Posts Tagged ‘A crônica de Claudia Coelho

12
jul
13

A crônica de Claudia Coelho: Faces da traição

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Faces da traição, por Claudia Coelho

06 faces

Traição é sempre um tema controvertido. Mas como determinar uma traição? Deslealdade e infidelidade seriam sinônimos de traição? Conceituar esse assunto é fácil, difícil é entender o que se passa na cabeça de homens e mulheres que traem.

Talvez eu crie uma polêmica sobre o assunto, mas acredito que traição só se configura quando a parte corneada toma ciência de seus chifres.

Quando observo os puladores de cerca compulsivos, sempre penso que eles não acreditam que estão fazendo algo de tão errado. Então, isso me leva a crer que somente a descoberta configura o cri­me. Não acredito que uma pessoa, que faça manobras mirabolantes em seu cotidiano, morra de remorso depois… Não acredito! Seria muita racionalidade em detrimento dos sentimentos.

O comportamento “pulante” se incorpora ao sujeito de tal for­ma, que ele mesmo acaba naturalizando esse jeito, a ponto de olhar a cara de sua corna ou seu corno de plantão e pensar: se ela/ele não sabe, não estou magoando; se não estou magoando, não sou tão mau assim; logo, não me sinto culpada/culpado. Hummm… Que ho­ras mesmo combinei de dar uma puladinha de cerca amanhã?

É por essa razão que os seres “pulantes” passam anos a fio traindo e passando incólumes sem uma punição, e com sua consciência levíssi­ma. Que fique bem claro, essa hipótese não é uma verdade, é a forma que encontrei para compreender ou, quem sabe, inocentar a traição.

Já escutei tantas histórias de traição, que até perdi a conta! O conteúdo recorrente, em alguns relatos, me deixa intrigada, mas, para mim, o pior dos requintes da traição é a proximidade existente entre o criminoso e a vítima. A traição, para ter graça, tem que ser realizada bem pertinho do cornudo. Não esqueçamos que, em toda piadinha infame, o ser “pulante” geralmente está dentro do armário. O essencial na traição é a sensação de friozinho na barriga, mesmo porque, o ser “pulante” é viciado em adrenalina! Explicando: ele tem que ser “quaaase”descoberto, ou seja, tem que estar na iminência de ser descoberto.

Por conta dessa tendência kamikaze, o traidor aumenta as chan­ces de ser descoberto e a ilusão quanto à impunidade de seus atos, fazem com que cometa erros crassos na sua pulada errante.

Um dos piores erros, sem dúvida, é o comportamento de risco na relação sexual pelo desuso de preservativos. A displicência inequívoca geralmente é descoberta numa consulta ao médico. Por questões sabidas, esses vestígios de traição são mais aparentes na mulher. Em geral, a corna sai da consulta abalada moralmente por N motivos, além de ser impossível não ter ficado com cara de trouxa na frente do médico. Aliás, se ficou com cara de trouxa, foi porque no fundo sempre foi!

Mesmo sabendo da dura realidade, ela reunirá forças para se convencer do contrário. Chegará em casa e investigará no Google as ínfimas possibilidades de supostos contágios que possam inocentar o seu ser “pulante”… Tadinha! Vale qualquer coisa para anular o pre­núncio de seus chifres.

Mas dó mesmo, tenho daqueles que descobrem que, além da pulada básica, o parceiro se bandeou para o outro time. É choque de 220 volts! É pra matar! Acho que o “pulador” bissexual deveria ser condenado duplamente e com todo o rigor da lei dos cornudos! Homem casado buscando um parceiro? Ah, faça-me o favor!

Adoro essa liberdade que homens e mulheres gozam de pode­rem optar pela bissexualidade ou homossexualidade. Mas sou taxa­tiva ao condenar uma vida dupla de deslealdade! Pó pará!!! Vá se resolver! Não querem abrir mão de nada? A mulher traída dessa for­ma tem um sentimento amplificado, seria como: “Alguém anotou a placa?”. É devassador!

Tem outra coisa sobre esse assunto, que não me convence. É quando alguém me conta que trai há anos e o outro nem desconfia… Ah, não! Esse é o típico caso de corno-cúmplice! Na real, o cornudo suspeita, se faz de tonto, se faz de morto, dá graças a Deus que o parceiro “pulante” está mais na rua do que xaropeando dentro de casa. Sendo assim, o principal motivador desse traidor é a falta de sexo. Pois bem, o corno cúmplice não está mais a fim e inconscien­temente libera a farra do outro lado do muro. É claro que isso não é uma regra.

Uma vez uma amiga casada declarou que transava regularmente com o marido, sobretudo acreditando que assim ele nunca a trairia. Pobrezinha, além de ter sido traída, deu o flagrante da “pulada inima­ginável”. Portanto, esse método de empapuçar um marido de sexo pode ser “um tiro que sai pela culatra”!

Convenhamos, muitas pessoas bancam sexo dentro e fora de um relacionamento com eficiência e maestria. É como diz um antigo ditado gaúcho: “Cachorro que come ovelha, só matando!”. E se vê um pelego no chão? Se joga em cima feito louco! Portanto, quem trai compulsivamente, não enxerga que vive tudo de maneira incompleta. O traidor vive com a mentira impregnada, vive para trair, e o pior, não enxerga que pula uma cerca que ele mesmo construiu!

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claudia coelhoCláudia Coelho nasceu em Porto Alegre, é formada em Psicologia desde 1993 pela PUCRS. É  Psicóloga Clínica e Consultora em Gestão de Pessoas. Especialista em Psicologia do Trânsito e  Projetos Sociais e Culturais.  Atua em  avaliações psicológicas comocredenciada  do DETRAN/RS e  Polícia Federal. Sem dúvida, a característica polivalente da autora propiciaram-lhe vivências enriquecedoras e multifacetadas. Em 2008  começou a escrever suas primeiras crônicas em seu blog (http://psiclaudiacoelho.blogspot.com.br/).  É aluna de  Desenho e Pintura  do Atelier Livre  da Prefeitura de Porto alegre,  onde desenvolve trabalhos que dialogam com suas crônicas. As crônicas aqui publicadas estão em Lógicas Invertidas – crônicas / Cláudia Coelho. ( Evangraf, 2012)

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06
jun
13

A crônica de Claudia Coelho: Pragmatismo feminino

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Pragmatismo feminino, por Claudia Coelho

05 pragmatismo

Dias desses escutei um relato de uma senhora que “pediu as contas” ao companheiro de tantas décadas e partiu para uma vida de solteira aos 62 anos de idade.

Segundo ela, antes melhor se separar, a continuar coabitando um espaço solitário com o seu marido acomodado. E não pensem que ele ficou lépido e faceiro. Ele recolheu o time de campo prague­jando. Como disse ela: “Para ele estava cômodo daquele jeito…”.

É sabido que os homens adoram atualizar o seu modelo de mu­lher, tal qual fazem com o modelo do carro. Então nunca foi surpresa homens se divorciarem aos 60 anos de idade.

Entretanto, o que realmente é novidade para mim, é saber que as mulheres estão optando pelo divórcio, inclusive em faixas etárias nas quais normalmente a solidão pode assombrar mais.

“Antes só do que mal acompanhada” era a frase que eu escu­tava; é a frase com a qual cresci escutando da boca das mulheres da minha família. Inclusive da minha avó que completa este mês 80 anos, mas separada desde os 60.

Vejam vocês, eu muito impressionada com o relato da senhora desconhecida, e minha avó pra lá de moderninha há 20 anos.

Todavia, o que soa incoerente para mim é pensar que a mulher leva a fama de ser romântica e sonhadora, quando, em geral, é ela quem resolve desmanchar o Castelinho do Casamento.

Aliás, depois de tanto escutar histórias de casamentos desfeitos ou mantidos, comecei a ficar intrigada com esses conceitos adquiri­dos no decorrer da vida a dois e resolvi inverter a lógica: seriam os homens tão ou mais conservadores e idealizadores no casamento do que as mulheres? Pensando bem, esse conservadorismo ao qual me refiro também poderia ser uma boa e velha desculpa para se manter uma esposa infeliz em casa e uma amante apaixonada lá fora. Para que se separar, se está tudo tão ajeitadinho? Parece que os homens se agarram tanto à instituição do casamento quanto as mulheres, pagando o pior dos preços: a incompletude e a infelici­dade.

Existem homens que acham melhor permanecer casado. Assim, financeiramente, seria menos dispendioso e ficariam livres de mais uma despesa: a pensão alimentícia. Juro por Deus que já escutei isso inúmeras vezes!

A diferença entre eles e elas é que as mulheres não estão dei­xando esquentar o banco e estão dando preferência ao descarte dos homens, sem direito à troca, a um novo amor, a uma nova chance, a um corpo masculino e jovem. Elas parecem estar pondo-os de lado simplesmente pelo direito e dever de não viverem infelizes.

Já alguns homens parecem montar um castelo baseado naquilo que é correto aos olhos da sociedade, da família e do que os amigos esperam deles.

No entanto, para homens e mulheres, o casamento pode ser idealizado da mesma forma, a diferença está na solução. O homem nega e se paralisa; a mulher nega e se debate, não aguenta o confli­to. Alguns homens preferem se fechar em copas e também em copos e em corpos alheios. Ninguém está dizendo aqui que as mulheres não estão fazendo o mesmo. Mas parece que habitualmente o final da história é sempre o mesmo, um dia ela olha para ele e diz: “Acorda!”.

Outro dia, li que antigamente era comum, na Europa, alguns homens matarem as suas esposas após terem recebido o dote do casamento. Vejam vocês, os moçoilos não queriam nem saber da pobrezinha e se a sua candidata escolhida valia ou não a pena. Po­rém, naquela mesma época, as mulheres, sabendo do risco de morte, antecipavam-se e matavam os maridinhos para ficarem com o seu próprio dote. Pobres desavisados!

Meus caros, isso prova que as mulheres já eram romanticamente racionais naquele tempo. Tal questão não é de agora e nem da época da minha avó. O pragmatismo feminino tem levado algumas mulhe­res a optar por “matar o seu sonho”, mesmo que seja tarde e mesmo que nunca o realizem.

 

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claudia coelhoCláudia Coelho nasceu em Porto Alegre, é formada em Psicologia desde 1993 pela PUCRS. É  Psicóloga Clínica e Consultora em Gestão de Pessoas. Especialista em Psicologia do Trânsito e  Projetos Sociais e Culturais.  Atua em  avaliações psicológicas comocredenciada  do DETRAN/RS e  Polícia Federal. Sem dúvida, a característica polivalente da autora propiciaram-lhe vivências enriquecedoras e multifacetadas. Em 2008  começou a escrever suas primeiras crônicas em seu blog (http://psiclaudiacoelho.blogspot.com.br/).  É aluna de  Desenho e Pintura  do Atelier Livre  da Prefeitura de Porto alegre,  onde desenvolve trabalhos que dialogam com suas crônicas. As crônicas aqui publicadas estão em Lógicas Invertidas – crônicas / Cláudia Coelho. ( Evangraf, 2012)

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23
maio
13

A crônica de Claudia Coelho: Patos da ganância

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Patos da ganância, por Claudia Coelho

04 patinhas

Sinceramente eu fico pensando e repensando, mas também sei que não vou encontrar uma resposta para um comportamento do ser humano que só pode ser chamado de ganância.

Todos nós brasileiros, e amantes do futebol, acompanhamos os numerários inimagináveis pagos aos jogadores de futebol. Certamen­te alguns desses atletas, nem que reencarnassem mil vezes, não con­seguiriam gastar esses zilhões de dinheiro ganho! E cá para nós, tem muito jogador fazendo caridade somente para se justificar ao impos­to de renda ou fazer bonito junto à mídia, o que é “o fim da várzea”!

Se hoje recebemos o que é chamado de salário mínimo, que em tese deveria ser aquele valor mínimo que garantiria o mínimo de dignidade para um indivíduo viver, deveria existir também o salário máximo, que concedesse um mínimo de vergonha na cara daquele que insiste em nadar no dinheiro.

O salário máximo seria determinado a partir da óbvia constatação de uma total inviabilidade de um ser humano gastar tanto dinheiro até a sua morte. Seria, portanto, um patamar de jogadores, entre outros bilionários que continuariam sendo ricos, mas teriam aquilo que logica­mente serviria para si e para mais alguns tantos a sua volta.

Obviamente que nem todos os jogadores de futebol têm voca­ção para ser uma Madre Teresa da Embaixadinha; portanto, ninguém teria obrigação de ajudar meia dúzia de pessoas a troco de 1% do seu patrimônio e bancar o generoso da comunidade. É o fim!!!

O salário máximo impediria a cara deslavada, a roubalheira, o deboche com o povo que assiste a este tipo de comentário: fulano só fica por 400 mil… Gente, 400 mil reais?!… Mensais?! Abram os ouvidos, porque assim é!!!

E quando falam que os técnicos ganham bem, por que será que têm poucos técnicos bons no mercado?! Para mim, podem extinguir essa raça! Mas me digam… Por que um ser humano acima dos 50 anos (que é a idade da maioria dos técnicos) precisa ganhar tanto di­nheiro? Não quero ser cruel, mas a verdade é que a gente envelhece, adoece, morre e ponto final. Dinheiro não garante saúde, se você tem uma doença grave. Dinheiro não traz juventude. Dinheiro não ressuscita os mortos e não salva familiares incompetentes e inaptos. Dinheiro nem sempre dá o poder que você deseja.

Aliás, dizem que o dinheiro demais gera até culpa… Por que será? Depois da tragédia ocorrida em Nova Friburgo em 2011, a justi­ça determinou que as penas pecuniárias deveriam ser revertidas para os desabrigados, o que achei muito legal!

Agora eu queria saber o que os nossos milionários do futebol estão fazendo nessas situações? Ahhh! Eles estão convocando a tor­cida para deixarem suas contribuições nos estádios, afinal de contas somos nós que pagamos os salários deles, nada mais lógico que se­jamos nós a contribuir! Nós é que pagamos o pato! A situação não é de rir, é de chorar, pois a verdade é que os mais humildes são ver­dadeiramente os mais generosos. É definitivamente uma vergonha!

Ao pensar sobre isso, sinto vergonha de curtir essa “porcaria” de futebol, pois percebo a falta de dignidade desses magnatas ao dize­rem que só jogam por prazer e não pelo dinheiro. Sinto vergonha do quanto eles têm e o quanto querem mais!

Enquanto isso, o Zé Povinho discute zilhões como se fosse troco, como se fosse mero detalhe, como se fosse merreca! É a banalização do salário dos jogadores-bilionários. Simmm, enquanto isso o Zé Povi­nho parcela em 12 vezes a TV de LED! E para quê? Para ver bem de pertinho a cara deslavada de uma realidade que está bem longe de sua modesta conta bancária!

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claudia coelhoCláudia Coelho nasceu em Porto Alegre, é formada em Psicologia desde 1993 pela PUCRS. É  Psicóloga Clínica e Consultora em Gestão de Pessoas. Especialista em Psicologia do Trânsito e  Projetos Sociais e Culturais.  Atua em  avaliações psicológicas comocredenciada  do DETRAN/RS e  Polícia Federal. Sem dúvida, a característica polivalente da autora propiciaram-lhe vivências enriquecedoras e multifacetadas. Em 2008  começou a escrever suas primeiras crônicas em seu blog (http://psiclaudiacoelho.blogspot.com.br/).  É aluna de  Desenho e Pintura  do Atelier Livre  da Prefeitura de Porto alegre,  onde desenvolve trabalhos que dialogam com suas crônicas. As crônicas aqui publicadas estão em Lógicas Invertidas – crônicas / Cláudia Coelho. ( Evangraf, 2012)

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09
maio
13

A crônica de Claudia Coelho: Gracias pelo merci!

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Gracias pelo merci!, por Claudia Coelho

03 merci

Prometi que falaria do meu enjoo com os franceses, e aí percebi que fui perdendo o interesse de falar mal deles. Em geral, travo uma briga interna para cumprir minha palavra quando combino alguma coisa com alguém.

Palavra dada, vamos lá! Tudo o que se fala do povo parisiense, no que diz respeito a seus hábitos, é a mais pura verdade. Nesse sentido, formulei algumas teorias bem exageradas, até porque passei pouco tempo em Paris para observar. Ah! Me perdoem a generalização, mas só assim para fazer uma sátira.

Paris deveria se chamar “Merci”. Sim, certamente é a palavra mais pronunciada pelos parisienses e por qualquer pessoa que tenha amor aos seus dentes… Isso quer dizer que se você não agradecer, saia pelo menos da frente! Você tomará bufada e cara feia! Isso tudo que estou contando não é novidade; novidade mesmo foi perceber o quanto podem ser mal-educados de tanto exigir educação. É algo semelhante como, quando dizemos em português, na ausência de um “obrigado”, um “De nada, né?!”. Infelizmente, eu já sabia dessa fama.

Quanto aos espanhóis, antes de viajar, li num site que eles bufam por qualquer coisinha… e é verdade. Vai ver que foi com eles que os pobres animaizinhos das touradas aprenderam a bufar diante de tantos “Olés!”

Aliás, além dos espanhóis, percebi que os franceses de Paris tam­bém dão a sua bufadinha… Será que toda a Europa também bufa???

Na minha opinião, “bufar” combina mais com os espanhóis. Ah, os espanhóis! Bufam, pra valer!!! E agora só me vem à mente outra vez a imagem de um touro raspando as patas no chão e mirando o toureiro. Algumas pessoas me disseram: “Mas na Espanha eles são assim mesmo, uns grosseirões!”. Sim, uns grosseirões, mas combina com eles, eu prefiro assim! E sabem por que prefiro? Porque o espa­nhol tem uma intensidade “azeda”, que para mim transmite energia, alma…

Lembro-me de uma apresentação de flamenco a que fomos as­sistir em Madri. A cantora Sara Salado parecia que ia incorporar sem charuto! Forte, eloquente, nos levou às lágrimas de tanta emoção. O que vou dizer agora, tem um “quê” de dramalhão mexicano, mas outro cantor espanhol desse mesmo show, cujo nome não lembro agora, em determinado momento, dizia a seguinte frase: “Eu jogaria minhas entranhas no fogo por ti!”. Ai, que dor!!! E que convincente também! Consegui imaginar o fogo… as entranhas!!!

Está na cara que gostei mais da Espanha, tanto que me empol­guei e esqueci os franceses. E quer saber? Talvez eles nem queiram ser lembrados!!! Brincadeirinha… Mas se me perguntam o que achei da viagem, eu digo que a Espanha tem alma; Paris, especificamente – não sei das outras cidades da França –, tem uma elegância cartesia­na, pragmática como a Torre Eiffel.

Afinal, o que não gostou em Paris, Cláudia? É que Paris se basta! Só louco para dizer que não gostou. Contudo, o parisiense não preci­sa nem de mim, nem de você, nem de ninguém! Talvez isso tenha me enjoado. Paris deveria estar localizada numa ilha chamada “Merci”! No fundo achei a Espanha mais coerente. Lá as coisas acontecem aos trancos e barrancos, mas andam. Paris é requintada e soberba, of course!!! Ops! Não fale inglês em Paris, o povo não gosta muito, viu?!

Mas preciso contar que, bem no final da minha viagem, eu vi a simbiose perfeita das personalidades aqui relatadas (franceses + espanhóis). Foi no aeroporto de Orly, ao Sul de Paris, quando estava indo embora. Fui até o balcão da Ibéria, companhia aérea espanhola, para me informar sobre o horário do check-in. Pensei que seria uma maravilha, pois iria me comunicar em espanhol com aquela moça do balcão e iríamos realmente nos compreender. Seria o paraíso! Então eu disse um “Hola!” vibrante, e um “Por favor, una información?”. Ela me olhou, foi caminhando em silêncio para a sua mesa, balançou uma cabeleira escura e crespa no estilo anos 80, e com uma ligeira bufada, me meteu os chifres de touro dizendo: “Para empezar… Bue­nos Diaaasss!”. Putz! Não queria acreditar! Juro que tive vontade de mandá-la longe! Pensei que não era possível eu ter encontrado uma espanhola com ares de “merci” compulsório! A tal me tratou como os espanhóis e me exigiu a educação dos franceses. Eu joguei pedra na cruz!!! Sim, fiquei muda! Pensei ter sido suficientemente educada (aliás, me esqueci de dizer que o pior de tudo é a gente se sentir mal­-educada sem-pre!)

Voltando à tourada, digo, ao balcão, continuei muda, escutando a informação e, ao fim e ao cabo, continuei muda, pois pensei “o que será que a criatura bufante esperava de mim?” Um gracias ou um merci? Na dúvida, não diga nada! E uma voz parecia dizer, dentro de mim: “Você tem o direito de ficar calada e qualquer coisa que disser será usado contra você!”. O que fiz??? Saí muda “à francesa”! Essa é a expressão perfeita para a situação! Vou sair bem mal-educada mesmo e não me despedir de ninguém!

Viu só como tenho razão? Por trás desse “merci”, tem algo que não cheira bem! Ah! Aproveita e coloca um perfume francês aí! Mer-ciiiiii!!!

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claudia coelhoCláudia Coelho nasceu em Porto Alegre, é formada em Psicologia desde 1993 pela PUCRS. É  Psicóloga Clínica e Consultora em Gestão de Pessoas. Especialista em Psicologia do Trânsito e  Projetos Sociais e Culturais.  Atua em  avaliações psicológicas comocredenciada  do DETRAN/RS e  Polícia Federal. Sem dúvida, a característica polivalente da autora propiciaram-lhe vivências enriquecedoras e multifacetadas. Em 2008  começou a escrever suas primeiras crônicas em seu blog (http://psiclaudiacoelho.blogspot.com.br/).  É aluna de  Desenho e Pintura  do Atelier Livre  da Prefeitura de Porto alegre,  onde desenvolve trabalhos que dialogam com suas crônicas. As crônicas aqui publicadas estão em Lógicas Invertidas – crônicas / Cláudia Coelho. ( Evangraf, 2012)

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25
abr
13

A crônica de Claudia Coelho: Clitóris: procura-se!

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Clitóris: procura-se!, por Claudia Coelho

02 klimt

No Brasil mais de 200 mil pessoas desaparecem anualmente, os especialistas dizem que a prevenção é primordial, mas e quando a prevenção está ao alcance de nossos olhos e mãos? Quando o que desaparece não é o todo, mas a parte? O que dizer da parte feminina que se perde ou é esquecida? O que dizer de todos os clitóris desa­parecidos cotidianamente?

Como assim Cláudia? Que maluquice é essa?

É sério! Tem muita gente por aí que procura uma vida inteira por um e não acha. Sem falar daqueles que nunca se deram conta da existência dele.

E o que dizer, então, daqueles que encontram alguns clitóris per­didos por aí, e não sabem nem ao menos o que vão fazer com eles? Acho até que tem gente que prefere nem encontrar!!! Pois é, a coisa tá feia. Aliás, continua feia.

Falar em clitóris era tabu na época da minha avó e continua sen­do um problema nos dias atuais. Então, vou tentar dar uma ajudinha nessa investigação e, caso você já tenha encontrado o seu ou o da sua parceira, atente para algumas dicas.

Primeiro vamos falar da mulherada, que parece, atualmente, muito bem resolvida. Entretanto, quando você pergunta, na minúcia de seus orgasmos, o que fizeram com seu clitóris, imediatamente um ponto de interrogação surge no baixo-ventre. E, pasmem, é maior do que se imagina o número de mulheres que não tem intimidade com o próprio corpo! Obviamente, acabam por não saber orientar o seu parceiro na hora H. Pior do que isso? Elas ainda reclamam como se essa culpa fosse totalmente deles!

Para começo de conversa, o homem está anos-luz à frente das mulheres no quesito masturbação. Isso sem falar na superestimula­ção que sofrem a partir de imagens cotidianas de corpos femininos. Por exemplo, revista de homem nu, na sua maioria, não é direcionada ao público feminino, mas aos homossexuais do sexo masculino. Nada de mau nisso, mas a verdade é que esse público gay é homem. Por­tanto as revistinhas continuam sendo para os homens. No final, isso acaba gerando alguns constrangimentos, pois ainda se estranha uma mulher comprando esse tipo de revista.

Não sei se adiantou tanto sutiã queimado em praça pública. Fato é que a mulher não tem o hábito de ser estimulada com imagens masculinas. Ao contrário dos homens, pois não é de se admirar que passem o dia inteiro pensando em sexo.

Quero dizer, com tudo isso, que a mulher se estimula pouco e é pouco estimulada pela própria sociedade machista, que continua condenando alguns comportamentos dela.

Bom, mas vamos ao assunto que interessa: a masturbação femi­nina por si só. Primeiro, é importante fazer um parêntese: encontrar o clitóris é tarefa mais fácil para as mulheres, ao contrário dos homens, que, eu diria, se pudessem, comprariam um GPS clitoridiano.

OK, meninas, vamos à localização aproximada. Se a barriguinha não estiver proeminente, eu calculo, mais ou menos, uns dois palmos abaixo do umbigo. Acharam? Agora é preciso entender a sua cadên­cia. Cadência? Exato! Seria mais ou menos assim: clitóris não é uma bateria em que se toca rock’n roll com vigor e caos, mas seria como uma bateria de uma escola de samba, bem cadenciada e com uma boa evolução! Amei isso!!!

Mulheres, tudo pronto então? Agora é a hora de serem bem egoístas. Persistência, movimentos cadenciados e progressivos no sentido horizontal. Não falhará. Sim, sim, simmm! Um dedo mé­dio firme e perseverante. Façam justiça com as próprias mãos, meninas!

Depois do treino, vamos ao jogo! Se, no momento a dois ele não dominar a bola, a regra é clara: não faça média com seu médio (o dedo, lembram?), usem e abusem na cara do gol. E se ele fizer cara feia? Ah! Expulsão na certa! Sinal claro de que, além da cara, o cérebro também é feio.

Agora vamos às dicas para os homens.

Bom, partindo do pressuposto que vocês homens encontraram o clitóris, parabéns! Então podemos passar para o MBA clitoridiano!

Meninos, valem as mesmas regras das mulheres, mas muita cal­ma e delicadeza nessa hora.

Outra coisa, observem a parceira, pois se ela se esquivar, ficar com cara de paisagem ou apertar os dentes, pode não ser prazer, viu?! Não insistam! Deixem para lá! Ou melhor, cruzem a bola e dei­xem para ela marcar.

Até sugiro que vocês mesmos conduzam a sua parceira nesse momento. Assim vocês estarão dando a clara mensagem de que res­peitam e desejam que ela tenha o prazer dela!

É claro que não quero dizer com isso que vocês devam abando­nar o projeto clitoridiano. De forma alguma, meninos, perseverem! A recompensa é estimulante. Mas, definitivamente, não se tornem obsessivos pelo clitóris, isso também cansa uma mulher. Pode até se tornar opressivo. Acreditem!!!

E se a sua parceira é bem resolvida, isso não lhe dá o direito ao voyeurismo persistente de ficar pedindo: “Mais um, mais um, mais um!” Meus queridos, o clitóris tem um limiar de sensibilidade bem inferior comparado ao pênis.

E, meus caros, por fim, um assunto deveras difícil, ela ter optado por fingir um orgasmo e vocês perceberem. Ou seja, se ela passar léguas de distância do clitóris e não buscar outras formas de se es­timular, das duas uma: ou ela não fingiu e vocês encontraram o tãoenigmático ponto G dela, que é quase como acertar na Mega-sena ou … ela fingiu mesmo. Então abafem o caso, e conversem com a parceira em outra hora. Mas, por favor, não deixem barato, pois o custo para o relacionamento será altíssimo!

Enfim, clitóris é assunto complexo, mas nem tudo no sexo se resume a orgasmo.

Todavia, se você, homem ou mulher, desconfiar que o clitóris se tornou totalmente obsoleto na relação, fique esperto, pois esse pode ser mais um caso de clitóris desaparecido.

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claudia coelhoCláudia Coelho nasceu em Porto Alegre, é formada em Psicologia desde 1993 pela PUCRS. É  Psicóloga Clínica e Consultora em Gestão de Pessoas. Especialista em Psicologia do Trânsito e  Projetos Sociais e Culturais.  Atua em  avaliações psicológicas comocredenciada  do DETRAN/RS e  Polícia Federal. Sem dúvida, a característica polivalente da autora propiciaram-lhe vivências enriquecedoras e multifacetadas. Em 2008  começou a escrever suas primeiras crônicas em seu blog (http://psiclaudiacoelho.blogspot.com.br/).  É aluna de  Desenho e Pintura  do Atelier Livre  da Prefeitura de Porto alegre,  onde desenvolve trabalhos que dialogam com suas crônicas. As crônicas aqui publicadas estão em Lógicas Invertidas – crônicas / Cláudia Coelho. ( Evangraf, 2012)

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11
abr
13

A crônica de Claudia Coelho: Tecnologias furtivas

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Tecnologias furtivas, por Claudia Coelho

dali

Ando intrigada com o tempo que se perde, com o tempo que se ganha. Essa tecnologia maluca que nos dá e nos tira, nos concentra, nos distrai e retrai. Nem todo mundo está preparado para isso. Mas se existe uma cidade, que consegue nos dar tempo, quase na mesma medida que nos rouba, é São Paulo.

Toda a vez que passo um final de semana lá, sinto que é como se passasse uma semana inteira. Obviamente que falo de fins de semana em que o trânsito não é tão caótico e as pessoas parecem pertencer a um padrão de cotidiano dito normal. Entretanto, o que me encanta mesmo é a contrapartida que a cidade proporciona em poucas horas, inundando você de informações, atualizando seus aplicativos internos e fazendo downloads de sensações infinitas.

Ora, mas isso tudo é uma situação muito particular e suspeita, pois eu adoro São Paulo! Gosto do dinamismo, das novidades, da cultura, embora nem todo mundo enxergue a cidade assim como eu.

Pois bem, essa é a São Paulo que eu enxergo, o que torna, de certa forma, isso tudo muito relativo. Como costumo dizer, a vida olha para você como você olha para a vida.

E quando não olhamos para nada em específico e prestamos atenção apenas em nosso smartphone?

No final de semana passado, fui a São Paulo. Enquanto eu fazia a tradicional e costumeira “hora-bunda”, aguardando o voo no aero­porto, fixei os olhos na tela do meu celular e fiz de tudo um pouco: compartilhei fotos, li textos de aula, fucei no Facebook. Enquanto isso, a vida ia passando lá fora, ou melhor, ali mesmo. Durante o tempo que eu não arredei o olhar de meu celular, na realidade, a vida fervilhava naquele aeroporto, acima dos meus óculos.

Parei e comecei a observar o que acontecia no mundo real e percebi que ninguém me olhava. Imagina você que eu também não estava nem aí para ninguém. Todos individualizados, assim como eu, olhando suas virtualidades.

Suspeitei que a vida poderia estar olhando para mim, e eu nem aí para ela! Mas se eu não olho a vida, a telinha do aparelho de ce­lular estaria me devolvendo algum olhar? Certamente que um olhar não, mas alguma imagem, informação ou especulação da vida alheia ou da minha própria vida. Mas onde está o olhar que deveria ser devolvido a mim? Afinal, já que perco tantos olhares enquanto olho fixamente para o celular, seria mais do que justo!

A tecnologia parece uma bolsa aberta prestes a ser furtada. Pega!!! Pega o ladrão tecnológico!

Em São Paulo, visitei uma exposição de tecnologia e artes in­terativas no Itaú Cultural chamada “Emoções Artificiais” que me deixou muito intrigada com uma obra sistêmica denominada “i­-flux”. Consistia em uma imagem projetada na parede no formato de uma arraia, transitando de um lado ao outro acompanhada de sons estranhos. O guia da exposição nos explicou que a imagem e os sons eram alimentados com fluxos de informação de diferentes naturezas: redes internas do prédio, como a elétrica e a hidráulica, além da entrada e da saída de pessoas naquele espaço. Enfim, todos os dados formariam uma “criatura” projetada como uma constante chuva de luzes. Portanto, uma espécie de regulador do ecossistema.

Ao final da explicação, entendi que, quanto menos fluxo de ener­gia houvesse no local, assim como a presença de pessoas se movi­mentando, menos a criatura se movimentaria. Além disso, quando o prédio se esvaziava, os sons emitidos pela tal criatura se intensifi­cavam, como se clamasse por energia. Não me ocorreu outro pensa­mento, senão o de que aquele bichinho era instigante, mas também muito carente!

O conceito daquela obra me fez pensar nas lógicas invertidas. Tantas pessoas se ausentando da realidade, enquanto a criatura tec­nológica clama por energias reais e presenças humanas.

Um tanto paradoxal acharmos que ganhamos tempo com a virtualidade, enquanto perdemos tanto com ela também. Abrimos janelas e links virtuais, mas também fechamos tantas janelas de al­mas e compartilhamentos reais. Será que essa “criatura” está se hu­manizando, enquanto optamos por não presenciar a vida? Estamos sendo furtados diariamente, à luz do dia, do que existe de melhor: viver literalmente a vida como ela é, real e verdadeira. Sem dúvida, o que mais me causa arrepio é que isso está acontecendo com o nosso consentimento.

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claudia coelhoCláudia Coelho nasceu em Porto Alegre, é formada em Psicologia desde 1993 pela PUCRS. É  Psicóloga Clínica e Consultora em Gestão de Pessoas. Especialista em Psicologia do Trânsito e  Projetos Sociais e Culturais.  Atua em  avaliações psicológicas comocredenciada  do DETRAN/RS e  Polícia Federal. Sem dúvida, a característica polivalente da autora propiciaram-lhe vivências enriquecedoras e multifacetadas. Em 2008  começou a escrever suas primeiras crônicas em seu blog (http://psiclaudiacoelho.blogspot.com.br/).  É aluna de  Desenho e Pintura  do Atelier Livre  da Prefeitura de Porto alegre,  onde desenvolve trabalhos que dialogam com suas crônicas. As crônicas aqui publicadas estão em Lógicas Invertidas – crônicas / Cláudia Coelho. ( Evangraf, 2012)

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