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A crônica de Guto Piccinini: Sobre o imponderável

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Sobre o imponderável, por Guto Piccinini

Seguia pela rua, com os pensamentos absortos neste qualquer coisa do dia a dia. Caminhava a passos largos, numa pressa imprecisa que conduzia meus passos mais do que era conduzida por eles. Nesta idade, é uma surpresa ver minhas pernas com tanta vitalidade, seguindo o rumo ditado por algo que transcende o corpo. Não é raro estes pequenos estranhamentos com nós mesmos. Passava em frente da única capela da cidade. A acompanhava com o olhar distante, tangenciando a sensação de estar sendo interpelado pelo prédio, do outro lado da rua, como num misto de repulsa e curiosidade. Há muito recusara a frequentar os encontros tão comuns à cidade, demasiadamente centralizados, e mesmo nos últimos anos havia tornado mais intensa esta relação, evitando entrar ou mesmo a passar por perto do local. Sabemos os efeitos incontornáveis que a primeira decisão confere a estas relações. Mas, de algum modo, segui para aquela direção. Estanquei em meu fluxo contínuo e resolvi adentrar neste antro de espiritualidade e benevolência. Não era um prédio imponente, mas de uma humildade singela, preenchido por adornos simples, de um branco gasto pelo tempo. De frente para a fachada, um pouco mais simpática desta distância, vi um movimento incomum. Pessoas se aglomeravam em uma sala estreita, recheada de flores e tristeza. A ideia da morte já faz parte do meu cotidiano envelhecido, como uma contagem regressiva que se aproxima em aceleração constante. Estava sendo velado um homem, de uma juventude que acompanha grande indignação o costumaz abatimento e consternação.

O corpo compõe serenamente com o silêncio imposto aos remanescentes que o rodeavam em clima fúnebre. Permaneço de pé na soleira da porta e acompanho de longe o zumbizar de palavras que intentam aconchegar às duras penas aquele encontro com a ausência. Eram homens e mulheres extasiados por este embate injusto, de modo geral inócuo, de constituir algum sentido ao imponderável. Penso que aí nos deparamos com o peso do fracasso de nossa onipotência. Momento sublime em sua crueza, donde o passado e o futuro perdido explodem num presente derradeiro e implacável. Ali, testemunho pessoas serem solapadas do desejo inocente da imortalidade. Lembro de ser pequeno e imaginar a experiência da morte como um outro mundo, distante, como se pudesse desviar de seu golpe certeiro no último instante. Presente em todas as pessoas que rodeavam a si próprios naquele ritual de despedida, nada mais fazia sentido nisto que era sentido. Não havia por onde mover-se. Estático, dou-me conta de que, nestes momentos, compadeço daqueles que permanecem. Não somente num sentido de amparo à dor que lateja lancinante e que, torpes, insistem nesta caminhada incompreensível. Preocupam-me os restos desta vida espalhados, de seu passado renascido, das imagens de um virtual futuro. Uma memória viva, ilustre e iluminada. Afinal, o que seria a morte? Estúpida e inextinguível. Cada qual com sua ínfima existência, terminado o rito, carrega consigo um pedaço desta história, re-avivando e preenchendo as lacunas dessa dúvida infinita.

* Este texto é uma singela homenagem ao amigo Samuel Eggers. Parafraseando Primo Levi sobre a sensação de vazio que permeia mim e a todos que o conheciam: “Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa língua não tem palavras para expressar essa ofensa, a aniquilação de um homem”.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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