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A crônica de Tiago Cardoso: Raskólnikov e Míchkin: Protagonistas de Dostoiévski

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Raskólnikov e Míchkin: Protagonistas de Dostoiévski, por Tiago Cardoso

DOSTOIEVSKI

Fomos premiados com a oportunidade de participar do Ciclo Literatura Russa: Curso Dostoiévski, ministrado pelo professor João Armando Nicotti, na Palavraria, em datas motivadamente espaçadas, para que cada obra do criador de Memórias do Subsolo seja devidamente esgrimida pelos participantes. O resultado dessa conjunção de leituras e inflexões são abordagens e debates muito interessantes, conduzidos com naturalidade e profundo conhecimento de causa pelo ministrante. O seguimento desse ciclo, inaugurado pela obra de Dostoiévski (1821-1881), promete trazer à cena outros nomes da literatura russa, como Gógol, Tolstói e Tchekhóv. Por hora, acompanhando o fluxo das coisas, assim mesmo, no estado em que se encontram, proporemos uma breve abordagem, fixada em dois pontos: primeiro, o renomado Crime e Castigo (1866) e seu protagonista Raskólnikov; segundo, o romance O Idiota (1869) e seu protagonista, o príncipe Míchkin.

 RASKÓLNIKOV E O CÁLCULO UTILITARISTA EM ATO

Em Crime e Castigo o romancista russo pôs à prova os ideais filosóficos e morais com os quais se confrontava. Muito embora estejamos falando de uma obra artística datada (segunda metade do século XIX, na Rússia), os temas com os quais o autor se ocupou neste trabalho são, seguramente, os mais atuais. A personagem de Raskólnikov incorporava e levava às últimas conseqüências a filosofia utilitarista, tão cara ao vocabulário econômico muito em voga na época (e, por que não, ainda hoje). O utilitarismo, nesse sentido, representa a busca que pretende transformar a ética em ciência positiva da conduta humana, ciência que Jeremy Bentham (1748-1832) queria tornar exata como a matemática. Em essência, o prazer é reconhecido pelo cálculo utilitário como o único motor graças a que todo o ser vivo, e também o ser humano, age. Como avaliou Flávio Ricardo Vassoler, supostamente emancipatório para o homem, “o cálculo utilitário do protagonista de Crime e castigo traz à tona o princípio regressivo que passará a estruturar a modernidade. A guerra de todos contra todos”. Assim, a partir da aceitação do caráter intersubjetivo do prazer como móvel, o utilitarismo afirma que “a maior felicidade possível, compartilhada pelo maior número de pessoas” é o fim de qualquer ação humana (Cesare Beccaria, 1738-1794). Essa formulação supõe, portanto, que existe coincidência entre a felicidade individual e a utilidade pública, premissa amplamente admitida por todo o liberalismo moderno. O ocaso de nosso assassino-herói, neste romance, e o vazio com que se depara Raskólnikov definem o cenário em que desembocaria, segundo Dostoiévski, semelhante aridez filosófica, levada a suas últimas conseqüências. A representação contida no cálculo utilitário estaria, portanto, muito aquém da estética e da linguagem sem as quais a alma humana necessariamente sucumbiria. Algo assim como a insuficiência respiratória, pois em todo caso faltaria justamente oxigênio para esse novo homem, personificado em Raskólnikov.

 MÍCHKIN, E O HOMEM PERFEITAMENTE BELO

Se esse é um retrato possível de Crime e Castigo, o romance seguinte, O Idiota (1869), contém proposta muito semelhante, ao apresentar um novo teste prático, agora debruçado sobre um exemplar humano cujo ideal, nele encarnado, será completamente oposto ao de nosso niilista estudante de Direito, Raskólnikov. Ora, o príncipe Míchkin coloca em movimento não o utilitarismo benthamiano, mas sim a encarnação cristã sublime, na ótica do romancista russo, o “homem perfeitamente belo”, o Dom Quixote (destituído de belicosidade) ou, ainda, se quisermos, algo como uma atualização de Cristo, lançada em meio à sociedade europeizada de Petersburgo, na segunda metade do século XIX. A alegoria trágica que parece indicar, desde as primeiras linhas, qual o destino de nosso herói quixotesco, traduz a impertinência social dessa figuração da beleza, brotada num espaço obscurecido pela morte de Deus, pelo racionalismo utilitarista e, também muito presente na obra, pela ciência econômica (Malthus, 1766-1834; e David Ricardo, 1772-1823). As ações de Míchkin não passam, por isso mesmo, despercebidas. Ou seja, nenhuma das pessoas com quem ele se relaciona fica impassível diante de seu exemplo: é um fenômeno dado a altos índices de reatividade, uma anomalia (social e ética) em ato! Segundo Denise Cestari Gules Guerreiro, em “uma sociedade em que os valores morais aparecem vinculados a alguma forma de vantagem”, fato demonstrado pelas inúmeras personagens de O idiota, somente Míchkin representa uma postura contrária àqueles padrões. Nem por isso, deixa o príncipe de se angustiar ante “seu desejo de plenitude e as imposições da condição humana”. Míchkin encarna de maneira radical, como assevera Joseph Frank, o ideal moral do romancista russo que, corajosamente, é posto à prova durante o desvelamento dessa história, a fim de demonstrar em que medida esse código de comportamento (perfeitamente belo) seria “igualmente incompatível com as exigências normais da vida social” cotidiana, constituindo um “escândalo desagregador”, tal qual o aparecimento de Jesus entre os fariseus. Não obstante, a imagem humana encarnada no príncipe de Dostoiévski traz consigo também “a iluminação extraterrena” sem a qual não haveria nenhuma esperança e oxigênio para o futuro.

Ainda teremos, pelo menos, dois desafios para os próximos encontros deste Curso: Os Demônios e Os Irmãos Karamázov. Por hoje, terminamos aqui nosso breve texto. Inspire-se, caro leitor, a arte de Dostoiévski o convida.

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Tiago Cardoso é frequentador da Palavraria, graduado em direito e mestre em filosofia pela UNISINOS.

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1 Response to “A crônica de Tiago Cardoso: Raskólnikov e Míchkin: Protagonistas de Dostoiévski”


  1. 1 maria do carmo backes
    22 de agosto de 2013 às 22:11

    tiago, graças as tuas observações sobre estes dois personagens, entendi melhor quem é raskolnikov e decidi ler “o idiota”. os encontros com o professor nicotti foram um estímulo para voltar a ler dostoievski. brigadim a cêis dois!


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