Posts Tagged ‘A crônica de Clarice Müller

15
dez
12

A crônica de Clarice Müller: Viajar eu preciso

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Viajar eu preciso, por Clarice Müller

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Viajar é preciso, é o que dizem, o meio é que são elas. Dar a volta ao mundo sem sair de casa ou sair de casa sem chegar a lugar algum, cada um escolhe o tamanho de universo que lhe convém. A mim, de preferência, ambas as modalidades. Viajar by plane ou by book me arrepia igual, é só questão de possibilidade, de hora. Voltei recentemente de São Paulo, onde curti a Balada Literária por cinco dias inteirinhos, com programação às 11, 14, 16, 18 e 20h, mais as noites no Salim, no Platibanda, no Pinheirinho, em botecos onde a cerveja não era das mais geladas mas a companhia não podia ser mais prazerosa. Dias a fio vendo e ouvindo de João Ubaldo Ribeiro a Lirinha, de Vicente Franz Cecim a Macca, de Leyla Perrone-Moisés a Miró, pra dar uma idéia da diversidade cultural em que me meti, faceira que só vendo. Com a FestiPoa Literária pretendemos alcançar isso também, mas o extremo geográfico atrapalha o econômico e torna difícil promover a invasão nordestina de que tanto precisamos. Só no meu hotel havia pencas de pernambucanos, piauienses, paraenses, paraibanos, a PQP da inteligência dando sopa já no café da manhã, um luxo que usufruí sem falhar dia. Como sou do tipo que sai chiando depois de falar cinco minutos com um carioca (ai, como te entendo Elis!), só não voltei pra Porto Alegre com sotaque nordestino porque me atrapalhei na mistura, de modo que o tchê permaneceu razoavelmente intacto, coisa que não posso dizer de meu espírito (aquele que mora na cabeça, não o que assombra), esse sim capturado pela riqueza do sertão e da caatinga, de onde até maracatu aprendi a ouvir. A pilha de livros na mala quase pagou excesso, mas como deixar de lado Wellington Soares, Nivaldo Tenório, Vicente Cecim, Maria Valéria Rezende, Nina Ferraz, Demétrius Galvão, Beatriz Grimaldi, Thiago E, Marcelo Barbão, Sylvia Mello, Tiago Savio, Sidney Rocha? Essa foi minha sacolinha mínima, que o rol de lançamentos da Balada era bem superior, pero hay que se fazer escolhas, hay. O certo é que neste continente brasileiro vários universos coabitam e nós, sulistas, estamos demasiado longe da maioria deles, por isso com tanta freqüência nosso umbigo inflama e nos faz pensar que somos  o máximo do apogeu da glória em matéria de tudo. Confesso ter ficado com inveja quando Garanhuns entendia plenamente o que Teresina estava dizendo, que um esteio comum se impunha. Nosso senso comum é pampeano, se espraia pra fora, e não pra dentro do Brasil, o que nos dá uma desvantagem enorme na portuguesia em geral. Porém, como distâncias cada vez mais se tornam irrelevantes com essa tal de internet, é só questão de voltar os olhos e os sentidos em outra direção que esse buraco acaba rapidinho. Porque é urgente, urgentíssimo, que os gaúchos ouçam a voz de Jomard Muniz de Britto e Wilson Freire, prestem atenção ao coro das Clarianas, dancem ao som do baião, mergulhem no universo de Andara. Como repetia o bruxo do Oficina, José Celso Martinez Correa, num mantra que fez o maior sucesso entre os teatreiros gaudérios: é de dentro pra fora! É de fora pra dentro! é de dentro pra fora! É de fora pra dentro! Bora desinflar o umbigo, bora!

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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01
dez
12

A crônica de Clarice Müller: Simplesmente João

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Simplesmente João, por Clarice Müller

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Vidraceiro, fumageiro, jornalista, industrial, minerador, impressor, acadêmico, tabelião, comerciante, capitão da guarda, escritor. Não seria por falta de idéias que Netinho, como a ama o chamava, deixaria de fazer sucesso nas bandas de Pelotas, onde nasceu nos idos de março de 1865.  Terceiro na linhagem dos Lopes, desde piá o guri não sossegava, inventando de tudo pra não sair de perto da peonada, para desgosto da viscondessa, mais orgulhosa do título que do neto, para o qual, de resto, não via muito futuro.  Mesmo assim, mandou que caprichassem na bagagem que o acompanhou ao Rio de Janeiro quando a puberdade no meio da bicharada tornou-se mais incômoda do que educativa. A capital federal haveria de ensinar-lhe os modos que os meios exigiam. Ensinou-lhe muito mais do que isso. A começar pelo clima. O calor constante, que no início não o deixava dormir, com o tempo foi amansando-lhe o corpo, relaxando os nervos, desobstruindo caminhos que sequer sabia existirem. E que se intensificaram expressivamente quando conheceu Olavo, com quem viria a compartilhar os bancos na faculdade de medicina, poemas discutíveis e, segundo as más línguas, muito mais do que línguas. Presença constante nas soirées promovidas por Machado, presença infalível nos teatros e cabarés da Lapa, João não se fazia de rogado quando o entrudo tomava as ruas e poás e lantejoulas substituíam o pincenê que o deixava mais vesgo ainda. Nessas horas a descontração era total, com a dupla Joanita & Bilaquinha causando tanto furor que o velho visconde não teve outra saída a não ser trazê-lo de volta ao hospitaleiro ar das charqueadas sulistas. Com a desculpa de saúde frágil, ficou sob a asa materna até que o avô lhe arranjasse a esposa que assegurasse a honra e a progênie que nunca veio. João fez a sua parte. Deixou crescer o bigode, passou a usar óculos e, do antigo amor, preservou apenas o vício de comer negrinhos a qualquer hora do dia. E umas odes líricas muito bem guardadas no forro de um antigo chapéu, hoje no museu histórico franco-pelotense. No mais, austeridade total. A única foto que escapou da destruição movida por Francisca, ao suspeitar das longas viagens empreendidas por seu marido com o capataz Blau, mostra um homem sisudo, rosto afilado, olhar baço, idade indefinida, sem atrativos aparentes. A obra literária que legou a seus conterrâneos, porém, revela um homem de fina verve, irônico, astuto e observador como poucos. A construção de tipos como Romualdo, os ‘causos’ por ele narrados em linguagem popular, sem meias palavras, a imaginação brotando intensa em cada linha, a fantasia que se assenhora da narrativa sem preocupação formal, fluindo vívida aos olhos do leitor, tudo leva a crer que o escritor manteve viva a chama que conheceu em terras cariocas e que prematuramente teve que relegar ao abandono. Rompendo uma tradição europeizante voltada ao cultivo dos valores mais aristocráticos, e focando a narrativa em seres até então sem a menor expressão social, as histórias geradas em sua terra natal (publicadas postumamente) passam a ser entendidas como elegias ao bravo homem do campo, seus costumes e raízes. Uma nova vertente acadêmica sustenta, porém, com base em diários encontrados num prédio em demolição, que João criara tais tipos com intuito de ridicularizar a cultura grosseira em que fora criado e que era incapaz de reconhecer o valor de um homem como ele, constantemente escarnecido pelos gestos e voz delicados, pelo sotaque levemente afrancesado que fazia questão de cultivar e até mesmo pelo hábito de vestir a mais fina casimira inglesa quando em inspeção pelo campo. “La revanche de la ‘biche’” seria o título mais adequado à obra do escritor, segundo essa tese.  Louvação ou crítica, elogio ou deboche, o fato é que João Simões era um ser atormentado, que se envolvia em empreendimentos de todo tipo, sempre em busca do quê não se sabe, tamanha a diversidade de suas invectivas. Riqueza? Prestígio? Conhecimento? Poder? O vidraceiro, fumageiro, jornalista, industrial, minerador, impressor, acadêmico, tabelião, comerciante e capitão fracassaram em sua tentativa de resposta, conhecendo a morte aos 51 anos de idade, em completa pobreza, sem deixar semente. O escritor, porém, sobreviveu a todos. Pena que vingança seja prato que se come frio.

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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27
out
12

A crônica de Clarice Müller: Ler é bom

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Ler é bom, por Clarice Müller

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Ler é bom. Ler é tri. Ler é demais. Demais mesmo. Em qualquer sentido que se entenda. E, ao contrário do que se pensa, a web não veio atrapalhar hábitos de leitura, veio é incrementar o processo com doses razoáveis de dispersão e nonsense. A quantidade de contos, crônicas, links, podcasts, vídeos, artigos e textos jornalísticos, artísticos, literários, políticos, espirituais, do raio que o parta que são espargidos sobre nós diariamente é espantosa. Tudo sob forte recomendação, ressalte-se. Produz-se tanto nestes tempos, que o ler quase não abre tempo para o fazer, então a leitura diagonal, de vesgueio, passou a ser a regra, vez que não basta ler, é preciso também curtir, comentar ou compartilhar, coisas que por sua vez provocam novas reações que demandam mais atenção e assim a coisa vai, vai e vai, não me pergunte pra onde. Mas, por isso mesmo, tem horas em que bate uma vontade imperiosa de trocar a banda larga pela bunda larga no sofá, um alentado livro nas mãos para mergulhar, com toda calma, em outros universos, siderais ou existenciais. Segundas-feiras chuvosas são ótimas para isso. Qualquer dia chuvoso é ótimo para isso. O mais difícil é escolher a coisa certa pra entrar de chofre.

Se você estiver cansado da multiplicidade de tudo (múltiplo passou a ser adjetivo saidinho, se deu pra perceber) e preferir adentrar num universo já conhecido, a literatura policial não te deixa na mão. Quem faz carreira no ramo é porque já criou um detetive-policial-investigador com características bem marcantes, num cenário bem definido e todo um jogo de relações familiares e profissionais que fazem com que o dito se torne uma pessoa da casa, por assim dizer. Quando você pega um livro da P. D. James, por exemplo, sabe de antemão que vai encontrar o inspetor-superintendente Adam Dalgliesh fazendo uso de sua inteligência e sensibilidade de poeta (sim, ele é poeta e dos bons) para desvendar os crimes que ocorrem entre jardins e escarpas britânicos, esfera de atuação da Scotland Yard, sempre auxiliado por uma equipe que você também já conhece, de modo que pode auxiliar o inspetor no que for preciso, coisa que o bom leitor tem o dever de fazer. O mesmo se aplica aos livros que envolvem o delegado Guido Brunetti em Veneza, cujo traçado já se tornou familiar para mim, como se lá tivesse estado; Salvo Montalbano, que me diverte dividindo seu tempo entre a busca por criminosos e por tascas onde comer as melhores sardinhas, personagem por sua vez inspirado em Pepe Carvalho, que Vásquez-Montalbán criou para exibir dotes culinários refinadíssimos enquanto desvenda de crimes passionais a políticos, ao contrário do inspetor Maigret, que soluciona mistérios tomando doses impressionantes de calvados desde as primeiras horas do dia, enquanto que Kurt Wallander se esquece de fazer uma coisa e outra mesmo quando a Suécia enregela seus ossos e Botsuana aquece a corpulenta e doce Preciosa Ramotswe, a primeira detetive daquele recanto africano.

Todos esses mundos chegam a mim por meio da leitura paciente, atenta, que nenhuma web me dá, por melhor que seja. Isso quando chove. Nos outros dias, o universo se multiplica mais ainda e expande suas forças sobre o fazer estético, quando então me permito comentários inúteis como este que acabo de escrever para que alguém, em algum lugar, possa ler, curtir, comentar, compartilhar e, de preferência, não deletar. Bom apetite!

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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13
out
12

A crônica de Clarice Müller: Fidalguia

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Fidalguia, por Clarice Müller

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GOSTAR. Palavrinha comum e ao mesmo tempo muito propícia a suscitar as maiores polêmicas e até mesmo cizânias quando o bicho da certeza nos morde e bota os reis a estrilar na barriga. Pra maioria de nós, gostar pode passar ao largo de questões como estrutura, sintaxe, gênero e o kit analítico padrão. Pode vir lá do fundo, daquelas áreas meio nebulosas onde mal tocamos e que aos poucos se enriquece com o que vamos adquirindo ao longo da vida, sem falar na multidão de seres imaginários que nos cochicha aos berros quando estamos a ponto de tomar decisões estéticas. É com grande alívio, portanto, que me declaro essencialmente leitora e, como tal, não preciso entender de nada, basta-me o fruir, no ritmo e modo que quiser, das minhas páginas eleitas. Posso dizer, por exemplo, sem receio de me botarem no pelotão de fuzilamento da correção artística: não gosto de Nelson Rodrigues. Não mesmo. Tenho idade suficiente para ter lido as crônicas que ocupavam página inteira na Folha da Tarde, nas quais destilava o que tinha de pior em termos de misoginia, política, moral, sexo. Também estudei suas peças quando cursava arte dramática no CAD, onde a bateção de cabeça pro velho dá nos nervos. Mulheres, padres e comunistas compunham a tríade contra a qual não poupava um milímetro de acidez, assim como todas as formas de sexo, visto sempre na forma de tara e perversão, o que não deixa de ser bem a cara de Nelson, um moralista que fazia parte do primeiríssimo time do reacionarismo. Escrevia muito bem, claro, que burro não era, mas competência não põe mesa quando a serviço dos piores propósitos, come on. E eu, talvez por defeito genético ou estético, sou chegadinha numa fidalguia. Em caras como o Gore Vidal, de quem estou lendo o Lincoln com especial deleite, porque, embora não se furte a espelhar a dor e o horror, não deixa de refletir sobre a grandeza humana, sem a qual a vida é nada, estou certa? Gosto de gente que se posiciona sobre as coisas, que tem bandeiras, que acredita, pensa, faz. Esse papinho de desintegrar tudo numa miscelânea artística sem pé nem cabeça e relativizar valor como se fosse babaquice jurássica é papo de bandido, sinceramente, papo de bandido. Presta um desserviço enorme à cultura. Confesso-me, portanto, fã de escritores que pensam o mundo na escala do universo, e não na arraia miúda da mesquinhez, onde Nelson chafurdava com tudo. Assim, se a coisa for de tomar partido, não me avexo nem um pouco, volto ao tempo das matinês no cinema do meu avô, e bato os pés com força quando o mocinho vem chegando. Xô, Nelson! Viva Vidal!

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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29
set
12

A crônica de Clarice Müller: A lista do bem

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A lista do bem, por Clarice Müller

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A melhor coisa do mundo, dizem os apaixonados, é a reconciliação. Eu também gosto de usufruir esse momento, em que os conflitos deságuam num entendimento que dá gosto e tudo vira paixão. Nesta semana, por exemplo, minha briga com Porto Alegre conheceu o outro lado da moeda, o do amor, do júbilo por tudo que esta cidade me propiciou. Também, o que queriam? Teve Porto Alegre em Cena, FestiPoa revisitada, lançamento de Solidão Continental do João Gilberto Noll e do livro de haikais do Diego Petrarca,  Cabaré do Verbo bombando cada vez mais, convites pra dar entrevista, escrever, recitar, conversar, gente querida chegando, tragos e mais tragos a pretexto, em suma, movimento pra todos os lados, o que dizem ser muito bom pra saúde, ainda que nem sempre a gente jogue no mesmo time. Anyway, pra contrabalançar essa animação toda, tem a mansidão boa repousando ao lado da cama, nos livros com quem compartilho a intimidade das madrugadas, benditas madrugadas. A saber: 1) “O espírito da prosa” do Cristóvão Tezza é uma lição de inteligência e elegância numa área que não costuma dar muito chá, a dos ensaios, mas como ele é bom em tudo que faz, dá pra ler até quando o sono pisca no cerebelo, esse cara é grande e tem que ser lido, no question; 2) na mesma seara, mas indo mais pros lados da imaginação, “A louca da casa”, da Rosa Moreno, que comecei e larguei há tanto tempo que perdi o fio da moeda, mas o bom do livro é que ele fica ali, paradinho, até eu dar outra espiada nele – teu dia chegará, Rosa, me aguarde; 3) o autor premiado da semana, vencedor póstumo do Prêmio São Paulo de Literatura, Bartolomeu Campos de Queirós, com seu primeiro livro adulto, creio, “Vermelho Amargo”, numa edição primorosa da Cosac Naify, só 69 pagininhas além de tudo, mas em cuja leitura já patinei duas vezes, simplesmente vagando e vagueando em meio a tanto tomate até que empaquei de vez, então volta pra pilha, tadinho; 4) para garantir o brilho do escrete, tem “Passeios na ilha” com Drummond, delícia, delícia, tiro mais certeiro não há, o mestre faz gol sempre, vai ser gauche na vida lá em casa, uai; 5) e, pra não dizer que não falei de sangue, “O instinto de morte”, do Jed Rubenfeld, para os  dias de chuva em que preciso ler romances policiais pra não me transformar numa serial killer, não me perguntem a razão, faz favor. Então a pilha da semana é essa, mas a pilha B já está se alinhando, com dois livros de contos de autores que estiveram na FestiPoa desta semana dando um banho de literatura e sensibilidade, “Antes que os espelhos se tornem opacos” de Juarez Guedes Cruz, e “Em que coincidentemente se reincide”, da Leila Teixeira, tipo de livro que não apenas promete, cumpre tudinho, para minha grande alegria (e da Palavraria, onde estes tesouros te aguardam). E agora me digam, sobra tempo pra escrever no meio disso tudo? Que a resposta seja sim, sempre sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, SIM.

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Clarice Müller é natural de Porto Alegre, onde já trabalhou como atriz, bancária, servidora pública e escritora quando a inspiração permite. Participou das oficinas de criação literária de Charles Kiefer e Luis Augusto Fischer e publicou, em conjunto com o também escritor Cláudio Santana, o livro de narrativas curtas VEROVERBO. Atualmente auxilia o amigo Fernando Ramos na coordenação da FestiPoa Literária e outros projetos afins. Ocasionalmente escreve no blog http://verbovero.blogspot.com.br/

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