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A crônica de João Pedro Wappler: Não como nossos pais

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Não como nossos pais, por João Pedro Wapler

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Ouço muito pelos bares da vida sobre a dispersão cognitiva da minha geração. Como sou filho dela me sinto atingido pelas críticas. Minha mania de perseguição me faz revidar aos chato de plantão: “Nós não somos só um bando de idiotas viciados em Facebook!” Muitos dizem que somos hiperconectados mas pouco aprofundados. Isso faz todo sentido. Assino embaixo. Mas o que eu acho que faz falta para os especialistas em matéria de vida é captar a difusa e fragmentada linguagem de hoje. Será que esses críticos dos tempos vigentes não são simplesmente saudosistas perdidos na maré de informação?

Paradoxalmente, muitos dos ditos mais velhos se dão muito bem na nossa pós-modernidade cada vez mais atomizada. São jovens de cabeça. Apesar de muita gente madura de idade se sentir hostilizada no mundo virtual, não é tão difícil assim aderir a ele. Depois de algumas horas na frente do PC, qualquer tecnófobo aprende o bê-á-bá da web. O fato é que quem não navega na internet hoje acaba sendo convidado para um cruzeiro marítimo nas águas tecnológicas. Mesmo quem odeia a web não pode mais evitá-la. Só por curiosidade: você conhece alguém que não tenha celular? Pois é, muita gente odiava esses aparelhinhos e hoje é quase impossível viver sem um.

O grande barato de hoje não é propriamente a profundidade intelectual e o fanatismo por ideologias, características típicas de décadas antecessoras. O grande esquema do novo milênio é o acesso quase universal à informação. Essa é a revolução que foi forjada pela tecnologia. O que falta provavelmente é tempo para os filhos do novo milênio digerirem tudo o que cai no prato cultural deles.

Vejamos só o caso do cinema. Há algum tempo atrás para ver filmes antigos o cara precisaria gastar uma grana na locadora ou esperar que por sorte algum clássico passasse na tv a cabo. Fora isso muitos filmes nunca foram lançados em cópias para serem assistidos em casa. Com a internet o sujeito pode achar praticamente todos os filmes da história do cinema de graça. Isso é absolutamente revolucionário e faz um bem extraordinário para o novo público.

Por incrível que pareça para muitos críticos dos jovens “alienados de hoje”, nunca foram assistidos tantos filmes clássicos pelos mais imaturos em matéria de cultura. Num final de cinema, uma adolescente pode fazer download e ver todos os filmes do Truffaut.

Isso gera uma nova geração de cinéfilos. Estão por aí se proliferando amostras de cinema, que são possibilitadas por esse acesso irrestrito a filmes. Antes a batalha era complicada. O programador buscaria VHS’s em cópias esdrúxulas ou gastaria uma fortuna para importar películas.

Nossa geração do novo milênio é altamente retrô. Ela ama o antigo. Ele é referência pra ela. Nunca a nouvelle vague foi tão assistida como é hoje.

O que mais atrapalha a rapaziada de hoje é a falta de foco. Com uma filmografia imensa na palma da mão, não sabemos que filme ver primeiro e antes de ver algum título já se está pensando no próximo. Outro dado é a doentia falta de paciência da moçada. Quantos conseguem ver um filme inteiro hoje sem nunca pausar?

A recepção da arte mudou completamente. Ela é entrecortada, impaciente, exigente, sedenta por estímulos e mais estímulos, até ficar saciada. Diretores como Tarantino captaram genialmente o Zeitgest dessa geração e se tornaram ícones incontestes da pós-modernidade.

Será que alguém aguenta hoje um Antonioni? A globalização massificou muito a cultura mas paradoxalmente deixou ela muito variada também. Há público pra tudo.

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João Pedro Wapler. Ator e escritor. Assina o blog de poesia Poesia Imoral (http://poesiaimoral.blogspot.com) e o de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com) . É colunista de literatura do site O Café (http://ocafe.com.br). 

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