Arquivo para 28 de outubro de 2013

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A crônica de Jeferson Tenório: Nem se o Antônio Candido dissesse

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Nem se o Antônio Candido dissesse, por Jeferson Tenório

A sensação de quando entregamos um texto nosso para alguém ler, pelo menos para mim, é quase a mesma de um pai ou uma mãe quando vai deixar seu filho aos cuidados de uma pessoa.  Na ausência dele, nos tornamos ansiosos e pensamos como ele deve estar e o que ele anda aprontando. E quando voltamos para buscá-lo, assim como um filho, que passou horas ou dias longe de nós, queremos saber como ele se portou. Se pudéssemos, gostaríamos de acompanhar fisionomia desse leitor e cada frase, a cada palavra e contaríamos quantas vezes ele levantou a cabeça para refletir sobre aquilo criamos.

Tudo isso é muito bonito, mas na verdade ninguém acredita muito num aspirante a escritor. Quando você diz que escreve, ou que terminou um livro, as pessoas te olham com estranheza e desconfiança. No inicio, por outro lado, quando entregamos um original para alguém, queremos no fundo que essa pessoa nos encha de elogios e nos dê motivos para prosseguirmos. E, talvez, este seja o momento mais frágil de quem começa a escrever, porque pode ser que o escritor iniciante não esteja preparado para as críticas. Pode ser que ao escutar que seu texto é ruim possa levá-lo a desistir de tudo.

Acho que tive a sorte de encontrar pessoas sérias que leram meus textos com atenção e foram duras comigo. Duras, mas honestas. Entretanto, isso não significa que quando um original é devolvido temos de aceitar tudo com resignação.  Aí entra uma certa maturidade literária aliada a uma intuição estética entre aquilo que de fato está ruim e aquilo que você julga estar bom.

Um escritor não nasce quando seu livro é publicado. Um escritor nasce quando assume o risco de expor sua escrita para si mesmo com toda a honestidade possível. No entanto, quando você apresenta um texto para alguém, você está expondo aquilo que você julgou ser o máximo que conseguiu alcançar. E isto é tão poderoso e ao mesmo tempo tão frágil.

O problema é que nem sempre as pessoas estão dispostas a ler um original. Algumas pessoas para quem passei meus primeiros escritos não deram muito importância para mim, no máximo um tapinha nas costas e um consolador “vou ler, depois te digo”. Acontece que algumas vezes esse “depois” nunca chegava.

Mas isso faz parte de todo o processo, porque quando um sujeito decide gastar a vida escrevendo, ele não pararia nem mesmo se o Antônio Candido chegasse e dissesse; “filho, pare com isso, vá fazer outra coisa, a escrita não é pra você”, nem mesmo assim o faria parar. Quero dizer com isso que quem decide levar a escrita a sério, aguenta o tranco. Aguenta narizes torcidos, aguenta os olhares desconfiados, aguenta por anos a fio a vida solitária e anônima. Aceita que por anos a criação será isto: o escritor e sua obra. Nada mais. Por anos, ninguém saberá dessa guerra interior travada dentro de quem escreve. Ninguém mais que escritor saberá o quanto lhe custou levar isto adiante. É preciso um certo fanatismo, como disse Ernesto Sábato, em “Os escritores e seus fantasmas”. Sem fanatismo não se faz literatura.

E o mais comovente disso tudo: alguém poderá gastar a vida nisso, sem garantia nenhuma de que vai dar certo, e mesmo assim ele vai continuar. A literatura é feita mais de erros do que de acertos. Sem quixotismo também não se faz literatura. Quando um escritor senta na frente de uma tela, ele precisa criar um moinho por dia, acreditar que daquela tela fria sairá um mundo, mesmo sabendo que o mundo é um moinho e pode triturar nossas ilusões, como diria Cartola.

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 Jeferson Tenório 01Jeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS. Acaba de lançar pela Sulina o romance O beijo na parede.

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Palavraria - livros a

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28
out
13

Mercado de pulgas, por Nelson Rego

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02

 

Mercado de Pulgas

 mercado de pulgas

Coletânea de aforismos e outros textos curtos produzidos por Nelson Rego

 

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O todo e as partes

Antes do segundo e depois do primeiro são três: um, outro, e os dois.

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Graficamente

As metades de oito são zero e três.

A prova: três deitado é pires para zero e zero, igual a oito.

Por onde se vê que, às vezes, para recuperar o inteiro, são necessárias três metades.

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Lógica

Não se sabe se aquele gato cinzento é assim porque absorve a cor dos ratos que come ou se a natureza o fez nascer assim para aproximar-se, despercebido, das presas, como se rato também fosse.

E quanto aos gatos pretos, brancos, amarelados e malhados, também existem ratos pretos, brancos, amarelados e malhados.

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Ênfase

Será que “não-impossível” é o mesmo que “possível”?

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Racionalidade

O homem é o único animal que voluntariamente se apresenta ao cirurgião.

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Nelson Rego é autor de Tão grande quase-nada (Tomo Editorial, 2004), livro de biografias ficcionais e de Daimon junto à porta (Dublinense, 2011), livro vencedor do prêmio Açorianos de Literatura em 2011, no gênero conto. Participou das antologias de contos Inventário das delicadezasBrevíssimos e Novos contos imperdíveis, todas organizadas por Charles Kiefer. Ganhou prêmios literários com poesias. É professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com formação em geografia, filosofia, sociologia e educação. É autor e organizador da coleção de livros Geração de ambiências e de outros títulos, que reúnem apresentações e análises de práticas inovadoras em educação formal e não-formal.

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Mercado de pulgas aparece quinzenalmente, às segundas-feiras, neste blog.

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