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A crônica de Lilian Velleda Soares: Escrever

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Escrever, por Lilian Velleda Soares

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Diz-me por que escreves, pediu a minha querida Hilda Simões Lopes. Não hoje, nem agora. Mas quero partilhar o motivo. Um dia encontrei Ernesto Sabato. Ele cochichou no meu ouvido haver “provavelmente, duas atitudes básicas que dão origem aos dois tipos fundamentais de ficção: ou se escreve de brincadeira, para entretenimento próprio e dos leitores, para passar e fazer passar o tempo, para distrair ou procurar alguns momentos de evasão agradável; ou se escreve para investigar a condição humana, empresa que não serve de passatempo nem é uma brincadeira nem é agradável”. Eu li e reli, alternando dias e meses, esta passagem de O Escritor e Seus Fantasmas. E a pergunta feita se insinuou em mim entre um escrito e outro. Ela me pertubou por agulhar a necessidade de uma resposta – se eu escrevia para satisfazer minha vaidade, ou por necessidade. Eu fugi da resposta, descobrir-me incapaz de contar histórias desconcertava. Dor doida.  Aos poucos descobri que a escrita provedora da vaidade não resiste ao tempo, não suporta a crítica, não enxerga seus limites. Narcísica, é incapaz de ver beleza e verdade na escrita alheia – sim, o narcisista desqualifica o que não é seu, por ser incapaz de compreender. Acalmei minhas dores ao perceber que sempre se rediz o já dito, cada escritor com uma resposta para  essa indagação. E que escrever é difícil, um auto-imolamento. Eu me imolo nas canetas e papéis que diante de mim vou amontoando, no pensamento que persigo durante o dia e enquanto durmo em sono profundo. Eu me rasgo nesse ato simples e rotineiro de dizer.  Escrevo atrás de significado para a vida minha e de outros Eus, para repousar os ossos dos dias e entender a calmaria ou o furacão do infinito de dentro. Mergulho nessas letras todas, acolherando signos (resiste à tentação de amontoar palavras, adverte-me o escritor!).  Eles falam de mim e do mundo, e então sinto uma coceira desde os pés até o olho, e vou me entregando endemoniada ao branco da página em branco diante dos olhos turvos pela urgência de dizer. O fato é que às vezes sei o início, geralmente sei o fim, busco um meio de caminho, uma ponte que reinstale a minha inteireza e me dê um pouco de paz pelo menos até o próximo rebento. Sim, são meus filhos os meus escritos, eles re-significam a vida. Talvez eu não deva, talvez não tenha nada a dizer ao Outro. Mas se eu disser apenas para mim (também outro um instante depois), está bom. Posso, pela escrita, me salvar.

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lilian velleda soaresLilian Velleda Soares

Pelotas/RS

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1 Response to “A crônica de Lilian Velleda Soares: Escrever”


  1. 1 vivian cc hoechner
    18 de novembro de 2013 às 14:21

    Bárbara a crônica da querida, amiga e bárbara Lilian, colega de oficina e de vida. Ela disse tudo. Tem que amar muito esse negócio que é “dor doída”, que é auto-imolamento. Aí se produz coisas lindas como as que ela escreve.


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