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A crônica de Gustavo Lagranha: Fleet Foxes: Música transcendente

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Fleet Foxes: Música transcendente, por Gustavo Lagranha

album_fleet_foxes

Quando criança, eu me entretinha com um certo brinquedo de montar imaginando castelos, reis e lutas entre cavaleiros. Meu filme predileto, ao qual devo ter assistido no mínimo cento e cinquenta vezes, era a Espada Era a Lei, da Disney, uma versão infantil para a lenda do Rei Artur.

Não saberia explicar a razão de haver em meu violento imaginário de guri um espaço tão especial para a Idade Média. Não sou dos mais crentes em vidas pretéritas, logo me afasto de tal linha de raciocínio. Sei que em seguida me demorei no feudalismo, ao estudar História, bem como nas músicas do Led Zeppellin que evocavam raízes célticas[1].

Ano passado quando, tanto por curiosidade como por atração, comecei a estudar os músicos folk americanos e ingleses, recebi a sugestão de um amigo: escute Fleet Foxes. Foi uma estupefação à primeira audição e também um estranhamento. As vozes limpas e melódicas, as harmonias simples e inusitadas estavam impregnadas daquele acento medieval tão caro à minha imaginação.

Ouvi, ouvi de novo e de novo. Li críticas, a maioria favorável, tentando entender a natureza da fascinação que o grupo de Seattle me provocou. Como gostos são normalmente inexplicáveis, segui no simples escutar o EP e os dois álbuns da banda.

Há um problema no compartilhamento massivo de músicas pela world wide web. Consiste em que já se torna raro termos acesso ao objeto CD, DVD ou vinil. Com os Fleet Foxes foi assim, não o nego: entrei num software de downloads, baixei os discos da banda e os passei para o pen drive que utilizo no carro. Nada do álbum, com capinha, letras e créditos. Apenas arquivos de música transitando por diversos tipos de mídia.

Pois aí me escapou a chave que integraria as referências. Eis que a capa do primeiro álbum do grupo, o epônimo Fleet Foxes[2], é a reprodução de uma pintura de Pieter Bruegel, o Velho, representando uma tumultuada cena camponesa da Alta Idade Média. Claramente sob a influência de Hyeronimus Bosch, referência primária para mim, o “Peasant Bruegel” está retratando a decadência do feudalismo.

Então se revelou por que a música dos americanos e seu tom reminiscente me fazem tão bem: num mundo em que assistimos à decadência de um sistema antigo de viver – que em minha pequena cidade muito corresponde ao modo feudal – devemos, como o fizeram Joyce, Eliot e outros grandes, procurar no caos de nosso tempo o homem universal, de valores universais. Foi sempre esta minha crença, e me satisfaço muito em encontrar uma música que embale minhas esperanças de que tal feito seja possível.


[1] Escute Friends, do álbum Led Zeppellin III, e The Battle of Evermore, do Led Zeppelin IV, ambos da Atlantic Records

[2] Onde se encontra minha faixa predileta da banda: Tiger Mountain Peasant Song.

gustavo lagranhaGustavo Lagranha é bancário e estudante de Direito. Mora em Vacaria, cidade dos campos de cima da serra onde nasceu, longe dos estertores da capital. Morou em POA por cinco anos, onde virou fã, frequentador e amigo da Palavraria, tendo publicado nessa época contos nas antologias 103 que Contam e Novos Contos Imperdíveis, ambas organizadas por Charles Kiefer.

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1 Response to “A crônica de Gustavo Lagranha: Fleet Foxes: Música transcendente”


  1. 1 Maria Lagranha
    20 de janeiro de 2014 às 21:33

    Estou arrepiada, emocionada e super feliz em ler algo tão profundo, bem fundamentado e esclarecedor escrito pelo meu filho. Um jovem que vive seu momento e nos mostra que não interessa onde você esteja, em que cidade você mora ou País , se você ama o que faz, vai realizar coisas grandiosas!!!!! Que lucidez Gustavo! Parabéns meu filho… Continue nos presenteando com suas perfeitas reflexões! Super beijo


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