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A crônica de João Pedro Wapler: 2001: uma odisseia sonora

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2001: uma odisseia sonora, por João Pedro Wapler

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Posso estar sendo meio atrasado fazendo só agora um balanço da década iniciática do novo milênio, mas creio que só agora sinto-me municiado para escrever sobre ela. Essa década será lembrada para sempre, eu acho. Os números não mentem. O início de um novo milênio é um fato astrológico e histórico por si só, mesmo que não ocorra nada de excepcional durante esse período do calendário.

Não vou fazer revelações estrondosas aqui, não sou o Bauman, o Lipovetsky ou algum participante do Fronteiras do Pensamento, mas acho que tenho o direito de falar algumas coisas que para muitos soarão óbvias. É para isso que servem crônicas, não? Pois vamos lá! De volta ao passado recente…

No ano 2000 eu estava no apogeu da adolescência e isso coincidiu com o grande boom da internet. Pela primeira vez na história a facilidade de fazer downloads de músicas atingiu seu ponto nevrálgico com os primeiros programas de compartilhamento. Lembram do famoso Napster que foi processado logo depois de seu auge pela banda Metallica? Imagina hoje como o Metallica faria para processar quem compartilha suas músicas…

Enfim, eu lembro que na pré-história do compartilhamento, o mais comum era baixar músicas separadamente e não em álbuns. Como um ávido colecionador de discos e pouco afeito a engenhocas tecnológicas, nunca fui um grande usuário de mp3. Mas lembro de como era sensacional e mágico poder ter a qualquer instante ao seu alcance tal música dos Stones ou do Rauzito. Hoje todo mundo acha isso a coisa mais banal do mundo, mas já não foi tão facilzinho assim.

Antes da internet para ouvir alguma música eu gravava ela do rádio numa fita cassete. Parece papo de titio, mas eu não sou um cara velho, vejam só! Outro divertimento meu era ir até a uma loja de discos perto da minha casa e pedir para escutar algum disco. Isso soa tão antiquado hoje, mas não faz tanto tempo assim. Só uma passagem engraçada da vida: um amigo meu até hoje não tem toca cd no carro, pois ele diz que o cd “pula”. Por isso ele gasta R$4 numa fita cassete e grava seu jazz pra ouvir no seu fusca.

Durante a primeira década do novo milênio vivemos um dos momentos mais interessantes da música brasileira. Nunca surgiram tantas novas bandas, cantores e cantoras. Antes conhecíamos só o que saía no rádio ou em disco e passamos a descobrir novas sonoridades crocantes graças à Madame Internet. Isso foi revolucionário e resultou num novo paradigma cultural. Os artistas deixaram de ser medidos somente pelo número de discos que vendiam e passaram a focar em outras formas de divulgação do seu trabalho, buscando inclusive um contato mais próximo com seus fãs.

Os sites, blogs e páginas em redes sociais tornaram nossos deuses do Olimpo musical mais humanamente acessíveis. Os números de shows e de downloads também aumentaram a facilidade de conhecer a obra de um artista. Se antes era preciso desembolsar uma grana e garimpar álbuns antigos, com o tempo e alguns cliques, o sujeito toma conhecimento de toda uma carreira.

Parece que quem não gostou dessa história toda foram as gravadoras e os grandes grupos de mídia que antes monopolizavam a imagem dos artistas e mediavam a interação deles com os fãs. O combate inútil à pirataria e ao mp3 de graça foi uma das causas perdidas dessas grandes corporações que antes de compromisso com a arte têm preocupação com o próprio bolso.

Hoje um artista não sobrevive vendendo discos e sim com uma miríade de opções. Ele não depende mais de uma gravadora pra ser feliz. O cara pode gravar em casa, divulgar na internet e daí por diante. Por um lado essa facilidade fez com que grande parte das bandas e cantores primassem mais pela divulgação do que propriamente pelo aprumo sonoro. O delírio da rapidez com que se divulga pode eclipsar o processo criativo e tornar os artistas deslumbrados facilmente.

Pois bem, o grande barato da nossa era é produzir com facilidade, o que gera muita coisa boa e muito lixo eletrônico, essa é a verdade. Não temos mais grandes bandas como Beatles, Stones, Led e The Doors e sim diversas bandas boas e algumas muito boas. Essa é a marca do início do novo milênio. A facilidade de se expressar nos deixa mais preguiçosos, mas quem dirá que na década de oitenta era melhor? Por que era melhor, cara?

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joão pedro waplerJoão Pedro Wapler é ator e escritor. Mantém o blog de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com).

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