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A crônica de Emir Ross: Fred

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Fred, por Emir Ross

Conheço o Fred há mais de 10 anos. Quinze? O Fred sempre acha que me surpreende. Eu finjo que acredito. Depois faço um contraponto. Só para confundi-lo. Certa vez tentou convencer-me sobre a existência de sereias. Assistira a um documentário.

“Sério, elas existem”.

Ele sempre acha que me traz novidades. Eu disse duvidar daquela história. Só pra causar polêmica.

“É uma invenção, meu camarada.”

Despedi-me. Minha sereia precisava ser alimentada. Vive lá em casa há dezenove anos. No aquário. Do quarto.

Sou seguidor daquele santo que só crê no que vê. Ou seja, faz pouco tempo que acredito em sereias.

Então o Fred veio com outra novidade: as pessoas mais felizes do mundo vivem numa ilhazinha da Oceania, praticamente sem eletricidade, moeda corrente, comércio e blá-blá.

Certamente são as mais felizes. Primeiro porque não tem a CEEE para lhes trazer problemas. Depois por não haver moeda. E comércio. Ou seja, as mulheres fazem o que têm que fazer e não ficam cobrando alianças vinte e quatro quilates e o diabo a cinco.

Gosto muito do Fred. Conversando com ele, me sinto na vanguarda.

Mas a vanguarda nada mais é que um motivo de preocupação. Queremos tanto nos sentir exclusivos e na frente de todos que acabamos sempre dando um passo atrás. A humanidade se divide em círculos. Nos primórdios, se usava pouca roupa. No século XXVIII, muita. Agora estamos diminuindo. No carnaval, tiramos tudo.

Não creio que a roupa seja a essência da felicidade. Mas não dá pra contestar que as melhores coisas da vida se faz sem ela. O que seria de um banho de mar, por exemplo, usando de terno e gravata? A Cicarelli não iria gostar.

Mas a opinião dela não é das mais importantes. O que vale é a opinião do Fred. Apesar de formais, são conciliatórias. Acredito que ele foi uma princesa em outra vida. De uma tribo ou nação da América Central. Onde se usava pouca roupa e fazia-se sacrifícios humanos. Por isso seu não-medo de morrer. E seu desejo de levar a vida leve.

Eu não consigo.

Minha vida é pesada. Começando pela balança. Continuando pelas opiniões. Tudo em mim tem um peso enorme. Não acredito nos outros, muito menos em mim. É tão complicado definir as coisas, quanto mais dar nome às criaturas. Para mim, tudo é uma invenção. Duvido que seria feliz naquela ilha da Oceania. Primeiro por não conseguir viver sem energia elétrica. Segundo, por eu não conseguir viver sem problemas. E, terceiro, porque aquela ilha não existe. Minha sereia que o diga.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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