Posts Tagged ‘A crônica de Guto Piccinini

17
set
13

A crônica de Guto Piccinini: Sobre o imponderável

.

.

Sobre o imponderável, por Guto Piccinini

Seguia pela rua, com os pensamentos absortos neste qualquer coisa do dia a dia. Caminhava a passos largos, numa pressa imprecisa que conduzia meus passos mais do que era conduzida por eles. Nesta idade, é uma surpresa ver minhas pernas com tanta vitalidade, seguindo o rumo ditado por algo que transcende o corpo. Não é raro estes pequenos estranhamentos com nós mesmos. Passava em frente da única capela da cidade. A acompanhava com o olhar distante, tangenciando a sensação de estar sendo interpelado pelo prédio, do outro lado da rua, como num misto de repulsa e curiosidade. Há muito recusara a frequentar os encontros tão comuns à cidade, demasiadamente centralizados, e mesmo nos últimos anos havia tornado mais intensa esta relação, evitando entrar ou mesmo a passar por perto do local. Sabemos os efeitos incontornáveis que a primeira decisão confere a estas relações. Mas, de algum modo, segui para aquela direção. Estanquei em meu fluxo contínuo e resolvi adentrar neste antro de espiritualidade e benevolência. Não era um prédio imponente, mas de uma humildade singela, preenchido por adornos simples, de um branco gasto pelo tempo. De frente para a fachada, um pouco mais simpática desta distância, vi um movimento incomum. Pessoas se aglomeravam em uma sala estreita, recheada de flores e tristeza. A ideia da morte já faz parte do meu cotidiano envelhecido, como uma contagem regressiva que se aproxima em aceleração constante. Estava sendo velado um homem, de uma juventude que acompanha grande indignação o costumaz abatimento e consternação.

O corpo compõe serenamente com o silêncio imposto aos remanescentes que o rodeavam em clima fúnebre. Permaneço de pé na soleira da porta e acompanho de longe o zumbizar de palavras que intentam aconchegar às duras penas aquele encontro com a ausência. Eram homens e mulheres extasiados por este embate injusto, de modo geral inócuo, de constituir algum sentido ao imponderável. Penso que aí nos deparamos com o peso do fracasso de nossa onipotência. Momento sublime em sua crueza, donde o passado e o futuro perdido explodem num presente derradeiro e implacável. Ali, testemunho pessoas serem solapadas do desejo inocente da imortalidade. Lembro de ser pequeno e imaginar a experiência da morte como um outro mundo, distante, como se pudesse desviar de seu golpe certeiro no último instante. Presente em todas as pessoas que rodeavam a si próprios naquele ritual de despedida, nada mais fazia sentido nisto que era sentido. Não havia por onde mover-se. Estático, dou-me conta de que, nestes momentos, compadeço daqueles que permanecem. Não somente num sentido de amparo à dor que lateja lancinante e que, torpes, insistem nesta caminhada incompreensível. Preocupam-me os restos desta vida espalhados, de seu passado renascido, das imagens de um virtual futuro. Uma memória viva, ilustre e iluminada. Afinal, o que seria a morte? Estúpida e inextinguível. Cada qual com sua ínfima existência, terminado o rito, carrega consigo um pedaço desta história, re-avivando e preenchendo as lacunas dessa dúvida infinita.

* Este texto é uma singela homenagem ao amigo Samuel Eggers. Parafraseando Primo Levi sobre a sensação de vazio que permeia mim e a todos que o conheciam: “Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa língua não tem palavras para expressar essa ofensa, a aniquilação de um homem”.

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.

04
set
13

A crônica de Guto Piccinini: Casimir Pulaski Day

.

.

Casimir Pulaski Day, por Guto Piccinini

 

Não era um dia como qualquer outro. Ele caminhava em meio as árvores e em meio aos lampejos de um sol não mais intenso que o suficiente para sabermos que é dia. Gostava de caminhar em meio a esta coroa iluminada, ser levado pelas andanças de um caminho sem destino certo, um passo atrás de outro. Passava o tempo entre um mundo que vislumbrava de peito aberto, mas tomado pela aceleração crescente de pensamentos. Já passara um longo tempo desde sua longa despedida. Já passara um longo tempo, mas a cada passo sentia o quão presente em seu corpo se fazia o desenrolar daquela noite. Era um dia como outro qualquer, mas para ele, entregue àquele inocente mundo de futuro incerto, seria sempre o dia em que o indizível se faria presente. Tão cedo na vida, ele como um pluma ao vento, permeado por um tempo que não oferece trégua, era tomado por questões que não lhe pertenciam. Em sua memória apenas o vazio de um tempo cuja felicidade não lhes cabiam num sorriso, ou nos pequenos corpos que outrora ocupavam.

Duas semanas antes, estavam escondidos de quem pudesse vê-los. Riam como só poderiam naqueles tempos sem sentidos definidos, mas colados um ao outro sem saber ao certo quais os caminhos do que sentiam. Estavam envoltos pelo calor da brincadeira e pela sensação plena que só o presente tem a capacidade de nos oferecer. Ele a olhava com o brilho nos olhos de quem descobre as portas de um novo universo. Embora se conhecessem boa parte de suas vidas, foi nesse momento que algo se impôs. Ele ainda acreditava que tudo era destino do grande Criador, e diante de sua presença Ele dava testemunho de sua obra. Ela, corajosa, beijou o lado de seu rosto – o mesmo que ainda hoje ele acaricia como se fosse a ela – e saiu correndo como menina sapeca e cheia de si.

Uma semana antes, o mundo dos grandes subia aos céus com sua espada vigorosa, cortando o fio de esperança que eles ali singelamente esboçavam. Viram as lágrimas de seu pai ocuparem a casa, e o colorido dos dias dar lugar ao branco encardido e invisível da convalescença. Viram seu imaginário mundo de cabeça para baixo, quando ela, tomada pela peso precoce, correu de seus braços, apressada, com os tênis desamarrados e com a roupa amassada. Ele lembra ainda hoje quando viu-a virar-se, e com os olhos vermelhos de fúria pedir que não a seguisse por este novo caminho que se impunha. Ele lembra ainda hoje quando a visitou na mesma noite pela janela do quarto, e ela ainda em prantos, o aceitou de volta. Dormiram abraçados e sonharam o sonho onde nunca estariam longe e, se um acaso não estivessem correndo por entre as mesmas árvores que hoje ele insiste em visitar, estariam próximos como o dia em que se esconderam juntos.

Um dia antes, entoaram as preces que aprenderam nos domingos de missa. Ele a espiava com o canto dos olhos, ajoelhados com os ombros encostados e de frente para a mesma janela que dava vista para o pátio. Nada mudara com este esforço pueril, e ainda hoje brota-lhe no peito um misto de tristeza e ironia ao lembrar destes últimos momentos em que passaram juntos. Sente a dor lancinante do que lhe foi usurpado, e por esse anseio não atendido por Ele. Ela sorria como no dia em que se conheceram, enquanto ele não conseguia segurar nas mãos a responsabilidade de quem segue. Pela manhã, quando ela finalmente se foi, viu sua mão cair ao lado da cama ao mesmo tempo em que ouviu o pássaro bater no vidro da janela. Ele correu e trancou-se no banheiro, e no chão vislumbrou o que seria a vida com este dia. Mais tarde, olhando para seu corpo deitado, a viu como se estivesse dormindo, e testemunhou de relance um respiro de vida. Escrita do próprio punho, ela havia deixado uma simples carta, e que ele guarda até hoje. Uma vez mais ele a visitou durante à noite. Do alto da árvore, ele via da janela o quarto vazio, em meio ao reflexo do seu rosto, e o apelo para que nada daquilo fosse verdade. Finda a caminhada, sentou-se uma vez mais ao seu lado, a beija na testa de modo tenro e lê novamente seu último carinho.

* créditos da ideia à Felipe Lermen (que desconhece meu furto) e, logicamente, Sufjan Stevens.

 

 

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.

22
ago
13

A crônica de Guto Piccinini: A reunião

.

.

A reunião, por Guto Piccinini

Estavam todos sentados em volta da mesa redonda que centralizava o espaço destinado ao trabalho daqueles pobres indivíduos e, que no momento, parcamente tentavam permanecer imóveis em sua posição um pouco menos do que dignamente confortável. Reuniam-se todos os dez trabalhadores, que agora parados podiam perceber a dificuldade com que aquela sala os abrigava, ainda mais levando em consideração os movimentos necessários ao exercício daquela função. Somados a esses, estavam ali outros cinco componentes de uma equipe responsável pela fiscalização do trabalho e o controle da produtividade. De um lado, a imundice e os olhares perplexos de quem agora compreendia o motivo pelo qual a semana nunca transcorrera sem um esbarrão ou um choque mais vigoroso. Do outro, ternos engomados, pastas de couro e olhares de uma tranquilidade perversa. O contraste desta linha divisória imaginária, intensificava-se, na medida em que esta demarcação de uma posição hierárquica estabelecida, atualizava-se no ar plácido daqueles que contemplavam a cena, como que prestes a se refestelarem com o banquete recém posto à mesa. Ao restante da refeição, afetados pela calmaria que precede a tormenta, sentia-se, sobretudo, uma náusea decorrente do perfume adocicado que penetrava suas almas. Estavam cada vez mais acuados pelo peso daquelas presenças ilustres e ameaçadores, entrelaçados pelo ar pesado e pela quantidade de corpos e objetos que ocupavam o espaço. Contrariando princípios básicos da física, talvez, naquele infeliz momento, dois corpos pudessem ocupar um mesmo lugar no universo.

Um tanto extasiados pela semana, os trabalhadores não abstraiam qualquer sentido que pudesse se definir naqueles instantes de silêncio. Pelo contrário, estavam ávidos por alguma palavra possível, algum som extraído da profundeza do impossível, mas que oferecesse contornos à infinitude infernal que o encontro oferecia. Da ordem de um tempo que não tinham como compreender, aqueles famigerados seguiam pelo simples fato de que não teriam outra escolha. Contemplavam aqueles seres que pareciam ser de outro planeta, com seus uniformes modernos e a impassividade inerente a pura soberba. Mal sabiam eles que, enquanto seguiam com seu estupor angustiante, já estavam todos envoltos por um mar de palavras que preenchia a sala em ritmo lancinante. Inicialmente aliviados pela quebra do silêncio, foram aos poucos dando conta dos riscos envolvidos naquela imposta aventura. Como que perdidos em alto mar, encontravam apenas aquelas cinco figuras como torneiras ininterruptas, a esvaziar seus pulmões em brados retumbantes. Tomados pelo pavor, alguns dos trabalhadores resolveram arriscar braçadas em busca de algum porto seguro. Fora um exercício fugaz: quanto mais mexiam seus corpos frágeis, eram arrastados pela corrente sorrateira e implacável. E isto apresenta-se, apenas, como introdução.

O tempo rastejava. Findo o momento introdutório, o grupo invasor passou a requisitar o seu quinhão deste pequeno latifúndio. Do pouco que restava àquelas figuras esquálidas, viu-se um a um a depositar algo que de mais precioso e preciso lhes era possível. Um senhor, cuja barba branca e os longos cabelos eram as únicas características que lhe destacavam do restante dos mortais, levantou-se resoluto, e depositou uma gorda e larga tira de carne de seu lombo. Ao seu lado, o mais jovem e forte do grupo, embora pouco revestido de musculatura para os padrões normais, lascou uma porção do tamanho de um punho de seu braço direito. Entregou-o ainda pulsante nas mãos de seu algoz, que satisfeito, imaginou inúmeras possibilidades de investimento para o futuro. Do mais frágil, restou a entrega de ambas as orelhas, revestidas de astúcia. Um a um foram deliberadamente entregando pedaços e mais pedaços de suas carnes frescas. Dedos, mãos, pernas, olhos. Um a um, em silêncio e conformados com o dever cumprido. Satisfeitos com os resultados, os algozes contabilizavam o que lhes chegava acompanhados de fartos sorrisos. Talvez não soubessem o quão inteiros eles ali estavam, diante daquelas figuras insignificantes, e porque não: improváveis.

Mas em meio a tantas palavras impronunciáveis, um singelo senhor se destaca. Invisível ao restante dos que se embrenhavam por aquele espaço, seguia como que em outro mundo. Era a imagem do desamparo, mas surpreendente firme. Chegada a sua vez, fez ouvir a chamada costumeira, mas viu algo dele estancar um primeiro ímpeto que brotou involuntariamente de seu corpo. Pronto a cumprir com sua parte na oferenda, mas inquieto, permaneceu aonde estava, a contemplar seus algozes. Restou-lhe um quase imperceptível movimento dos braços, mas que passou batido aos que ali presenciaram este inaceitável longo titubeio. Em uníssono, o bloco intensificou a ordem. Não seria preciso ainda mais. Ressoando por aquele ambiente fétido, todos compreendiam o caminho a ser seguido. Alguns dos presentes, desorientados e assustados com a cena, apressaram-se por entregar novas oferendas, recém destacadas para dar conta da tensão crescente. Como que vencido por algo que desconhecia origem, mas possuído por uma coragem que lhe inflamava as ventas, foi percebendo o pouco que lhe importava de onde surgia nele tal disposição. Um novo chamado precipitou seu corpo a levantar-se. Pôs-se de pé e encarou a todos como que soubesse o que viria a seguir. Não era possível, naquele momento, recuar um milímetro sequer, e para além deste fato dado, era preciso seguir a risca a única possibilidade que se ofertava naquele momento. Bendito aquele que não nega um ímpeto! Na mesma velocidade com que se pôs de pé, aquele corpo franzino se punha em cima da mesa. Em meio aos olhares estupefatos, arriou as calças, e seguiu o fluxo sugerido por suas vísceras. Pouco mudara do odor que previamente acompanhava as semanas de labuta intensa. Terminado o serviço, levantou as calças e calmamente saiu pela porta, sob o olhar de ternura do companheiro que deixava para trás.

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.

07
ago
13

A crônica de Guto Piccinini: Em trânsito

.

.

Em trânsito, por Guto Piccinini

 

 

Toda a semana pego o mesmo ônibus para minha “quase cidade natal”, como um ritual cumprido a risca. Passos por uma longa distância percorrida amigavelmente com o mundo, acompanhados pelos ruídos de um mp3 já tão prematuramente antigo, e que me sibilam versos ao pé do ouvido. A cada nota um rico diálogo tecido no inesperado. Um fio quase invisível que atravessa a rua e agrega num contínuo retilíneo o emaranhado de vida que nestes dias convergem para um mesmo e tão festejado ponto. “Meu reino por uma poltrona confortável!”, reivindica raivosamente meu ímpeto sonolento enquanto separo cuidadosamente os trocados que garantem meu lugar ao céu. Nenhum cobrador um dia saberá o esforço que dispendo ao guardar os míseros centavos que garantem o troco preciso. É preciso, isto lhes digo, mas isto nunca hei de confessar a estes que invariavelmente caem nesta rede de pensamentos sem desconfiar um pingo disto que os envolve. Afinal, a trama segue sua linha, salvo pequenas interferências de desejo: dessas nunca estaremos salvos. Jornal? Pastel? Quem sabe uma bala pelos centavos, agora inexistentes, para adoçar a vida? Um mundo gira insistentemente nestes dez minutos que antecedem a partida. Estaria mentindo descaradamente se não confessasse nestas meias palavras minha simpatia por estes momentos ínfimos: a chegada em meio a um turbilhão de pessoas que vagam aliviadas pela chegada ao destino esperado; uma multidão de olhares apreensivos por ainda terem de enfrentar um longo e árduo caminho; mas há também aqueles que pouco se importam com qualquer movimento, seja pelas estradas da vida, seja de qualquer átomo que se move ao lado. Em pleno gozo de minhas faculdades afetivas, tomo a fila que me separa temporariamente de minha própria empreitada. É preciso desesperadamente aliviar o peso da espera, dizem as televisões do espaço. Eu, de um universo distante, sinto-me um tanto alheio. Dói um tanto pensar as coisas de tão longe. Esquálido pela palidez momentânea, visto Fiona Apple e seu polvo gigante como um chapéu a rodear a cidade sem saber ao certo o que fazer consigo neste vão entre a pele e os ossos. Minúsculos são os detalhes recolhidos tão carinhosamente sem sentido. I just wanna feel everything, insisto. Troca efetuada, com o papel em mãos os passos seguem soltos e independentes. Já os holofotes me acompanham ouriçados! Ainda tomado pela viscosidade que escorre da cabeça, corro desconfiado para as últimas poltronas do ônibus que, eventualmente, já está ao meu aguardo. Acomodo meus pensamentos sem pressa ao conforto possível, e retomo a atenção ao famigerado aparelho que segue agarrado aos meus ouvidos e firme em seu esforço de alheiamento e delírio produtivo. É preciso sim agarrar os sonetos com uma gana sem fim! De minha parte, somados os esforços, durmo. Assim sigo abraçado em meus sonhos.

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.

23
jul
13

A crônica de Guto Piccinini: Da janela eu vejo um mundo

.

.

Da janela eu vejo um mundo, por Guto Piccinini

Do alto do prédio estava eu sentado de frente para o computador, correndo os dedos pelo teclado e os olhos pelos cliques do universo internético. O sofá da sala, meu local preferido para estas paradas no dia, não oferece o melhor conforto em comparação a outros paradouros da casa. Evito danos colocando uma pequena almofada, o que por outro lado faz com que meu corpo inevitavelmente vá deslizando vagarosamente. Escorando os pés, alcanço um estado praticamente horizontal, não fosse a tal almofada que segura meu pescoço num ângulo de 90 graus, permitindo mais olhares e cliques. Um outro benefício da posição é a oferta de conforto para minha gata, que nunca perde a oportunidade de se aconchegar em cima de minhas pernas. Uma bola de pelos ronronante, que nos dias de inverno acalenta. Somos como um, enfrentando as agruras do frio. Mas hoje estava eu solitário na mesma posição de sempre, sem minha costumaz companheira, que também não circulava pelo meu campo de visão.

Sem sair de minha sacra posição, a vi sentada com o olhar pensativo para a cidade. A montanha de concreto em embate com a linha do horizonte era uma oferta distinta da vislumbrada pelos seus antepassados. Prédios de altura incalculável, pensaria ela, caso pudesse refletir a magnitude de sua vista. Cada janela contendo um universo particular, que não raro se mantém particulares, fechados em suas composições herméticas e fengshuianas. Aposto que a visão diferenciada dos felinos confere a este testemunho possibilidades indescritíveis. Neste caso, um tanto distraída pela infinitude de pombas que circulam habilmente por este habitat inóspito, estes ratos voadores que dominam o espaço aéreo da urbe e, vagarosamente, vão corroendo a saúde dos outros seres vivos que compartilham seu espaço. Tenho uma simpatia pelos pombos, o modo como vão conquistando território, no meio da multidão, a capacidade de resiliência, garimpando alimento e abrigo pelos cantos. As pombas são um caso sério, não fosse o modo ridículo como caminham. Não é possível confiar num animal que não consegue controlar o próprio pescoço enquanto desloca o corpo. Ali, perante a voracidade predatória, o valor da pomba se resume às delícias da carne.

De frente para a janela, ela vê a imponência do mundo concentrado. Pessoas seguindo seus caminhos em fluxo contínuo, cada qual com seus próprios mundos concentrados. São vidas de passagem, dessas que não criam pontos de ancoragem nesta rede pulsante, cuja constância se resume ao fluxo. Mas minha companheira de aconchego de boba não tem nada! A potência de sua visão não se resume aos pombos: de longe ela vislumbra poucos atores a encenar tecituras destes andares inconstantes. São pontos de escora, pontos onde se acumulam histórias, onde as experiências são compartilhadas. Acaso refletisse um tanto, a gata veria que destes encontros há um mundo de afetos que vão sendo construídos invisíveis aos olhos de quem, apenas, passa. Seguem por uma linha tênue. Acaso refletisse, pensaria ela: “a rua não é somente um local de passagem, na rua há vida”. E eu concordaria de bom grado, sem mesmo pontuar qualquer contra-argumento. Um pouco pelo enfado de ter de insistir neste assunto (tão óbvio, pensou ela), mas também confessando sua não vocação para o frio, de um pulo ela rompe com esse breve testemunho do acontecer urbano.

Com passos tristes e conformados vem, novamente, aconchegar-se junto ao meu corpo.

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.

10
jul
13

A crônica de Guto Piccinini: Fim de noite

.

.

Fim de noite, por Guto Piccinini

O primeiro passo é sempre por necessidade. Digamos que essa é a justificativa. No meu caso faço principio com um mea culpa. Admito minha simpatia com a cena: a garrafa entornada num sorvo engolfante, as gotas de resplandecência a escorrer de dentro e fora da garganta. De fora a fora o gozo de alívio. Somos consumidos pelas imagens, pelo colorido da tela e pelos contornos da histórias. Sou consumido pela construção de personagens. Não são poucos os livros que nos deparamos com esta veneração a figura do herói maldito. Pincelado em honra e hombridade, emplastados pela bebedeira irresponsável e brados idílicos. Voamos baixo na intensidade dos caracteres redigidos e seus enquadres fantasmáticos. A insanidade navega por mares arredios. Suscito o romântico neste asco que circunda a experiência das histórias que se esparramam pela psicodelia como carros desgovernados. A franqueza com que exalam a textura de sua pele úmida e latejante, ritmada pelo arfar pesado. Nosso herói é uma caricatura perambulando no tênue fio que separa o gozo e a violência. Tenho minha queda por este enquadre sujo, grotesco. A cidade oferece o estímulo necessário a esta tonalidade. Como palco contém o amparo decadente e sedutor, em seus traços de concreto. Vejam: caminho pelas ruas cercado pela madrugada. Seguro duas garrafas com as mãos, balançando o corpo com um desdém inaudito. Vago pela projeção desta rostidade, pelo asco espalhado nas ruas escuras de asfalto molhado, impondo sua tônica fria. Vago com a sujeira encrustada das esquinas, semeando jornais lançados ao vento. No entorno, pessoas andarilham como zumbis em busca de qualquer coisa. Não são nada mais do que janelas preenchidas pela luminosidade esperançosa de que um dia algo há de semover em sua divina força centrípeta. Eis os contornos de uma cena. A inocência tem destas coisas.

Já passavam das seis horas da manhã quando atravessei a porta que separa o quarto da pequena sala de estar. Aquela visão matutina não impedia que os resquícios da noite anterior me fitassem a cara amassada: a luz do abajur ainda acesa, as garrafas espalhadas pelo chão, o cheiro insuportável de cigarro. Um cheiro azedo com mofo que me revira o estômago. De relance lembro a teoria forjada entre um cigarro e outro. Havia tecido alguma relação entre a frequência dos cigarros em minha boca e a possibilidade de medir o tempo. Encadeados um no outro a ideia fazia algum sentido. Naquele momento a lembrança apenas aumenta a sensação da cabeça latejando. Passo o olho para sala. Não contém mais do que oito metros quadrados. Despojados por cima do tapete vermelho, dois pequenos sofás e uma mesinha central compõe o enquadre. No canto direito, uma televisão antiga, saída diretamente dos anos 90. Provavelmente não serve mais do que a reprodução infinita de novelas e programas de auditório. Durante a noite tive a nítida impressão de ter visto pequenas porções de Bombril nas pontas da antena. A qualidade de imagem é fundamental para ver bem os beijos e os barracos do próximo capítulo. Isto me fez sentir um pingo de saudades da minha avó, mas isto não durara muito. Eu odeio a Regina Duarte. O relance de sua existência faz meus olhos se contorcerem. Olhei para trás e destaquei da penumbra meia bunda em cima da cama. Escapava serelepe para fora dos lençóis amarrotados e com brilho bagaceiro. Da janela semicerrada lançavam-se os primeiros bocejos matutinos em ritmo crescente. Este avançar maroto configurava uma iluminação gradativa àquela semi-bunda despretensiosa. Era bonito, ao seu modo, a ponto de me arrancar um semi-sorriso malicioso. Assim como veio, seguiu seu curso, solapado pela nova pontada que atravessa minha cabeça e me traz à memória as garrafas de qualquer líquido barato entornadas a passos largos rumo à vitória. Gloriosa função esta que seguiu saudosa no amargor do hálito recém surgido. Súbito desejo de eternidade. Por outro lado, a hora era de partida. Como dizem: o dia é o maior inimigo da noite. Furtivo, encaminhei os passos para a saída, antes que qualquer contorno da cena caísse com o raiar da manhã.

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.

01
jul
13

A crônica de Guto Piccinini: Ela

.

.

Ela, por Guto Piccinini

 

Ela está sentada em uma mesa. Com as pernas cruzadas, observa distante a vista da janela, que oferece um esquadro da rua principal da cidade. Toma um cafezinho com açúcar (ela gosta de pequenas aventuras) e fuma um toco de cigarro com desleixo, na medida em que corre os olhos no agito de vida em sua volta. Aquele fim de tarde lhe surpreende e vagarosamente vai tecendo as cores de toda a cena em seu fluxo associativo. Ela está cansada. Atormentada por uma simples, mas insistente ideia: um reencontro dos takes tragicômicos, com seus contornos bourgeois e permeados por ruidosos fracassos e arrependimentos. Uma longa tragada ressuscita a chama desta trilha refinadamente otimista. “Morre-se pela boca”, pensa, e dela vem a dança que encontra entre a fumaça e a leve briza que por ali pede passagem. Está atormentada pela passagem do tempo, como um peso que cresce indiscreto e que demanda um sutil esforço. Ela está cansada. Uma vez mais se vê impelida na busca por algum sentido, por algum substrato mínimo que sustente um pouco mais desta cadeia contínua e mortificante. Oferece a si uma última tragada, num visível encadeamento de pouco caso, e descobre um fio alegre no amargo do café que acaba, resiste e ressoa. A idade não lhe cai bem. A constatação lhe desse garganta abaixo embalada no vazio repentino e imperioso da xícara em suas mãos e do resto de amargura que há poucos instantes servia-lhe de alento.

Ela arrebanha suas coisas da mesa, faz menção de sair o mais rápido possível pela rua. Testemunha de relance em um futuro próximo sua pele enrugada exposta ao sol, os cabelos curtos massageados pelo tímido vento (tão raro nestes dias!). Consegue sentir suas pernas levemente revigoradas pelo prazer da suposta caminhada. Tão logo esta chama lhe percorre o corpo, sente a preguiça triunfar sobre o entusiasmo do instante. Tentativa vã, deixa-se cair com o mesmo peso que antes abraçava pensativa. Peso de uma vida. Titubeia, mas impulsiona uma outra tentativa. Estática, permanece. Fecha os olhos, e contempla alguns instantes a mais o seu fracasso.

De um súbito, sente uma intensidade amealhar o instante. Algo muda a sua volta de forma inexplicável. Ela abre os olhos e, assustada, não reconhece o novo enquadre de sua vista. Aquilo que antes testemunhara como um corpo urbano a respirar em polvorosa, passa agora a ser uma grande visão aberta, permeada por pequenos vultos que saltitam alegremente. A virada lhe tonteia. Tenta manter o equilíbrio como se estivesse no auge de uma embriaguez, e mal consegue ver tamanha a turbidez da visão. O corpo lhe escapa, é tomado pela briza que agora varre o abatimento de outrora. Perde-se nas próprias mãos, cobertas de juventude, perde-se nas novas roupas que lhe mascaram. Progressivamente recupera a consciência. Passa a escutar com clareza a confusão de vozes que se misturam à risadas e gracejos infantis. Olha para os lados e se vê sentada em um banco junto a duas pequenas garotas sorridentes e conversantes. Percebe que está em um local estranhamente familiar, o pátio, as cores, um som e um cheiro característicos. Entende, então, que ao seu lado estavam duas grandes amigas de seu passado. Ambas a olham com certo espanto. Não entendem o que ela faz ali, perdida em sua temporalidade. Não soube como reagir ao reencontro. Levanta rapidamente e se põe a correr como há muito não corria. Segue para um antigo banheiro, que em momentos de angústia de sua juventude, servia de um íntimo companheiro. Porta adentro, detém-se ofegante em frente ao espelho. Na medida em que desacelera o ritmo atabalhoado do tórax, depara-se cada vez mais com uma estranha. Sorri, curiosa com o antigo penteado, com a pele novamente lisa, com traços há muito esquecidos. Algo desta velha/nova composição lhe incomoda. Está feliz, não nos enganemos, mas de um modo intensiva pela loucura de estar diante de si, como outra, e que ali, parada diante deste reflexo, lhe interpela. O tempo passa. Ela está cansada. Segue com o olhar fixo no espelho. Tateando, insistindo, confabulando. Vê um rosto que lhe diz algo que não sabe por onde, que não entende. Ao mesmo tempo, aprecia a intensidade de outrora se extinguindo. As pernas doem. Na medida do tempo o peso retorna. Ela compreende. Levanta, junta suas coisas, paga o café e sai.

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.

12
jun
13

A crônica de Guto Piccinini: Um último suspiro

.

.

Um último suspiro, por Guto Piccinini

 

Nos deparamos com estes casos um tanto óbvios, mas não trago o assunto à tona por puro maneirismo. A morte é uma notícia que nunca será bem vinda. Nada mais justo do que redobrarmos a atenção, pois a história que aqui relato nos permite deslizar um tanto por essa verdade tão primordial quanto estúpida. A morte é um destes fenômenos imperativos, o que por vezes desmerece a palavra. Mas já que mesmo o óbvio, por vezes, tenha de ser dito, vemos o quanto a morte e suas ruínas carregam mesmo é a necessidade de palavra. Àquele corpo imóvel na cama, a morte surgia como algo natural. O termo, mesmo recheado de imagens de tons raros à vista crua, tocava de um modo muito particular. Desde o encontro com a mal-fadada notícia, foi possível perceber um estranho movimento de complacência invisível. “O senhor fez tudo o que podia”, disse, e eu pude testemunhar a sentença proferida num misto de sorriso apático e agressão explícita. Não havia nada a ser feito.

Para além do corpo, estava deitado ali um verdadeiro estorvo à onisciência da produção cientifica contemporânea. Reza a lenda que após a morte somos todos iguais, sejamos reis ou escravos, a desfalecer gradualmente abaixo da terra. Digo que a diferença está em como todo este processo ocorre. Não estamos diante de um rei, mas de alguém que, se não goza da realeza, ao menos conta com alguma condição financeira suficiente, ao menos, para sustentar o cuidado e a curiosidade profissionais envolvidos. E não poderíamos condená-los por falta de intenção. Com os olhos voltados à extravagante experiência, passaram a dissecar os detalhes, as correntes, os tecidos. Do corpo rastreado sobraram dúvidas, uma grande lacuna no lugar de um diagnóstico definitivo e uma pequena formação inadequada no joelho esquerdo nunca antes percebida. As esperanças esvaíam-se a cada conversa e aqueles olhos já cansados acompanhavam no ponteiro do relógio o inevitável destino seguir seu curso. Mais do que ninguém sentia esse pesado caminho.

Foi nesta mesma tranquilidade que ouvimos seu primeiro urro, durante a madrugada. Até hoje são poucos os que acreditam neste relato que lhes compartilho. Confesso que me pergunto por vezes se de fato essa história pertenceu a vida vivida. Quando chegamos ao quarto encontramos a própria exaustão do instante. Não compreendemos o que se passara em nossa ausência, e provavelmente resistimos permitir compreender este primeiro momento de choque. Parados entre a porta e o corpo ainda agitado, víamos o fígado do pobre homem que lhe saltara do corpo.

Assim como dantes, não foi possível a ninguém solucionar o mistério. Estavam todos aturdidos pelo ocorrido, pelo ineditismo e improbabilidade grotesca. Como que em fuga desesperada, o dito órgão saltara com uma força suficiente para lhe rasgar a pele e as roupas. Foi difícil encontrar o seu paradeiro. Diante da incomensurável dor e espanto, o grito que nos chegou fora de um som seco e curto. Restara um pouco menos que um fio de vida que se agarrava insistentemente aquele corpo. Rapidamente foram feitos os procedimentos necessários, mas pela tristeza que assolava a todos, não havia muito a ser feito. Destino traçado, permanecia nossa surpresa com a força que ali resistia. E com mesma surpresa víamos esta força surrupiada. Um dia após o ocorrido, era um dos rins que de um só pulo explodia corpo afora. No outro dia, fora o terceiro órgão a reivindicar sua liberdade. Era como se rebelassem do próprio corpo! Como um exército que bate em retirada, tendo em vista a derrota eminente. Dia após dia, vimos um corpo esvaziar seu poder de resistência, um corpo a viver cada parte sua destituída, sucessivamente. Antes do golpe derradeiro, pudemos ver um misto de tristeza e felicidade nos percorrer a todos. Insistente, até que de seu longo e último suspiro, restara somente um corpo vazio.

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.

29
maio
13

A crônica de Guto Piccinini: Contornos

.

.

Contornos, por Guto Piccinini

Chegamos ao setor indicado perto da metade da manhã. O sol, tórrido, flertava com o bom humor companheiro da jornada, e a comicidade de nossa caminhada nos oferecia amparo às expectativas de qualquer encontro. Pensando agora, era do encontro que se tratava. Nossa tarefa seria, de certo modo, bastante simples: entrar, balbuciar palavras, “oi, tudo bem?”, e de resto aquilo que todos, normalmente, sabem: “Temos um nome, peso e altura. Pendemos como sacola rasa e, de vida curta, seguimos, como pau para toda obra!”. Em suma, notem que de longe o conteúdo importa. Chegamos e logo deparei, com estes olhos de bravata que a terra ainda há de comer como porco em melancia (e deixemos espaço para esta bela imagem), o ser que aqui nos serve de musa inspiradora. Despertei uma disposição imaginária de imediato. As palavras estão aí para dar algum contorno ao mundo das coisas e, nesta historieta, é exatamente do contorno que se trata. Mas não se enganem: nada daqui se compara do que fora possível ao momento. Faço um esforço e, guardadas todas as prevenções diante do abismo, sigamos a trilha.

Vejam que é na baixa expectativa que o mundo se apresenta. Atento aos movimentos, os ouvidos em riste e a busca por uma abertura transcendental ao instante, entramos porta adentro neste saliente pouco caso. Afinal, se há algo que nos acompanha é um certo senso de estratégia. Puro low profile. Logo de cara sentimos o duro golpe: nossas pretensões são duramente desmascaradas. Como tirar doce de criança. Tão certo quanto a morte. Menos pela expressão, e mais em função da imagem. Neste misto de surpresa e gozo, estava eu diante deste ser, mal fadado ao momento, que do topo de sua existência nos encara e sorri. Por detrás do vidro, sorri. Mas não somente aquela expressão irônica que nos surge do canto da boca e nos explode elegantemente. Não. Ela sorria com a boca, com os olhos, com o nariz e com tudo o mais que nos oferece aquele rosto. Sorria o sorriso dos justos: riso de gozo que, em alto e bom som, denuncia nossa presença como a escória do mundo. Sem reação, sentia meu corpo lambuzado deste acidente. Com chave de ouro, foi nesta paralisia tão instantânea como passageira, que percebia em meio a toda cena pedaços de amendoim que dançavam em ritmo escaldante por entre seus dentes de galhofa (e eis que, então, retomamos a licença poética reservada as melancias).

Vislumbrei aí minha salvação. Desvencilhei-me destes lábios escusos e penetrantes, e ao dar um passo à frente, descolo um “tudo bem?”. Perdi no caminho minha saudação inicial, na antecipação catártica de nossa protagonista. Vi uma brecha para rir da cena. Internamente me desmanchava. “Não está morto quem peleia!”, agora penso. Nada como uma expressão bem utilizada. Esta é a grande força da ironia: o encaixe do estranho, do grotesco. É como um saco de urina venenosa ou uma bomba de fezes explosivas: inofensivas, mas dão o que falar! E foi neste clima envolvente que a vi sentir uma áurea mal cheirosa. Foi com um aceno de cabeça que minha (alienada) inimiga retrucou meu gracejo, enquanto nos dirigia a uma outra sala, de onde todos conversaríamos com mais aconchego. Naquele momento sabia que os riscos já eram demasiados. A intensidade da cena me tomou em hipnose. Deixei a palavra aos colegas, e num silêncio autofágico, passei a observar os contornos deste esdrúxulo ser que ali nos oportunizava presença. Dos pés à cabeça, devorei aquela imagem, e dei graças por não ser pego em flagrante.

A sinuosidade de seu corpo compunha um característico destaque com as calças estilo legging, pressionando à altura dos joelhos e possibilitando certa rigidez a este setor responsável pela locomoção diária. Criei uma teoria ligeira, entretido na dobra de suas pernas, de que a pequena dificuldade em seus passos seria função da pressão produzida pela tal peça de roupa. Pura especulação. Já por outro lado, da área central do corpo e somando-se as coxas, jazia um imenso pullover verde escuro, com detalhes em relevo, compondo maciez com a dureza provável de sua constituição corpórea. As mangas, elevadas até o cotovelo, deixavam expostas os pelos loiros do braço, uma porção destas fitinhas clássicas estilo Senhor do Bonfim, bem como um discreto relógio dourado. Suas unhas, com o esmalte já corroído pelo tempo, acompanhavam de mau grado os dedos que, felizes, seguiam as mãos nos gestos e gesticulações do falatório.

Mais acima, retornamos ao palco da abertura deste enrosco: o rosto, a máscara, a persona. Janela da alma. Às vezes parece que tudo passa pelo rosto e seu conjunto de características peculiares. No nosso caso, testemunhávamos um grande pescoço, espesso e corajoso. Diante de sua tarefa, permanecia impávido. As orelhas, um pouco flácidas, distendiam delicadamente pela ação dos brincos que dali pendiam. As bochechas, róseas como duas maçãs, eram cobertas por uma fina manta de fios louros, mas que de longe chegavam a constituir feições masculinas. Era um rosto feminino, em sua estranheza, mas essencialmente feminino. Lembro de uma fala de Saramago, fantasiando a hipótese de que nossos olhos fossem tão eficientes quanto os de uma águia, e que assim veríamos tantos detalhes do corpo humano, a ponto sermos todos de uma estranheza grotesca, visíveis nossas inúmeras imperfeições, crateras e escoriações. Tudo tão demasiadamente à mostra.

Talvez seus olhos tivessem assim esta eficiência ótica. Como duas grandes bolotas regidas por um eixo central, ela nos direcionava o foco de sua vista. Foi no auge deste olhar de tom cerúleo, que vislumbrei uma beleza indescritível. Eram lindos com o céu. Por muito pouco me arrependi de estar ali, centrado tão oniricamente na geografia da cena, vislumbrando a futura escrita, e em meio à reunião em decurso. Por pouco. Mas então reencontrei, em meio às palavras intermináveis, o amendoim eterno, a ruminar no princípio do sistema digestivo. Multiplicação dos amendoins. Na presença de um milagre, e segui adiante.

Estava eu no topo. Cravei uma bandeira naqueles cabelos de cor indefinida e subdivididos em duas porções. Era como se fossem dois cabelos numa cabeça só. Na retaguarda, o ondulado dos fios desmascaravam um corte ultrapassado, mas ainda guardando altivez e compostura. Para minha surpresa, na parte da frente havia uma outra porção de cabelos, tal qual aqueles chapéus utilizados no casamento da família real inglesa, a despeito de sua independência democrática. Tudo tão tanto, ali, entre a porção medial do couro cabeludo, e  a formação de uma franja que nos encara, solene e matreira. Foi o que pude. Quando vi, todo este corpo me envolvia num abraço aconchegante, num tom de amêndoas e de um perfume ocre que fingiam discutir com minhas glândulas olfativas a melhor forma de negociar o instante. Fechei os olhos, e tão logo iniciei a imaginar toda a historieta,estava eu sentado, novamente em meu caminho.

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.

15
maio
13

A crônica de Guto Piccinini: Retorno

.

.

Retorno, por Guto Piccinini

Seguia atento a minha caminhada com o passo firme. Resoluto. Não tenho o costume da errância Ela tem um pingo de erro que me desacomoda e não me acompanha. Eu muito menos a sigo. Seguia em contornos pré-definidos. Seguia. A concentração era tanta que me via ali, puro passo, antecipação e couraça. Me fazia ouvir nos passos, o traçado que por muito tempo vivi no chão duro de asfalto. A gente vai se apegando aos detalhes do caminho, e no meu caso, o caminho certo era o meu caminho. Caminho. Numa das pontas, eu, demasiado (“justo a mim coube ser eu”). Na outra, aquele pedaço de mundo que há muito se fora. O tempo é uma coisa engraçada. Principalmente quando passa. Em mim o tempo tem algo que insiste. Um movimento ruminante de vai e volta, que regurgita este engodo de uma suposta história. É um pouco triste até, esta ingerência que subverte minhas esperanças quanto a firmeza do passado lá onde ele não mais existe. Vocês vejam: no tempo os passos deixam rastros, marcas. Não existe aquela metáfora do prego na madeira? É algo mais ou menos assim. Ali, nestes passos que me deslocam, vejo os passos do próprio tempo que rastejam em mim. Resisto o que posso.

Dia desses andarilhava por minha rota rotineira. Acompanhei de sobressalto um indício de água que escapulia de um registro. Mirei de longe o vazamento baixinho, de um chiado inexistente. Na passagem conhecida, os pulos de sempre, os cheiros de sempre, o alarido foi crescendo, ganhando corpo, até que pude vislumbrar seu corpo exposto, um solitário e úmido grito por socorro. Por três dias acompanhei o suplício daquele que um dia foi uma estrutura de vigor jovial. Por três dias segui meu caminho supondo um porvir. Mastigava esse tempo de acontecer, fazia eu parte daquele acontecer sem nome, enredado nos fios de água que inundavam vagarosamente o entorno. Estava eu inundado pelo suplício. No quarto dia, o vazamento já não existia. A parede aberta, expunha na minha cara estes dias de devir espasmódico, por um volume de espera e demora. Sentindo em mim o cimento ainda novo, não pude gozar de nenhum tostão de glória: no tempo deste existir, havia em mim um desamparo de surpresa. Algo daquele fluxo me pertencia. Nestes passos que me acompanham, já tomado pela secura, vejo no tempo o que ele nos oferece de melhor! Confesso: “Dar tempo ao tempo”. Nunca compreendi a razão de uma assertiva que redunda nela mesma. Apenas visto a carapaça.

Hoje já é um outro dia. Insisto. O corpo rijo, em velocidade constante e retilíneo segue os traçados de um outrora já percorridos. Sigo nesse fluxo de permanência. No passo compassado do tempo o amargo da boca prenuncia a chegada. Exito, mas hoje já é outro dia. Já dentro da sala, revisito os sentidos perdidos agora reencontrados. Aquele que um dia ali também esteve lhe possui: as paredes sujas e coloridas de memórias, um cheiro levemente azedo da falta de sol e circulação, os papéis. Nunca soube de onde surgiam tantos papéis. E eles estavam ainda dispersos e descompostos em ordem própria. Fui testemunhando aquele encontro no que era viável da umidade que me apossava, e das luminárias semi funcionais que assim ainda permaneciam. Um pouco desmontado, segui tateando pelo espaço, remoendo o ranger dos dentes, e retomando aqueles cantos de palavra que via pela primeira vez. Foi num destes cantos que me deparei, depois destes longos anos, com o antigo sofá, companheiro de muitas horas de descanso. O mesmo sofá (!), ainda incrivelmente mais sujo do que as paredes que lhe circundam e de um azul de poucos amigos. Parei para admirá-lo, e sentia o mesmo olhar direcionado a mim. Por um instante acreditei que aquele sacana deveria estar pensando o mesmo que eu! Foram segundos deste reencontro inusitado. E eu que acreditei estar preparado para tudo? Não exitei instante ao encontro do velho amigo, e desabrochei os passos em seus braços. Ali, os dois abraçados na sujeira dos anos, dormimos o sono dos injustos, lado a lado. Vos digo: há coisas deste mundo que não me atrevo a dizer, mas neste dia sonhamos juntos nossa singela dança de um dia de semana blue.

.

Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

.

.




setembro 2020
S T Q Q S S D
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930  

Categorias

Blog Stats

  • 759.391 hits
Follow Palavraria – Livros & Cafés on WordPress.com

%d blogueiros gostam disto: