Posts Tagged ‘A crônica de Ademir Furtado



24
maio
12

A crônica de Ademir Furtado: Um caso de idolatria

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Um caso de idolatria, por Ademir Furtado

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Eu era um garoto que não amava os Beatles e mal conhecia os Rolling Stones.  Elvis Presley não passava de um nome que o rádio anunciava de vez em quando, e um ator de filmes de matinê. Uma infância imune à influência dos ídolos daquela época. Até que um dia, no ano de 1972, eu desperdiçava o tempo na frente de um aparelho de televisão, entre os adultos que assistiam a um festival de música popular brasileira. A programação, sem muita graça para um impúbere, prendia apenas pelo hábito de esperar o sono diante de um totem que ainda simulava um pouco de magia. Mas, uma voz que soava onipresente anunciou o próximo participante. E um magricelo saltou no palco, com um microfone na mão. Vestido de preto, calça e jaqueta de couro, a gola levantada, e um topete atrevido avançava por cima da testa. O visual lembrava muito bem aquele galã que cantava e rebolava, e fazia as vezes de herói no cinema das tardes de domingo. Uma apresentação bem diferente dos demais artistas que se uniformizavam dentro de calças de boca larga e cabeleira caída sobre os ombros. Mas não só a roupa. A música era diferente. Os primeiros versos da letra, num inglês impostado, pareciam delírio de um doido a repetir incansável uma súplica diante da platéia. E o corpo todo se contorcia ao compasso da música, à semelhança de Elvis Presley nos filmes da sessão da tarde. Em seguida da introdução, emendava um trecho em português, num outro ritmo marcado por uma sanfona nordestina, que eu conhecia muito bem de tanto ouvir as melodias de Luiz Gonzaga. E o topetudo afirmava, como um pedido de desculpas, que não queria provar nada, não tinha nada pra dizer, também. Ele só queria cantar um rockzinho antigo, que não tinha perigo de assustar ninguém. Anos mais tarde, gaguejando algumas palavras de inglês, aprendi a cantar o refrão:

let me sing, let me sing,

let me sing my rock’n roll,

let me sing, let me sing,

let me sing my blues and go.

Na inocência de pré-adolescente, eu não atinava no significado daquela mistura de rock com baião. E também nem desconfiei que começava ali naquele momento o meu primeiro, e quase único, caso de idolatria.

E foi com um sentimento de reverência e passadismo que quebrei um jejum cinematográfico de vários meses para assistir ao filme Raul – o início, o fim, e o meio. Desnecessário dizer que não dei a mínima importância para questões formais da obra. Não sei avaliar se o filme é bom ou ruim do ponto de vista estético. E não só pelo fato de não ser um crítico de cinema. É que para um fã saudosista a figura de Raul Seixas transcende qualquer pretensão racional. Como um devoto fascinado, prostrei-me mais uma vez diante de uma tela para reverenciar um ídolo que virou mito e deixou sua marca de carimbador maluco na música brasileira.

Com a sucessão dos quatros eu voltei aos meus 13 anos, quando, em nova aparição na TV, Raul executava uma performance debochada. Dessa vez, um personagem, entediado com a vida de classe média, ironizava o coro dos deslumbrados com a ilusão de progresso do regime militar. Já morava em Ipanema, tinha comprado um Corcel 73, e pelas graças do Senhor podia desfrutar do domingo para ir com a família ao jardim zoológico dar pipoca aos macacos. Era o ouro dos tolos do milagre brasileiro.  Mas uma metamorfose ambulante, que sabia ser a mosca na sopa de muita gente, não podia parar na pista, pois sabia o perigo de ser atropelado. E numa sociedade alternativa com o futuro mago Paulo Coelho mergulhou nas drogas e na cultura indiana; andou pelos quatro cantos do mundo anunciando a chegada do Novo Aeon, e se tornou a luz das estrelas, o início o fim e o meio para uma geração. Durante um breve período, Raul Seixas brilhou incontestável como a vela que acende e a força da imaginação da música brasileira. Mas toda fonte luminosa um dia se apaga.

Aqui, mais uma vez, a trajetória do maluco beleza se aproxima da do pai do Rock, que ele tentava imitar no início da carreira. Um dos momentos mais impressionantes do documentário é a projeção de uma cena de Balada Sangrenta, estrelado por Esvis Presley, numa montagem em que as imagens dos dois roqueiros se confundem na parede de um edifício.

Nos anos 80, uma nova realidade brasileira demandava outras maluquices, e o cowboy fora da lei, com a saúde debilitada pelas drogas e pela bebida, foi jogado pra fora do trem. No final da década, por iniciativa de um novo amigo, Marcelo Nova, tentou outra vez retomar a missão de carpinteiro do universo. Mas era tarde. Apenas um disco gravado e alguns shows pelo Brasil serviram para antecipar o que os médicos já haviam diagnosticado poucos anos antes: o fim estava chamando o princípio pra poderem se encontrar.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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19
abr
12

A crônica de Ademir Furtado: A era do spam

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A era do spam, por Ademir Furtado

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No cruzamento da Borges de Medeiros com a Rua da Praia, em Porto Alegre, um homem enfiado numa roupa escura, com uma Bíblia na mão, proclama, veemente, o fim dos tempos, e a necessidade de remissão de todos os pecadores.  Os passantes, no entanto, prosseguem seus rumos, impassíveis frente à iminência apocalíptica.

Rivalizando com o pregador, um menino entrega prospectos anunciando empréstimo fácil, sem comprovação de renda, com juros baixos. Num espaço limitado pela torrente de pedestres aglomera-se uma turma de oferentes com notícias de boas novas, uma solução para algum problema. Uma mulher veste um cartaz indicando a compra de ouro; o cego com bilhetes da Mega Sena já preenchidos. É uma lista interminável de dádivas tentadoras, ofertas imperdíveis. Esses arautos da sorte cumprem como autômatos uma tarefa, indiferentes à indiferença dos outros. Não se preocupam muito que suas palavras ou folhetos sejam levados pelo vento, ou jogados na lixeira logo adiante.

A esquina é democrática, aceita, resignada, variadas manifestações e promessas de salvação, seja do espírito, ou da conta bancária.  Mas também permite que se passe insensível a tudo isso. Então, um fenômeno torna-se evidente: há um excesso de mensagens no ar e uma carência gritante de respostas. É provável que aqueles transeuntes da Rua da Praia tenham outros motivos de pressa, outros valores a serem resguardados, e por isso não se deixam cair nas tentações da esquina. Sim, eles também estão correndo em direção a um público, a quem vão fazer um comunicado surpreendente. Não importa que suas vozes também se percam na balbúrdia. Palavras berradas ao vento, em lugares públicos, no meio da multidão, hão de atingir ouvidos dispersos.

Os personagens da esquina ainda praticam a técnica rudimentar, quase abandonada hoje em dia, de enfrentar cara a cara seus alvos, talvez pela convicção de que o benefício que trazem é vital.  Mas a necessidade mais premente do indivíduo contemporâneo é mandar seu recado. E a tecnologia, que não é mais do que uma resposta às ansiedades humanas, evoluiu bastante para simplificar a vida e evitar esforços dispensáveis. Basta ter em casa um computador com acesso à internet para se economizar tempo e as cordas vocais, emitindo mensagens aos milhares, entupindo as caixas de entradas de correios eletrônicos, mundo afora.  E ainda se poupa do cansaço que o contato mais íntimo eventualmente exige. Desnecessário empenhar-se no sucesso das mensagens enviadas.  Sempre haverá um receptor ocioso. Resposta? Não carece. O importante é projetar-se, fazer barulho, registrar uma existência, ainda que ínfima. A conquista de um espaço no mundo passa pela manifestação de algo original, mesmo que a originalidade tenha virado uma obsessão coletiva, e se tornado um clichê. E mesmo que a excentricidade não chame mais a atenção de ninguém, afinal de contas, os outros também estão ocupados com sua própria singularidade. As conquistas na área de valores sociais proporcionaram a cada cidadão o direito de falar o que bem entende, mas também o de ouvir apenas o que interessa. Os canais de emissão se multiplicam, mas os de recepção estão bloqueados. Ou, no máximo, permitem comentários com moderação. O spam é o modelo da comunicação na sociedade atual. E o que mais caracteriza as vivências interpessoais é essa gritaria sem fim nas esquinas democráticas.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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26
jan
12

A crônica de Ademir Furtado: Manias de riqueza

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Manias de riqueza, por Ademir Furtado

 

Na virada do ano, todo mundo inventa que vai melhorar a vida, se dedicar a novos projetos, mudar um pouco de rumo. As pessoas mais sensatas dimensionam os novos propósitos com base numa revisão do ano anterior, que serve para avaliar anseios e capacidades, e assim se resguardarem de frustrações desnecessárias.  Foi o que eu fiz no final de 2011, quando comecei a rabiscar as minhas metas para os próximos doze meses. E eis que me vi numa tremenda confusão, causada pela melhor notícia de todos os tempos: o Brasil despontou como potência econômica, à frente, inclusive, da Inglaterra. É uma mudança dramática para quem vivia acostumado a planos de pobre, tais como economizar o salário pra comprar um carrinho usado, financiado em trinta e seis vezes; passar um réveillon em Florianópolis, numa casa alugada com a turma de amigos; quem sabe até guardar o décimo terceiro de uma década para realizar um sonhado intercâmbio cultural. De repente, tudo mudou, somos um país rico, com promessas de termos um padrão de vida europeu em menos de vinte anos. Logo agora que um dos objetivos que tracei para este ano era justamente visitar a Inglaterra, fazer um novo contato com a civilização. Na verdade, o intuito de viajar não sofreu alteração. O que tem me inquietado são algumas dúvidas quanto ao meu novo status. Será que os ingleses vão me receber com aquele deslumbramento típico com que os nativos de países pobres bajulam os habitantes de nações abastadas? Precisarei melhorar meu inglês, ou posso chegar lá com aquela convicção de que o português é a língua natural dos seres humanos e, portanto, entendido por todos os falantes do planeta? Sem falar na necessidade de aprender a me comportar como se vivesse no primeiro mundo, coisa que os argentinos já nascem sabendo.

 

O Brasil (quem diria?) virou notícia mundo afora, e não pelas jogadas fenomenais dos grandes astros de futebol, nem pelas bundas mulatas em desfile nas praias cariocas, muito menos pelo turismo sexual dos europeus no nordeste, e sim porque se tornou a terra prometida para muita gente, inclusive haitianos e bolivianos. Ainda não se sabe de nenhuma inglesa que tenha desistido da universidade de Oxford ou Cambridge para tentar a sorte como doméstica na Barra da Tijuca e no Morumbi, ou correr atrás de uma gravidez brasileira para conseguir cidadania, mas já temos casos comprovados de executivos americanos que deixaram para trás a incerteza enervante de Wall Street para se instalar no sossego promissor de São Paulo. E desceram em Cumbica com tudo prontinho, sala montada na Avenida Paulista, documentação em ordem. Nem precisaram se esgueirar pelos becos sinuosos da fronteira boliviana para chegar até aqui.

 

Mas, o mundo é cheio de gente maldosa, e a inveja é uma das muitas chagas que resistem a qualquer evidência de progresso. Tem gente por aí dizendo que essa riqueza é apenas pra inglês ver, pois foi uma instituição britânica que anunciou a boa nova. E o empenho em destruir as conquistas alheias é tão grande, que alguns agourentos foram até buscar dados estatísticos para justificar a falta de entusiasmo. Um dos argumentos que os negativistas apresentaram é de que essa camada da população que o IBGE chama de classe C realmente está ganhando mais, mas não conseguiu acesso àqueles benefícios que caracterizam a ascensão social, tais como curso superior, assistência médica qualificada, e até uma viagem ao exterior de vez em quando. Eles espalharam boatos de que os emergentes da Era Lula ganharam maior poder de consumo, e vão poder trocar a tevê de 14 polegadas por uma de 42, digital, tela LCD, mas vão continuar consultando pelo SUS, e o divertimento preferido continuará sendo a novela das 8, que aliás começa às 9, o fantástico mundo da informação inútil, e a mesma bestialidade boçal brasileira, que a cada começo de ano estupra mentes vazias e sonolentas de milhões de brasileiros.

 

Mas a vida clama por otimismos, e como diz a sabedoria popular, sorte tem quem acredita nela. Por isso, não convém estragar a euforia de um começo de ano com questões complicadas de estatísticas e avaliações morais. Eu apenas gostaria de pedir aos nossos governantes que, para este ano que começou há quase um mês, procurem entender a diferença que existe entre ser rico, e ser um pobre com dinheiro no bolso. Talvez essa não seja uma questão importante para as faculdades de Economia, mas com certeza é uma preocupação muito grande para aquelas pessoas que, mesmo que tenham três neurônios ativos, gostam de ligar a televisão no horário nobre.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

 

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22
dez
11

A crônica de Ademir Furtado: Realidade fictícia

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Realidade fictícia, por Ademir Furtado

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Um assunto que tem me fascinado bastante há alguns anos é a relação entre história e literatura. Há muita coisa escrita sobre o tema.

Por um lado temos a realidade histórica como matéria prima para a ficção. Aqui está implícito uma concepção de arte como representação da realidade. A maioria dos seres viventes se contenta com as manifestações imediatas do mundo. Mas alguns indivíduos, privilegiados por uma sensibilidade mais aguçada, são tocados também pelas nuances mais sutis do vivido. Como habitantes da caverna platônica que conseguiram chegar ao lado de fora, eles recriam essa experiência através de narrativas fictícias, a fim de mostrar aos seus semelhantes a complexidade da vida e denunciar a falsidade das aparências projetadas nas sombras. É a história como fio condutor da ficção

Por outro lado, o historiador sempre recorre a um pouco de ficção para preencher o espaço entre os dados colhidos na pesquisa, por mais séria que ela seja. Um texto historiográfico também precisa de um ponto de vista, um recorte no tempo e no espaço, e isso não deixa de ser uma construção a priori do conteúdo descrito. Em outras palavras, um recurso às técnicas de ficção, usada como instrumento para contar a história real.

Lembro de uma biografia de Dostoievski em que o autor relata o deslumbramento de Ana Grigorievna ao ser pedida em casamento por aquele que ela admirava como escritor e já amava como homem. É verossímil que a então estenógrafa tenha se sentido feliz, pois, afinal de contas, ela aceitou o pedido sem vacilar, e, ao que consta, foi a grande companheira do escritor até o final da vida. Mas a descrição do estado de espírito da futura esposa, ainda que tenha se baseado em diários da própria Ana, faz parte do propósito do autor de mostrar que Dostoievski teve uma vida menos atribulada na velhice do que na juventude. A imaginação preencheu, com certa dose de honestidade, o vazio entre os registros concretos, e isso não diminui em nada o aspecto de verdade histórica.

Um livro no qual essas duas dimensões da narrativa, a real e a fictícia, se entrelaçam numa teia de significados é Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar. A autora se empenhou por vários anos num imenso trabalho de pesquisa para recriar com fidelidade os meandros do então mais influente centro de poder do planeta.  Mas não se limitou a uma descrição realista da biografia de um homem poderoso. Ela vasculhou os labirintos de uma cultura prestes a desaparecer e com o mesmo assombro de quem viu as legiões de bárbaros diante dos muros de Roma, ela sentiu os temores da decadência iminente. Não por acaso, o Adriano de Marguerite Yourcenar ocupa seus últimos dias de vida para relatar suas aventuras a um jovem Marco Aurélio, futuro herdeiro, de alma e de trono.

Segundo declarações da própria autora, ela se beneficiou das liberdades de ficcionista para a construção do seu personagem, sobretudo ao atribuir a ele certo poder de clarividência, ou concepções de mundo que só viriam a ser desenvolvidas nos séculos seguintes. Mas essas características estariam de acordo com a personalidade do imperador, vislumbrada através de reformas que ele patrocinou no campo da economia e do direito, transformando o império romano naquilo que para Marguerite seria um exemplo ideal de civilização clássica.

Mesmo assim, não se pode classificar essa obra como romance histórico, naquele sentido tradicional em que o escritor apenas se transforma num historiador liberado da rigidez das regras acadêmicas. Aqui a escritora se apropriou de um personagem real, cuja biografia continha os elementos que ela procurava para compor sua própria visão de mundo. A história real já estava pronta, ela só precisava selecionar os acontecimentos vividos pelo personagem, para construir uma unidade de sentido ficcional. E com isso, ela antecipou o que Paul Veyne diria algumas décadas mais tarde: a história é um romance verdadeiro.

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Ademir Furtado é autor do romance Se eu olhar para trás (Dublinense, 2011). Escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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27
out
11

A crônica de Ademir Furtado: A lei de Sócrates

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A lei de Sócrates, por Ademir Furtado

 

Desde os meus primeiros momentos de consciência crítica, me considero um sujeito desprovido de deuses. Nunca me empolguei com a possível existência de seres superiores e abstratos, habitantes de esferas celestiais. Mas mantenho essa postura como um valor subjetivo, sem tentar convencer os crentes a respeito das minhas descrenças. Por isso, fiquei meio surpreso, dias desses, numa mesa de bar, quando um inimigo público das religiões profetizava o advento de um dia dedicado ao ateísmo, algo do tipo “o dia do orgulho ateu”. A mania de querer contextualizar tudo me levou a uma reflexão sobre essa obsessão atual pela visibilidade. Minha quase formação de sociólogo suspeita que isso é conseqüência do tal multiculturalismo, em que cada seguimento da sociedade busca conquistar o seu espaço e registrar sua presença. Mais do que isso, escancarar que tem orgulho de ser o que é.

Talvez um psicólogo encontre explicações diferentes: uma ânsia de ser aceito e reconhecido para encontrar legitimidade. Certos filósofos asseguram que o indivíduo só encontra sua essência no olhar dos outros, ao ser visto pelos outros.

Algumas idéias costumam se conectar a outras, e assim, eu lembrei de outro fato da mesma natureza, que virou notícia meses atrás. Em algum lugar do Brasil, um parlamentar apresentou um projeto de lei para implantar o dia do orgulho heterossexual. De imediato, achei que fosse mais uma manchete do Sensacionalista, “o jornal isento de verdade”. Mas não era. Esse disparate tinha pretensões de seriedade. Para ser sincero, não me interessei mais pelo assunto e não sei qual foi o resultado de tamanha bizarrice. Mas não resisti à tentação de fantasiar possíveis desdobramentos dessa iniciativa. Uma delas seria o surgimento de dispositivos jurídicos para resguardar o método natural de conservação da humanidade. Se já existe a preocupação de preservar as florestas, os rios, os passarinhos, as moscas, os mosquitos, as pererecas, por que não se empenhar pela proteção mais específica da espécie humana? E já que as mulheres foram contempladas com o dia delas, seria justo, agora, atender aos interesses dos homens. Assim, não seria surpresa uma lei que proibisse as mulheres de se esquivarem às investidas masculinas. Imagine-se um defensor de causa tão nobre quanto a sobrevivência da humanidade argumentando que o maior entrave a uma orientação heterossexual consequente é essa mania que as mulheres têm de querer conversar várias vezes antes de atender as reivindicações masculinas. Esse arauto da proliferação humana passaria a enumerar casos em que homens, ou por falta de energia, ou por carência de habilidade, desistiram antes do almejado sucesso. E numa época de plena liberdade de expressão, onde qualquer desatino deve ser acolhido como legítima manifestação, ele enumeraria mais uma série de ponderações para provar que esse comportamento feminino é puro preconceito contra homens heterossexuais, e como tal, deveria ser combatido com uma legislação séria e fiscalização eficaz.

Mas, as divagações fantasiosas não sobrevivem aos ataques da razão, e concluí que um regulamento desses seria tão inútil quanto desnecessário, porque não resolveria o problema das convicções interiores. Creio que o maior orgulho que se pode ter é o da experiência da própria capacidade e das habilidades para conquistar um objetivo. Seja a paz interior de viver sem se agarrar a entidades imaginárias, seja o reconhecimento do poder para seduzir a mulher desejada. Se Sócrates recebeu alguma revelação após visitar o oráculo de Delfos, foi a certeza de que a lei mais poderosa que existe é o autoconhecimento.

Ademir Furtado escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

A crônica de Ademir Furtado é publicada neste blog na quarta quinta-feira do mês.

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22
set
11

A crônica de Ademir Furtado: Currente calamo

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Currente Calamo, por Ademir Furtado

A maior pedra no sapato de qualquer escritor é o clichê, essa faca que de tão usada já não corta, ainda que a língua esteja bem afiada.  Um amante das letras trabalha com afinco para lançar nova luz sobre uma passagem e quando se dá conta, lá está aquela frase feita, aquela idéia pronta. E aí não adianta querer tapar o sol com uma peneira, porque a verdade salta aos olhos, e para um bom leitor, meio clichê basta para estragar um texto.

Falar de clichê é chover no molhado, porque desde que o mundo é mundo que o ser humano opta comodamente pela lei do menor esforço. Por isso, carrega sempre no bolso meia dúzia de idéias prontas e frases feitas, que usa e abusa, a torto e a direito. Pensar é chato, cansativo, dá trabalho, e ser original exige responsabilidade e um pouco de ousadia.  Além do mais, a todo instante há a necessidade de uma comunicação rápida e eficiente, e o clichê já possui um significado consolidado, ao alcance de todos os viventes.

Por isso, é difícil abster-se de beber na fonte das idéias prontas e das imagens surradas, e pode atirar a primeira pedra quem nunca lançou mão das sentenças do senso comum para dar o seu recado. Esse hábito é tão antigo quando caminhar pra frente. Tanto é assim, que existem livros que tratam do assunto. No âmbito nacional temos o Pai dos Burros – dicionário de lugares-comuns e frases feitas, de Humberto Werneck, uma coleção de clichês pinçados em órgãos da imprensa. Mas a leitura mais deliciosa nesse sentido é o Dicionário das Idéias Feitas, de Gustav Flaubert, um opúsculo cheio de ironias, em que o grande romancista deita e rola em cima da boçalidade dos franceses oitocentistas. Flaubert dispensa apresentações. Um renomado escritor que atingiu os píncaros da glória com uma obra literária muito original, e saiu a campo, em altos brados, contra o currente calamo, que não é nada mais do que preguiça mental disfarçada de sabedoria popular.

Agora, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Por que será que esse assunto dá tanto pano pra manga? É de bom alvitre que o escritor dê asas à imaginação na hora de traçar as suas linhas, mas se ele não tiver bala na agulha fica à beira de um ataque de nervos diante de cada frase lançada no papel.

É bem verdade que muitos beletristas gostam de praticar seu ofício ao correr da pena, e não estão nem aí para originalidade de estilo. Mas felizmente, há aqueles, como Flaubert, que se proclamam inimigo público das simplificações retóricas e não medem esforços para dar uma injeção de vitalidade na linguagem. Criadores que não se curvam ao peso do hábito e não se protegem com desculpas esfarrapadas do tipo: “não existe mais nada original para ser dito”, ou: “a vida é cheia de clichês”. Mesmo que seja para dar murro em ponta de faca, eles avançam a passos largos, de cabeça erguida, força hercúlea e idealismo quixotesco. A esses, temos obrigação de tirar o chapéu e aplaudir em alto e bom som, pois são eles que dão um passo à frente no progresso da arte literária. Uma história bem contada, novinha em folha, é tudo de bom. Por outro lado, ler um texto cheio de clichês – vamos combinar – ninguém merece.

Ademir Furtado escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

A crônica de Ademir Furtado é publicada neste blog na quarta quinta-feira do mês.

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25
ago
11

A crônica de Ademir Furtado: Antigualhas

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Antigualhas, por Ademir Furtado

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O livro Antigualhas, de Antônio Álvares Pereira, mais conhecido como professor Coruja, é uma relíquia, tanto no sentido literário quanto histórico, porque é uma espécie de registro de nascimento da cidade de Porto Alegre. A introdução de Sérgio da Costa Franco, na edição ERUS, nos apresenta um pouco da biografia do autor. Nasceu no ano de 1806, quando Porto Alegre ainda se limitava ao estatuto de Freguesia. Tornou-se um homem letrado, e foi um dos primeiros professores da comunidade. Já adulto, tomou partido no entrevero dos Farrapos, acabou perseguido, fugiu, e foi se esconder no Rio de Janeiro, onde residiu até a morte. Na Corte, teve atuação constante no meio intelectual. Mas nunca esqueceu suas origens. Tanto que, na década de 80, já no final da vida, se pôs a rememorar a província, através de crônicas publicadas em jornal local. E essas lembranças vieram a constituir o Antigualhas..

Mas a Porto Alegre representada nas crônicas transformou-se numa cidade singular, construída por um saudosismo criativo. E o bom humor com que descreve o cotidiano dos porto-alegrenses é o estado de espírito dessa volta ao passado. O caráter de vila fica mais evidente no hábito popular de dar nome à ruas, que na época não passavam de becos ou trilhas. O nome oficial era, em geral, trocado pela alcunha do morador mais ilustre, ou mais conhecido. É o caso do Beco do Fanha, atual Caldas Júnior, assim chamada porque ali morava um sujeito com dificuldades na fala.  A Rua do Arroio, hoje Bento Martins, recebia duas denominações. Numa ponta, Beco dos Nabos, referência a um morador que vendia nabos; e na outra ponta, Beco dos Pecados Mortais, uma alusão à conduta moral dos moradores. Na subida de uma determinada ladeira, encontrava-se, a qualquer hora do dia ou da noite, sempre à janela, “a individua mais notável do bairro”. Essa “individua” era tal que “para falar pelos cotovelos não precisava arregaçar as mangas” uma vez que usava roupas que deixavam não só os cotovelos à mostra. E mais ainda, “era conhecida pelo nome de não sei que de bronze, mas por conveniência de pessoas sérias a chamavam simplesmente a Bronze”. E assim se justifica que um canto do centro da capital se chama até hoje de Alto da Bronze.

Outro detalhe importante é o tom afetuoso com que a cidade é retratada. Considerando-se que as crônicas foram escritas após meio século de afastamento, é certo que Porto Alegre se manteve viva na memória afetiva do expatriado. Conclui-se daí, que essa mania de levar Porto Alegre a qualquer lugar que se vai é uma extravagância muito antiga. Não sei se nessa época o chimarrão já era um hábito urbano, mas vale o exercício de imaginar o professor Coruja passeando pelas praias cariocas com uma cuia na mão e uma chaleira de água quente na outra; ou, ao final da tarde, com os olhos perdidos no horizonte, à procura de um pôr do sol igual àquele do Guaíba, que os habitantes de Porto Alegre até hoje insistem em acreditar que é o mais lindo do mundo. Um século antes do surgimento dos dois maiores símbolos dos gaúchos, o Grêmio e o Internacional, a maneira mais eficaz de dizer “ah, eu sou gaúcho”, foi fazer a recriação literária de uma Porto Alegre que não existia mais de fato, mas continuava bem viva no coração do cronista.

Parece que o gaúcho em geral, e o porto-alegrense em particular, sofre até hoje desse dualismo. Por um lado, um desejo de aderir ao movimento global da modernização, viajar, falar língua estrangeira, e de outro, esse enraizamento meio caipira ao local de origem. Sem recorrer a teorias antropológicas, razões metafísicas e condicionamentos históricos, tão ao gosto de elucubrações acadêmicas, o certo é que o habitante de Porto Alegre gosta mesmo é de permanecer na cidade, mesmo que esteja fora.

Ademir Furtado escreve no blog http://prosaredo.blogspot.com

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