Archive for the 'Registros Especiais' Category

25
nov
13

Mercado de pulgas, por Nelson Rego

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04 

Mercado de Pulgas

 mercado de pulgas

Coletânea de aforismos e outros textos curtos produzidos por Nelson Rego

 

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Ciência exata

O ponto é a intersecção resultante do cruzamento de duas retas e a reta é o resultado de um alinhamento de pontos.

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Eu e tu nunca existimos

Qualquer biografia é ficcional.

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Sim, sim, já entendi

Não me ofende quando alguém, na literatura, no cinema, no teatro ou nas artes, meramente conta uma boa história, ao invés de ficar a me advertir e demonstrar, e a querer me conscientizar, de que a linguagem é uma linguagem, é uma linguagem, é uma linguagem, é uma linguagem, é uma linguagem, é uma linguagem, é uma linguagem, é uma linguagem, é uma linguagem, é uma linguagem, é uma linguagem, é uma linguagem

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Contradição de termos

Show intimista.

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Nelson Rego é autor de Tão grande quase-nada (Tomo Editorial, 2004), livro de biografias ficcionais e de Daimon junto à porta (Dublinense, 2011), livro vencedor do prêmio Açorianos de Literatura em 2011, no gênero conto. Participou das antologias de contos Inventário das delicadezasBrevíssimos e Novos contos imperdíveis, todas organizadas por Charles Kiefer. Ganhou prêmios literários com poesias. É professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com formação em geografia, filosofia, sociologia e educação. É autor e organizador da coleção de livros Geração de ambiências e de outros títulos, que reúnem apresentações e análises de práticas inovadoras em educação formal e não-formal.

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Mercado de pulgas aparece neste blog quinzenalmente às segundas-feiras.

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Palavraria - livros a

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11
nov
13

Mercado de pulgas, por Nelson Rego

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03 

Mercado de Pulgas

 mercado de pulgas

Coletânea de aforismos e outros textos curtos produzidos por Nelson Rego

 

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Objeto não-voador identificado

Veículo fumacento movido a combustível fóssil e falta de juízo.

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Advertência sobre contratos existenciais feitos às pressas

“Mais ou menos” significa quase sempre “mais, o menos”.

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Oportunidades para dramas e comédias

Nem todo enamorado é namorado e nem todo namorado está enamorado.

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Micologia

Cerimônias de casamento, banquetes natalinos, baladas de fim de semana, discursos de formatura e similares.

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Condomínio

Estrutura mineral infestada por organismos de carbono.

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Nelson Rego é autor de Tão grande quase-nada (Tomo Editorial, 2004), livro de biografias ficcionais e de Daimon junto à porta (Dublinense, 2011), livro vencedor do prêmio Açorianos de Literatura em 2011, no gênero conto. Participou das antologias de contos Inventário das delicadezasBrevíssimos e Novos contos imperdíveis, todas organizadas por Charles Kiefer. Ganhou prêmios literários com poesias. É professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com formação em geografia, filosofia, sociologia e educação. É autor e organizador da coleção de livros Geração de ambiências e de outros títulos, que reúnem apresentações e análises de práticas inovadoras em educação formal e não-formal.

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Mercado de pulgas aparece neste blog quinzenalmente às segundas-feiras.

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Palavraria - livros a

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28
out
13

Mercado de pulgas, por Nelson Rego

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02

 

Mercado de Pulgas

 mercado de pulgas

Coletânea de aforismos e outros textos curtos produzidos por Nelson Rego

 

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O todo e as partes

Antes do segundo e depois do primeiro são três: um, outro, e os dois.

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Graficamente

As metades de oito são zero e três.

A prova: três deitado é pires para zero e zero, igual a oito.

Por onde se vê que, às vezes, para recuperar o inteiro, são necessárias três metades.

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Lógica

Não se sabe se aquele gato cinzento é assim porque absorve a cor dos ratos que come ou se a natureza o fez nascer assim para aproximar-se, despercebido, das presas, como se rato também fosse.

E quanto aos gatos pretos, brancos, amarelados e malhados, também existem ratos pretos, brancos, amarelados e malhados.

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Ênfase

Será que “não-impossível” é o mesmo que “possível”?

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Racionalidade

O homem é o único animal que voluntariamente se apresenta ao cirurgião.

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Nelson Rego é autor de Tão grande quase-nada (Tomo Editorial, 2004), livro de biografias ficcionais e de Daimon junto à porta (Dublinense, 2011), livro vencedor do prêmio Açorianos de Literatura em 2011, no gênero conto. Participou das antologias de contos Inventário das delicadezasBrevíssimos e Novos contos imperdíveis, todas organizadas por Charles Kiefer. Ganhou prêmios literários com poesias. É professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com formação em geografia, filosofia, sociologia e educação. É autor e organizador da coleção de livros Geração de ambiências e de outros títulos, que reúnem apresentações e análises de práticas inovadoras em educação formal e não-formal.

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Mercado de pulgas aparece quinzenalmente, às segundas-feiras, neste blog.

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Palavraria - livros a

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16
out
13

Vem aí, de 31 de outubro a 15 de novembro de 2013: Feira Além da Feira

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FEIRA ALÉM DA FEIRA – 2013

De 31 de outubro a 15 de novembro de 2013

feira além da feira 2013Uma programação que privilegie a literatura em tempos de Feira do Livro. É com essa ideia que está sendo lançado em 2013 o evento FEIRA ALÉM DA FEIRA. Reunindo grandes nomes da literatura no Rio Grande do Sul, entre escritores, tradutores e estudiosos de literatura, o evento reunirá debates, cursos, oficinas, saraus e outras tantas atividades em torno da literatura, tendo como palco livrarias que não estão presentes na Praça da Alfândega nesses dias de Feira do Livro, mas que apoiam a literatura continuamente ao longo do ano.

A criadora e coordenadora do evento, Gabriela Silva – que assina com a Breviário Cursos a curadoria -, diz que a intenção era reunir os agitadores culturais que trabalham continuamente com a literatura e reunir em um evento que acontecesse em paralelo à Feira do Livro, mas não como um contraponto ou protesto, e sim para dar à literatura o protagonismo que o evento da Praça da Alfândega aos poucos lhe foi tirando.

Na organização do evento estão Gabriela Silva, Jeferson Tenório, Robertson Frizero, Eduardo Cabeda, Carla Osório e Fernando Ramos.

Os eventos do Feira Além da Feira 2013 são gratuitos. Para as oficinas e cursos, pede-se inscrição prévia pelo site da Breviário, na seção INSCRIÇÕES, e a taxa de R$ 5,00 (cinco reais) recolhida no local para a emissão de certificados. As inscrições estão abertas e as  vagas são limitadas.

feira além da feira 2013 - progr

Locais:

Palavraria – Livros & Cafés
Palavraria - livros aRua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim
Telefone 51 3268 4260

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Livraria Bamboletras
bamboletras

Rua General Lima e Silva, 776 – Loja 03 – Cidade Baixa
Telefone 51 3221 8764

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Sapere Aude Livros
sapere aude livros

Rua Lopo Gonçalves, 33 – Lojas 1 e 2 – Cidade Baixa
Teleone: 51 3221-0203

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Petit Dali Art – Food – Bar
petit dali
Rua Vasco da Gama, 52 – Bom Fim
Telefone: 51 3092 0080

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Casa de Cultura Mário Quintana
casa de cultura
Rua dos Andradas, 736 – Centro
Telefone 51 3221 7147

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Monumento do Expedicionário
monumento do expedicionário

Parque da Redenção

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Apoio: Palavraria Livros & Cafés,  Livraria BamboletrasSapere Aude LivrosPetit Dalí, Vereda Literária, Jornal Vaia e Festipoa Literária

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Palavraria - livros a.

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06
maio
13

Nesta sexta, 10/05, começa a 6ª Festa Literária de Porto Alegre – Confira a programação completa

6ª FestiPoa Literária – Clique aqui para ver a programação completa. Na Palavraria a função será no domingo, 12 e na segunda, 13. Agende-se.

01

26
abr
13

AGES informa: Prêmio Livro do Ano – inscrições abertas

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Informe:

A Associação Gaúcha de Escritores informa que estão abertas as inscrições para o PRÊMIO AGES – LIVRO DO ANO – EDIÇÃO 2013, que será conferido anualmente aos melhores livros publicados por autores gaúchos ou residentes no Rio Grande do Sul. O prazo para as inscrições vai até 30 de abril. Confira o regulamento no site da AGES:

http://www.ages.org.br/pdf/REGULAMENTOLIVRODOANO-AGES2013.pdf

Palavraria - livros a

04
fev
13

Palavraria informa: recesso coletivo

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De 02 a 17 de fevereiro estaremos em recesso coletivo. Reiniciaremos as atividades no dia 18 de fevereiro, segunda-feira.

A direção

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palavraria 10 logo 01a.

24
jan
13

Em 2013 a Palavraria faz 10 anos

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palavraria 10 anos 01

 

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15
dez
11

Charles Kiefer é premiado pela Fundação Biblioteca Nacional

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Relação de escritores e obras premiados em 2011

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O autor gaúcho Charles Kiefer foi escolhido para o primeiro lugar na categoria Ensaio Literário, com seu livro A poética do conto – De Poe a Borges: um passeio pelo gênero, editado pela Leya. Os prêmios serão entregues hoje, às 19h, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro.

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Há 17 anos a Fundação Biblioteca Nacional/MinC vem premiando os melhores escritores e trabalhos literários do país. Em 2011, entre os escolhidos uma grata surpresa que a literatura e o destino nos prega de vez em quando: o teólogo pernambucano, Daniel Lima, de 95 anos. Ele guardava seus poemas na gaveta, sem nunca imaginar o valor que eles tinham.  Um dia uma de suas alunas descobriu essas raridades e levou, sem ele saber, para uma avaliação editorial. Resultado dessa “travessura” da aluna? A obra Poemas (Companhia Editora de Pernambuco), que só foi revelada ao seu autor no dia do seu lançamento.

Alberto Mussa, Sérgio Sant’Anna , Charles Kiefer, Marisa Midore Deaecto, Luís Carlos Cabral, Gabriela Castro e Nelson Cruz, são os outros vencedores nas oito categorias do prêmio, que seguem abaixo com  o nome das obras e também os segundos e terceiros colocados em cada uma delas. Os autores recebem seus prêmios no dia 15 de dezembro, quinta-feira, no Auditório Machado de Assis, na Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro, às 19h. Os primeiros lugares ganham um certificado e R$ 12,5 mil.

Os Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional, criados com o objetivo de estimular a pesquisa e a criação literária no país, concedem anualmente uma premiação a autores, tradutores, e designers eleitos por uma comissão julgadora composta por três profissionais renomados em cada área de premiação.

A premiação foi instituída em 1995, com exceção da categoria Literatura Infantil e Juvenil, criada em 2007, por ocasião da comemoração dos quinze anos do Programa Nacional de Incentivo à Leitura, o Proler. Cerimônia oficial para entrega do prêmio nas oito categorias será dia 15 de dezembro

Os vencedores são:

1. Prêmio Alphonsus de Guimaraens / Categoria: Poesia
1° lugar : Daniel Lima, com a obra Poemas (Companhia Editora de Pernambuco)
2º lugar: Marcos Vinicius Quiroga, com a obra Gullar Gullar (Editora Clara Comunicação)
3º lugar : Cláudia Schroeder, com a obra Leia-me toda (Editora Dublinense)

2. Prêmio Machado de Assis / Categoria: Romance
1° lugar : Alberto Mussa, com a obra O senhor do lado esquerdo (Editora Record).
2º lugar : Moacyr Scliar, com a obra Eu vos abraço, milhões (Editora Companhia das Letras)
3º lugar : Rubens Figueiredo,com a obra O passageiro do fim do dia (Editora Companhia das Letras)

3. Prêmio Clarice Lispector / Categoria: Conto
1° lugar : Sérgio Sant’Anna, com a obra O livro de Praga – Narrativas de amor e arte
(Editora Companhia das Letras)
2º lugar: Alessandro Garcia, com a obra A sordidez das pequenas coisas (Não Editora)
3º lugar: João Anzanello Carrascoza, com a obra A vida naquela hora (Editora Scipione)

4. Prêmio Mário de Andrade / Categoria: Ensaio Literário
1° lugar : Charles Kiefer, com a obra A poética do conto – De Poe a Borges: um passeio pelo gênero (Editora Leya)
2º lugar: Rita Rios, com a obra Poemas e pedras: A relação entre a escultura e a poesia partindo de Rodin e Rilke (Editora da Universidade de São Paulo – Edusp)
3º lugar: Ricardo Souza de Carvalho, com a obra A Espanha de João Cabral e Murilo Mendes (Editora 34)

5. Prêmio Sérgio Buarque de Holanda / Categoria: Ensaio Social
1° lugar: Marisa Midore Deaecto, com a obra O império dos livros: instituições e práticas de leitura na São Paulo oitocentista (Editora da Universidade de São Paulo – Edusp)
2º lugar: RonaldoVainfas, com a obra Jerusalém Colonial – Judeus portugueses no Brasil Holandês (Editora Civilização Brasileira)
3º lugar: Vera Lúcia Bogéa Borges com a obra A batalha eleitoral de 1910 – Imprensa e cultura política na Primeira República (Editora Apicuri/Faperj)

6. Prêmio Paulo Rónai / Categoria: Tradução
1° lugar: Luís Carlos Cabral,com a obra Malá Strana: vestígios de Praga, de Jan Neruda(Editora Record)
2º lugar:André Vallias com a obra Heyne, hein? Poeta dos contrários, antologia poética de Heinrich Heine(Editora Perspectiva)
3º lugar:Sergio Tellaroli com a obra Jakob von Gunten – Um diário, de Robert Walser (Editora Companhia das Letras)

7. Prêmio Aloísio Magalhães / Categoria: Projeto Gráfico
1° lugar: Gabriela Castro,com a obra Apreensões, de Bob Wolfenson(Editora Cosac Naify)
2º lugar: Elaine Ramos,com a obra Museu do romance da eterna, de Macedonio Fernández(Editora Cosac Naify)
3º lugar: Jonathan Shiguehara Yamakami, com a obra Eu vi um pavão, autoria desconhecida(Editora Scipione)

8. Prêmio Glória Pondé / Categoria: Literatura Infantil e Juvenil
1° lugar : Nelson Cruz, com a obra Alice no telhado (Editora Comboio de Corda)
2º lugar: Manu Maltez, com a obra Meu tio lobisomem (Editora Peirópolis)
3º lugar: Luís Dill, com a obra O estalo (Editora Positivo)

Premiação:
Dia 15 de dezembro, às 19h.
Auditório Machado de Assis, Biblioteca Nacional (Rua Méxixo, s/ nº – Centro – Rio de Janeiro-RJ

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13
dez
11

A precisão do impreciso: poemas da oficina

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A precisão do impreciso: Poemas da Oficina

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Poemas lidos no sarau poético A precisão do impreciso, da Oficina de Poesia Ronald Augusto, realizado em novembro último na Palavraria.

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de súbito
não morri

sustive o tempo
sem saber o que fazer com ele

gotas de ti intercalo a miçangas
escondo as marcas do inverno

não ponho os pés no pedaço onde me perdi

(Maria da Graça)

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na procura por vestigios
a vassoura varre vento e vozes
forja atalhos aproxima e se-distancia
do tempo e no tempo

deixa-se abracar pelas coisas
num trilho brilhante
ruidos do arrastar
sungra silenciosamente tambem tetos e paredes

e sem dizer nada
surpreende a orelha
antes de existir alguma coisa
um ponto, uma palavra
escoamento

(Jackeline Barcellos)

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caminho como se soubesse de todas as encruzilhadas
dos atalhos e acasos
no gesto, escalo o muro à procura da vista
gradeei um cemitério de objetos
museu de cera a preencher o lugar das ausências
que cercaram meu início
monotonia circular do cotidiano
as costas arqueadas
a cada manhã que brota à janela
me fazendo esquecer de onde não vim
não cuspi nos pratos em que comi
ao invés disso, os preenchi de pressas,
de choros rasos e quantos
engoli cada toque
como se fosse o último, como se fosse o mote
tenho, no entanto, um estômago sensível:
não sabe guardar pedras

(Deisi Beier)

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O mundo da linguagem me desfaz

Por entre o mundo mudo da memória

Esquecida ao acaso no asfalto
A agulha se move ágil entre dedos
Sento-me ao sol

Sou mácula que arde
Forte haste rija

Que o tempo vai brunindo

(Paulo Prates)

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Considerações do alfafeto I

deixava para trás aquela escrita
pouca coisa mais que o menos
e o que lhe acrescentasse
as experiências de euzinha
seria lucro na mesmice do seu alfabeto
fez uma réstia de todos os erres
repúdio
raiva
réplicas de si recuperando erros
emendou-se no p da palavra
que daqui pra frente é pauta
piso
possibilidades
de versar em sua estrofe

ainda crua

(Liana Sinara)

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Efeito Kosmopolis

Eu tenho uma puta vontade de comer
Uma puta vontade de comer tudo que eu vejo e escuto
Uma puta vontade de estar em tudo que eu vejo e escuto
Uma puta
Transformar-me em uma puta
Uma puta ideia vencida
Coberta e sorvida
Cortada-etéril-precisa

Uma lima
Amarela na América
Verde na Europa
Inexistente em Abril
Em Hebreu
Contagiosa e azeda
Como duras patas de penas mortas
Como o azul apagado do teu silêncio

A lima puta
Mercadante e periférica
Compaginada em tantos rascunhos
Convencida de tantas derrotas
Imposta
À mostra

(Juliana Ben)

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Conveniência e rumor de impulso

Entre o fim e o vão de uma ideia
esse intervalo
pedaço de omitir-se
polpa e circunspecção

Se eventualmente pudesse desfigurá-lo
de forma nítida
suspenderia o excesso de luz
que me esconde aos extremos

Redefino o traçado
limite oposto
sobre a imagem de um caixilho
recuperado aos escombros do éter

Sem menos escora
sustento fachadas, ruídos

Em evidente descaso
ao cenário
a poeira germina por costume
não o das tradições valiosas               incálidas
mas o do descontínuo sem-cuidado
com que se atrelam
(vagoam-se) um após outro
o mesmo dia

(Denise Freitas)

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o abandono da anatomia
na unha da fala
o codinome do pulso
no fio da meada
a forma avessa
à pele

(João Pedro Wapler)

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Silêncio ao Mar

O meu silêncio é uma nau com todas as velas pandas
Infladas pelo vento duvidoso do (des)conhecimento
Deslizando por mares habitados por estranhas criaturas
Que no silêncio encontram o desencontro de si mesmas
Contorno o cabo-da-boa-esperança e lanço minha rede
Recolho apenas letras soltas que somem com a espuma
Deixando aos pássaros nada a dizer para alimentar sua fome
Fecho as portas do porão abarrotado de expressões vazias
E tranco a cadeado para que não saiam a perturbar as estrelas
Que silenciosamente guiam os poetas na escuridão das palavras
Tanta coisa digo em meu silêncio que não resta dizer mais nada.

(Sirlene Maria Vieira)

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Bicho

responde à chuva
ao vento
ao sol
com o seu jeito de ser.
Vive a resposta desinteressada
indiferente à pegada do destino.
O medo é ornamento do animal mais belo.
Selvagem na outra íris
seu silêncio é camuflagem ao olhar que captura.
Respingo de humanidade
na sua voracidade
de querer viver
seja jacarandá, índio,
trepadeira, gafanhoto,
uma alga ou algo mais.
Fareja sem saber
que o infinito é logo ali…
Aonde tudo começa outra vez sem relógios…
Responde instintivamente
aos presságios e aos sonhos,
responde todas as incógnitas
existindo
E bebe com toda a sua sede de bicho
sem supor que está rezando.

(Márcio Rodrigo Gelain)

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Renga[*]

 

um ponto no áspero cercado
e se as pernas
se a musculatura inescultural
se o fôlego se esses recursos todos
e a seguir sua falência
fossem apenas feixes no asfalto
linhas rígidas do esquadro
traduziriam o limiar

um dia se cansa de tudo
e não há mais nada
nada na camada subterrânea
e na face os olhos
reescrevem a caminhada
que já é flor torta
destemperada
com as pupilas parodiando aromas
e as camadas de pólen dançando
em pleno asfalto
justo ao ponto do empecilho
de qualquer modo entre
a desenvoltura dos rochedos
se ocuparia da pressa
em agitar-se sem nenhum contorno
emaciado sob um sol de março

hipotético anseio  de perpetuar-se
a despeito da inaptidão congênita
da secura entranhada

alonga
a nódoa do girassol sem vértice
na escassez de rotas
amarelas ou alvas

flor de nada dizer
a ser
simplesmente entre os feixes
matéria de cor
matéria cortada de orvalho seco

(por Maria da Graça, Denise Freitas, João Pedro Wapler, Jackeline Barcellos, Deisi Beier, Liana Sinara, Paulo Prates e Juliana Ben)

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[*] O renga é um tipo de diálogo cantado e uma espécie de divertimento literário em que se misturam os elementos lírico, cômico e satírico. Surgiu no início do século XII, apreciado pelos poetas da corte e sociedade aristocrática japonesa de então. O haicai tal como é praticado hoje, é resultante do renga (ou tanka). O renga, portanto, era um poema coletivo, em que um poeta compunha a primeira estrofe (hokku), um terceto com 5-7-5 sílabas (ou sons). Em seguida, outro poeta compunha a segunda estrofe, um dístico de 7-7 sílabas (ou sons). Assim cada poeta que chegava escrevia um dístico de 7-7 sílabas, após um hokku. O renga do grupo da Oficina A precisão do Impreciso não obedece à estrutura rígida da métrica japonesa. Trata-se de um renga não-ortodoxo, de linhagem moderna. Trata-se da tradição renovada no presente.

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novembro 2020
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