Posts Tagged ‘A crônica de Guto Piccinini



12
jun
13

A crônica de Guto Piccinini: Um último suspiro

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Um último suspiro, por Guto Piccinini

 

Nos deparamos com estes casos um tanto óbvios, mas não trago o assunto à tona por puro maneirismo. A morte é uma notícia que nunca será bem vinda. Nada mais justo do que redobrarmos a atenção, pois a história que aqui relato nos permite deslizar um tanto por essa verdade tão primordial quanto estúpida. A morte é um destes fenômenos imperativos, o que por vezes desmerece a palavra. Mas já que mesmo o óbvio, por vezes, tenha de ser dito, vemos o quanto a morte e suas ruínas carregam mesmo é a necessidade de palavra. Àquele corpo imóvel na cama, a morte surgia como algo natural. O termo, mesmo recheado de imagens de tons raros à vista crua, tocava de um modo muito particular. Desde o encontro com a mal-fadada notícia, foi possível perceber um estranho movimento de complacência invisível. “O senhor fez tudo o que podia”, disse, e eu pude testemunhar a sentença proferida num misto de sorriso apático e agressão explícita. Não havia nada a ser feito.

Para além do corpo, estava deitado ali um verdadeiro estorvo à onisciência da produção cientifica contemporânea. Reza a lenda que após a morte somos todos iguais, sejamos reis ou escravos, a desfalecer gradualmente abaixo da terra. Digo que a diferença está em como todo este processo ocorre. Não estamos diante de um rei, mas de alguém que, se não goza da realeza, ao menos conta com alguma condição financeira suficiente, ao menos, para sustentar o cuidado e a curiosidade profissionais envolvidos. E não poderíamos condená-los por falta de intenção. Com os olhos voltados à extravagante experiência, passaram a dissecar os detalhes, as correntes, os tecidos. Do corpo rastreado sobraram dúvidas, uma grande lacuna no lugar de um diagnóstico definitivo e uma pequena formação inadequada no joelho esquerdo nunca antes percebida. As esperanças esvaíam-se a cada conversa e aqueles olhos já cansados acompanhavam no ponteiro do relógio o inevitável destino seguir seu curso. Mais do que ninguém sentia esse pesado caminho.

Foi nesta mesma tranquilidade que ouvimos seu primeiro urro, durante a madrugada. Até hoje são poucos os que acreditam neste relato que lhes compartilho. Confesso que me pergunto por vezes se de fato essa história pertenceu a vida vivida. Quando chegamos ao quarto encontramos a própria exaustão do instante. Não compreendemos o que se passara em nossa ausência, e provavelmente resistimos permitir compreender este primeiro momento de choque. Parados entre a porta e o corpo ainda agitado, víamos o fígado do pobre homem que lhe saltara do corpo.

Assim como dantes, não foi possível a ninguém solucionar o mistério. Estavam todos aturdidos pelo ocorrido, pelo ineditismo e improbabilidade grotesca. Como que em fuga desesperada, o dito órgão saltara com uma força suficiente para lhe rasgar a pele e as roupas. Foi difícil encontrar o seu paradeiro. Diante da incomensurável dor e espanto, o grito que nos chegou fora de um som seco e curto. Restara um pouco menos que um fio de vida que se agarrava insistentemente aquele corpo. Rapidamente foram feitos os procedimentos necessários, mas pela tristeza que assolava a todos, não havia muito a ser feito. Destino traçado, permanecia nossa surpresa com a força que ali resistia. E com mesma surpresa víamos esta força surrupiada. Um dia após o ocorrido, era um dos rins que de um só pulo explodia corpo afora. No outro dia, fora o terceiro órgão a reivindicar sua liberdade. Era como se rebelassem do próprio corpo! Como um exército que bate em retirada, tendo em vista a derrota eminente. Dia após dia, vimos um corpo esvaziar seu poder de resistência, um corpo a viver cada parte sua destituída, sucessivamente. Antes do golpe derradeiro, pudemos ver um misto de tristeza e felicidade nos percorrer a todos. Insistente, até que de seu longo e último suspiro, restara somente um corpo vazio.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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29
maio
13

A crônica de Guto Piccinini: Contornos

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Contornos, por Guto Piccinini

Chegamos ao setor indicado perto da metade da manhã. O sol, tórrido, flertava com o bom humor companheiro da jornada, e a comicidade de nossa caminhada nos oferecia amparo às expectativas de qualquer encontro. Pensando agora, era do encontro que se tratava. Nossa tarefa seria, de certo modo, bastante simples: entrar, balbuciar palavras, “oi, tudo bem?”, e de resto aquilo que todos, normalmente, sabem: “Temos um nome, peso e altura. Pendemos como sacola rasa e, de vida curta, seguimos, como pau para toda obra!”. Em suma, notem que de longe o conteúdo importa. Chegamos e logo deparei, com estes olhos de bravata que a terra ainda há de comer como porco em melancia (e deixemos espaço para esta bela imagem), o ser que aqui nos serve de musa inspiradora. Despertei uma disposição imaginária de imediato. As palavras estão aí para dar algum contorno ao mundo das coisas e, nesta historieta, é exatamente do contorno que se trata. Mas não se enganem: nada daqui se compara do que fora possível ao momento. Faço um esforço e, guardadas todas as prevenções diante do abismo, sigamos a trilha.

Vejam que é na baixa expectativa que o mundo se apresenta. Atento aos movimentos, os ouvidos em riste e a busca por uma abertura transcendental ao instante, entramos porta adentro neste saliente pouco caso. Afinal, se há algo que nos acompanha é um certo senso de estratégia. Puro low profile. Logo de cara sentimos o duro golpe: nossas pretensões são duramente desmascaradas. Como tirar doce de criança. Tão certo quanto a morte. Menos pela expressão, e mais em função da imagem. Neste misto de surpresa e gozo, estava eu diante deste ser, mal fadado ao momento, que do topo de sua existência nos encara e sorri. Por detrás do vidro, sorri. Mas não somente aquela expressão irônica que nos surge do canto da boca e nos explode elegantemente. Não. Ela sorria com a boca, com os olhos, com o nariz e com tudo o mais que nos oferece aquele rosto. Sorria o sorriso dos justos: riso de gozo que, em alto e bom som, denuncia nossa presença como a escória do mundo. Sem reação, sentia meu corpo lambuzado deste acidente. Com chave de ouro, foi nesta paralisia tão instantânea como passageira, que percebia em meio a toda cena pedaços de amendoim que dançavam em ritmo escaldante por entre seus dentes de galhofa (e eis que, então, retomamos a licença poética reservada as melancias).

Vislumbrei aí minha salvação. Desvencilhei-me destes lábios escusos e penetrantes, e ao dar um passo à frente, descolo um “tudo bem?”. Perdi no caminho minha saudação inicial, na antecipação catártica de nossa protagonista. Vi uma brecha para rir da cena. Internamente me desmanchava. “Não está morto quem peleia!”, agora penso. Nada como uma expressão bem utilizada. Esta é a grande força da ironia: o encaixe do estranho, do grotesco. É como um saco de urina venenosa ou uma bomba de fezes explosivas: inofensivas, mas dão o que falar! E foi neste clima envolvente que a vi sentir uma áurea mal cheirosa. Foi com um aceno de cabeça que minha (alienada) inimiga retrucou meu gracejo, enquanto nos dirigia a uma outra sala, de onde todos conversaríamos com mais aconchego. Naquele momento sabia que os riscos já eram demasiados. A intensidade da cena me tomou em hipnose. Deixei a palavra aos colegas, e num silêncio autofágico, passei a observar os contornos deste esdrúxulo ser que ali nos oportunizava presença. Dos pés à cabeça, devorei aquela imagem, e dei graças por não ser pego em flagrante.

A sinuosidade de seu corpo compunha um característico destaque com as calças estilo legging, pressionando à altura dos joelhos e possibilitando certa rigidez a este setor responsável pela locomoção diária. Criei uma teoria ligeira, entretido na dobra de suas pernas, de que a pequena dificuldade em seus passos seria função da pressão produzida pela tal peça de roupa. Pura especulação. Já por outro lado, da área central do corpo e somando-se as coxas, jazia um imenso pullover verde escuro, com detalhes em relevo, compondo maciez com a dureza provável de sua constituição corpórea. As mangas, elevadas até o cotovelo, deixavam expostas os pelos loiros do braço, uma porção destas fitinhas clássicas estilo Senhor do Bonfim, bem como um discreto relógio dourado. Suas unhas, com o esmalte já corroído pelo tempo, acompanhavam de mau grado os dedos que, felizes, seguiam as mãos nos gestos e gesticulações do falatório.

Mais acima, retornamos ao palco da abertura deste enrosco: o rosto, a máscara, a persona. Janela da alma. Às vezes parece que tudo passa pelo rosto e seu conjunto de características peculiares. No nosso caso, testemunhávamos um grande pescoço, espesso e corajoso. Diante de sua tarefa, permanecia impávido. As orelhas, um pouco flácidas, distendiam delicadamente pela ação dos brincos que dali pendiam. As bochechas, róseas como duas maçãs, eram cobertas por uma fina manta de fios louros, mas que de longe chegavam a constituir feições masculinas. Era um rosto feminino, em sua estranheza, mas essencialmente feminino. Lembro de uma fala de Saramago, fantasiando a hipótese de que nossos olhos fossem tão eficientes quanto os de uma águia, e que assim veríamos tantos detalhes do corpo humano, a ponto sermos todos de uma estranheza grotesca, visíveis nossas inúmeras imperfeições, crateras e escoriações. Tudo tão demasiadamente à mostra.

Talvez seus olhos tivessem assim esta eficiência ótica. Como duas grandes bolotas regidas por um eixo central, ela nos direcionava o foco de sua vista. Foi no auge deste olhar de tom cerúleo, que vislumbrei uma beleza indescritível. Eram lindos com o céu. Por muito pouco me arrependi de estar ali, centrado tão oniricamente na geografia da cena, vislumbrando a futura escrita, e em meio à reunião em decurso. Por pouco. Mas então reencontrei, em meio às palavras intermináveis, o amendoim eterno, a ruminar no princípio do sistema digestivo. Multiplicação dos amendoins. Na presença de um milagre, e segui adiante.

Estava eu no topo. Cravei uma bandeira naqueles cabelos de cor indefinida e subdivididos em duas porções. Era como se fossem dois cabelos numa cabeça só. Na retaguarda, o ondulado dos fios desmascaravam um corte ultrapassado, mas ainda guardando altivez e compostura. Para minha surpresa, na parte da frente havia uma outra porção de cabelos, tal qual aqueles chapéus utilizados no casamento da família real inglesa, a despeito de sua independência democrática. Tudo tão tanto, ali, entre a porção medial do couro cabeludo, e  a formação de uma franja que nos encara, solene e matreira. Foi o que pude. Quando vi, todo este corpo me envolvia num abraço aconchegante, num tom de amêndoas e de um perfume ocre que fingiam discutir com minhas glândulas olfativas a melhor forma de negociar o instante. Fechei os olhos, e tão logo iniciei a imaginar toda a historieta,estava eu sentado, novamente em meu caminho.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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15
maio
13

A crônica de Guto Piccinini: Retorno

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Retorno, por Guto Piccinini

Seguia atento a minha caminhada com o passo firme. Resoluto. Não tenho o costume da errância Ela tem um pingo de erro que me desacomoda e não me acompanha. Eu muito menos a sigo. Seguia em contornos pré-definidos. Seguia. A concentração era tanta que me via ali, puro passo, antecipação e couraça. Me fazia ouvir nos passos, o traçado que por muito tempo vivi no chão duro de asfalto. A gente vai se apegando aos detalhes do caminho, e no meu caso, o caminho certo era o meu caminho. Caminho. Numa das pontas, eu, demasiado (“justo a mim coube ser eu”). Na outra, aquele pedaço de mundo que há muito se fora. O tempo é uma coisa engraçada. Principalmente quando passa. Em mim o tempo tem algo que insiste. Um movimento ruminante de vai e volta, que regurgita este engodo de uma suposta história. É um pouco triste até, esta ingerência que subverte minhas esperanças quanto a firmeza do passado lá onde ele não mais existe. Vocês vejam: no tempo os passos deixam rastros, marcas. Não existe aquela metáfora do prego na madeira? É algo mais ou menos assim. Ali, nestes passos que me deslocam, vejo os passos do próprio tempo que rastejam em mim. Resisto o que posso.

Dia desses andarilhava por minha rota rotineira. Acompanhei de sobressalto um indício de água que escapulia de um registro. Mirei de longe o vazamento baixinho, de um chiado inexistente. Na passagem conhecida, os pulos de sempre, os cheiros de sempre, o alarido foi crescendo, ganhando corpo, até que pude vislumbrar seu corpo exposto, um solitário e úmido grito por socorro. Por três dias acompanhei o suplício daquele que um dia foi uma estrutura de vigor jovial. Por três dias segui meu caminho supondo um porvir. Mastigava esse tempo de acontecer, fazia eu parte daquele acontecer sem nome, enredado nos fios de água que inundavam vagarosamente o entorno. Estava eu inundado pelo suplício. No quarto dia, o vazamento já não existia. A parede aberta, expunha na minha cara estes dias de devir espasmódico, por um volume de espera e demora. Sentindo em mim o cimento ainda novo, não pude gozar de nenhum tostão de glória: no tempo deste existir, havia em mim um desamparo de surpresa. Algo daquele fluxo me pertencia. Nestes passos que me acompanham, já tomado pela secura, vejo no tempo o que ele nos oferece de melhor! Confesso: “Dar tempo ao tempo”. Nunca compreendi a razão de uma assertiva que redunda nela mesma. Apenas visto a carapaça.

Hoje já é um outro dia. Insisto. O corpo rijo, em velocidade constante e retilíneo segue os traçados de um outrora já percorridos. Sigo nesse fluxo de permanência. No passo compassado do tempo o amargo da boca prenuncia a chegada. Exito, mas hoje já é outro dia. Já dentro da sala, revisito os sentidos perdidos agora reencontrados. Aquele que um dia ali também esteve lhe possui: as paredes sujas e coloridas de memórias, um cheiro levemente azedo da falta de sol e circulação, os papéis. Nunca soube de onde surgiam tantos papéis. E eles estavam ainda dispersos e descompostos em ordem própria. Fui testemunhando aquele encontro no que era viável da umidade que me apossava, e das luminárias semi funcionais que assim ainda permaneciam. Um pouco desmontado, segui tateando pelo espaço, remoendo o ranger dos dentes, e retomando aqueles cantos de palavra que via pela primeira vez. Foi num destes cantos que me deparei, depois destes longos anos, com o antigo sofá, companheiro de muitas horas de descanso. O mesmo sofá (!), ainda incrivelmente mais sujo do que as paredes que lhe circundam e de um azul de poucos amigos. Parei para admirá-lo, e sentia o mesmo olhar direcionado a mim. Por um instante acreditei que aquele sacana deveria estar pensando o mesmo que eu! Foram segundos deste reencontro inusitado. E eu que acreditei estar preparado para tudo? Não exitei instante ao encontro do velho amigo, e desabrochei os passos em seus braços. Ali, os dois abraçados na sujeira dos anos, dormimos o sono dos injustos, lado a lado. Vos digo: há coisas deste mundo que não me atrevo a dizer, mas neste dia sonhamos juntos nossa singela dança de um dia de semana blue.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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01
maio
13

A crônica de Guto Piccinini: Binarismos

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Binarismos ou Das inquietudes que o estranho evoca quando o fitamos de frente, por Guto Piccinini

Não era um evento incomum, mas algo começou a ganhar forma neste início de dia. Ele abre os olhos, e eles se abrem tortos. O primeiro bocejo acompanha o movimento de recolocar no lugar um dos braços que durante a noite parou-lhe no meio das costas. A cabeça nos pés. No banheiro, escova os dentes com força. Vê sangue escorrer-lhe da boca. Não é incomum, e sorri. Gostava de ver o líquido espesso sair por entre os dentes, de um espaço tão estreito que parecia que nunca sairia nada. Lava o rosto, e ao olhar novamente para o espelho vê um rosto outro. Na sequência de mais um enxague, um outro rosto a lhe encarar os olhos. É como um misto de reconhecimento e estranheza que agora fita. Veste o uniforme. Sai. No trabalho, se vê de posse de um controle incontrolável. Este seria o dia. A cidade a seus pés esmagam o corpanzil duro em meio a ronda despretensiosa. O carro acelera. Pé botina, pé martelo. A abordagem é límpida no rosto que se desloca na velocidade das rodas. É hora. Saca do coldre o soldo recheado de munição ideológica. Inova, repetindo o mesmo: o pé tijolo acelera o ato punitivo. Não há tempo a perder. Não há mais tempo. Deitado sob seus pés, o meliante cumpre.

Ele acorda. Demora a descobrir-se do mundo o corpo esguio. É negro de um negro que muitos desconhecem: carrega no bolso uma variedade infinita de nomes. Levanta. Oscila no raiar do dia, entre o ódio e um pão com manteiga. Caminha até a parte da casa que pode ser definido como a cozinha. Passa entre os filhos, a mulher, dois irmão mais novos, três mais velhos, dois tios e a mãe. Essa já estava acordada há um tempo. Ele a vê no horizonte desde que acordara para a vida. Toma um resto de café. Sai. Na rua, mais do mesmo. O asfalto é um mar de oportunidades. Ele sente na pele o corpo ofuscado na urbe. Um espelho marcado, pensa. Saca do coldre o vazio recheado de história: algo nele falta, e sua busca tem demarcações holofóticas. Ganha aí sua roupagem. É um instante. No carro, de um outro, acelera a adrenalina dos deuses. Em meio a ação, se confunde na autoria principal. Uma horda de coadjuvantes ganha a cena: ele sente, na sincronicidade do destino, o datado na perseguição. Um fio de sangue escorre, mas ali isso pouco importa. Cabeça nos pés. Em mutação com o asfalto, o pé martelo lhe esmaga as têmporas, enquanto o tempo contorna uma nova máscara.

 

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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17
abr
13

A crônica de Guto Piccinini: Uma vida extra-ordinária

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Uma vida extra-oridinária, por Guto Piccinini

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Logo após a jornada de trinta minutos desde a admissão no hospital à saída da sala de parto, a equipe responsável por aquela menina de vinte e sete anos chegou a mais óbvia das conclusões: este  caso poderia ser registrado como o trabalho de parto mais simples da vida de cada um dos profissionais ali presentes. Enquanto saíam consternados com o acontecimento histórico, não puderam perceber a autora da proeza, que num misto de surpresa e choque, permanecia impávida, na tentativa de compreender este ser que minutos antes destacou-se de seu corpo de uma forma escorregadia e flácida em comparação com a dureza do mundo. Carregava consigo as inúmeras histórias de dor relatadas por companheiras de gravidez ou conhecidas próximas. E enquanto permanecia ali, com este ser em seus braços, sentiu apreensão por não identificar ao certo qual o sentido de ser mãe. Curiosa, seguiu com os olhos este mal fadado corpo, enquanto ela própria estranhava seu corpo. Sem perceber, nesse andar vagaroso compôs uma sintonia sutil, uma função penetrante, que apenas aos dois fariam sentido. Sem perceber, mirava os olhos desta pequena criatura com amor e ternura. Foi a primeira vez que algo brilhou naquele corpo intruso e esguio: tomado de puro ímpeto, inflou como um balão.

Embora permaneça um mistério para as muitas teorias científicas que buscaram produzir contornos para a caso, a vida deste garoto não fugia do que consideraríamos normal e corriqueiro a qualquer ser humano ordinário que frequentemente surge de bobeira por aí. Para a surpresa dos médicos, sua constituição surpreendentemente flácida garantia um tônus muscular (ou o que quer que seja aquilo que lhe compunha um corpo) suficiente para sustentar seu corpo em qualquer atividade do dia. Ainda mais nos momentos em que a cena descrita de seus primeiros minutos de vida repetia-se, e seu corpo inflava tal qual um balão, e o corpo lânguido ganhava contornos rijos e de uma vistosidade incomparável ao estado anterior. Assim permanecia até que novamente seus contornos iam relaxando vagarosamente até o ponto em que não havia tensão alguma visível. Vazio.

Sua impressão era de que deveria ter uma estima menor do que todos seus conhecidos. Mas não se sentia mal com sua diferença. Não mais do que qualquer um em sua volta. Era por vezes atravessado pelos olhares inquisidores e incompreendidos de pessoas que se surpreendiam com sua presença inusitada. Nestes momentos era tomado por um descontrole singular, que resultava em seu corpo inflado. Sofreu ordinariamente como todo ser humano em função dos amores da vida. Diferente, talvez, por sua condição especial, que conferiu um outro contorno às decepções amorosas: um furo com consequencias imprevistas. A cena se repetiu diversas vezes, mas ele não a temia mais do que cada um teme estar só com sua própria solidão. Por isso cercou-se de pessoas que mantinham este temor afastado. Neste carinho dos mais próximos, algo que ele não supunha relembrava o primeiro olhar oferecido por sua mãe, no primeiro respirar de sua pele.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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03
abr
13

A crônica de Guto Piccinini: Trilogia da violência III

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Trilogia da violência III, por Guto Piccinini

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O terror não tem palavra. Ele se esgueira por detrás, de sobreaviso. Desliza sorrateiro e se instala em nós, de modo incompreensível. O terror não tem palavra, e não há dia em que eu não busque palavra que dê conta desta hiância. Tento. Espero. Estas noites eu reviro meu corpo em dois. Não é possível revirar-me na cama. Até as ridículas banalidades não são permitidas. Afinal, são de banalidades que nossa vida faz sentido. E são exatamente estes dois detalhes que não passam despercebidos: vida e sentido. Estas noites carregam no tempo sua intensidade. Um estado de tensão constante. Um dia te direi desta angústia que precede o ato. Hoje não te digo, por motivos óbvios. Mas não perco a esperança.

De duas em duas horas nos acordam ligando as luzes e/ou emitindo algum som alto. Batidas em nossas portas. As vezes os gritos já são o suficiente. Enquanto digo, vieram me buscar em meio a este sono descontínuo. Nos pegam no corpo como objetos desprezíveis. Um saco de corpo, é o que quase consigo sentir, enquanto esboço, mecanicamente, nuances de reação. Sou posto em uma cadeira. A mesma de sempre. Cheira a suor e sangue. Deixam assim para intimidar logo de cara quem é trazida para cá. Fico por horas sendo observado por um grupo. Parecem esperar algo, ou talvez queiram me fazer esperar. O segundo que precede o ato é povoado.

Ele entra contundente. O terror não tem palavra: ele entra e desfere em meu rosto desfigurado pelo tempo um tapa tão forte que consigo ouvi-lo de fora de meu corpo. Dói, e sinto escorrer um lágrima de meu olho. O grupo que me envolve na sala quebra seu silêncio anterior e ri. São homens como eu, digo, mas não sei ao certo que humanidade referencio. A sequência segue o script. As perguntas são as mesmas, não fossem as palavras diferentes. As respostas são as mesmas, não fosse a tentativa que delas se fizesse um outro contexto. Hoje morri mais um dia. Como morri no dia em que me colocaram dentro de uma viatura. Como no dia em que ameaçaram minha família. Morri como no dia em que fui examinado para saber se meu corpo aguentaria por mais um tempo. Morri e agora sou outro. Digo.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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19
mar
13

A crônica de Guto Piccinini: Trilogia da violência II

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Trilogia da violência II, por Guto Piccinini

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Minha querida

Fico feliz em finalmente tomar um papel e lápis e escrever-te estas palavras. Foram longos os anos que nos separam deste dia, e peço que não repare esta letra que mal se insinua por estas linhas tortas. Carrego ainda comigo estas mãos trêmulas que, como vês (e se escrevo é porque espero que vejas), não me permitem esconder-me como gostaria. Tu muito sabes que o tempo raramente sossega as marcas. É uma mentira mal contada. O presente é um tempo acumulado, e o esquecimento é uma dádiva para poucos. O mesmo posso dizer do que me sobra de paciência (que continua escassa) para dedicar a palavra sobre isso, mas verás que já começo a soltar algumas amarras. Há muito que desacredito das palavras. Este é um dos motivos pelo qual te escrevo e minha esperança de que que receba esta carta com carinho. Não por conforto. Imagino que estejas cansada desta caminhada, ao mesmo tempo que nela nos sustentamos. Então não me delongo mais nas escusas, não mais do que uma frase: penso todo dia no que ainda deves passar, penso em ti ao longo de todos estes anos e culpo-me por não ter estado perto. Guardo em mim a última vez que nos vimos e sinto como se fosse ontem teu olhar pousado ao meu no dia em que nos despedimos.

Estes dias têm sido ainda mais duros do que nunca. Meu esforço em me manter afastado é tentador para este velho corpo que me carrega. Como nos conhecemos por quase toda uma vida, já antevejo seus movimentos furtivos e preparo-me para os primeiros movimentos involuntários, que nos tomam de assalto, sem pressa e, aos poucos, transformam a tênue paz que construímos sobre o indizível. É em torno deste indizível que meu corpo perece e persiste. Vivo como um estranho em mim. Nestes arrastados anos, posso dizer-te que o sofrimento é maior apenas quando esta sensação me invade como se estivéssemos lá, neste exato instante. Tomado de vertigem, sou arrastado de mim novamente, como se pudesse sentir o cheiro ocre e a minha própria pulsação a servir de deleite para o estranho que, hoje, invento. Dispositivos de permanência, que dobram este passado infame sobre o que nos resta. O barulho dos passos contundentes, a iminência presente na cegueira proposital e o medo. Não tenho como te explicar, pois careço de explicações para mim mesmo. Tento esquecer, mas já aprendi que para o apagamento é preciso que não deixemos de repetir a palavra. Quem sabe um dia ela possa se tornar outra.

Eu estava sozinho em minha cela quando ouvi levarem um dos nossos. Não recordo exatamente o motivo, mas lembro que durante um tempo o prédio se esvaziara quase por completo. Era possível ouvir mais do que eu gostaria, e é com pesar que este custo me permite escrever-te este testemunho.  Vi quando o levaram, lá para onde levaram todos. Todos. Depois de algum tempo nos tornamos apenas “mais um”. Foi lá que perdi meu nome, porque continha em mim o nome de todos os outros. Passados alguns minutos, após cerrarem a porta com o gozo em punho, pude então ouvir, em volume máximo, o velho rádio sempre presente na abertura destas sessões intermináveis. Ele estava lá, como eu e tantos outros. Não mais o vi.

Por aqui fico. A ti, espero que possas encontrá-lo.

Com carinho.

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Guto Piccinini, psicólogo, mestre em psicologia social e frequentador da Palavraria. Atualmente experimentando palavras.

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