03
set
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A crônica de Jeferson Tenório: Em caso de felicidade

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Em caso de felicidade, por Jeferson Tenório

Em caso de felicidade eu prefiro a vida.

Tenho essa frase anotada em algum bloco desses onde costumo registrar meus pensamentos, passei anos sem entender ao certo o que ela de fato significava para mim, entretanto, os anos foram passando e um dia eu conheci a palavra lucidez.

Desde então, comecei a entender o que essa frase me sinalizava. Quando conhecemos a palavra lucidez há algo de grave nisso. Dizemos adeus às ilusões e como num lampejo começamos a suspeitar de que existe algo mais importante que a ideia de felicidade, algo mais poderoso e simples, algo menos fugaz e menos ilusório.

Quando abandonamos a ideia de felicidade, deixamos para trás aquilo que nos torna incapaz para vida. Aos poucos, me dei conta de que tornar minha vida interessante era única coisa importante a se fazer. Mas isso dá trabalho. E para começar, tive de aceitar a tristeza que é o que se faz quando achamos que a vida não tem razão.

Ao longo de minhas tentativas com a escrita, construí alguns personagens tristes, mas a tristeza desses homens e mulheres que inventei e que estão a caminhar pelas ruas todos os dias, não são um recurso de auto-piedade, nem tampouco são personagens deprimidos. A tristeza deles foi o modo que eles encontraram para viver.

Se algum dia eu cedi a ideia de felicidade foi quando descobri que vivo num tempo fora do tempo. Que corremos o tempo todo atrás de um presente que não existe, e que lutamos cotidianamente com a passagem das horas. E agora entendo o nosso corpo como uma ampulheta orgânica a nos dizer que temos de caminhar sempre e não há o que fazer quanto a isso.

Pois se não há o que fazer que façamos que a peregrinação seja interessante. Talvez seja isto: precisamos deslocar nossa ideia de uma felicidade plena e sem sobressaltos, para uma vida mais interessante e imprevisível. Uma vida capaz de nos cativar e que nos fizesse olhar para as coisas com mais honestidade.

Em “A Felicidade conjugal”, de Leon Tolstói, temos uma grande crítica a ideia de felicidade sob a ótica da personagem María Aleksândrovna. Anciosa por casar com o aristocrata Serguêi Mikháilich,  María joga todas as fichas numa relação conjugal, como se no momento em que estivesse casada a felicidade aconteceria. No entanto, a grande diferença de idade entre eles e o cotidiano inócuo faz com María passasse a ter interesses diferentes. Desse modo, ela começa a compreender que a ideia de que seria feliz quando estivesse casada era apenas uma ilusão:

“Quando ficávamos a sós, o que já acontecia raramente, eu não experimentava alegria, nem perturbação, nem encabulamento, como se estivesse a sós comigo mesma. Eu sabia muito bem que ele era o meu marido, não algum homem novo, desconhecido, mas um homem bom, o meu marido, que eu conhecia como a mim mesma. Estava certa de saber tudo o que ele faria e diria, e como olharia; e se ele fazia algo ou olhava de maneira diversa da que eu esperava, tinha a impressão de que fora ele quem se enganara. Não esperava dele nada. Numa palavra, era meu marido e nada mais. Parecia-me que tudo devia ser assim mesmo, que não existiam relações de outro tipo e que elas nunca existiriam entre nós.” 

A grande ilusão de apostarmos tudo em um momento único, como se todas as alegrias estivessem reservadas num futuro longínquo é o que parece ser mais pernicioso. Tolstói talvez seja mais duro ao dizer que nem sempre as pessoas se casam para serem felizes. Simplesmente porque o cotidiano nos impõe uma série de obrigações burocráticas e que constantemente nos afastam daquele ideal de felicidade onde tudo é eterno, um lugar onde não há fracasso, nem tédio, nem dor.

Talvez seja melhor pensarmos que as pessoas se unem não para serem felizes, mas para tornar suas vidas interessantes. O que me parece menos ambicioso e arrogante de nossa parte. Assistindo a uma entrevista do psicanalista Contardo Calligaris entendi melhor sobre essa ilusão de procurarmos a felicidade no futuro. E dessa supervalorização da política da felicidade. Dizia ele que o mais importante não são os momentos felizes, mas o de trabalharmos arduamente para nos apaixonarmos por aquilo que fazemos de nossas vidas. E tornar nossa vida apaixonante não depende apenas de nós mesmos, mas também depende daquilo que nós fazemos com as pessoas.

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 Jeferson Tenório 01Jeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS.

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