Posts Tagged ‘A crônica de Gabriela Silva

06
dez
13

A crônica de Gabriela Silva: A literatura e o amor a compartilhar

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A literatura e o amor a compartilhar, por Gabriela Silva

“Escolhi dar-te meu coração”. Eu poderia começar meu texto assim. Apenas falando isso. E explicaria tudo. Mas como gosto muito de explicar as coisas, resolvi escrever sobre o que dizer isso significa. Literatura.

Oferecer meu coração a alguém é mostrar o que de melhor há em mim: palavras, poesias, livros. Construí minha identidade assim. Desde a infância andei entre deuses e homens e aprendi muito. Sempre digo que não sei amar, acho que não sei mesmo. Amar me exige muito, amar me afasta de todas as coisas que prezo: liberdade, segurança e independência. Fujo do amor. Mas caso ele me encontre (o que raras vezes acontece, pois me escondo muito bem) transformo-o em literatura.

Daí, leitor você se pergunta, como eu faço isso…abandono a pessoa e escrevo poesias tristes e viro um fantasma como os poetas românticos faziam? Ou fico embaixo da janela do ser amado e me declaro até os sabiás começarem a cantar e eu ter que partir com o nascer do sol?

Nada disso, eu tento mostrar à pessoa como o mundo da literatura é fascinante. Tento mostrar a ela como funciona o meu universo particular e que todas essas coisas que eu acho realmente tão importantes.

Na minha suposição de felicidade, amor é compartilhar e eu não saberia não compartilhar literatura. Antoine Compagnon diz em um de seus livros que “a literatura é um exercício de pensamento, a leitura, uma experimentação dos possíveis”. E é isso que eu tento mostrar a quem amo, que a literatura é uma forma de ver o mundo, como toda a arte. Que mesmo que ela fale das coisas mais terríveis, ainda sim, ainda na dor ou na morte, ela é uma arte tremendamente interessante. Não por que imita a vida, ou por que consegue copiar o mundo real de uma forma tão coerente que a gente acaba achando que é verdade.

A literatura é amor, por que nos permite ver o quanto somos humanos. Ela não profana ou copia as relações humanas, mas se serve delas para engendrar um universo de semelhanças. Nessas semelhanças é que encontramos nossa humanidade. Roland Barthes em Fragmentos do discurso amoroso, comenta que escrevemos para alguém, precisamos do outro, do amor a ser dedicado para que o texto seja produzido. O outro é a nossa festa, nossa inspiração. E vejo isso na literatura, quem amo, me inspira a ler mais, pois terei o que contar, terei uma infinidade de histórias para não ser monótona. Serei sempre Sherazade, prolongando meu amor por mais um livro.

“A arte é inútil” diz Oscar Wilde. E é. Totalmente. O que importa é a vida, a falta de razão, o choro, a gargalhada mais alta e sincera. Esses encontros e desencontros que fazem nossos corações pulsarem tão forte. E é por isso que falo da literatura para quem amo. Por que somente para essa pessoa eu quero mostrar que meu coração é bonito e tem muitas histórias nele.

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Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutora em Teoria da Literatura pela PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Entre outras atividades, coordena atualmente o grupo que organiza e apresenta mensalmente o Sarau das 6, programa de leituras e comentários literários, na Palavraria.

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16
set
12

A crônica de Gabriela Silva: Da última vez que perdi o sono

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Da última vez que perdi o sono, por Gabriela Silva

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Algumas noites atrás eu perdi o sono e fui pegar um livro na estante para me distrair. Peguei Hamlet, como se nunca o tivesse lido antes. Ele fica mesmo perto da minha cama, na prateleira sobre a mesa. Sempre esteve no mesmo lugar, desde os tempos em que eu morava na casa de minha mãe. Aliás, sou assim, as coisas para mim têm lugar, elas precisam de um lugar. E quando eu as troco, sem querer, me perco toda dentro de casa à procura delas. Bem, Hamlet, vamos a ele. Eu contava que peguei o livro na estante. É o mesmo desde a época da faculdade: coleção pocket da L&PM, tradução do Millôr Fernandes. Todo marcado, cheio de anotações da aula da Mara Jardim, que me apresentou o livro. Depois da leitura desse drama nunca mais fui a mesma pessoa. Ele me tomou de assalto, complicou minha vida e eu que era um coração simples me tornei muito desconfiada e crítica.

Gosto de pensar em todas as coisas que ali estão: dos solilóquios, das maquinações de Hamlet, do desencontro de realidade e desespero de Ofélia, do modo simplório como agem Guildenstern e Rosencrantz, da vulnerabilidade de Gertrudes, da vilania de Cláudio e da suscetibilidade de Polônio. “A invenção do humano está nos textos de Shakespeare”, disse certa vez crítico sobre a obra do dramaturgo inglês.  E está tudo lá mesmo nas linhas de suas peças.

E fiquei pensando, folheando esse livro que é uma edição pequena, antiga e que me apresentou o mundo. A partir dele não pude mais me distanciar da literatura, por que criei para mim mesma uma fome, demasiado grande e insaciável de querer entender o mundo através dos livros.

Com a memoria das aulas que dei sobre Hamlet, das muitas vezes que escrevi sobre ele, das aulas da faculdade que eu ansiava a cada semana para ouvir sobre Hamlet, veio uma lembrança em especial. Lembrei-me de minha melhor amiga, desde os tempos de escola. Por que pensei em Horácio, na sua fidelidade e na presença na vida do perturbado amigo. Minha amiga é minha versão de Horácio. Ela me ouve com total atenção, me pede calma para a vida e me ajuda com os fantasmas.

Amigos são diferentes uns dos outros: críticos, azedos, mal-humorados, engraçados, quietos, acolhedores e austeros. Não são poucas as amizades representadas na literatura, depois eu escrevo mais sobre isso. Mas eu gostava de contar um fato, que me fez pensar mais ainda nessa minha amiga Horácio. Contava-lhe eu de mal fadadas ações do mês de agosto, com detalhes, pois ela adora detalhes. Depois de um acesso de riso, que eu mesma não resisti e cai na gargalhada junto, ela me diz: “não sei o que te dizer Gabi.” E ficamos em silêncio, olhando para o chão. Depois de alguns minutos eu disse: “não há o que dizer.”

Elsinore já havia sido invadido mesmo, Fortimbrás já estava na sala principal do castelo. Mas eu me senti tão consolada por ela estar ali, por ela ser quem é. Ali, naquela tarde, tudo se encerrou, tudo virou ficção. Eu não precisava mais me perguntar o porquê, ou me sentir isso ou aquilo. E já que o resto é silêncio mesmo, aproveitamos e comemos mais um pedaço de bolo, demos mais umas risadas e eu prometi trazer histórias melhores da próxima vez.

Acabei dormindo com Hamlet nos braços (feliz trocadilho), na manhã seguinte, ao arrumar a cama e ir colocar o livro na estante eu pensei: que bom que muitas coisas não mudam e que eu posso encontrá-las sempre no mesmo lugar.

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Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Entre outras atividades, coordena atualmente o grupo que organiza e apresenta mensalmente o Sarau das 6, programa de leituras e comentários literários, na Palavraria.

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03
set
12

A crônica de Gabriela Silva: A Dorothy que há em mim

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A Dorothy que há em mim, por Gabriela Silva

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Um dia, me lembro que era um verão muito quente e eu deveria ter uns seis anos, assisti O mágico de Oz, baseado na obra de L. Fran Baum. Eu que já assistia a filmes antigos e que gostava muito deles fiquei mesmo fascinada. O filme começava em preto e branco e depois ficava colorido, quando a protagonista, que era interpretada pela Judy Garland, entrava no mundo mágico.

A narrativa é sobre Dorothy Gale, uma menina que durante uma tempestade, é levada pelo tufão para um outro lugar, desconhecido, junto com seu cãozinho Totó. Nesse outro mundo ela conhece o Espantalho, o Homem-de-lata e o leão. Cada um busca realizar um desejo: o Espantalho deseja um cérebro, por que ele quer muito muito pensar;  o Leão quer coragem, afinal ele é o rei da selva, e é mesmo muito covarde; o Homem-de-lata quer um coração, muito sentimental, ele quer o que todos a sua volta têm: a capacidade de amar. Dorothy se junta aos três para encontrar um caminho de volta para casa. E a maneira dela voltar era ir até o Mágico de Oz.

Depois de todas as peripécias e obstáculos vencidos, ela mata a bruxa má (que toda boa história deve ter), seus amigos conseguem o que querem e ela ganha sapatos vermelhos que têm a capacidade de trazê-la de volta para casa. Basta que ela bata os dois calcanhares um no outro e diga três vezes: “não há lugar como o nosso lar”. E de volta está no seu quarto quentinho e com a tia Enm e o tio Henry, ela se dá conta que lá é o melhor lugar do mundo, onde ela se e sente segura e amada.

Por que eu contei esta história? Por um bom motivo: tornamos as coisas mais simples complicadas. Como a Dorothy, esquecemos que podemos tudo que quisermos. Mas as vezes temos um tanto de medo de ir à luta que esquecemos de colocar pilha nos sapatos vermelhos e por estarem apagados não os vemos no quarto, ali mesmo, do lado da estante.

E tudo para de novo: a dieta fica para a segunda-feira, a caminhada para domingo que vem, as decisões para daqui a pouco, pois não para agora, portanto podemos colocá-las no fundo da gaveta para depois. E assim nossa perspicácia vai por água abaixo, nosso desejo de ser feliz também e mais um dia se passa, mais um mês se passou no calendário e nada do que quisemos aconteceu. E culpamos o outro, o tempo, o passado da humanidade, os chineses que dominam o mercado e a Coca-Cola que vicia as pessoas com suas frases animadas.

E então a Dorothy que há em mim e em você grita: Que mágico que nada, criança! A Força está com você! (eu sei, isso é Star Wars, mas o que conta é o significado). E do nada, do nadinha aquela vontade de mudar, de quebrar a banca e mostrar quem é que manda surge! Dai fazemos aquelas coisas todas guardadas na gaveta.

E lá vamos nós, pelo caminho de tijolos amarelos, em busca de nossa autenticidade, do nosso verdadeiro e único lar e de todas as coisas que nos fazem feliz. E tudo deixa de ser assustadoramente complicado. Não é difícil virar a página daquele livro que estamos lendo há tanto tempo. Se o terminarmos, livros novos virão. Se conseguirmos chegar até o outro lado da ponte que nos amedronta, vai ser fácil bater os calcanhares vestidos de vermelho e voltarmos para casa. E é assim todos os dias, nos revelamos e renovamos: Leões. Homens-de-lata, Espantalhos, não só a Dorothy. Essa é a verdadeira magia de Oz.

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Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Entre outras atividades, coordena atualmente o grupo que organiza e apresenta mensalmente o Sarau das 6, programa de leituras e comentários literários, na Palavraria.

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19
ago
12

A crônica de Gabriela Silva: Um pouco de paciência

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Um pouco de paciência, por Gabriela Silva

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Certa vez trabalhei numa pesquisa sobre Machado de Assis, era minha tarefa (um bocado prazerosa) ler as crônicas produzidas por ele. Num destes textos encontrei a seguinte frase: “a paciência é um biscoito dado pelos deuses.” Não contesto essa frase. Dizem os budistas que a paciência é cultivável. Não contesto também.

A palavra paciência vem do latim “patientĭa, ae” com o significado de “capacidade de suportar, constância; submissão, servilismo; faculdade de resistir, derivado do verbo patĭor, ĕris, passus sum, pati “sofrer” – informações essas retiradas do Houaiss.

Bem, a paciência é uma virtude. Inerente ou adquirida. Aliada à sabedoria, torna-nos seres melhores. O questionamento é: o que é ser melhor? Considero uma boa resposta: saber posicionar-se entre bem e o mal, entre as virtudes e as incapacidades, entre o não e o sim. Equilíbrio é um bom sentido para “ser melhor”. A caridade e a justiça nem sempre precisam estar conjugadas a um trabalho social. A caridade pode ser também a gentileza e a solidariedade. A justiça pede que prestemos atenção a tudo que nos cerca e então poderemos fazer uso dela.

É fato que a paciência nos exige o exercício cotidiano de aprender. Então você se pergunta: aprender o quê? E eu respondo: aprender a observar, a “sacar” o mundo e as pessoas.

Então eu me lembro de algumas das personagens criadas por Salinger que são tomadas pela mais sublime paciência, como Seymour, ou ainda Holden Caulfield. São personagens que observam o mundo, tranqüilas, e decidem a longo prazo o que vão fazer. Isso sempre me fascinou em Holden, protagonista de O apanhador no campo de centeio (do original The catcher in the rye). Chamado de “o livro que criou uma geração”, a narrativa é sobre um garoto que depois de rodar em quase todas as disciplinas na escola está voltando pra casa. E então é que entra a minha questão sobre paciência: Holden pensa sobre sua vida, sobre as coisas que quer e que não consegue fazer, sobre a sua relação com o mundo e com as coisas. Não um símbolo de rebeldia, mas de observação, de método, de paciência.

Lembro que conseguir esse livro foi para mim um exercício de paciência. Eu o queria há bastante tempo, um dia descobri que minha irmã o tinha na sua estante. Eu que não havia percebido. Mas não me bastava ler aquele ali, ele tinha de ser meu. E eu não podia apenas pegá-lo para mim, tinha que ser um negócio limpo. Achei na minha estante um livro que ela queria: O senhor embaixador de Erico Veríssimo. Foi um bom negócio. Depois do Apanhador, eu comprei todos os outros do Salinger. Nunca mais deixei de ler suas histórias, nunca mais consegui não pensar durante horas antes de resolver um assunto. A paciência é, sim, cultivável.

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Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Entre outras atividades, coordena atualmente o grupo que organiza e apresenta mensalmente o Sarau das 6, programa de leituras e comentários literários, na Palavraria.

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29
jul
12

A crônica de Gabriela Silva: Recordar, ler e recordar de novo

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Recordar, ler e recordar de novo, por Gabriela Silva

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“Texto de prazer: aquele que comenta, enche, dá euforia; aquele que vem da cultura, não rompe com ela, está ligado a uma prática confortável da leitura. Texto de fruição: aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise em relação com a linguagem.” Roland Barthes. O prazer do texto.

Ler é antes de tudo, romper com o propósito de um universo único. Lemos porque precisamos. É a sede de conhecer o que nos é diferente, estranho ou ainda exótico. Procuramos na literatura as viagens que determinadas por espaço e tempo não podemos realizar. E então, encontrando o caminho dessas viagens, passamos a procurar respostas, para um acontecimento cotidiano, para decepções, para alegrias…E quando encontramos, junto está a sensação de que algum ente no mundo esteve na mesma situação. É ai que nos identificamos com alguma personagem que nos dá a impressão de que é real, de que viveu semelhantes experiências. Não que a literatura seja perfeita, não que ela deva desconstruir nossa visão da vida. Não. É mais do que apenas isso. Imagine fragmentar-se por centenas de livros, em cada um deles colocar uma memória, como um álbum de fotos. Como se classificariam? Que livros são a minha, a sua memória?

Há determinados livros que são a chave de nossa memória toda. Assim como existem filmes, músicas e pessoas que concentram boa parte das imagens que guardamos em nossa mente (ou no coração). Uma vez li, em determinado livro de teoria literária, que “recordar” não vem de lembrar, mas se origina da palavra cordis, coração em latim. Então, recordar é passar novamente pelo coração, esse arquivo de memórias e sentimentos.

Sempre que me lembro das minhas leituras de criança, um livro em especial aparece na memória: O burrinho que queria ser gente, de Herberto Salles. Era uma edição mesmo muito feia, que minha mãe me havia dado numa feira do livro. O que me fazia ler ele umas muitas e tantas vezes era o final: nunca me conformei. A história é assim: um burrinho queria ser gente, um dia ele encontra uma bruxa que o transforma em… gente. Dai é aquilo, sempre tem um porém, uma mas, um não sei o quê… e essa, como uma boa história, também tinha: o burrinho era muito querido e portanto chamado assim: burrinho querido. A bruxa lhe ajudou, mas também deixou dito que o batizaria de Ohnirrub Dorique, e que se um dia alguém lhe dissesse o nome ao contrário, ele voltaria a ser burro. Ele vai viver sua vida (nas ilustrações ele era bem bonito), se apaixona por uma moça linda e um belo dia… ele faz uma coisa errada e a namorada lhe diz: ah meu burrinho querido! E puff! Ohnirrub Dorique se transforma em burro e volta pra casa numa nuvem para o campo, triste e solitário. A moral? Preste atenção no que você faz, ou pode por tudo a perder.

Esses dias encontrei o livro na minha estante. Ele estava meio deixado de lado, talvez até mesmo esquecido. Li e recordei. E ele fruiu em mim, como nunca antes, me deixou desconfortável mesmo, a pensar nas ações e reações que o cotidiano demanda de mim. E me aconchegou, pois mais uma vez lembrei que, desde a infância, eles, os livros, me acompanham. E consigo trazem as personagens que habitam comigo o mundo. Ainda que não lhe possa mostrar, amigo, Ohnirrub Dorique está agora aqui a soprar no meu ouvido: let it be… let it be… porque um dia, menina, alguém pode te dizer que está na hora de voltar pra casa.

Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Entre outras atividades, coordena atualmente o grupo que organiza e apresenta mensalmente o Sarau das 6, programa de leituras e comentários literários, na Palavraria.

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24
jun
12

A crônica de Gabriela Silva: Junho, mês dos namorados

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Junho, mês dos namorados, por Gabriela Silva

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Então junho aqui no Brasil é o mês dos namorados, no resto do mundo é fevereiro.  Pois, considerei em falar sobre isso. Lembro-me que a data de fevereiro é 14, dedicada a São Valentim, que realizava casamentos às escondidas, favorecendo assim os amores ditos proibidos. Aqui a data é mais comercial do que propriamente em louvor a um santo, pois Santo Antônio (um sujeito muito querido de todos) tem como data oficial no calendário religioso o dia 13 de junho. Há algumas simpatias simpáticas que prometem aos apaixonados a plena realização de seus desejos amorosos quando praticadas na madrugada deste precioso dia.

Pensando nisso, lembrei-me de algumas personagens da literatura: Jane Eyre e Elizabeth Bennet. Ambas vivem amores quase impossíveis, se não impossíveis, no mínimo turbulentos. Jane Eyre ( o romance tem o mesmo nome),  engendrada por Charlotte Brontë, é uma criatura deveras interessante, permitam-me contar que é minha personagem predileta na galeria do gênero  feminino da literatura ocidental. Ela é uma menina que começa a narrativa sendo muito infeliz, torna-se professora e vai trabalhar para uma família rica e aí… bem… aí… ela conhece Mr.  Edward Rochester, um sujeito mesmo muito sinistro, mas que tem seu coração envolvido de imediato pela moça culta e tímida que é professora de sua pupila . Mas ele tem um segredo (quem não tem, não é mesmo?): num cômodo da casa ele mantem distante do mundo sua primeira mulher, que tem sérios problemas mentais. Após diversas peripécias Jane Eyre tem seu sonho de casar com Rochester destruído, afasta-se e, depois de muito tempo, atendendo ao chamado de seu coração, retorna para seu par que está cego e desnorteado.  Eles ficam juntos, e nós leitores felizes com esse final. Agora coloquemos sob a perspectiva de São Valentim, se ela houvesse se valido do santo e casado na surdina, ninguém teria desmascarado Rochester na hora do casamento.  Eles viveriam com a louca do sótão incendiando a casa, mas todo mundo fingiria não ver e aos domingos  todos almoçariam felizes ao ar livre no campo.

Nossa segunda moça em questão é Elizabeth Bennet, personagem protagonista do romance Orgulho e preconceito, de Jane Austen, na narrativa ela é uma das moças “casadouras” da família Bennet, já quase na idade de ficar “para titia”.  Então, ela conhece Mr. Darcy, rico, bonito, de excelente caráter  e demasiado preconceituoso com a condição financeira de Lizzie e de suas irmãs. Ela por sua vez é orgulhosa ao extremo, afirmando sempre que não se casaria por conveniência, mas somente por amor. Amor despertado por Darcy. Após armadilhas, suspeitas, desencontros e outras tantas coisinhas que um romance tem que ter, Darcy finalmente pede-a em casamento e ela…nega-lhe! Mas, como o amor tudo vence…ela reconhece o que está tolamente perdendo e eles ficam juntos. Nós, leitores, mais uma vez, suspiramos e fechamos o livro contentes. E Santo Antônio? você se pergunta ai lendo meu texto…bem…se ela houvesse na madrugada do dia 13 pedido ao santo que lhe mostrasse o homem que seria seu marido, e então Mr. Darcy aparecesse, ela saberia de imediato que era ele! E pronto, tínhamos de largada um belo casório!

Porém… como na vida, na literatura não é nada fácil. E não é fácil amar, conviver ou tentar descobrir o que torna alguém tão especial para nós. Se elas houvessem, assim como nas minhas sugestões recorrido aos santos conhecidos por suas caridades para com os enamorados, talvez fossem pessoas infelizes, pois não teriam descoberto da maneira mais íntima, como descobriram o porquê do amor e da grandeza do sentimento que as motivaram. E pior ainda: não teríamos essas fabulosas fábulas para deleitar nossos ávidos corações e expectantes cérebros.

O que vale é que amar está nas linhas desses grandes romances assim como na vida. E que assim como essas duas personagens precisamos vez por outra arriscar e descobrir o que nos espera no dia seguinte do resto de nossas vidas.

Gabriela Silva tem literatura no seu dna. Desde a infância convive com homens e deuses e as histórias que lhe contam. É formada em Letras, estuda o mal e a morte na literatura e todas as teorias conspiratórias e literárias. É doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS, tendo como foco a construção da personagem. Entre outras atividades, coordena atualmente o grupo que organiza e apresenta mensalmente o Sarau das 6, programa de leituras e comentários literários, na Palavraria.

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