23
jul
13

A crônica de Guto Piccinini: Da janela eu vejo um mundo

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Da janela eu vejo um mundo, por Guto Piccinini

Do alto do prédio estava eu sentado de frente para o computador, correndo os dedos pelo teclado e os olhos pelos cliques do universo internético. O sofá da sala, meu local preferido para estas paradas no dia, não oferece o melhor conforto em comparação a outros paradouros da casa. Evito danos colocando uma pequena almofada, o que por outro lado faz com que meu corpo inevitavelmente vá deslizando vagarosamente. Escorando os pés, alcanço um estado praticamente horizontal, não fosse a tal almofada que segura meu pescoço num ângulo de 90 graus, permitindo mais olhares e cliques. Um outro benefício da posição é a oferta de conforto para minha gata, que nunca perde a oportunidade de se aconchegar em cima de minhas pernas. Uma bola de pelos ronronante, que nos dias de inverno acalenta. Somos como um, enfrentando as agruras do frio. Mas hoje estava eu solitário na mesma posição de sempre, sem minha costumaz companheira, que também não circulava pelo meu campo de visão.

Sem sair de minha sacra posição, a vi sentada com o olhar pensativo para a cidade. A montanha de concreto em embate com a linha do horizonte era uma oferta distinta da vislumbrada pelos seus antepassados. Prédios de altura incalculável, pensaria ela, caso pudesse refletir a magnitude de sua vista. Cada janela contendo um universo particular, que não raro se mantém particulares, fechados em suas composições herméticas e fengshuianas. Aposto que a visão diferenciada dos felinos confere a este testemunho possibilidades indescritíveis. Neste caso, um tanto distraída pela infinitude de pombas que circulam habilmente por este habitat inóspito, estes ratos voadores que dominam o espaço aéreo da urbe e, vagarosamente, vão corroendo a saúde dos outros seres vivos que compartilham seu espaço. Tenho uma simpatia pelos pombos, o modo como vão conquistando território, no meio da multidão, a capacidade de resiliência, garimpando alimento e abrigo pelos cantos. As pombas são um caso sério, não fosse o modo ridículo como caminham. Não é possível confiar num animal que não consegue controlar o próprio pescoço enquanto desloca o corpo. Ali, perante a voracidade predatória, o valor da pomba se resume às delícias da carne.

De frente para a janela, ela vê a imponência do mundo concentrado. Pessoas seguindo seus caminhos em fluxo contínuo, cada qual com seus próprios mundos concentrados. São vidas de passagem, dessas que não criam pontos de ancoragem nesta rede pulsante, cuja constância se resume ao fluxo. Mas minha companheira de aconchego de boba não tem nada! A potência de sua visão não se resume aos pombos: de longe ela vislumbra poucos atores a encenar tecituras destes andares inconstantes. São pontos de escora, pontos onde se acumulam histórias, onde as experiências são compartilhadas. Acaso refletisse um tanto, a gata veria que destes encontros há um mundo de afetos que vão sendo construídos invisíveis aos olhos de quem, apenas, passa. Seguem por uma linha tênue. Acaso refletisse, pensaria ela: “a rua não é somente um local de passagem, na rua há vida”. E eu concordaria de bom grado, sem mesmo pontuar qualquer contra-argumento. Um pouco pelo enfado de ter de insistir neste assunto (tão óbvio, pensou ela), mas também confessando sua não vocação para o frio, de um pulo ela rompe com esse breve testemunho do acontecer urbano.

Com passos tristes e conformados vem, novamente, aconchegar-se junto ao meu corpo.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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