Posts Tagged ‘A crônica de Moacyr Godoy Moreira

07
abr
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A crônica de Moacyr Godoy Moreira: Viagem à Bahia

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Viagem à Bahia, por Moacyr Godoy Moreira

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Recebi com certo entusiasmo a notícia de que teria um compromisso profissional em Salvador. Havia estado na cidade por duas vezes, a primeira com meus pais, aos 14 anos de idade, durante as férias, e a segunda num congresso acadêmico que levou à cidade mais de 6000 estudantes de medicina de todo o Brasil, evento do qual fiz parte da organização, fato do qual me recordo com indisfarçado orgulho.

Foi também quando descobrimos que nem tudo o que aparece na mídia condiz com a realidade: reuníamo-nos uma vez por dia num plenário respeitável, com capacidade sempre esgotada para 3000 pessoas, com presença de autoridades discutindo abertamente os destinos das políticas públicas de saúde, dentre outros temas. Justamente no dia de folga do congresso, quando não havia qualquer atividade programada, uma matéria do Jornal Nacional mostrou o tal plenário vazio e muitos dos estudantes na praia, provando para todo o país que tais eventos de política estudantil só serviam para os alunos fazerem turismo, muitos deles subsidiados por suas respectivas universidades.

A Bahia e o Rio de Janeiro devem ser, de longe, os lugares mais exaltados pelo nosso cancioneiro popular. Não são estranhos os nomes dos bairros e localidades de Salvador, nomes que surgem nas canções: Boca do Rio, Itapuã, Federação, Baixa do Sapateiro, a Praça Castro Alves (que é do povo, como o céu é do avião) e o Farol da Barra. Andar pelas ruas da cidade e se deparar com algumas placas indicativas de distâncias e caminhos, provoca uma sensação de reconhecimento de algo familiar: Igreja de Nosso Senhor do Bom Fim, Mercado Modelo, Pelourinho, Praia de Amaralina.

O hotel era no bairro do Rio Vermelho. Numa praça próxima podia-se experimentar o melhor acarajé da Bahia, feito com carinho pela Tia Cida. Não duvidei da recomendação, nem provei a iguaria. Mas imagino que, só em Salvador, deve existir pelo menos uns 20 incontestáveis melhores acarajés da Bahia. O dia chuvoso e o mar revolto que se via da janela do quarto não inspiravam visitas a qualquer um dos lugares que me acompanhavam mentalmente nos últimos dias, lembranças vindas de canções em homenagem à terra. Deitei-me para um breve descanso e quando acordei já escurecia.

Saí então para comer alguma coisa. Voltando ao hotel para dormir novamente, tentando recuperar o cansaço das últimas semanas, avistei, ao lado de um simpático restaurante, uma vitrine com livros. A princípio, pareceu-me um sebo. Entrei e não se tratava exatamente destes modestos estabelecimentos que comercializam livros usados.

Vendiam livros de toda sorte, mas o que me chamou a atenção foi uma generosa estante com livros sobre o candomblé e a cultura iorubá. Livros de arte, fotografia (espetaculares volumes com a obra de Pierre Verger), manuais, dicionários, uma vastidão de publicações muito bem encadernadas, de editoras de todo lugar do Brasil. Interessei-me especialmente por um livro sobre São Jorge. Para minha surpresa, era de uma historiadora de São Paulo, publicado por uma editora carioca, falando da história do santo, os mitos que o envolvem e o Orixá, que no candomblé corresponde a Oxossi e na umbanda a Ogum. Um trabalho de uma profundidade e seriedade impressionantes.

Como sou filho de Ogum – não sei como se descobre esta genealogia, mas já me disseram mais de uma vez – e São Jorge é padroeiro do meu alvinegro todo-poderoso -, fui obrigado a trazer o livro para casa. Observando meu interesse, o vendedor perguntou se eu conhecia o novo CD do Carlinhos Brown. Respondi que não, imaginei algo no ritmo da Timbalada, porém o rapaz se prontificou a colocar algumas músicas. Ouvi melodias bonitas, letras poéticas, uma preciosidade. Mas a grande descoberta, o grande achado naquele singelo lugar, foi uma cantora do Recôncavo Baiano, que o vendedor também fez questão de mostrar – visto que eu não tinha nada para fazer e nem ele, a loja estava praticamente vazia.

Voltei para São Paulo sem visitar nenhum ponto turístico, mas feliz com a descoberta da cantora Mariene de Castro, me deliciando com a história bem contada de São Jorge e pensando que, em terras distantes, mesmo que brasileiras, nada mais interessante do que descobrir, através das mãos dos que lá vivem, as pequena jóias escondidas, os verdadeiros tesouros que não estão escancarados nos cadernos de turismo dos jornais.

01.12.2010

Moacyr Godoy Moreira é escritor, redator de teatro, tradutor e médico. Publica semanalmente crônicas e resenhas na seção “Arte do Tempo” do site http://www.agenciacartamaior.com.br. Publicou, pela Ateliê Editorial, os livros de crônicas Lâmina do Tempo, República das Bicicletas e Ruídos Urbanos.

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31
mar
12

A crônica de Moacyr Godoy Moreira: Furdunço aéreo

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Furdunço aéreo, por Moacyr Godoy Moreira

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Meu amigo Antonio Prata escreveu sobre isso outro dia. Já reparou que quando avisam, no avião, para que as pessoas permaneçam sentadas ‘até a parada total da aeronave’, fica todo mundo em pé, num afã desvairado por recuperar seus pertences de mão e sair correndo corredor afora? Pois é! O Antonio tem uma hipótese para o fenômeno: a incompetência do brasileiro em seguir regras. Ou seja, se há regra, sou contra. Se há lei, vamos burlar! Para o Pratinha (o Prata pai é o Mario), a impaciência vem da atitude diante da arbitrariedade dos comissários de bordo: quem é este sujeito para me dar ordens?, pensaria o ofendido passageiro. E sai todo mundo desembestado, abrindo compartimentos e derrubando bolsas, casacos e presentes já não tão bem embalados, desmiliguidos pelo sacolejar do trajeto.

Uma outra situação, para mim inexplicável, contraria um pouco a hipótese do Antonio: o embarque. Já vi pessoas esperarem de 20 a 30 minutos, em pé, numa fila em frente ao portão de embarque, aguardando anunciarem a saída do vôo. Pergunta estúpida: por que esperar meia hora em pé, com as pernas doendo sobre enormes saltos, por vezes, se os acentos dentro do avião são numerados? Não tenho muitas teorias para propor, apenas constato que se trata de uma ansiedade um tanto burra, desculpe a franqueza. Digo burra porque simplesmente não faz sentido, não tem propósito prático algum. Mas deve ter alguma explicação sócio-psico-antropológica, quiçá.

No desembarque, já vi gente se empurrando, batendo boca e até ameaças de agressão. Para que? Para ficar dez minutos em pé no corredor, sentindo-se como aquele pessoal que vai atrás do trio elétrico, gente trocando calor humano, mala embaixo do braço, filho embaixo do outro, pacotes de lembranças para a família equilibrados sobra a cabeça. Será que o desejo de sair correndo é para ir ao banheiro?, já cogitei esta possibilidade. Tem gente que não consegue fazer xixi com o remelexo aéreo, entende-se. Mas já prestei atenção no salão de desembarque e são poucos os que entram correndo no banheiro para se aliviar. Em vôos mais longos, chega a ser um pouco mais comum.

Já vi gente dormir em fila, com barraca de camping e tudo, para comprar ingresso pro show do Paul McCartney, para garantir vaga na escola para o filho ou por razões diversas que implicam diretamente na ordem de chegada. Não é o caso do avião, nem para sair, nem para entrar. Quem fica em pé primeiro não sai primeiro – a menos que o sujeito esteja viajando na primeira fileira. O pior é que mesmo que o sujeito saia logo do avião, ao chegar à esteira rolante vai ter que esperar como todo mundo: nunca as malas chegam antes das pessoas. Aliás, a retirada das malas é outro espetáculo digno de revolta, um empurra-empurra sem fim, um salve-se quem puder geral, uma falta de educação que dá pena de ver – e neste item os brasileiros não são os únicos privilegiados.

Deve haver uma explicação melhor para a ansiedade burra. Talvez, baixe no povo um desespero, um alívio pelo avião ter pousado e não ter morrido ninguém, vai saber? Dá um siricutico na moçada (termo da minha avó, nem sei se é assim que se escreve), que sai de baixo. Mesmo assim, ainda não explicaria o cidadão neurótico na frente do portão de embarque, xingando que está demorando, que é um absurdo ficar em pé na fila, que a aviação no Brasil é uma vergonha – sendo que o horário indicado na passagem ainda não chegou.

Um dia, chegando em São Paulo, aquele furdunço no corredor abarrotado esperando o Abre-te Sésamo das portas, ouvi um mineiro desabafar da maneira mais original e engraçada possível, que levou a maioria das pessoas ao redor a caírem na risada, talvez entendendo o papel ridículo que estavam fazendo – menos o sujeito mal-humorado que empurrava Deus e o mundo. Depois de levar mais um safanão, virou o rapaz pro agressor e ingadou:

– Ô fi, empurra não! Vai tirá o pai da forca?

 22.11.2010

 Moacyr Godoy Moreira é escritor, redator de teatro, tradutor e médico. Publica semanalmente crônicas e resenhas na seção “Arte do Tempo” do site http://www.agenciacartamaior.com.br. Publicou, pela Ateliê Editorial, os livros de crônicas Lâmina do Tempo, República das Bicicletas e Ruídos Urbanos.

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