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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Por que ler Províncias

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Por que ler Províncias, por Jaime Medeiros Júnior

Provincias

Santa Maria, feira do livro de 2012, paro para escutar Marcelo Canellas falar em entrevista em meio à praça Saldanha Marinho. Tema: jornalismo e jornalismo literário. Escuto e aprendo. Nenhuma notícia vem às páginas de um jornal ou vira matéria de TV com isenção. Quem refere fatos, fatalmente terá de alguma forma escolher como contá-los. Essa escolha nunca será isenta e não o deve ser. Então ele nos oferece exemplos de como uma mesma história pode ser dita de modos totalmente diferentes e sem falseá-la e com recepções totalmente diferentes. Não saberei aqui reproduzir os exemplos dados. Mas creio poder explicar o sentido da coisa. Busco alguns fatos, muito provavelmente já um tanto coloridos pela memória que tenho deles. Porto Alegre, década de 80, sessão da meia-noite no Cine ABC. Na tela,Tom Conti, encantado com os estupendos dotes de Kelly McGillis, apanha, em meio a relva da praça da pequena cidade onde estão, um raminho de Loranthacea e, tentando lhe explicar porque as palavras não são isentas de valor, pondera: imagine se deixássemos de chamar a isto erva de passarinho e o chamássemos de olhos de Maria. Muito provavelmente deixaríamos de descuidadamente pisar sobre a erva, e procuraríamos ver onde haveríamos de pousar nossos pés, cheios de medo de feri-la. Contar bem os fatos parece não ser mais que atinar, que descobrir o nome mais capaz de nos desvelar aqueles mesmos fatos.

Marcelo escolheu começar pelos espinhos. Santa Maria teve motivos pra chorar, ele nos situa dentro dessa dor. Mas aqui os cardos também podem coroar alguém, alguém que habita uma das tantas curtas histórias que ele vem nos contar. Histórias de gente, principalmente. Histórias de lembrar. Histórias de encontros. E aqui vale retornar à praça Saldanha Marinho e ouvir Marcelo dizer quão diferentes hão de ser a história na qual os fatos acabam por se submeter às expectativas que guardamos a respeito deles daquela que se registra a partir da escuta, história que é capaz de submeter nossas expectativas à realidade que nasce da capacidade de se surpreender com o que se escuta, escuta que é capaz de desentortar o sentido das coisas. O diagnóstico não é sequestrar a realidade dentro da letra morta do livro de patologia ou de clínica, mas sim ser capaz de construir sentido com o que se colheu na história e no exame do outro a nossa frente.

Se você aceitar o convite de se entregar a leitura do livro Províncias (Ed. Globo), haverá de saber o que acontece quando um menino se encontra com o elefante do circo, também do encontro de duas trôpegas criaturas em uma praça, do que acontece com uma balzaquiana após sua sombrinha ter-se quebrado pelo vento, ou com um beija-flor ao invadir uma biblioteca. E muito provavelmente descobrir o acento de um mundo que quer se fazer distante da nossa comum, apressada e citadina indisposição para com a vida. Pequenas histórias contadas pelo jornalista, pelo homem, e porque não confessar, pelo meu amigo Marcelo Canellas.

jaime medeiros júniorJaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Mantém o blog Simples Hermenáutica.

 

 

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