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set
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A crônica de Emir Ross: Venda

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Venda, por Emir Ross

Vendo meu carro. Por uns tostões a mais entrego também a carteira de habilitação. Se o comprador desejar, vendo juntamente meu nome. E, caso haja interessados, poderia oferecer os dentes. Um rim. Ou as coisas que aprendi na última década.

Em Porto Alegre tudo é negociável. Do teste do bafômetro à esposa do melhor amigo. Só há uma coisa que não se pode ter nesta cidade: automóvel. Por isso vendo o meu. Ou troco por um skate.

Aqui, ao se estar ao volante, nada pode ser feito com tranquilidade. Ou afeta-nos o trânsito que insiste em pensar que somos pílulas numa cartela de neosaldina ou afeta-nos o pavor, que insiste em sugerir que o motoqueiro a aproximar-se é um assaltante em potencial.

Eu já tinha neuroses suficientes. Agora, apavoro-me toda vez que me sugerem pegar o carro para ir ao futebol. A combinação automóvel-PortoAlegre já virou epidemia. Os glóbulos de um não aceitam as veias do outro. É só afrouxar o relaxômetro e a Brigada abre mais uma pasta de casos a resolver.

Mas então, quem será doido o suficiente para comprar meu carro? O mesmo sujeito que tiver o santo discernimento de comprar também um rim a fim de estocar no Mãe de Deus para quando algum membro da família vier a necessitar.

O carro custa seguro, combustível, estacionamento, condomínio, manutenção, lavagem, e outras coisas mais que não utilizo. Mas custa, principalmente, tensão, ou o contrário dela. Custa saúde. Houve época em que eu pagava seguro do meu Ford e não sobrava dinheiro para o Plano Fátima. Oficina autorizada para ele, fila do SUS e tapinha nas costas pra mim. No entanto, ratifico aos compradores que meu rim está em perfeito estado de conservação, como podem ver, nunca foi batido, riscado, nem nada, é original de fábrica e tem todos os manuais de nascimento e vacinação. Depois de retirado é só lavar e congelar. Caso for da vontade do cliente, pode mandar avaliar por um médico de sua confiança.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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