Posts Tagged ‘A crônica de João Pedro Wappler

24
fev
14

A crônica de João Pedro Wappler: Não como nossos pais

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Não como nossos pais, por João Pedro Wapler

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Ouço muito pelos bares da vida sobre a dispersão cognitiva da minha geração. Como sou filho dela me sinto atingido pelas críticas. Minha mania de perseguição me faz revidar aos chato de plantão: “Nós não somos só um bando de idiotas viciados em Facebook!” Muitos dizem que somos hiperconectados mas pouco aprofundados. Isso faz todo sentido. Assino embaixo. Mas o que eu acho que faz falta para os especialistas em matéria de vida é captar a difusa e fragmentada linguagem de hoje. Será que esses críticos dos tempos vigentes não são simplesmente saudosistas perdidos na maré de informação?

Paradoxalmente, muitos dos ditos mais velhos se dão muito bem na nossa pós-modernidade cada vez mais atomizada. São jovens de cabeça. Apesar de muita gente madura de idade se sentir hostilizada no mundo virtual, não é tão difícil assim aderir a ele. Depois de algumas horas na frente do PC, qualquer tecnófobo aprende o bê-á-bá da web. O fato é que quem não navega na internet hoje acaba sendo convidado para um cruzeiro marítimo nas águas tecnológicas. Mesmo quem odeia a web não pode mais evitá-la. Só por curiosidade: você conhece alguém que não tenha celular? Pois é, muita gente odiava esses aparelhinhos e hoje é quase impossível viver sem um.

O grande barato de hoje não é propriamente a profundidade intelectual e o fanatismo por ideologias, características típicas de décadas antecessoras. O grande esquema do novo milênio é o acesso quase universal à informação. Essa é a revolução que foi forjada pela tecnologia. O que falta provavelmente é tempo para os filhos do novo milênio digerirem tudo o que cai no prato cultural deles.

Vejamos só o caso do cinema. Há algum tempo atrás para ver filmes antigos o cara precisaria gastar uma grana na locadora ou esperar que por sorte algum clássico passasse na tv a cabo. Fora isso muitos filmes nunca foram lançados em cópias para serem assistidos em casa. Com a internet o sujeito pode achar praticamente todos os filmes da história do cinema de graça. Isso é absolutamente revolucionário e faz um bem extraordinário para o novo público.

Por incrível que pareça para muitos críticos dos jovens “alienados de hoje”, nunca foram assistidos tantos filmes clássicos pelos mais imaturos em matéria de cultura. Num final de cinema, uma adolescente pode fazer download e ver todos os filmes do Truffaut.

Isso gera uma nova geração de cinéfilos. Estão por aí se proliferando amostras de cinema, que são possibilitadas por esse acesso irrestrito a filmes. Antes a batalha era complicada. O programador buscaria VHS’s em cópias esdrúxulas ou gastaria uma fortuna para importar películas.

Nossa geração do novo milênio é altamente retrô. Ela ama o antigo. Ele é referência pra ela. Nunca a nouvelle vague foi tão assistida como é hoje.

O que mais atrapalha a rapaziada de hoje é a falta de foco. Com uma filmografia imensa na palma da mão, não sabemos que filme ver primeiro e antes de ver algum título já se está pensando no próximo. Outro dado é a doentia falta de paciência da moçada. Quantos conseguem ver um filme inteiro hoje sem nunca pausar?

A recepção da arte mudou completamente. Ela é entrecortada, impaciente, exigente, sedenta por estímulos e mais estímulos, até ficar saciada. Diretores como Tarantino captaram genialmente o Zeitgest dessa geração e se tornaram ícones incontestes da pós-modernidade.

Será que alguém aguenta hoje um Antonioni? A globalização massificou muito a cultura mas paradoxalmente deixou ela muito variada também. Há público pra tudo.

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João Pedro Wapler. Ator e escritor. Assina o blog de poesia Poesia Imoral (http://poesiaimoral.blogspot.com) e o de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com) . É colunista de literatura do site O Café (http://ocafe.com.br). 

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11
out
13

A crônica de João Pedro Wappler: Porto Alegre menos chata

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Porto Alegre menos chata, por João Pedro Wapler

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Porto Alegre é uma cidade curiosa. Digo isso pelo fato de ela ser uma capital com todos os predicados para ser uma cidade superinteressante, mas que acaba não conseguindo subir às alturas por alguns ranços e idiossincrasias locais. É uma cidade que ainda não floresceu como deveria. Diferente de outras cidades brasileiras ainda não conseguimos transformar nossas potencialidades em resultados concretos para um município melhor.

Antes de tudo, o que mais define a capital gaúcha é, a meu ver, o fato de ser muito simpática e agradável – pelo menos é uma das características mais ressaltadas pelos visitantes e moradores. Muitos dizem: “Em Sampa tem tudo, mas aqui, mesmo com menos coisa pra se fazer e com menos dinheiro, tudo é perto e há mais tranquilidade”. POA é uma capital com cara de cidade do interior, essa é a verdade. Seu ar provinciano cativa. Nunca esqueço duma amiga carioca radicada aqui há anos que disse: “O Rio é maravilhoso, mas eu adoro viver nesse provincianismo daqui.” Curioso comentário. Você conhece algum carioca que deixou o Rio por opção? Caso, raro, muito caro.

Num panorama geral sobre nosso provinciano município posso começar a dizer que as ruas arborizadas são o grande atrativo local. Algumas cidades têm praias, outras lojas de grife, nós temos ruas arborizadas. Uma rua sem árvores perde toda a graça por aqui. Não somos uma cidade turística, isso é fato: uma cidade para viver e não para visitar. Temos muitas características que nos ligam ao Conesul mais do que ao Brasil. Somos mais parecidos com Montevideo do que com qualquer outra capital nacional. Mas a capital uruguaia é muito mais bonita do que Porto Alegre. Mas eu ainda acho que com um pouco de esforço chegamos lá! O fato é que gostamos e não gostamos do Brasil. Vamos ser sinceros, muitos porto-alegrenses gostariam de ser uruguaios ou argentinos nos confins da sua alma.

Relembrando nossas qualidades no quesito de conteúdo, Porto Alegre é uma cidade exportadora de escritores, jornalistas, artistas visuais, atores, músicos, publicitários, designers, advogados, etc. Por que todo mundo quer sair daqui? É lógico que não temos o número de oportunidades oferecidas por megalópoles e nunca conseguiremos modificar esse paradigma migratório, mas penso que se fortalecêssemos algumas características locais, tornaríamos a cidade mais vibrante e muitas das pessoas que estão loucas pra vazar daqui, poderiam repensar um pouco antes de ir para o Salgado Filho.

Um paradoxo é de que a maioria das pessoas que eu conheço quer sair daqui. O engraçado é que nunca saem – e se saem voltam logo. Os porto-alegrenses têm uma grande dificuldade de deixar pra trás suas raízes. Eu não sei responder essa questão. Não são antropólogo nem astrólogo.

Outro dado, seminal para o entendimento de nossas características, é que somos além de muito provincianos, também preconceituosos. A miscigenação tão forte e criativa no Brasil, aqui parece ser vista com desconfiança. Nossa cidade precisa se abrir para o mundo e não se fechar em si mesma – hábito aqui muito cultivado. POA precisa se misturar com o mundo. Nossas tradições não podem ser um fim em si. Nosso “orgulho de ser gaúcho” não pode ser nossa razão de ser. Resumindo, o gaúcho deve ser menos chato.

joão pedro waplerJoão Pedro Wapler é ator e escritor. Mantém o blog de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com).

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09
jul
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A crônica de João Pedro Wappler: O porto das artes

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O porto das artes, por João Pedro Wapler

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Porto Alegre poderia ser um pólo cultural e isso não é mais uma daquelas conversas para boi dormir. É comum em muitas pequenas cidades europeias um fato: tal lugarejo transforma-se num pólo de artes visuais, cinema, dança, literatura ou teatro. Há muitos anos as metrópoles clássicas (Berlim, Londres, Paris, Praga, Viena, etc) coexistem com outros minicentros de ebulição criativa em harmonia.

No Brasil se dá de outra forma esse fenômeno: temos dois grandes centros e é lá onde acontece quase tudo. Esse panorama já vem de décadas e não é somente um decreto governamental que fomentará a cultura aqui ou acolá. É essencial, acima de tudo, modificar nosso posicionamento diante da cultura. O quanto a arte é essencial para nós, como cidade brasileira? O como podemos fazer para avançarmos nesse sentido e virarmos o jogo o quanto antes?

Nossa capital está recheada de movimentos culturais expressivos. Há diversos coletivos de artes visuais, outras tantas bandas de rock, além de numerosos grupos de dança e de teatro, além de vários novos escritores e pesquisadores surgindo nas universidades. Dentre nossos espaços culturais mais importantes citaria: Casa de Cultura Mario Quintana, Fundação Iberê Camargo, MARGS, Teatro São Pedro, Santander Cultural e Usina do Gasômetro. Abrigamos também outros espaços que também valem a pena ser destacados: Teatro de Câmara Túlio Piva, Teatro Renascença e Casa de Teatro de Porto Alegre. Eventos como o a Bienal do Mercosul, o Fantaspoa, a Feira do Livro, a Festipoa Literária e o Porto Alegre em Cena atestam que, além de um espaço físico propício para a arte, também sediamos acontecimentos vibrantes em matéria artística.

Esse cenário comprova dois fatos: devemos apreciar e fomentar ainda mais a divulgação e afirmação desses espaços e eventos; devemos trabalhar na formação da nossa clássica artística de um modo geral. São dois desafios que exigem parcerias entre governo e iniciativa privada e que não ocorrerão do dia pra noite, evidentemente. O fato é que faltam incentivos locais à cultura e sobreviver como artista aqui é uma tarefa hercúlea. Por isso muitos de nós fazem as malas e somem. E esse panorama não é um fenômeno dos últimos anos…

Convivemos historicamente com um êxodo criativo e urgentes esforços conjuntos, envolvendo também outros grupos sociais e econômicos, tornam-se imperativos para transmutar tais carências estruturais. Nosso ensino público (primário, médio e superior) ainda é muito falho na área artística. Os cursos privados são inacessíveis e também ainda incipientes. Para buscar uma formação de qualidade no campo da arte é ainda indispensável ir para o centro do país.

Pois bem, costumam dizer que o povo gaúcho é muito culto. Não sei bem até onde essa assertiva é válida. Nosso estado é inegavelmente um exemplo de qualidade de vida e de desenvolvimento humano, posicionando-se na frente de muitos outros estados brasileiros em tais quesitos. Nossa cidade se insere nessa realidade regional também. Somos uma das capitais mais bem estruturadas do país sem dúvida alguma, tanto em quesitos humanos quanto materiais. Porém, na seara artística, ainda precisamos de mais pessoas interessadas e ativas, necessitamos de mais energia e incentivos para criar e acima de tudo, deve haver uma constante troca e união entre todos os campos de manifestações artísticas locais. Sem esses quesitos, continuaremos na periferia da arte.

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João Pedro Wapler. Ator e escritor. Assina o blog de poesia Poesia Imoral (http://poesiaimoral.blogspot.com) e o de fotografia Mobile Frame (http://mobileframe.tumblr.com) . É colunista de literatura do site O Café (http://ocafe.com.br). 

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07
jun
12

A crônica de João Pedro Wappler: A arte de subverter

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A arte de subverter, por João Pedro Wapler

Uma das características seminais do pós-modernismo é falta de durabilidade de quase tudo. Os namoros, as bandas de rock, as geladeiras, os programas de televisão, os automóveis, os bares, os sabonetes, as calças jeans, os telefones celulares, dentre tantos outros atores e objetos da cena hipermoderna estão instados à obsolescência programada. O prazo de validade volátil é a palavra de ordem da sociedade consumista vigente. A indagação que faço aqui é a seguinte: Qual a função da arte dentro desse furacão que rejeita tudo o que não seja absolutamente novo?

Creio que a arte, quando subverte a ordem natural das coisas, através de uma subjetividade crítica – quase simbolista – nos transporta para fora do tônus do cotidiano. Assim, ela já está prestando um grande serviço contra a futilização total dos sujeitos e de seus habitats naturais. Para bombardear o viés autoritário dessa flexibilização incondicional das relações entre os seres e seus objetos cênicos habituais, nada melhor que chutar o balde da tangibilidade e deixar a realidade escorrer para o bueiro mais próximo e, de preferência, o mais rápido possível.

Quando digo arte busco induzir a um campo de produção cultural marginalizado e que não compactue com tudo isso que está aí. Não acudo aqui só a arte dita política – que invariavelmente é mais partidária que política de fato. Não venero também aqui só o puro experimentalismo – que por si só não basta. Estou sim do lado daqueles que criam para si mesmos, como forma de expressão ou declaração. Sou parceiro daqueles que não têm medo de afrontar o mundo com sua sensibilidade subscrita em objetos artísticos. Jogo no time do pessoal que vê a arte como condição básica para uma coletividade considerar-se desenvolvida. Defendo a arte com artigo de cesta-básica. Mas que arte?

Não vejo como arte libertária aquela arte industrializada das canções-slogan, dos livros best-sellers, dos filmes com cara de telenovela, das peças de teatro onde quase não há dramaturgia e apenas apelação ao riso, das obras ditas de arte que mais parecem objetos decorativos ou provocações adolescentes para iletrados, etc e tal. Não censuro quem opta por esse caminho com consciência, mas acentuo que ele não leva até a arte que importa ou faz a diferença – arte que será lembrada e não irá para o lixo orgânico da massificação idiotizada. Essa “arte” da indústria e do descarte presta para mim o mesmo serviço que uma peça publicitária ou um objeto criativo de design: não há inovação, contestação ou sublimação, há apenas uma visão assertiva daquilo que é bem aceito. Quem faz arte para alguém já está se prostituindo, destituindo-se da sua liberdade de criar sem amarras em prol de um status quo confortável. Eles não me interessam em absoluto.

Um dos melhores antídotos contra a mesmice hiper-hedonista atual é localizar alamedas que levem até a concepção de objetos artísticos que removam da poltrona, pelo menos temporariamente, essa massa de desavisados contentes e anestesiados contra o desconforto que a boa arte há de trazer. Se seguirmos apenas consumindo arte como fazemos ao comprar uma lata de cerveja, estaremos embarcando na nau dos desavisados e, mesmo sem querer, compactuando com uma forma pragmática de ver o mundo, por meio de um só ângulo, delimitado de forma ilusória pela nossa ignorância.

João Pedro Wapler é gaúcho.  Ator e escritor, assina o blog de poesia Poesia Imoral (www.poesiaimoral.blogspot.com).

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