Arquivo para 20 de agosto de 2013

20
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A crônica de Tiago Cardoso: Raskólnikov e Míchkin: Protagonistas de Dostoiévski

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Raskólnikov e Míchkin: Protagonistas de Dostoiévski, por Tiago Cardoso

DOSTOIEVSKI

Fomos premiados com a oportunidade de participar do Ciclo Literatura Russa: Curso Dostoiévski, ministrado pelo professor João Armando Nicotti, na Palavraria, em datas motivadamente espaçadas, para que cada obra do criador de Memórias do Subsolo seja devidamente esgrimida pelos participantes. O resultado dessa conjunção de leituras e inflexões são abordagens e debates muito interessantes, conduzidos com naturalidade e profundo conhecimento de causa pelo ministrante. O seguimento desse ciclo, inaugurado pela obra de Dostoiévski (1821-1881), promete trazer à cena outros nomes da literatura russa, como Gógol, Tolstói e Tchekhóv. Por hora, acompanhando o fluxo das coisas, assim mesmo, no estado em que se encontram, proporemos uma breve abordagem, fixada em dois pontos: primeiro, o renomado Crime e Castigo (1866) e seu protagonista Raskólnikov; segundo, o romance O Idiota (1869) e seu protagonista, o príncipe Míchkin.

 RASKÓLNIKOV E O CÁLCULO UTILITARISTA EM ATO

Em Crime e Castigo o romancista russo pôs à prova os ideais filosóficos e morais com os quais se confrontava. Muito embora estejamos falando de uma obra artística datada (segunda metade do século XIX, na Rússia), os temas com os quais o autor se ocupou neste trabalho são, seguramente, os mais atuais. A personagem de Raskólnikov incorporava e levava às últimas conseqüências a filosofia utilitarista, tão cara ao vocabulário econômico muito em voga na época (e, por que não, ainda hoje). O utilitarismo, nesse sentido, representa a busca que pretende transformar a ética em ciência positiva da conduta humana, ciência que Jeremy Bentham (1748-1832) queria tornar exata como a matemática. Em essência, o prazer é reconhecido pelo cálculo utilitário como o único motor graças a que todo o ser vivo, e também o ser humano, age. Como avaliou Flávio Ricardo Vassoler, supostamente emancipatório para o homem, “o cálculo utilitário do protagonista de Crime e castigo traz à tona o princípio regressivo que passará a estruturar a modernidade. A guerra de todos contra todos”. Assim, a partir da aceitação do caráter intersubjetivo do prazer como móvel, o utilitarismo afirma que “a maior felicidade possível, compartilhada pelo maior número de pessoas” é o fim de qualquer ação humana (Cesare Beccaria, 1738-1794). Essa formulação supõe, portanto, que existe coincidência entre a felicidade individual e a utilidade pública, premissa amplamente admitida por todo o liberalismo moderno. O ocaso de nosso assassino-herói, neste romance, e o vazio com que se depara Raskólnikov definem o cenário em que desembocaria, segundo Dostoiévski, semelhante aridez filosófica, levada a suas últimas conseqüências. A representação contida no cálculo utilitário estaria, portanto, muito aquém da estética e da linguagem sem as quais a alma humana necessariamente sucumbiria. Algo assim como a insuficiência respiratória, pois em todo caso faltaria justamente oxigênio para esse novo homem, personificado em Raskólnikov.

 MÍCHKIN, E O HOMEM PERFEITAMENTE BELO

Se esse é um retrato possível de Crime e Castigo, o romance seguinte, O Idiota (1869), contém proposta muito semelhante, ao apresentar um novo teste prático, agora debruçado sobre um exemplar humano cujo ideal, nele encarnado, será completamente oposto ao de nosso niilista estudante de Direito, Raskólnikov. Ora, o príncipe Míchkin coloca em movimento não o utilitarismo benthamiano, mas sim a encarnação cristã sublime, na ótica do romancista russo, o “homem perfeitamente belo”, o Dom Quixote (destituído de belicosidade) ou, ainda, se quisermos, algo como uma atualização de Cristo, lançada em meio à sociedade europeizada de Petersburgo, na segunda metade do século XIX. A alegoria trágica que parece indicar, desde as primeiras linhas, qual o destino de nosso herói quixotesco, traduz a impertinência social dessa figuração da beleza, brotada num espaço obscurecido pela morte de Deus, pelo racionalismo utilitarista e, também muito presente na obra, pela ciência econômica (Malthus, 1766-1834; e David Ricardo, 1772-1823). As ações de Míchkin não passam, por isso mesmo, despercebidas. Ou seja, nenhuma das pessoas com quem ele se relaciona fica impassível diante de seu exemplo: é um fenômeno dado a altos índices de reatividade, uma anomalia (social e ética) em ato! Segundo Denise Cestari Gules Guerreiro, em “uma sociedade em que os valores morais aparecem vinculados a alguma forma de vantagem”, fato demonstrado pelas inúmeras personagens de O idiota, somente Míchkin representa uma postura contrária àqueles padrões. Nem por isso, deixa o príncipe de se angustiar ante “seu desejo de plenitude e as imposições da condição humana”. Míchkin encarna de maneira radical, como assevera Joseph Frank, o ideal moral do romancista russo que, corajosamente, é posto à prova durante o desvelamento dessa história, a fim de demonstrar em que medida esse código de comportamento (perfeitamente belo) seria “igualmente incompatível com as exigências normais da vida social” cotidiana, constituindo um “escândalo desagregador”, tal qual o aparecimento de Jesus entre os fariseus. Não obstante, a imagem humana encarnada no príncipe de Dostoiévski traz consigo também “a iluminação extraterrena” sem a qual não haveria nenhuma esperança e oxigênio para o futuro.

Ainda teremos, pelo menos, dois desafios para os próximos encontros deste Curso: Os Demônios e Os Irmãos Karamázov. Por hoje, terminamos aqui nosso breve texto. Inspire-se, caro leitor, a arte de Dostoiévski o convida.

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Tiago Cardoso é frequentador da Palavraria, graduado em direito e mestre em filosofia pela UNISINOS.

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Vai rolar na Palavraria, nesta quinta, 22: Palavreio Avesso, com Leandro Maia e Jorge Falkembach (Especial 10 Anos da Palavraria)

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22, quinta, 19h: Palavreio Avesso, com Leandro Maia & Jorge Falkembach (Especial 10 anos da Palavraria)

Palavreio Avesso comemora o Aniversário da Palavraria. É um pocket que apresenta as canções de Leandro Maia e trechos dos contos de Jorge Falkembach. Voz, violão e leituras. Na mesma ocasião ocorre a sessão de autógrafos do livro Avesso, de Jorge Falkembach, de caráter biográfico, no qual o músico Leandro aparece como protagonista.

palavreio - leandro maia

Considerado um dos dez melhores discos brasileiros de 2008 pela imprensa de Porto Alegre, Palavreio é um cd gravado de um livro e apresenta canção impregnada de literatura. A obra caracteriza-se como um tratado autoral em três partes sobre canção brasileira: Palavra de Papel (poemas), Palavra Dita (poemas recitados) e Canção, onde realiza o percurso da palavra falada à palavra cantada. Palavreio tem a produção musical de Pedrinho Figueiredo, integrante do quarteto de Renato Borghetti há 20 anos, e ilustrações de Jorge Herrmann, músico e artista plástico de prestígio na capital gaúcha.  O disco conta com diversas participações especiais, como Hique Gomez (Tangos e Tragédias), Luciano Maia (Quartcheto) e Ernesto Fagundes (Os Fagundes), além de trazer a sonoridade de mais de 20 músicos do primeiro time do cenário gaúcho.

Dialogando com poetas, escritores e compositores como Luís de Camões, João Simões Lopes Neto, Manuel Bandeira, Mário Quintana, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Noel Rosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Vitor Ramil, entre outros, Leandro Maia depura o conceito de antropofagia e tropicalismo, misturando formas eruditas e populares. Em suas canções aparecem citações de Villa-Lobos, Lennon e Mcartney, Richard Wagner, J.S. Bach, Kurt Cobain, além de literatura de cordel, haikai e poesia concreta. Este trabalho também rendeu a Leandro Maia o Prêmio Açorianos de Música na categoria Revelação. (e-Cult)

leandro maiaLeandro Maia é cantor, violonista e compositor. Mestre em Letras – Pós Graduação em Literaturas Brasileira, Portuguesa e Luso-Africanas, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com a dissertação Quereres de Caetano: da canção à Canção, 2007. Licenciado em Música, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com o trabalho de conclusão O professor de música no trânsito entre dois mundos, 2002. Prêmio Açorianos – Revelação e Troféu Cultura RBS pelo Cd-Livro “Palavreio”. Vem realizando palestras e conferências no Brasil e no exterior sobre o tema ‘Poética da Canção’, palestra-show que já foi apresentada em diversos eventos e universidades do exterior. Atualmente vive na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul, onde se dedica ao trabalho artístico, à produção cultural e à docência junto ao Centro de Artes da UFPEL. Está lançando em setembro  o disco infantil intitulado “Mandinho”, expressão típica da cidade de Pelotas para designar a primeira infância.

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Avesso, primeiro livro de Jorge Falkembach na área da literatura, reúne três textos. O primeiro, chamado “Uma fantasia infantil”, é baseado em uma história de sua infância que se prolonga à vida adulta. Já o segundo, chamado “Uma saia mais que justa”, retrata o encantamento de Jorge com a cidade de Buenos Aires e é baseado em algumas situações vividas por ele na capital da Argentina. O terceiro texto, chamado “Capivara e eu”, é baseado no acidente ocorrido em 2005, que o deixou sete meses em uma cadeira de rodas, três meses de muleta e um ano e quatro meses de bengala.

jorge_falkembachJorge Falkembach é engenheiro, professor universitário e psicólogo. Em 1942 nasceu em Santa Maria. O 1944 já o encontrará em Vila Olimpo – hoje Pedro Osório – e de lá por 1954 tomou o rumo de Bagé e por ali teve que se haver com o “nascimento” que a puberdade impõe, Se perguntado onde nasceu, diz direto: Bagé! Quando a universidade pediu vez tomou o rumo de POA, e por aí foi se descobrindo professor de matemática/física e em engenheiro civil se constituiu…Ijui será novo rumo, a partir de 1971, e por ali se aquerenciou. Na Unijuí encontrou alentos e construiu cenários. Por 1996 se reinaugurou em nova empreitada, formou-se em psicologia e tendo como fundo Freud/Lacan, se exerce não mais como professor/engenheiro, mas como terapeuta. Encontra, também, tempo para escrever sobre as coisas que lhe transbordam.

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20
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Vai rolar na Palavraria, nesta quarta, 21: A poesia de Basilio Sánchez, no Ciclo de poetas de língua espanhola

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21, quarta, 19h: A poesia de Basilio Sánchez – no Ciclo de poetas de língua espanhola. Coordenação de Raquel Grossman, com a participação de Jane Felipe, Luandra Lucena Moschen, Gisele Rodrigues Soares e Gladis Kaercher.

O segundo encontro do CICLO DE POETAS DE LÍNGUA ESPANHOLA trará a poesia de Basilio Sánchez, poeta espanhol da cidade de Cáceres.

Basilio_sanchez

“Escribo casi a oscuras, en las habitaciones pequeñas de la casa, donde difícilmente podría caber un hombre. Me obstino en la palabra que se dice al oído, que empaña los cristales, que humedece los bordes de la página. Presiento que un poema es un ruido que se intuye a lo lejos, la puerta que se abre al otro lado de una misma ciudad. Por eso cada noche, después de que el cansancio consigue disuadirme, dejo sobre la mesa una vela encendida: la lámpara votiva de una iglesia sin culto, desprovista de imágenes”

Basilio Sánchez nasceu em 1958, na cidade de Cáceres, Espanha. Considerado um dos maiores poetas de poesia meditativa contemporânea, seu primeiro livro, “A este lado del alba”, ganhou o segundo lugar do Adonais de Poesia (1983), um dos mais importantes prêmios de literatura da Espanha. Foi laureado também com o prêmio Jaime Gil de Biedma (1995 e 2003), o Prêmio Internacional de Poesia Unicaja (2005), o Prêmio Internacional de poesia Tiflos (2008), o Prêmio Extremadura de criação da melhor obra Literária de Autor Extremeño (2007) e o Prêmio Ciudad de Córdoba “Ricardo Molina” (2012).

Seus livros de poesia: “La mirada apacible” (Pre-Textos, 1996), “Al final de la tarde” (Calambur, 1998), “El cielo de las cosas” (EREx, 2000), “Para guardar el sueño” (Visor, 2003), “Entre una sombra y otra” (Visor, 2006), “Las estaciones lentas” (Visor, 2008). O conjunto de sua obra poética está no livro “Los bosques de la mirada. Poesía reunida 1984-2009” (Madrid, Editorial Calambur, 2010). Recentemente publicou o livro de poemas intitulado “Cristalizaciones” (Hiperión, 2013).

Basilio Sánchez, além de poeta, é licenciado em medicina e cirurgia pela Universidad de Extremadura, especialista em Medicina Intensiva. Muitos de seus poemas, em alguma medida, refletem os limites da experiência entre a vida e a morte.

Coordenação geral:

raquel grossmanProfª Raquel Grossman Uruguaia, reside no Brasil há muitos anos. Formada em nutrição pela Faculdade de Medicina de Montevidéu; professora de música pelo Conservatório Musical Kolischer, Montevidéu. Atualmente leciona o idioma espanhol, ministrando aulas particulares de conversação, individuais ou em grupo, bem como na preparação de profissionais em suas diversas áreas de atuação. Coordena seu próprio curso, cujo diferencial consiste em atividades culturais bilíngues em espanhol-português.

Participações especiais:

jane felipeProfª Drª Jane Felipe – professora de graduação e pós-graduação da FACED/UFRGS. Psicóloga (UFRJ), Mestre (UFF/RJ) e doutora em Educação (UFRGS). Pós-doutorado em Cultura Visual (Universidad de Barcelona). Atualmente coordena a pesquisa Violências de gênero, amor romântico e famílias: entre idealizações e invisibilidades, os maus tratos emocionais e a morte. Possui inúmeras publicações na área de gênero, sexualidade, infâncias e educação.

Luandra Lucena MoschenProfª Luandra Lucena Moschen – professora de Educação Infantil da Escola Educar. Atualmente cursa Pedagogia na UFRGS, tendo participado de várias bolsas e projetos de pesquisa, dentre os quais Crianças e adolescentes em situação de trabalho infanto-juvenil. Participou recentemente de intercâmbio de mobilidade acadêmica na Universidad Nacional de Córdoba, Argentina.

Gisele Rodrigues SoaresProfª Gisele Rodrigues Soares – professora de Educação Infantil da rede municipal de Porto Alegre. Atualmente cursa Pedagogia na UFRGS e participa como bolsista da pesquisa sobre Monitoramento de políticas públicas para a Educação Infantil no Rio Grande do Sul. Participou recentemente de intercâmbio de mobilidade acadêmica na Universidad Autonoma de Madrid.

Gladis KaercherProfª Drª Gladis Kaercher  formada em Letras pela UFRGS, é professora de literatura da Faculdade de Educação da UFRGS. Mestre em Educação (UFRGS); Em 2006, defendeu sua tese de doutorado intitulada “O mundo na caixa: gênero e raça no Programa Nacional Biblioteca da escola – 1999” (UFRGS). Coordena atualmente o curso de Aperfeiçoamento política de Promoção da Igualdade Racial na Escola – UNIAFRO/UFRGS, possuindo ainda inúmeras publicações na área de texto, literatura infantil, raça e etnia, infâncias e educação infantil.

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Ciclo de poetas de língua espanhola

Este projeto se propõe a compartilhar as obras de poetas de língua espanhola consagrados pelo público e pela crítica literária.  Através de leituras públicas realizadas por convidados/as, discutir-se-á de que forma as poesias escolhidas lhes tocam e quais os temas que elas podem suscitar em suas vidas. A fruição e o deleite que tais poemas podem proporcionar e os modos pelos quais estes podem nos capturar, nos convidam a perceber a poesia como manifestação sensível da vida, em seus embates, dores e prazeres. Tais encontros também objetivam divulgar e incentivar a apreciação da poesia como arte, bem como o aprendizado do idioma espanhol através destes e de outros eventos culturais. O primeiro encontro, realizado em junho na Palavraria, enfocou o poeta uruguaio Mario Benedetti e o próximo, a realizar-se em outubro, terá como tema o poeta chileno Pablo Neruda.

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