Posts Tagged ‘A crônica de Jeferson Tenório

28
out
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A crônica de Jeferson Tenório: Nem se o Antônio Candido dissesse

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Nem se o Antônio Candido dissesse, por Jeferson Tenório

A sensação de quando entregamos um texto nosso para alguém ler, pelo menos para mim, é quase a mesma de um pai ou uma mãe quando vai deixar seu filho aos cuidados de uma pessoa.  Na ausência dele, nos tornamos ansiosos e pensamos como ele deve estar e o que ele anda aprontando. E quando voltamos para buscá-lo, assim como um filho, que passou horas ou dias longe de nós, queremos saber como ele se portou. Se pudéssemos, gostaríamos de acompanhar fisionomia desse leitor e cada frase, a cada palavra e contaríamos quantas vezes ele levantou a cabeça para refletir sobre aquilo criamos.

Tudo isso é muito bonito, mas na verdade ninguém acredita muito num aspirante a escritor. Quando você diz que escreve, ou que terminou um livro, as pessoas te olham com estranheza e desconfiança. No inicio, por outro lado, quando entregamos um original para alguém, queremos no fundo que essa pessoa nos encha de elogios e nos dê motivos para prosseguirmos. E, talvez, este seja o momento mais frágil de quem começa a escrever, porque pode ser que o escritor iniciante não esteja preparado para as críticas. Pode ser que ao escutar que seu texto é ruim possa levá-lo a desistir de tudo.

Acho que tive a sorte de encontrar pessoas sérias que leram meus textos com atenção e foram duras comigo. Duras, mas honestas. Entretanto, isso não significa que quando um original é devolvido temos de aceitar tudo com resignação.  Aí entra uma certa maturidade literária aliada a uma intuição estética entre aquilo que de fato está ruim e aquilo que você julga estar bom.

Um escritor não nasce quando seu livro é publicado. Um escritor nasce quando assume o risco de expor sua escrita para si mesmo com toda a honestidade possível. No entanto, quando você apresenta um texto para alguém, você está expondo aquilo que você julgou ser o máximo que conseguiu alcançar. E isto é tão poderoso e ao mesmo tempo tão frágil.

O problema é que nem sempre as pessoas estão dispostas a ler um original. Algumas pessoas para quem passei meus primeiros escritos não deram muito importância para mim, no máximo um tapinha nas costas e um consolador “vou ler, depois te digo”. Acontece que algumas vezes esse “depois” nunca chegava.

Mas isso faz parte de todo o processo, porque quando um sujeito decide gastar a vida escrevendo, ele não pararia nem mesmo se o Antônio Candido chegasse e dissesse; “filho, pare com isso, vá fazer outra coisa, a escrita não é pra você”, nem mesmo assim o faria parar. Quero dizer com isso que quem decide levar a escrita a sério, aguenta o tranco. Aguenta narizes torcidos, aguenta os olhares desconfiados, aguenta por anos a fio a vida solitária e anônima. Aceita que por anos a criação será isto: o escritor e sua obra. Nada mais. Por anos, ninguém saberá dessa guerra interior travada dentro de quem escreve. Ninguém mais que escritor saberá o quanto lhe custou levar isto adiante. É preciso um certo fanatismo, como disse Ernesto Sábato, em “Os escritores e seus fantasmas”. Sem fanatismo não se faz literatura.

E o mais comovente disso tudo: alguém poderá gastar a vida nisso, sem garantia nenhuma de que vai dar certo, e mesmo assim ele vai continuar. A literatura é feita mais de erros do que de acertos. Sem quixotismo também não se faz literatura. Quando um escritor senta na frente de uma tela, ele precisa criar um moinho por dia, acreditar que daquela tela fria sairá um mundo, mesmo sabendo que o mundo é um moinho e pode triturar nossas ilusões, como diria Cartola.

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 Jeferson Tenório 01Jeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS. Acaba de lançar pela Sulina o romance O beijo na parede.

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03
set
13

A crônica de Jeferson Tenório: Em caso de felicidade

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Em caso de felicidade, por Jeferson Tenório

Em caso de felicidade eu prefiro a vida.

Tenho essa frase anotada em algum bloco desses onde costumo registrar meus pensamentos, passei anos sem entender ao certo o que ela de fato significava para mim, entretanto, os anos foram passando e um dia eu conheci a palavra lucidez.

Desde então, comecei a entender o que essa frase me sinalizava. Quando conhecemos a palavra lucidez há algo de grave nisso. Dizemos adeus às ilusões e como num lampejo começamos a suspeitar de que existe algo mais importante que a ideia de felicidade, algo mais poderoso e simples, algo menos fugaz e menos ilusório.

Quando abandonamos a ideia de felicidade, deixamos para trás aquilo que nos torna incapaz para vida. Aos poucos, me dei conta de que tornar minha vida interessante era única coisa importante a se fazer. Mas isso dá trabalho. E para começar, tive de aceitar a tristeza que é o que se faz quando achamos que a vida não tem razão.

Ao longo de minhas tentativas com a escrita, construí alguns personagens tristes, mas a tristeza desses homens e mulheres que inventei e que estão a caminhar pelas ruas todos os dias, não são um recurso de auto-piedade, nem tampouco são personagens deprimidos. A tristeza deles foi o modo que eles encontraram para viver.

Se algum dia eu cedi a ideia de felicidade foi quando descobri que vivo num tempo fora do tempo. Que corremos o tempo todo atrás de um presente que não existe, e que lutamos cotidianamente com a passagem das horas. E agora entendo o nosso corpo como uma ampulheta orgânica a nos dizer que temos de caminhar sempre e não há o que fazer quanto a isso.

Pois se não há o que fazer que façamos que a peregrinação seja interessante. Talvez seja isto: precisamos deslocar nossa ideia de uma felicidade plena e sem sobressaltos, para uma vida mais interessante e imprevisível. Uma vida capaz de nos cativar e que nos fizesse olhar para as coisas com mais honestidade.

Em “A Felicidade conjugal”, de Leon Tolstói, temos uma grande crítica a ideia de felicidade sob a ótica da personagem María Aleksândrovna. Anciosa por casar com o aristocrata Serguêi Mikháilich,  María joga todas as fichas numa relação conjugal, como se no momento em que estivesse casada a felicidade aconteceria. No entanto, a grande diferença de idade entre eles e o cotidiano inócuo faz com María passasse a ter interesses diferentes. Desse modo, ela começa a compreender que a ideia de que seria feliz quando estivesse casada era apenas uma ilusão:

“Quando ficávamos a sós, o que já acontecia raramente, eu não experimentava alegria, nem perturbação, nem encabulamento, como se estivesse a sós comigo mesma. Eu sabia muito bem que ele era o meu marido, não algum homem novo, desconhecido, mas um homem bom, o meu marido, que eu conhecia como a mim mesma. Estava certa de saber tudo o que ele faria e diria, e como olharia; e se ele fazia algo ou olhava de maneira diversa da que eu esperava, tinha a impressão de que fora ele quem se enganara. Não esperava dele nada. Numa palavra, era meu marido e nada mais. Parecia-me que tudo devia ser assim mesmo, que não existiam relações de outro tipo e que elas nunca existiriam entre nós.” 

A grande ilusão de apostarmos tudo em um momento único, como se todas as alegrias estivessem reservadas num futuro longínquo é o que parece ser mais pernicioso. Tolstói talvez seja mais duro ao dizer que nem sempre as pessoas se casam para serem felizes. Simplesmente porque o cotidiano nos impõe uma série de obrigações burocráticas e que constantemente nos afastam daquele ideal de felicidade onde tudo é eterno, um lugar onde não há fracasso, nem tédio, nem dor.

Talvez seja melhor pensarmos que as pessoas se unem não para serem felizes, mas para tornar suas vidas interessantes. O que me parece menos ambicioso e arrogante de nossa parte. Assistindo a uma entrevista do psicanalista Contardo Calligaris entendi melhor sobre essa ilusão de procurarmos a felicidade no futuro. E dessa supervalorização da política da felicidade. Dizia ele que o mais importante não são os momentos felizes, mas o de trabalharmos arduamente para nos apaixonarmos por aquilo que fazemos de nossas vidas. E tornar nossa vida apaixonante não depende apenas de nós mesmos, mas também depende daquilo que nós fazemos com as pessoas.

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 Jeferson Tenório 01Jeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS.

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05
ago
13

A crônica de Jeferson Tenório: Escrever para se vingar da vida

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Escrever para se vingar da vida, por Jeferson Tenório

“Ora, Fernando, pra agüentar com um destino desses, antes de mais nada, é preciso de ter uma ambição enorme, uma paciência enraivecida, um desejo de se vingar da vida.”

Organizando os livros aqui em casa dei com esta frase marcada a lápis no livro “Cartas ao jovem escritor”, do Mario de Andrade dirigida ao então Jovem aspirante a escritor Fernando Sabino. O livro está repleto de reflexões sobre criação literária. Não é raro encontrarmos escritores mais experientes escrevendo cartas aos novatos.

Esse tom professoral talvez seja a tentativa de tornar a caminhada de quem escreve menos árdua. Revelar o caminho das pedras também está presente em outros livros: “Cartas a um jovem poeta”, do Raine Maria Rilke, “Cartas a um jovem escritor”, do Mario Vargas Llosa, “O escritor e seus fantasmas”, do Ernesto Sábato, A “preparação do escritor”, do Raimundo Carrero e, mais recentemente, o livro “Do que eu falo quando falo de corrida”, do Haruki Murakami. Há outros exemplos, certamente, mas o que todos parecem querer dizer é que é preciso encontrar um motivo muito forte pra quem gastar a vida escrevendo.

Creio que encontrar tal motivo se torna ainda mais dramático quando se vive num país como o nosso. Acho que toda essa ideia de dedicação à escrita e de que ela nos salva do abismo é muito bonita e verdadeira, mas não esqueçamos que estamos no Brasil. Dedicar-se à escrita integralmente é quase uma falta de respeito dentro da nossa cultura capitalista e utilitária. Quem se propõe a levar a cabo essa história de escrever sabe bem o custo disso.

A grande maioria de escritores exercem a escrita em concomitância com outra profissão. Mas sinceramente, para mim é difícil imaginar um professor que tenha uma dura jornada de 30 ou 40 horas de aula produzir algo em literatura ou em qualquer outra área artística. E é por isso que tenho uma inveja danada de dois escritores: Murakami, que um dia acordou e disse pra si mesmo “vou largar tudo e ser romancista”, (e virou mesmo, e ainda deve ganhar o Nobel daqui há uns 15 anos, raiva!) e do poeta Manoel de barros que disse ter comprado seu oficio para ser vagabundo de profissão. Por outro lado, alguém disse certa vez, que aquele que for esperar as condições perfeitas para escrever, vai acabar não fazendo é nada. Porque o verdadeiro artista é aquele que ergue sua obra em meio à devastação, como diria o nosso amigo russo Dostô.

Mesmo com toda esta chateação de não podermos ser vagabundos e termos de nos virar para escrever do jeito que dá, o livro de Mario vale apena porque revela uma coisa importante sobre a escrita: a seriedade. Mario de Andrade tem, a todo o momento, a preocupação em demonstrar ao iniciante Fernando Sabino que escrever só vale se houver devoção e desejo, insistindo que a escrita nunca é fácil, e que é necessário desconfiar sempre daquilo que se escreve: “Sendo a arte um produto direto da insatisfação humana, o artista, para se preservar em sua integridade, tem que renegar toda e qualquer facilidade que lhe a aparecer”.

Para o Mario, é necessário preservar o ímpeto moral de um artista diante da vida, além disso, propõe aceitação da aridez de estímulo para quem começa. E adverte que a publicação não pode ser o estímulo principal. Justamente porque é preciso que o artista carregue nos olhos esta insatisfação de quem não concorda com a vida e de que, às vezes, é preciso dizer isso a ela, isto é, como se a literatura servisse pra encostar a vida na parede e lhe pedisse satisfações. No entanto, nós sabemos que talvez não seja bem assim, pois desconfio que a vida tem mais o que fazer do que nos dar satisfações.

O fato é que a história dos artistas tem mostrado que o escritor é, antes de tudo, um inconformado e que, nas palavras do próprio Mário: “o homem encontra cotidianamente em seu caminho, o conformismo. Ela principia já por ser fisiológica, é a lei da estabilização, a lei que eu chamo da “preguiça”, nós vivemos morrendo, quando o principio moral verdadeiro, é justo o contrário: nós devemos viver sempre nascendo”. Mas até que isso aconteça, o caminho é lento e penoso dos que resolvem escrever.

Já Murakami deixa claro que o escritor é aquele tem que de saber lidar com a derrota, pois “Ninguém vence o tempo todo”, escreve ele. Admite que a vida é uma causa perdida e, é por isso mesmo, que vale apena escrever. A escrita como um modo de vencer mesmo na derrota.

Mario de Andrade também bate nessa tecla num dos trechos mais belos e maduros dessa carta “Não será talvez preferível e mais profundamente egoísta você não sacrificar nada, nem facilidades, nem amor, nem gozo, nem inimigos, nem incompreensões, mas viver tudo junto, em tudo procurando apurar o que é você e buscando se superar em você? Pra que imaginar se o outro lado do túnel faz dia ou faz noite? Só tem um jeito de saber; ir até lá. O perigo não é encontrar a noite lá, mas encontrar a noite e imaginar que é dia. Talvez o melhor segredo da dignidade de ser homem é ter a força e dizer: “perdi”. Porque, Fernando, nós perdemos. Nós perdemos sempre… o indivíduo humano será sempre essa “região amaldiçoada!” em que não é exatamente que ninguém consigo penetrar, mas em que toda exploração é imperfeita, incompleta.”

Ernesto Sábato no “Escritor e seus fantasmas” afirma que só se escreve com fanatismo: “O fanatismo. Tem de ter uma obsessão, nada deve antepor-se à criação, deve se sacrificar qualquer coisa a ela. Sem esse fanatismo nada de importante se pode fazer.” Comentário que tem a ver com o de Raimundo Carrero em “A preparação do escritor” ao dizer que não há trégua para quem escreve. O exercício constante e sistemático faz parte do ofício.

A devoção à escrita é talvez a única saída para quem pretende em algo literatura, no entanto, creio que quem consegue fazer isto, tendo uma ou duas jornadas de trabalho em escritórios ou salas de aulas, está mais próximo do super-homem de Hollywood do que do super-homem do Nietzsche.

Na verdade, todos que escrevem sejam eles experientes ou novatos “Vagabundos” ou operários, inventam seus motivos para acreditar que diante daquela tela fria do monitor ou daquela folha opaca saíra algo que valha apena. E assim, todos, de alguma forma, acabam se tornando um Dom Quixote amotinado, tendo de criar um moinho por dia.

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 Jeferson Tenório 01Jeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS.

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14
jun
13

A crônica de Jeferson Tenório: Um mergulho na perda sem choro e nem vela

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Um mergulho na perda sem choro e nem vela: Apontamentos numa noite insone sobre o livro “A condição Indestrutível de ter sido”, de Helena Terra, por Jeferson Tenório

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a condição indestrutível

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Semana passada estive na Livraria Palavraria para assistir um evento sobre o “Tempo e Vento”, do Érico. Na saída vi que o livro “A condição indestrutível de ter sido”, de Helena Terra, estava para venda. Comprei. Minha intenção era lê-lo ao logo da semana. Cheguei em casa, jantei e fui dormir relativamente cedo.  A 1h da manhã perdi o sono. Acendi a luz do abajur. Olhei a pilha de livros na cabeceira. O livro da Helena sem mais nem menos furou fila de leitura. Passou na frente dos 14 livros que eu tinha de desbravar. Abri-o e comecei a ler. Li numa tocada só. Entrei na história madrugada adentro, ignorando que teria de estar de pé às 5h 30, para dar aula. Eram 4h da manhã quando terminei a leitura.

E a primeira coisa que posso dizer é que fui atingindo. Atingindo porque trata-se não apenas de uma história, mas de um mergulho na dor da perda afetiva. A interdição do pranto que a narradora anuncia já nas primeiras páginas “Cedo, condicionaram-me a não chorar” me empurrou para o meio do livro. Pois eu precisava saber aonde isso ia me levar. Mais adiante, a narradora diz que “Piazzolas” nos salvam, levantei as duas da manhã, peguei um vinil e coloquei “Oblivion”, queria ser salvo também.

O livro de Helena é o afeto visto com honestidade, mesmo que ele fira. É uma história sobre o processo doloroso e delicado da aceitação do deserto, do vazio e da ausência. A madrugada avançava ao mesmo tempo em que e o texto me incomodava. No interior das palavras iam surgindo as ruínas dos afetos e os detalhes ocultos do fim de um relacionamento que cada um de nós carrega calado. Até me deparar, talvez, com a frase mais inquietante do livro: saber que “as tarefas do afeto são penosas e impossíveis de delegar”, porque ninguém poderá doer por nós. O livro mostra que estamos todos no mesmo barco da condição humana: o eterno desamparo, aquele incomodo sentimento da falta. E buscamos no amor o regresso do aconchego, a ilusão de que não estamos sós.

Há no livro os elementos dos relacionamentos pós-modernos mediados pela tecnologia da internet, blogs, emails, instrumentos em que as relações vão se dando ao longo da narrativa, revelando, que por vezes, um click no mouse ou a espera de um email que não vem, pode nos derrubar o dia. Estamos longe das antigas trocas de cartas, dos telegramas e dos telefonemas em cabines telefônicas num dia chuvoso. Temos, agora, a frieza da tela branca do computador. Lugar onde os sentimentos parecem caminhar na mesma velocidade dos gigas e megas. Mas o tempo do coração é outro. E é disso que o livro de Helena nos lembra. Porque as tecnologias podem ser diferentes de cem anos atrás, mas as dores serão sempre as mesmas.

Por fim, se no livro não há choro, também não há vela, pois não se trata de uma história em que o amor já morreu e foi enterrado, mas é a fotografia de um amor agonizante. Aquele que ainda está morrendo, aos poucos. Não é o tempo do luto. A linguagem para expressar este momento tão específico se mostra rigorosa e bem lapidada, percebe-se um rigor quanto as escolhas das imagens e metáforas, já que se poderia correr o risco de cair num melodrama: “A fruta cai sozinha, mas o vento faz sua parte. A vontade humana é o vento e testa virtudes, paciências e fomes. A vontade humana deveria ser dissecada para comprovar se estamos verdes ou prontos para nos submetermos a ela.”

Após a leitura, fui dormir. Eram 4h30. Uma hora depois tive de levantar. Fui dar aula enquanto o texto ressoava ainda em minha cabeça. Passei o dia parecendo estar de ressaca, e pensando como Nietzsche que apesar de tudo, o amor ainda é a nossa última trincheira, nossa ultima chance para não cairmos no abismo de olhos fechados. Num abismo se cai de olhos abertos, numa experiência vertiginosa “Via a vertigem de uma queda se aproximando, do meu corpo tombando na palidez do chão”. Mas não há chão. O que quero dizer é que não há abrigo no texto de Helena. E a boa literatura é isso mesmo; desabriga, descentra e incomoda.

 

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Jeferson Tenório 01Jeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS. É um dos idealizadores e apresentadores do Sarau das 6, evento de leituras e comentários sobre literatura apresentado mensalmente na Palavraria.

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22
fev
13

A crônica de Jeferson Tenório: Facebook: a nossa Parságada digital

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Facebook: a nossa Parságada digital, por Jeferson Tenório

Causou-me um grande impacto a leitura do texto “A dor não nos matará”, de Jonathan Franzen, do livro de ensaios “Como viver sozinho”.  Franzen é um dos autores mais festejados dos EUA na atualidade. Possuidor de um olhar corrosivo, agudo e crítico da cultura norte americana, Franzen diz que a primeira lei do capitalismo é transformar tudo em mercadoria.

O caso do Facebook é mais um exemplo disso. Franzen chama a atenção para a grande valorização do verbo “curtir” no mundo contemporâneo. Na verdade, a frivolidade de “curtir” tem servido para expressar não mais um sentimento em relação a algo ou a alguém, mas passou a ser uma opção de consumo. “Curtir” significa aceitar mercantilização das idéias.

“Curtimos” tudo: das frases sentimentalóides acompanhadas de imagens místicas às catástrofes e tragédias pessoais.

Vejam só: até a dor é “curtível”.

O ato de curtir ainda atende a outro chamado do capitalismo: a efemeridade e a necessidade do novo. Nenhuma postagem dura mais de um dia, às vezes, horas. Nossas frases, vídeos, pensamentos são “curtidos” e rapidamente esquecidos. E então tornamos a postar porque não queremos ser deixados de lado, nem pairar na sombra do esquecimento. Queremos ser curtidos e amados.

Minha namorada chamou à atenção para a diferença do termo “curtir”, em inglês “like”, dizendo que pode haver uma diferença semântica entre de “gostar” e “curtir”, mas o fato é que tudo termina no mouse, porque não importa o que postamos, importa é saber quantas pessoas vão nos “curtir” ou “gostar”.

Aí mora o perigo, pois quando deixamos nos levar pela angústia de não sermos curtíveis (falo daqueles posts que postamos e ninguém curte, comenta ou compartilha), nos sentimos frustrados e passamos a ser joguetes daquilo que os outros pensam ser curtível, ou seja, nos sujeitamos a representar qualquer papel para sermos reconhecidos como pessoas curtíveis.

Para tanto, mudamos nossas fotos de perfil, vasculhamos frases de efeitos ou flagrantes jornalísticos de última hora que podem causar impacto: vale tudo para sermos pessoas curtíveis, até inventar aquilo que não somos.

O Facebook é uma vida onde ninguém é triste e todos são vencedores. Nas discussões, muitas vezes inúteis que se trava ali, todos querem se mostrar inteligentes, coerentes e sedutores. O Facebook é um espelho que só consegue refletir nossa vaidade. No entanto, existe a vida fora dele e nessa vida há tristeza e há os que perdem. Na vida real, aquela que dói, as discussões conjugais ou familiares revela quem de fato nós somos, e daí lá se vai a coerência e a sedução daquele cara legal do Face.

Nada contra a quem passa longas horas na frente do Facebook, mas há um fato importante nisso: A vida não é curtível e é preciso que não esqueçamos disso. Quantas vezes já não nos pegamos alimentando picuinhas por causa de uma “curtida” ou “comentário” no perfil de alguém. Casais que tem longas discussões por causa disso ou que tem de esconder os perfis de ex namorado(s) namorada(s), ou ainda comentários inconvenientes de conhecidos.

Também não estou propondo que as pessoas abandonem seus Faces. Até porque eu mesmo não conseguiria fazer isso. Já fechei compromissos de trabalhos importantes via face. Além disso, gosto ver as postagens, de curtir e postar frases. Assim como também não posso esquecer que o facebook tem mudado o modo como as pessoas tem se comunicado e possibilitado o reencontro de amigos e parentes perdidos. O Face é um importante instrumento para mobilizar grande um número de pessoas.

Minha bronca é com a grande importância que damos aos perfis fictícios dos outros e de nós mesmos, bronca com essa nossa alienação que o capitalismo nos impõe e aceitamos passivamente com o dedo indicador no mouse.

Outro dia uma amiga me disse com sinceridade como é a sua relação com Facebook. Ela me revelou que não gosta de entrar toda hora e nunca posta coisas pessoais, ela procura postar informações sobre cultura, peças em cartaz, filmes etc, e disse não se importar com o número de pessoas que irão “curtir” suas postagens, importa a ela poder compartilhar algo interessante, ou seja, disponibilizar, dar acesso. Ela pode ser uma exceção, porque no fundo todos querem ser amados pelas suas postagens.

Jonathan Franzen em seu artigo parece um velho rabugento contra as redes sociais, mas o fato que ele tem muita razão ao mostrar as facetas recorrentes do capitalismo e de como ele é sedutor.

O Facebook é a nossa Parságada digital onde ninguém é amigo do rei, mas todos fingem ser.

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Jeferson TenórioJeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS.

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19
jan
13

A crônica de Jeferson Tenório: Das vezes que parti sem dizer adeus

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Das vezes que parti sem dizer adeus, por Jeferson Tenório

 

Sempre achei que alguém deveria escrever a história dos pais separados que vão visitar seus filhos. Dos pais que convivem diariamente com a falta. Uma história dos pais fracos que enjoam nos ônibus e que tem medo de avião. Tenho um filho.  Nome dele é João. Não mora comigo.  Vive em Santa Catarina. Uma vez por mês viajo para vê-lo. Ele ainda não completou três anos. Nas primeiras viagens, cada vez que o ônibus fazia uma curva eu quase vomitava. Passados três anos e dezenas de idas e vindas na BR 101, construí uma fortaleza no estomago. Dostoiéviski tinha razão: A maior qualidade de homem é o de se habituar a tudo. Eu, no entanto, ainda não domei os aviões.

Antes de mais nada quero adiantar que não sou escritor. Um escritor escreve. Eu escrevo, mas não me sinto um profissional nisso. Por outro lado, creio que não preciso da chancela de um editor para continuar escrevendo. Não tenho idéia se o que escrevo é bom. Embora eu devesse saber disso, pois ensino literatura. Sou formado em Letras e isso parece me autorizar a criticar o texto dos outros. Já imitei muita gente antes de desistir de ser escritor. Agora eu tenho um diário e isso me basta. Este texto é um fragmento dele. Não vivo de escrever. faço rascunhos e observo as coisas. Estou bem assim. Com o tempo a gente aceita a possibilidade de não ser mais um vencedor e de querer dizer as verdades.

Como não sei se escrevo bem, criei uma espécie de máquina dentro de mim que chamo de “autocrítica”. Eu a treinei para captar as besteiras que ponho no papel. Mas às vezes a máquina falha e passo a ter menosprezo por algumas palavras que saem da minha cabeça e é isso que me dói. Antes me doía não ser bom como o Dostoiéviski, agora só me dói não ter o que dizer quando preciso dizer.

Meu filho está crescendo longe de mim. Não quero drama nem lamentações, por isso tenho este diário. É o meu modo de preencher a falta. Sei que o que escrevo não é nada perto de tudo que já se fez. O que não faz dessas palavras algo menos importante, pois este texto será lido por algumas pessoas, alguns amigos e talvez meu filho. Para mim, o João lendo, é o suficiente. Sinceramente, não sei se o que acontece na nossa vida é uma história que merece ser contada. Nem sei se tenho uma história para contar. Não sei se este diário vale apena. O que sei é já tive de voltar à Porto Alegre em silencio com um pranto amarrado nos olhos  ao sair escondido, porque não queria ver o João chorar na despedida.

Um dia eu pensei que pudesse escrever um romance para matar a ausência do meu pai, e depois me tornar um homem. Dizem por aí que a gente só cresce quando mata o pai. Acho besteira. Quando estou no ônibus e vejo a escuridão lá fora, sinto medo. Quando estou em um avião, tenho medo. Um medo infantil, idiota, como todos os medos. Portanto, acho que a gente pode matar o pai milhares de vezes, mas o fato é que a gente nunca cresce.

Eu nunca pensei em ser pai. Sempre achei que ter um filho era uma coisa para os outros. Eu tive um colega na escola, o André. Ele teve um filho quando estava no ensino médio. O André parou de estudar e eu fui no hospital ver a criança. Foi assustador. O André só tinha 16 anos. A mãe tinha 15. Todos diziam que eles tinham estragado o futuro deles. Ainda acompanhei o André por algum tempo. Ele trabalhou em um posto de gasolina da BR. Um ano depois eles se separam e o André começou a pagar uma pensão, mas nunca mais quis ver o filho. Agora ele tem outra família, tem mais dois filhos. E assim é.

Também nunca achei certo a gente obrigar alguém a nascer, vir para cá tomar bofetadas da vida o tempo todo. Mas somos teimosos e acreditamos que a vida é boa. Por outro lado, os filhos nos salvam. O João vai fazer três anos e não sabe, talvez demore a saber, mas ele me salvou da pior ciosa que uma pessoa pode carregar: o egoísmo. Acho que só consigo experimentar o que é alteridade quando tenho o João em meus braços. Com ele eu nunca sou “eu” sou sempre “ele”. Tenho um amigo de infância, o Jurandir, que tem uma filha de 5 anos. Quando ela nasceu eu perguntei ao Jura: Cara, como é isso de ser pai? Ele me olhou e sem muita explicação me disse: Sabe o que é amar alguém e nunca esperar nada em troca? Eu não sabia. Mas agora, Jura, eu sei. Te devo essa, meu amigo.

Uma coisa é certa: os pais sempre serão os culpados pela má formação dos filhos. Pais sempre erram. Com os filhos a gente nunca ensina nada direito. A gente só aprende. Quando se põe um filho no mundo a gente pensa que pode defendê-lo de tudo, chegamos a achar que somos eternos, que os filhos serão sempre pequenos e vão nos amar todo tempo. Às vezes os filhos, na vida adulta, nos perdoam pelas burradas que fizemos e então seguimos. Noutras, não há tempo para nada, nem para o perdão nem para o amor. Aí a vida vai passando, envelhecemos e depois temos de morrer para que os filhos sigam e conheçam a vida sozinhos.

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Jeferson TenórioJeferson Tenório. É feito de literatura. Professor e apaixonado por Dom Quixote. Premiado no concurso Paulo Leminski em 2009 com o conto “Cavalos não choram” e no concurso Palco Habitasul com o conto “A beleza e a tristeza”, adaptado para o teatro em 2007 e 2008, além de ter tido poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus em 2009. Faz mestrado em literaturas Luso-africanas pela UFRGS.

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