Posts Tagged ‘a crônica de Roberto Medina

11
jan
12

Um pouco mais do mesmo, a crônica de Roberto Medina: Passagem

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Passagem, por Roberto Medina

 

Por mais que tentasse, eu não podia cruzar a parede, janela, ou mesmo, a porta. Há portas de todos os tipos. Grossas, de vidro, de madeira, de plástico, de sonho. Mas o que há depois da porta? E do lado daqui… há portas-grade. Muitos que tentaram passar pela porta, em especial, aquela porta, nunca encontravam a fechadura. Os mais brutos tentavam arrebentá-la. Implodi-la. E ela apenas sorria.

Fechava-se, desaparecia como quem cai no sono. Forçar uma porta é desrespeitar suas vísceras profundas.

Jogar-se na gigante porta é estorricar-se.

Pequenos e grandes homens já tentaram executar essa sonhada manobra.

Ultimamente tenho pensado, com eternidade, destruí-la.

Ela é de um forte matiz. Acaba se modificando, se repensando. O ombro direito ainda não se colou sob a carne. Nas últimas vezes o sangue esguichava potente. Pensei em desistir. Só que a raiva se reorganizava dentro de mim, e, como Davi, ia reunindo forças para desbancar o potente Golias.

A clavícula ficou para fora da pele, esta porcaria de pele, que só serve para esconder o nosso de dentro. Na menor das forças destas paredes do mundo, o de dentro se manifesta: ou na dor ou no sangue que verte. Tomei alguns cuidados para esconder de mim o que a mim pertence. Urrei de raiva, mas enfiei o osso para dentro.

Creio ter ficado desacordado por horas ou dias…

Não posso afirmar se foram dias, tudo aqui me enoja e fede como horas mortas e abandonadas. A febre vem de forma cavalar. Imagens ficam meio que misturadas com medos. Uma náusea sobe nas fronteiras da boca. E um universo surge em golfadas, alagando o chão, imiscuindo-se a alguns bichos que os pressinto. Outros me picam nas pernas, costas, peito e cabeça. Os pés, não os sinto com saber. Apenas me conduzem aonde pretendo me lançar. Se meus dedos estivessem nas mãos, juro pelo sagrado que arrancaria esta vida miúda.

Comer é uma atividade que não pertence mais aos frangalhos de corpo. Que bom se os dentes ainda estivessem no devido lugar.

O que é quebrar os dentes depois de ter esfacelado o nariz?

Dia desses, percebi uma quentura no rosto: um líquido viscoso e fétido escorria na face. Se a alma habita o corpo, tenho notado que não é a única dentro dele. Devaneio que alguns movimentos não pertencem a um corpo organizado, com tudo em seu lugar.

Por mais que eu force a sanidade, temo já ter um outro animal no cérebro.

A porta que forço agora possui pregos imensos, muitos perfuraram o meu tronco e parte das coxas. Meu sexo está vertendo sangue, acho que as pontas dos pregos atingiram os pulmões. Tenho a impressão que hoje vou atravessar a porta. Se o inchaço na cara não fosse tamanho, iria esboçar um sorriso; mentira, uma gargalhada infernal.

Rio do espaço ou de mim mesmo?

Tontura grande, noto, me atinge como nuvem espessa.

Aos poucos, sinto que os vermes abrem vorazmente buracos na pele. Os que moram no meu interior também querem mudar de recinto. Não tenho grandes pretensões. Mas vejo que a porta vai ficando distante deste olho. Quem sabe um dia o tempo a derrube ou que os seres que vivem aqui o façam por mim.

Vou tentar respirar mais devagar, pena que o ar que sai traz sangue e mucos… Preciso ser testemunha da queda desta porta.

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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20
dez
11

Um pouco mais do mesmo, a crônica de Roberto Medina: Ler nas estrelinhas

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Ler nas estrelinhas, por Roberto Medina

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Ainda existe uma preocupação muito séria de todas as pessoas em usar suas máscaras ou baixar o carnaval e serem elas mesmas. O processo é de decodificação – ler e ler-se. Entre os amantes é também assim. Quanto mais próximas ficam as criaturas, a focalização de suas objetivas deveria ser fotográfica e animicamente  atenuada. O contrário seria uma pancadaria em que não restaria ninguém. Sobre esse assunto de ler o outro, muitos já têm afirmado a respeito da dificuldade com que devemos nos mover. Terrenos movediços. Almas bailarinas. Pessoas de vidro. Tudo pode desmoronar em questão de segundos. Átimos e hiatos.

Os amantes inventam e se reinventam nos códigos em papiros perdidos em alguma velha caverna como tesouros que afloram da terra. Em plena existência, precisamos mergulhar no profundo do outro e tentar resgatar alguma centelha ou fagulha de um brilho, outrora chama, tantas vezes extinta.

Em conversas com diferentes tribos e idades, o descontentamento entre os vínculos formados pelos que se amam está em crise, sendo que a palavra “crise” significa, em grego, mudança, transformação.

Ok! Mas é todo mundo com pressa. Mundo moderno. Mulher tem de ser “femme fatale” e profissional. Homem, provedor e sexy; independendo de orientações sexuais. Meu Deus, por que nos abandonaste?

Se, de alguma forma, ainda procede questionar se o amor, de fato, existe ou é apenas um elemento para justificar a união de dois. Ficam no fio da navalha. Para que lado ficará a queda menos trágica? Ressaltar que o amor é divino, mas os amantes o estragam… Seria desonesto?

Lembro, com pesar, o conto “Apenas um saxofone”, de Lygia Fagundes Telles, em que a protagonista reata na lembrança a necessidade de descartar o amado. Vivia na saudade do seu grande amor, um saxofonista que se dedicara a ela completamente. Sobre o amor, a personagem afirma que todos o deixam para a última hora – in extremis –, sendo esse o grande mal. Tentam acabá-lo quando já está podre e cheira mal.

Quem é forte e honesto o suficiente para celebrar a chegada do desamor?

Dizem que, como tudo o que existe fixo ou movente, o desamor traz sinais e marcas. Às vezes põe-nos suas pesadas garras e fica como uma baga a nos vigiar com os olhos escuros. Andamos com esse ser dolorido e dilacerante, travestido de rancor e ressentimentos, por vários lugares, em sóis e luas.

Saber isso dói. Mas quem dá conta? Alto preço. Baixas esperanças.

Uma criança, chegando próxima da mãe, disse que quando se lê, é muito importante  ler nas estrelinhas. Entrelinhas num serzinho diminuto não há necessidade de aparecer. Sim. Junto-me ao pequeno:  vejamos as estrelinhas nesses oceanos de desejos, já que somos apenas gotas.

E o amor e desamor? Veja as estrelas! O resto se resolve. A natureza não altera as estações por nossa causa, ela segue implacável e benevolente. Assim vão e vêm os séculos. As estrelinhas –   que são vovozonas – riem de nós.

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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07
dez
11

Um pouco mais do mesmo, a crônica de Roberto Medina

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Osman Lins revisited, por Roberto Medina

 


Hoje acordei com sede de rever quem me faz tanto bem aos olhos e à alma. Acho que sentimentalmente precisamos vasculhar nossas estantes e provocar reencontros com os autores prediletos – aqueles que, a cada nova leitura, invadem-nos como uma centelha, causando estrondo ou apenas silêncio bom. Assim é Osman Lins. Há alguns anos faço esforços para que todos o leiam,  que fiquem a ruminar seus contos, romances e peças de teatro.

Dizem que os livros nos encontram. Comigo não é diferente. Acredito haver muitos livros mal escritos, histórias carentes de uma estruturação narrativa decente, poesias que forçam uma lamúria piegas. Reafirmo que comigo não é diferente: no caso com Osman Lins, ocorreu de eu ter de resenhar dois livros de contos: Os gestos (1957) e Nove, novena (1966)… O que era para ser um trabalho hercúleo transformou-se em verdadeira paixão; quase devoção. Como amante literário, fui atrás de informações: era pernambucano; nasceu em 1924 e faleceu em 1978; escreveu de tudo. Era um expoente que peitava as qualidades de texto de uma Clarice Lispector ou um Guimarães Rosa. Por que os bons morrem cedo?

O escritor italiano Ítalo Calvino, em Por que ler os clássicos, elenca conceitos sobre o que indica um livro como clássico. Há várias definições; agradam-me estas: “Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira” e “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Dessa forma, aproximo-me novamente de Osman Lins. A cada releitura, pressinto ter deixado algo escapar. Algo que, por vivência ou ignorância, não consegui apr(e)ender. Nos contos do escritor pernambucano, é possível notar o apuro e esmero com que tecia as histórias: o domínio da palavra exata e sua cosmovisão. Era incansável com a linguagem. Esse fazia Literatura!

Em Os gestos, o próprio autor afirma “quando escrevi os contos aqui reunidos, todos alusivos ao tema da impotência humana (ante os elementos, ante os olhos de um morto, ante a linguagem etc.), minha ambição centrava-se em dois itens: a) lograr uma frase tão límpida quanto possível; b) não alheio à voz de Aristóteles, fundir num instante único, privilegiado, os fios de cada breve composição, como se todo o passado ali se adensasse. A luta que, desde a adolescência, eu mantinha – sempre derrotado e às cegas – com a arte de narrar encontrava finalmente um rumo e, parece, uma resposta.”  Osman Lins é exemplar quanto ao ofício de escrever literariamente; por conta disso, seus textos possuem a beleza e profundidade dos maiores nomes da nossa literatura brasileira. Suas personagens se encontram em plena sondagem interior, interrogando-se, solitariamente, de forma histriônica, o seu lugar no mundo. Tal mundo que entendemos como vida – por mais prosaica que seja.

Em alguns momentos desta existência, devemos compilar com semblante grave as nossas preferências, lembrando que toda escolha carrega uma renúncia. Pois bem, do livro Nove, novena, penso ser algo próximo a um crime quem não leu “Retábulo de Santa Joana Carolina”. Como afirma Sandra Nitrini, estudiosa do autor, é uma perfeita transposição literária do retábulo plástico. A narrativa é composta por doze módulos, chamados de mistérios, numa referência clara ao gênero teatral religioso da Idade Média. A voz em “Retábulo…” é assumida por vários narradores, em primeira pessoa, que realçam o perfil exemplar dessa mulher nordestina (personagem inspirada na avó paterna do autor), concretizada no amor, na fidelidade, na lealdade, na solidariedade, na firmeza de caráter, na obstinação, na coragem, na resistência e enfrentamento aos poderes locais e na convivência com a natureza, a partir de acontecimentos específicos de sua vida.

Hoje foi um dia bom. Puxo os livros de Osman Lins para perto do peito, fecho os olhos, respiro modicamente e sinto um prazer com a grandeza dos fortes e bons. Experimente-o também.

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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23
nov
11

Um pouco mais do mesmo, a crônica de Roberto Medina

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Beleza, Bondade, Ingenuidade – por Roberto Medina

 

O primeiro raciocínio do homem é de natureza sensitiva…: os nossos primeiros mestres de filosofia são os nossos pés, as nossas mãos, os nossos olhos. ( Jean-Jacques Rousseau )

É reconfortante debruçarmo-nos sobre as janelas da existência e aprisionarmos o que há de fugidio e instantâneo. Viventes que somos ainda possuímos farelos do primitivo e arcaico nas nossas mentes verdejantes, como moscas ao redor da lamparina bruxuleante. As necessidades de cada um causam impactos desastrosos no combate de idéias e de pensamentos. Alguém possui a Verdade? Diógenes e o lampião em plena rua, de madrugada, à procura de um homem justo e bom. Os gregos continuam na moda, sobremaneira as máscaras vão nos guiando no coletivo, sob a égide da  verdade e do engano.

Como ansiosos por um crescimento e reconhecimento, devastamos a mata para ficarmos com o pasto e a grama e a pedra e o barro e o pó. Exterminem-se os pássaros, rosas e fadas! Vanitas é a senhora dos desertos humanos. Sim: a vaidade.

Ao pensarmos e nos pensarmos, alguns passos ficam no resgate de uma realidade exterior e interior do que possivelmente venha ao nosso compósito ideal. Tentativa inútil de aprisionar o ar com rede de caçar mosquitos…

Um exemplo de Vanitas na vida de qualquer um deixa transparecer o cerceamento autoritário da possibilidade de se ver… ou seria de se enxergar – distinto do olhar!

Platonicamente, vivemos nos auspícios da completude e na magnificência do aplauso alheio, sendo que tantas vezes costuramos o espetáculo nas fronteiras de uma casca de ovo.

O ingênuo passa distraidamente pela vida, subestimando o que está fora do seu eu/umbigo, no entanto, várias vezes, esquece-se do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda, uma falsa humildade – protetora de si e avassaladora do outro. Postura essa tantas vezes utilizada para o avanço em territórios alheios.

Léthe – o engano – desconstrói o olhar rapidamente. Acredito na soberba e luxúria judaico-cristãs. A empáfia é enganadora: basta lembrar que caixões não apresentam gavetas. O que deste mundo vem, dele se nega sair – fomes bárbaras, mortes de súbito.

De nada vale o espelho quando Narciso está cego!

Maquino aqui com meus miolos que a idade está desvelando alguns aspectos sombrios meus. Aquilo que não me incomodava agora gera desarranjo: físico e existencial.

Perceber a realidade, apesar de ela não ser o que leio, mas uma possibilidade do que venha a ser: sou ignorante, como tu que me lês. Às vezes, tento calibrar meus punhos e esmurrar a pena certeira de Machado de Assis – isso mesmo – o escritor da periferia que fala sobre o eu-latino-americano, quem somos nós? O que sou eu? E na via de Clarice Lispector: Sou mesmo?

Preciso olhar mais os debates políticos na tevê; nas propostas salvadoras; nos homens com fichas alvas: assim eu doaria minha bondade, beleza e ingenuidade.

Seriam os burros mais felizes? Inteligência rima com arrogância ou é tudo similar?

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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25
out
11

Um pouco mais do mesmo: a crônica de Roberto Medina

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A danação do escritor, por Roberto Medina

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“Nel mezzo del cammin di nostra vita

mi ritrovai per una selva oscura

chè la diritta via era smarrita” – Dante

              Desde o momento em que a palavra se transformou em arte, os seus artífices ficaram condenados à danação. Felizes os que sonham com uma escrita através da Musa, como seria maravilhoso… O escritor apenas sendo um médium! Aos que já trabalham na área da escrita, sabem que o conto da Carochinha não é bem assim: é necessário ler muito, insistir para digladir com deuses no escuro da criação literária. Ato, por excelência, solitário.

Cada vez que inicio um processo criativo, mantenho-me em estado de alerta. Procuro na cabeça leituras que já se distanciaram de mim ou que se mantêm em suspenso: uma frase, um diálogo,uma reminiscência, uma imagem, um sonho. Mas necessito pesquisar muito, para, depois, esquecer tudo e domar a história pretendida. Não raro, a história me põe para dormir e se assume incólume. As personagens falam pela própria boca, e eu fico com o trabalho da faxina do texto, cortando rabos, anulando parágrafos, acrescentando a melhor forma de dizer ou levando a papelada para a lixeira.

Por exemplo, tive um sonho com a atriz Vera Vieira num cenário pós–hecatombe ou explosão nuclear, com choros horrosos, urdidos numa solidão, angústia e desespero. Percebi claramente uma dor universal: um grito pungente a todos os homens. Ao acordar, havia gostado daquela cena.  Senti aquela mulher perdida em seu próprio inferno… quiçá dantesco, traduzindo a epígrafe deste texto: “ no meio do caminho da vida, nos recebeu uma floresta escura, e não se encontrava a saída”. Notei que ela dialogava com seus fantasmas. O lugar não tem um referencial maior: poderia ser em qualquer tempo. Entendo que há olhos para quem quiser ver. No próprio sonho, veio o título do espetáculo: Você precisa saber. Em nada, eu ficaria aborrecido se o texto viesse junto.

Em algum lugar da cabeça, eu havia um eco de algum texto ancestral. Foi na mosca… Medéia, de Eurípides. No entanto, as vozes da memória não cessavam… havia mais coisas, como Huis clos, de Sartre, entre outros textos: Ionesco, Beckett ou Harold Pinter. Com meus alunos e amigos, faço questão de lembrá-los que, depois dos gregos e latinos, pouco nos resta. Muitas luzes são emitidas do lado de lá: fábula e trama.

Para uma consciência do ato de escrever e criar literariamente, Aristóteles , em A arte poética, assinala que o objeto da poética não é a poesia entendida superficialmente como conjunto das composições em verso, mas sim uma série de propriedades por assim dizer mais sutis e profundas do que o simples revestimento da metrificação, isto é, são constituídos pelo caráter mimético, a verossimilhança, a universalidade e o potencial catártico. Para produzir literatura, não basta sermos alfabetizados. É fundamental leitura e busca e tentativa e desânimo e luta.

No eterno retorno, apóio-me no ombro de Flaubert para a arte literária: o ato de escrever é fruto de um trabalho insistente com a palavra para atingir a perfeição. Não é suficiente imaginação. Há um meio caminho do cérebro até a caneta, finalizando-se no papel.

Uma vez o escritor José Paulo Paes expôs o que o artífice literário sofre e espera como resultado de toda essa condenação infernal, ou seja, para que tudo isso? Ele sinteza assim: “sou o poeta mais importante da minha rua, mesmo porque minha rua é curta.”

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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15
out
11

Um pouco mais do mesmo: a crônica de Roberto Medina

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A folha em branco, por Roberto Medina

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O desafio de qualquer escritor é o dia da folha em branco. O que ela solicita de ti, artífice da palavra. Participo de rodadas sobre o processo de criação… o barraco cai e não se chega à conclusão alguma.

Gostosa mesmo é a crônica – senhora que aceita quase tudo! Cuidado com as malícias, leitor(a). Que palavra bonita MALÍCIA…

Em termos mais acadêmicos: na interação imprescindível entre leitor e texto, por meio do diálogo entre competências cognitivas, sociais e interacionais, na relação mais estreita entre texto e contexto para a busca da construção de sentidos de cada texto lido, a leitura e produção  de crônicas podem configurar-se como estratégias extremamente adequadas a uma metodologia do ensino de leitura e prática textual.

Ao lermos uma crônica, envolvemo-nos, pelo prazer da leitura e proximidade com o gênero, o que nos permite ampliar nosso universo de conhecimento, pois somos instigados à interpretação e, assim, avançamos como leitores: ultrapassamos a linearidade, rompemos com a paráfrase, passamos às relações necessárias à leitura polissêmica – aquela que de fato nos permite atuar como leitores críticos; adentramos, enfim, à riqueza do mundo discursivo como fenômeno prático, social e cultural.

Nas crônicas, a realidade dos fatos tratados numa contemporaneidade por nós vivida estimula, ao mesmo tempo, a busca da coerência do texto organizado bem como o estabelecimento de uma interação social e, assim, realizamos uma leitura que se apóia numa análise do discurso entendida como ação social permanente e também concentrada na ordem e organização.

Tal enfoque de leitura permite ao leitor trilhar caminhos cujo contexto se compreende de diversas formas, seja pela sintaxe, pela semântica, pela estilística e pela retórica, seja pelo gênero crônica, definido entre a argumentação e a narração sobre fatos do cotidiano e um pouco mais.

Consoante Antonio Candido, em “A vida ao rés-do-chão”, na crônica, “tudo é vida, tudo é motivo de experiência e reflexão, ou simplesmente de divertimento, de esquecimento momentâneo de nós mesmos a troco do sonho ou da piada que nos transporta ao mundo da imaginação. Para voltarmos mais maduros à vida…”

Uma folha em branco, às vezes, puxa como tema o próprio ato de escrever… a angústia de escrever… co-irmã da ânsia de viver. Na crônica cabem mundos.

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Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

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27
set
11

Um pouco mais do mesmo: a crônica de Roberto Medina

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Para ti, com afeto, por Roberto Medina

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Como nossas bocas jamais silenciam, e os ouvidos se dispersam em tantas coisas, preferi reunir em palavras o que não consigo dizer. Talvez seja um jeito de ser escutado, ou, para que, através da escrita, eu te diga melhor.

O mar em que naufragaram nossas vidas, nos últimos tempos, retirava o ar necessário para a existência do apaixonado amor que já acenava com um lenço negro. Vê-lo como realidade é duro; confesso que dói muito enxergar a felicidade agonizante, deixando amargor pulsante nas almas, desacomodando o bem-querer, a completude, os sorrisos.

Sabes que escrever é uma forma de entender. Entender o que o cérebro reúne e força a extração de significados – mesmo que sejam purulentos ou perfumados.

Agora percebo que antes de ter procurado minimamente teus defeitos, eu deveria ter escondido todos os meus, com fé santa. Ontem mesmo, sorri sozinho, pois recoloquei na estante, lado a lado, “A arte de amar” e “A arte da guerra”: a velha organização tão tua.

Às vezes penso que somos títeres ou fantasmas no sonho de alguém. Queríamos ter controle sobre tudo, mas não há. Brigas vazias, desentendimentos bobos: toalha molhada na cama, um segundo de atraso, recado não mencionado, chamada não atendida, beijo mal executado, os momentos solitários invadidos.

Tu sabes que eu descobria no teu corpo o rumo certo em que se empenharia o meu. Para depois, estranharmo-nos com nossa própria grandeza… Talvez fosse a pouca arte para amar.

É engraçado perceber que a morte possui mistérios e chega com autoridade nos corações. Falamos sobre o morto. Sim, agora atingiu a grande paz. É sabedor de tudo – assim o fosse. A morte traz consigo o saber que ignoramos em vida. Sentimos, por vaidade, o abandono acachapante… Vivemos tão próximos dos próprios umbigos. Esquecemos e maltratamos quem tão bem nos faz. Esquecemos a dança e o canto dos primeiros encontros.

Esquecemos o encanto.

Praticamos, então, o exercício da maldade. Enfim, revelamos a pequenez humana, como se um anjo negro se enroscasse no cotidiano, matando o que há de melhor.

Mas, neste momento, vislumbro que eras tu quem me dava a vontade da luta, da persistência. No teu silêncio, nós nos ligávamos.  Mesmo sem compreender, era isso que nos unia.

Que importância tem isso agora?

Deixo esta carta junto do teu corpo. Que vá contigo para o seio da terra, antes que os vermes cheguem.

P.S.: Eu ainda te amo tanto, tanto!

 

 

Roberto Medina leciona português, inglês e francês em escolas, cursos preparatórios para concursos nacionais e internacionais. Foi professor de projetos literários na UDC –Faculdade Dinâmica Cataratas –, em Foz do Iguaçu. É editor e consultor de textos para editoras e autores independentes e ministra oficinas, cursos e palestras sobre temas literários e culturais em universidades e outras instituições no Rio Grande e no Paraná. Tem contos publicados na antologia 101 que contam e Brevíssimos (org. de Charles Kiefer), e lançou recentemente  o livro de poemas Pedrarias. É autor dos textos dramáticos Você precisa saber (peça teatral escrita para a Cia. Amadeus), Silêncio (peça teatral para o Teatro da Adega, SP), Até que (monólogo para a atriz Cláudia Ribeiro) e  Fernando Palavra (para a Cia G3).

 

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