Posts Tagged ‘A crônica de Emir Ross



18
ago
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A crônica de Emir Ross: Os patos

 

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Os patos, por Emir Ross

 

O Brasil é o país dos patos. Há uma circular que coleta assinaturas. A intenção é substituir as estrelas da bandeira por patinhos. Todas as esquinas teriam seu estandarte. Para confundir os atiradores. Ao invés de mirarem nos patos a dirigir automóveis, tentariam acertar nos patinhos da bandeira.

Antigamente, os patos migravam conforme a estação do ano. Mas, pelas mudanças climáticas, o máximo que conseguem hoje é locomover-se de uma parte da cidade à outra. Geralmente à noite.

Os caçadores, por sua vez, estão sempre à espreita. Vez em quando, aparecem com motocicletas.

Já houve um representante da Associação de Proteção aos Patos (APP) que sugeriu aos penosos não pararem nos sinais vermelhos após a meia-noite. Assim, deixariam de ser patos fáceis. Mas logo a Associação dos Caçadores (AC) respondeu: “Se não pararem nos sinais vermelhos, serão multados.”

Patos são sensíveis à multas.

Estas costumam ser mais violentas que os projéteis.

Então os patos arriscam. Grande parte vai para a panela.

A panela não é um lugar muito agradável. Mas é a lei da selva.

A selva, por contraponto, tem-se tornado um local cada vez mais civilizado. Há leis para tudo. Menos para os direitos dos patos. Por isso, quem paga o pato nessa história é o próprio pato. Mas isso não é um problema. Eles se multiplicam aos milhares. Sempre haverá deles.

As associações também determinam as leis de conduta para os caçadores. Mas eles geralmente não as obedecem. É a lei da selva. Não há multas que os afetem. Por isso podem usar a munição que lhes apetecer para abater quantos exemplares conseguirem.

É claro que a APP nada pode fazer a esse respeito. Nem mesmo os patos que, apesar de serem em maior número, tem um cérebro pequeno e não conseguem se organizar para tentar acabar com os atiradores. A sua única reivindicação é para se mudar a bandeira do Brasil.

Entretanto, essa é uma medida difícil de ser discutida, quanto mais aprovada.

O que eu penso?

Que se mude a circular. Ao invés de substituir as estrelas da bandeira por patos, que se obrigue os postes a mijar nos cachorros.

 

 

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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Emir Ross publica quinzenalmente neste blog.

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04
ago
13

A crônica de Emir Ross: Adriano

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Adriano, por Emir Ross

 

Adriano, o jogador de futebol, não jogou a carreira fora. Num mundo onde raramente há opções, ele preferiu salvar a vida.

Adriano foi matéria de trabalho da imprensa. Foi matéria de diversão para o público. Foi mão-de-obra para empresários que enxergam cifras onde há carne e osso.

“O imperador”.  Convenceram-no que ele se tratava disso. O destruidor das defesas. Aquele que conquista. Que tem súditos. Mulheres, territórios. Convenceram-no que a grande área era domínio eterno e exclusivo seu.

Também convenceram o público. “Lá vem o imperador”. Deram-lhe louros. Uvas. Vinhos. Massagens. Mansões recheadas de jovens servis. Compuseram-lhe hinos, construíram estátuas, confeccionaram mantos.

O povo precisa de ídolos. Por isso, todo ano, é necessário fabricar mais.

Existem departamentos repletos de especialistas em criar ídolos. Primeiro se escolhe um ser humano, depois se transforma um feito comum num feito notável. Compara-se isso a um mito. Convoca-se a imprensa para disseminar a ideia e está feito o trabalho.

O mortal torna-se eterno. O indivíduo deixa de ser humano para ser outra coisa que desconhecemos o nome.

“O imperador”, disseram.

Mas Adriano, o jogador de futebol, jamais foi “o imperador”.

Adriano, o jogador de futebol, sempre foi “o gladiador”.

Jamais teve um império. Ao contrário disso, sempre trabalhou para um. Cego e servil. Fiel e corajoso.

No dia em que teve a brilhante de ideia de subir o morro e se encontrar com a infância, onde seu coração batia de verdade, onde seus amigos de verdade estavam, falando sua língua e comendo sua comida, pôde o imperador perceber que seu império, na verdade, era construído de papel machê.

Adriano não jogou a carreira fora. O que jogou fora foram as marionetes que o conduziam. Como tantos outros, percebeu que a felicidade está nas coisas simples. Pequenas. A memória afetiva o levou a preferir o churrasco na laje aos coquetéis em Milão. O levou às cervejas retiradas do isopor aos vinhos piemonteses. Preferiu namoricos adolescentes a namoradas que o faziam de trampolim para a Playboy.

Adriano, o filho.

Sou admirador dele. De sua atitude. Preferiu largar todos os rótulos. As cifras e os louros.

Conseguiu.

Talvez eu ainda não consiga me dedicar ao que realmente importa. Nem eu, nem noventa por cento da população. Ainda somos gladiadores querendo governar o império. Cegos, servis e burros. Em busca de algo que não existe. Ainda estamos presos às amarras. Mas um dia chegaremos lá.

 

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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20
jul
13

A crônica de Emir Ross: Nuvens, A gata, Desculpa e Obrigado

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Nuvens, A gata, Desculpa e Obrigado, por Emir Ross

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Nuvens

Você me disse que a nuvem grande era eu e que a pequena era você.

E que, naquela tarde, se fizéssemos tudo que as nuvens fariam, seríamos felizes para sempre.

Quando as nuvens se tocaram, eu senti que o que você dizia podia ser verdade.

E quando a nuvem grande fechou os olhos, percebi que o céu era o limite para nossa felicidade.

Acho que você estava certa quanto às nuvens. O que faltou foi me dizer o que aconteceria depois que o vento soprasse forte e levasse as nuvens para onde nossos olhos não podem ver.

– * –

A gata

A gata deveria ser adotada.
Mas como? Uma gata adulta. A gata tinha listras. E não tinha bebês.
No escuro, eram dois faróis. Na claridade, uma gata.
Joguei-a janela afora. E, lá embaixo, ela caiu de pé. Era tão alta minha janela que seus quatro pés cravaram-se no solo.

Meu quintal ganhou uma gata de jardim e, meu gnomo, uma namorada. Mas só de dia; de noite, eram dois faróis luminosos que ninguém queria adotar.

– * –

Desculpa e obrigado

Ontem à noite você me trouxe as palavras desculpa e obrigado.

Depois foi embora.

Quando vovô chegou perguntando quem tinha feito aquela bagunça toda, eu disse:

Desculpa.

Fiquei até a hora do almoço trancado aqui. E, enquanto ninguém aparecia, eu entendi que aquela palavra significava ficar sozinho.

Então, quando mamãe apareceu e abriu a porta, agarrei sua saia e disse:

Obrigado.

Ela me pegou no colo, me deu um beijo e depois me serviu uma coxinha.

Por isso, hoje quando você entrar de novo por aquela janela me trazendo uma estrela, já sei a palavra que devo dizer.

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07
jul
13

A crônica de Emir Ross: Eu sou um cretino

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Eu sou um cretino, por Emir Ross

Eu sou um cretino. E não me esforço para isso. Consigo ser na mais absoluta espontaneidade. Tem gente que se esforça. Faz até cara feia para parecer-se como tal. Mas não consegue. Os cretinos têm a cara bonita. Um sorriso tão falso que se expressa como o mais verdadeiro.

Eu sou um cretino de cara bonita. Faço até algum esforço para parecer mais feio, como deixar a barba mal feita e o cabelo desarrumado. Mas os cretinos conseguem sempre figurar melhores do que são.

Uma amiga perguntou-me por que eu andava sem escrever. Respondi com uma pergunta. “Não?”. “Pelo menos nos últimos tempos, nada novo.”, disse ela, ingenuamente, como todas as pessoas de bem. Então, fui sincero: “Escreverei qualquer cretinice.”

Queria pegar uma poesia. Curta. Para fazer as pessoas chorarem rápido. Mas desisti e decidi segurar a poesia pra semana seguinte. Na verdade, sou tão cretino que estava com preguiça de procurar tal poesia. “Farei um texto rápido, falando de mim”.

As pessoas gostam de ler confissões ou diários ou coisas parecidas referentes à vida alheia. Alguns sábios as chamam de cretinas. Mas eles não sabem o que é ser cretino. Essas pessoas são apenas burras. E burrice é algo de fácil convivência. Já a cretinice é uma arte. Não se aprende. Nasce-se com ela.

E, felizmente, para mim, quanto mais o tempo passa, mais os dotados dela se aprimoram.

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23
jun
13

A crônica de Emir Ross: Turistas Japoneses no País do Carnaval

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Turistas Japoneses no País do Carnaval, por Emir Ross

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Sempre que posso, observo os turistas japoneses. Praticamente os sigo. Eles são a espécie mais engraçada que os japoneses inventaram.

Quando eu era criança, e lá se vai muito tempo, queria ser japonês. Mas não turista. Talvez porque os japoneses não param de inventar coisas. E os turistas japoneses vêem o mundo através de uma Sony. Por isso eu queria ter cabelos negros e lisos; olhos esticados; e usar quimono. E, claro, quebrar tábuas com golpes de caratê.

Os golpes de caratê são a forma mais perfeita do autoconhecimento, que, devido a minha intimidade comigo mesmo, prefiro chamar de auto-conhecimento. Dá-se um golpe e pronto. Acabou o lero-lero.

Ando pensando em sugerir um projeto de lei para meus queridos amigos deputados:

Faixa preta em caratê ser pré-requisito para candidaturas à Assembléia e aos diplomas de engenharia.

Afinal, o que tem-se visto de obras públicas in-acabadas, mal-acabadas ou in-operantes daria para se encher um dojô do tamanho do Japão.

Viadutos e estradas são os campeões.

Quando os políticos não sabem para onde direcionar certas verbas, decidem construir um viaduto. O objetivo não interessa. O que vale é fincar placa, tirar foto e preparar discurso. Político tira mais foto ao lado de placa que patricinha ao lado de ator global. A inauguração de obras é o facebook do mandato. É tanto golpe sem direção que o seu Miyagi mandaria esses cidadãos lava-carro, pinta-parede, lixa-chão por meses a fio.

Eu, como leigo cidadão, escritor sem leitores, que nada entende de engenharia ou cálculos, posso enganar-me facilmente. Mais, inclusive, que falar bobagem.

Mas tenho plena convicção que não é necessário construir um viaduto para ligar o nada ao lugar nenhum.

Assim como tenho a santa compreensão de que as coisas mudam e não podemos construir uma rodovia cujo projeto foi elaborado há quinze anos, depois levou uma eternidade para ser aprovado e acaba obsoleto antes mesmo de entregue à população.

Outro ensinamento do Sr Miyagi: antecipe-se aos golpes.

Mas nossos queridos apenas armam a defesa quando já foram atingidos e o estrago está feito.

Tenho a impressão de que os turistas japoneses não entendem muito de caratê. Mas há algo em seu DNA. Eles estão sempre preparados com as câmeras a postos. Principalmente quando visitam o Brasil:

registram as favelas, obras-primas da arquitetura.

os mendigos, fazendo estupendos monólogos com suas roupas características.

Somos um país com atrativos sem igual. Mas eles registram, principalmente, grandes obras de arte feitas a base de ferro e cimento, espalhadas pelo país. Algumas são cortadas ao meio. Outras, parecem estradas para o céu. Ao final de tudo, talhados à Hollywood, esses turistas japoneses vão para suas casas. Assistem com os amigos e tentam desvendar o que os sensíveis artistas queriam expressar com estas intrigantes instalações espalhadas pelo País do Carnaval.

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09
jun
13

A crônica de Emir Ross: Ditadura do Faustão

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Ditadura do Faustão, por Emir Ross

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danca-dos-famosos-2013-el.

Cada vez que se fala do surgimento de um futebolista, taxa-se: jamais chegará aos mil gols de Pelé.

Eu não entendo porque os mil gols são tão importantes. Conheço boleiro que já fez mais de cinco mil gols. É só ir para essas canchas de futebol aos finais de semana e perguntar que se encontra aos montes. Mas, então, se tanta gente faz tantos gols, porque os importantes são os de Pelé?

O que importa na verdade, em qualquer que seja o assunto, não é o que acontece, mas o que está ao alcance de um conhecimento limitado de pessoas.

Bem sabido isto, é deprimente nos dias correntes ser um desconhecido que já fez mais de cinco mil gols.

Trocando em miúdos, é fácil deprimir-se ainda mais se começarmos a falar em música, literatura e outras artes onde a maioria do que é bom não chega ao alcance do público.

Estamos vivendo a ditadura cultural do Domingão do Faustão.

Quando um indivíduo entrega-se a ela, seus ouvidos e cérebros não conseguem mais se locomover. Na sofreguidão caquética dessa ditadura, deixa-se de gostar de música, de literatura ou de cinema. Tem gente que não vai assistir a determinado filme apenas por ‘não gostar de cinema nacional’. Nestes termos as discussões da semana não giram em torno dessa ou daquela obra e sim sobre quem apareceu no Faustão e que roupa vestia.

Um mês depois do aparecimento, ninguém lembra da grande obra do artista de um domingo que vendeu horrores na segunda e, do nada, deixou de existir.

Ganha a naba que apareceu na telinha, ganha o plim-plim, ganha o selo que o patrocina. Sabe quem perde?

Em poucas linhas, perguntarão o que Pelé tem a ver com isso. Respondo que, se Pelé fizesse dez mil gols ali no campo da Redenção, ninguém saberia que ele teria existido, apesar do estupendo recorde de gols.

Conheço algumas bandas de Porto Alegre que podem ser comparadas tranquilamente ao The Who, ao Jethro Tull ou ao Belle & Sebastian pela qualidade do seu trabalho. Mas, por fazerem seus gols no campo da Redenção, Deus e o Diabo, Bilirrubina, Irmãos Rocha e Input Output deixaram de existir após um ou dois álbuns. Depois surgem outras marcando inúmeros gols: Apanhador Só, Procura-se Quem Fez Isso. Não vou me estender falando de escritores, cineastas, artistas plásticos que sequer conheço e certamente teriam um trabalho para se aproveitar exaustivamente. Mas o que fazer, eles não chegam ao Domingão do Faustão e não usam chapinha. Melhor parar por aqui e aproveitar os shows dos referidos enquanto existem.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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25
maio
13

A crônica de Emir Ross: Bundas e ombros

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Bundas e ombros, por Emir Ross

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Antigamente os árbitros vestiam preto. Vez em quando, uma camisa amarela. Bem vez em quando. O preto era o símbolo da imparcialidade. Da austeridade. Mas os tempos mudam. Hoje, eles vestem camisa, calção e meias verde-limão, rosa-choque ou outra cor brilhante que aparecer. Fúcsia sempre é uma ótima opção. A mudança na cor foi só o começo. Em suas bundas e ombros vibram marcas de lojas, de equipamentos eletrônicos e de etecétera. É o fim da imparcialidade. Como confiar em alguém que vende suas bundas e ombros para as marcas que pagam mais?

O mundo está mudando. O futebol é apenas o reflexo mais vistoso. Tudo parece à venda. Ou para aluguel.

Não me será estranho o dia em que a denominação do nosso planeta for licenciada por períodos de tempo. Vejo os repórteres em matérias de telejornais: “A população do Planeta Terra Coca-Cola aumentou em doze por cento no último ano segundo dados revelados hoje.”

Como no mundo das grandes marcas tudo é ação-reação, o concorrente terá de ser criativo: no intervalo do mesmo telejornal, veicula filme de trinta segundos: pessoas num parque ensolarado, passeando felizes. E uma assinatura: “No Planeta Terra Coca-Cola, todos ficam mais felizes quando o Sol Pepsi brilha.”

Mas não é apenas o planeta em que você mora e a estrela que ilumina suas manhãs que terão nomes de grandes marcas. Você poderá ter que alugar seu próprio nome.

No Brasil, a família Silva perderia a hegemonia. Pelo desconto de dez por cento na compra de seu ar condicionado, você se chamará José da Silva Cônsul por dois anos. Mas seu nome não poderá aparecer em fichas sujas. Caso aconteça, o desconto vai pro brejo e a multa é alta.

Nesse caso, não sei se o pior é pagar a multa ou manter o Cônsul no nome. Ainda mais se seu time de futebol alugar o nome para a Eletrolux. “Cônsul torce para o Eletrolux.”. Quando o time perde, o presidente explica: “precisamos dar um choque de ânimo nos jogadores.” É estranho, mas é a vida. Será normal. Estranho seria não aproveitar as oportunidades.

Estas são igual pernas de pirigueti, se abrem a todo momento.

Quando esse dia chegar, e vai chegar, seu animal de estimação também entrará na jogada. Se chamará Motorola por três minutos e você ganhará mil bônus na compra do próximo videofone. Para isso, é só postar uma foto engraçada dele no Motobook.

Nesse aparelho, é proibido parecer menos feliz que os outros redenautas. Mas esse papo não é novidade.

Novidade será daqui a cento e quarenta e sete anos alguém desdizer isso.

Enquanto esse tempo não chega, sintonizo os canais de futebol. Vejo a grama verde e a torcida entusiasmada. E os árbitros alugando bundas e ombros. Mas, o que fazer, melhor nos deles do que no meu.

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Emir Ross é publicitário e escritor e mora em Porto Alegre. Tem participação em 9 antologias de contos e recebeu mais de 20 prêmios literários. Entre eles, o Felippe d’Oliveira em Santa Maria (3 vezes), o Escriba de Piracicaba (2 vezes), o Luiz Vilela de Minas Gerais (2 vezes), o José Cândido de Carvalho do Rio de Janeiro (2 vezes), o Prêmio Araçatuba, entre outros. Escreve no blog milkyway.

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