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A crônica de Guto Piccinini: A reunião

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A reunião, por Guto Piccinini

Estavam todos sentados em volta da mesa redonda que centralizava o espaço destinado ao trabalho daqueles pobres indivíduos e, que no momento, parcamente tentavam permanecer imóveis em sua posição um pouco menos do que dignamente confortável. Reuniam-se todos os dez trabalhadores, que agora parados podiam perceber a dificuldade com que aquela sala os abrigava, ainda mais levando em consideração os movimentos necessários ao exercício daquela função. Somados a esses, estavam ali outros cinco componentes de uma equipe responsável pela fiscalização do trabalho e o controle da produtividade. De um lado, a imundice e os olhares perplexos de quem agora compreendia o motivo pelo qual a semana nunca transcorrera sem um esbarrão ou um choque mais vigoroso. Do outro, ternos engomados, pastas de couro e olhares de uma tranquilidade perversa. O contraste desta linha divisória imaginária, intensificava-se, na medida em que esta demarcação de uma posição hierárquica estabelecida, atualizava-se no ar plácido daqueles que contemplavam a cena, como que prestes a se refestelarem com o banquete recém posto à mesa. Ao restante da refeição, afetados pela calmaria que precede a tormenta, sentia-se, sobretudo, uma náusea decorrente do perfume adocicado que penetrava suas almas. Estavam cada vez mais acuados pelo peso daquelas presenças ilustres e ameaçadores, entrelaçados pelo ar pesado e pela quantidade de corpos e objetos que ocupavam o espaço. Contrariando princípios básicos da física, talvez, naquele infeliz momento, dois corpos pudessem ocupar um mesmo lugar no universo.

Um tanto extasiados pela semana, os trabalhadores não abstraiam qualquer sentido que pudesse se definir naqueles instantes de silêncio. Pelo contrário, estavam ávidos por alguma palavra possível, algum som extraído da profundeza do impossível, mas que oferecesse contornos à infinitude infernal que o encontro oferecia. Da ordem de um tempo que não tinham como compreender, aqueles famigerados seguiam pelo simples fato de que não teriam outra escolha. Contemplavam aqueles seres que pareciam ser de outro planeta, com seus uniformes modernos e a impassividade inerente a pura soberba. Mal sabiam eles que, enquanto seguiam com seu estupor angustiante, já estavam todos envoltos por um mar de palavras que preenchia a sala em ritmo lancinante. Inicialmente aliviados pela quebra do silêncio, foram aos poucos dando conta dos riscos envolvidos naquela imposta aventura. Como que perdidos em alto mar, encontravam apenas aquelas cinco figuras como torneiras ininterruptas, a esvaziar seus pulmões em brados retumbantes. Tomados pelo pavor, alguns dos trabalhadores resolveram arriscar braçadas em busca de algum porto seguro. Fora um exercício fugaz: quanto mais mexiam seus corpos frágeis, eram arrastados pela corrente sorrateira e implacável. E isto apresenta-se, apenas, como introdução.

O tempo rastejava. Findo o momento introdutório, o grupo invasor passou a requisitar o seu quinhão deste pequeno latifúndio. Do pouco que restava àquelas figuras esquálidas, viu-se um a um a depositar algo que de mais precioso e preciso lhes era possível. Um senhor, cuja barba branca e os longos cabelos eram as únicas características que lhe destacavam do restante dos mortais, levantou-se resoluto, e depositou uma gorda e larga tira de carne de seu lombo. Ao seu lado, o mais jovem e forte do grupo, embora pouco revestido de musculatura para os padrões normais, lascou uma porção do tamanho de um punho de seu braço direito. Entregou-o ainda pulsante nas mãos de seu algoz, que satisfeito, imaginou inúmeras possibilidades de investimento para o futuro. Do mais frágil, restou a entrega de ambas as orelhas, revestidas de astúcia. Um a um foram deliberadamente entregando pedaços e mais pedaços de suas carnes frescas. Dedos, mãos, pernas, olhos. Um a um, em silêncio e conformados com o dever cumprido. Satisfeitos com os resultados, os algozes contabilizavam o que lhes chegava acompanhados de fartos sorrisos. Talvez não soubessem o quão inteiros eles ali estavam, diante daquelas figuras insignificantes, e porque não: improváveis.

Mas em meio a tantas palavras impronunciáveis, um singelo senhor se destaca. Invisível ao restante dos que se embrenhavam por aquele espaço, seguia como que em outro mundo. Era a imagem do desamparo, mas surpreendente firme. Chegada a sua vez, fez ouvir a chamada costumeira, mas viu algo dele estancar um primeiro ímpeto que brotou involuntariamente de seu corpo. Pronto a cumprir com sua parte na oferenda, mas inquieto, permaneceu aonde estava, a contemplar seus algozes. Restou-lhe um quase imperceptível movimento dos braços, mas que passou batido aos que ali presenciaram este inaceitável longo titubeio. Em uníssono, o bloco intensificou a ordem. Não seria preciso ainda mais. Ressoando por aquele ambiente fétido, todos compreendiam o caminho a ser seguido. Alguns dos presentes, desorientados e assustados com a cena, apressaram-se por entregar novas oferendas, recém destacadas para dar conta da tensão crescente. Como que vencido por algo que desconhecia origem, mas possuído por uma coragem que lhe inflamava as ventas, foi percebendo o pouco que lhe importava de onde surgia nele tal disposição. Um novo chamado precipitou seu corpo a levantar-se. Pôs-se de pé e encarou a todos como que soubesse o que viria a seguir. Não era possível, naquele momento, recuar um milímetro sequer, e para além deste fato dado, era preciso seguir a risca a única possibilidade que se ofertava naquele momento. Bendito aquele que não nega um ímpeto! Na mesma velocidade com que se pôs de pé, aquele corpo franzino se punha em cima da mesa. Em meio aos olhares estupefatos, arriou as calças, e seguiu o fluxo sugerido por suas vísceras. Pouco mudara do odor que previamente acompanhava as semanas de labuta intensa. Terminado o serviço, levantou as calças e calmamente saiu pela porta, sob o olhar de ternura do companheiro que deixava para trás.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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