicas em seu blog (http://psiclaudiacoelho.blogspot.com.br/).  É aluna de  Desenho e Pintura  do Atelier Livre  da Prefeitura de Porto alegre,  onde desenvolve trabalhos que dialogam com suas crônicas. As crônicas aqui publicadas estão em Lógicas Invertidas – crônicas / Cláudia Coelho. ( Evangraf, 2012)

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