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A crônica de Emir Ross: Adriano

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Adriano, por Emir Ross

 

Adriano, o jogador de futebol, não jogou a carreira fora. Num mundo onde raramente há opções, ele preferiu salvar a vida.

Adriano foi matéria de trabalho da imprensa. Foi matéria de diversão para o público. Foi mão-de-obra para empresários que enxergam cifras onde há carne e osso.

“O imperador”.  Convenceram-no que ele se tratava disso. O destruidor das defesas. Aquele que conquista. Que tem súditos. Mulheres, territórios. Convenceram-no que a grande área era domínio eterno e exclusivo seu.

Também convenceram o público. “Lá vem o imperador”. Deram-lhe louros. Uvas. Vinhos. Massagens. Mansões recheadas de jovens servis. Compuseram-lhe hinos, construíram estátuas, confeccionaram mantos.

O povo precisa de ídolos. Por isso, todo ano, é necessário fabricar mais.

Existem departamentos repletos de especialistas em criar ídolos. Primeiro se escolhe um ser humano, depois se transforma um feito comum num feito notável. Compara-se isso a um mito. Convoca-se a imprensa para disseminar a ideia e está feito o trabalho.

O mortal torna-se eterno. O indivíduo deixa de ser humano para ser outra coisa que desconhecemos o nome.

“O imperador”, disseram.

Mas Adriano, o jogador de futebol, jamais foi “o imperador”.

Adriano, o jogador de futebol, sempre foi “o gladiador”.

Jamais teve um império. Ao contrário disso, sempre trabalhou para um. Cego e servil. Fiel e corajoso.

No dia em que teve a brilhante de ideia de subir o morro e se encontrar com a infância, onde seu coração batia de verdade, onde seus amigos de verdade estavam, falando sua língua e comendo sua comida, pôde o imperador perceber que seu império, na verdade, era construído de papel machê.

Adriano não jogou a carreira fora. O que jogou fora foram as marionetes que o conduziam. Como tantos outros, percebeu que a felicidade está nas coisas simples. Pequenas. A memória afetiva o levou a preferir o churrasco na laje aos coquetéis em Milão. O levou às cervejas retiradas do isopor aos vinhos piemonteses. Preferiu namoricos adolescentes a namoradas que o faziam de trampolim para a Playboy.

Adriano, o filho.

Sou admirador dele. De sua atitude. Preferiu largar todos os rótulos. As cifras e os louros.

Conseguiu.

Talvez eu ainda não consiga me dedicar ao que realmente importa. Nem eu, nem noventa por cento da população. Ainda somos gladiadores querendo governar o império. Cegos, servis e burros. Em busca de algo que não existe. Ainda estamos presos às amarras. Mas um dia chegaremos lá.

 

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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