04
set
13

A crônica de Guto Piccinini: Casimir Pulaski Day

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Casimir Pulaski Day, por Guto Piccinini

 

Não era um dia como qualquer outro. Ele caminhava em meio as árvores e em meio aos lampejos de um sol não mais intenso que o suficiente para sabermos que é dia. Gostava de caminhar em meio a esta coroa iluminada, ser levado pelas andanças de um caminho sem destino certo, um passo atrás de outro. Passava o tempo entre um mundo que vislumbrava de peito aberto, mas tomado pela aceleração crescente de pensamentos. Já passara um longo tempo desde sua longa despedida. Já passara um longo tempo, mas a cada passo sentia o quão presente em seu corpo se fazia o desenrolar daquela noite. Era um dia como outro qualquer, mas para ele, entregue àquele inocente mundo de futuro incerto, seria sempre o dia em que o indizível se faria presente. Tão cedo na vida, ele como um pluma ao vento, permeado por um tempo que não oferece trégua, era tomado por questões que não lhe pertenciam. Em sua memória apenas o vazio de um tempo cuja felicidade não lhes cabiam num sorriso, ou nos pequenos corpos que outrora ocupavam.

Duas semanas antes, estavam escondidos de quem pudesse vê-los. Riam como só poderiam naqueles tempos sem sentidos definidos, mas colados um ao outro sem saber ao certo quais os caminhos do que sentiam. Estavam envoltos pelo calor da brincadeira e pela sensação plena que só o presente tem a capacidade de nos oferecer. Ele a olhava com o brilho nos olhos de quem descobre as portas de um novo universo. Embora se conhecessem boa parte de suas vidas, foi nesse momento que algo se impôs. Ele ainda acreditava que tudo era destino do grande Criador, e diante de sua presença Ele dava testemunho de sua obra. Ela, corajosa, beijou o lado de seu rosto – o mesmo que ainda hoje ele acaricia como se fosse a ela – e saiu correndo como menina sapeca e cheia de si.

Uma semana antes, o mundo dos grandes subia aos céus com sua espada vigorosa, cortando o fio de esperança que eles ali singelamente esboçavam. Viram as lágrimas de seu pai ocuparem a casa, e o colorido dos dias dar lugar ao branco encardido e invisível da convalescença. Viram seu imaginário mundo de cabeça para baixo, quando ela, tomada pela peso precoce, correu de seus braços, apressada, com os tênis desamarrados e com a roupa amassada. Ele lembra ainda hoje quando viu-a virar-se, e com os olhos vermelhos de fúria pedir que não a seguisse por este novo caminho que se impunha. Ele lembra ainda hoje quando a visitou na mesma noite pela janela do quarto, e ela ainda em prantos, o aceitou de volta. Dormiram abraçados e sonharam o sonho onde nunca estariam longe e, se um acaso não estivessem correndo por entre as mesmas árvores que hoje ele insiste em visitar, estariam próximos como o dia em que se esconderam juntos.

Um dia antes, entoaram as preces que aprenderam nos domingos de missa. Ele a espiava com o canto dos olhos, ajoelhados com os ombros encostados e de frente para a mesma janela que dava vista para o pátio. Nada mudara com este esforço pueril, e ainda hoje brota-lhe no peito um misto de tristeza e ironia ao lembrar destes últimos momentos em que passaram juntos. Sente a dor lancinante do que lhe foi usurpado, e por esse anseio não atendido por Ele. Ela sorria como no dia em que se conheceram, enquanto ele não conseguia segurar nas mãos a responsabilidade de quem segue. Pela manhã, quando ela finalmente se foi, viu sua mão cair ao lado da cama ao mesmo tempo em que ouviu o pássaro bater no vidro da janela. Ele correu e trancou-se no banheiro, e no chão vislumbrou o que seria a vida com este dia. Mais tarde, olhando para seu corpo deitado, a viu como se estivesse dormindo, e testemunhou de relance um respiro de vida. Escrita do próprio punho, ela havia deixado uma simples carta, e que ele guarda até hoje. Uma vez mais ele a visitou durante à noite. Do alto da árvore, ele via da janela o quarto vazio, em meio ao reflexo do seu rosto, e o apelo para que nada daquilo fosse verdade. Finda a caminhada, sentou-se uma vez mais ao seu lado, a beija na testa de modo tenro e lê novamente seu último carinho.

* créditos da ideia à Felipe Lermen (que desconhece meu furto) e, logicamente, Sufjan Stevens.

 

 

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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