Posts Tagged ‘A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.

24
maio
13

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Milan Kundera (ou Do riso)

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Milan Kundera (ou Do riso), por Jaime Medeiros Júnior

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risiveis-amores.

Ignoro se  alguna vez creí en la Ciudad de los inmortales:
pienso que  entonces me bastó la tarefa de buscarla.
[Borges – El inmortal – El aleph]

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Propus para o clube de leitura da Palavraria lermos Risíveis amores, pois o tinha lido nos já bem distantes anos 80. Quase nenhum recuerdo feito de início, meio e fim, só guardara a sensação de que tinha sido bom lê-lo. E também a lembrança de uma conversa com a amiga Adriana Lunardi, onde havíamos concluído que Kundera escreve melhor contos do que romances.

Apesar de aceita a proposta, houve o contradito: será que podemos falar de um livro de contos na sua inteireza, ou teremos de falar da particularidade de cada um dos seus contos? Algo em mim antevia a possibilidade de se extrair sumo não só de cada um dos quadros mas também de todo o percurso da exposição. Esta aposta se dava na sensação, algo vaga, que guardava, de que alguma coisa neste livro fazia com que os contos funcionassem como um todo e não apenas de modo isolado.

Além disso, não fazia muito topara com um ensaio de Alain Finkielkraut sobre A brincadeira de Kundera. O qual me pareceu apresentar a chave não só do romance ali abordado, mas também parecia ser capaz de destravar os caminhos do percurso dos contos de Risíveis amores [ambos foram compostos à mesma época]. Qual seja? O riso.

Finkielkraut começa por lembrar-nos que Kundera em sua A arte do romance cita o provérbio judaico – O homem pensa, Deus ri . Depois situa-nos no grande espectro da nossa postura diante do rir. Espectro em que numa das extremidades havemos de encontrar o agelasta [aquele que não se deixa irromper em riso nunca, tudo é muito sério para que se possa achar graça]. No outro extremo temos o riso do deboche, do escracho, de quem não consegue ver senão motivos de riso no mundo posto diante de si.

Os personagens de Kundera parecem ser portadores de um riso em confronto equívoco com a experiência de uma vida oficial agelasta, baseada na paranoia oficial da Tchecoeslováquia totalitária em que vivem. Essa mesma paranoia obriga a que os personagens tenham de coibir seu riso, o qual há de transmutar-se em jogo. Aqui o jogo torna-se talvez o instrumento do riso de Deus, que desafia a todo momento o cogitar humano que quer pôr ferros à vida. Aqui é impossível conviver com o riso. Qualquer brincadeira, por mais inocente que possa ser, traz em si energia suficiente para desencadear toda uma sucessão de pequenos desastres que forma ao fim de tudo uma grande comédia de erros. Comédia  que  há de condenar também o leitor a rir, riso cheio de comiseração pela dor daquelas personagens que estão sempre a supor saber qual será o próximo lance do jogo.

E então ouvimos o grito do protagonista do primeiro dos contos do livro. Preso entre um Estado incapaz de assimilar o blefe, blefe que nasce da necessidade de parecer aquilo que supõe que os agentes do estado estão a querer dele. Diz então à sua amante: Veja Klara, você pensa que uma mentira vale tanto quanto outra, mas está errada. Posso inventar qualquer coisa, zombar dos outros, criar toda espécie de mistificações, fazer todo tipo de piadas e não tenho a impressão de ser um mentiroso; essas mentiras, se quiser chamá-las mentiras, sou eu, tal como sou; com essas mentiras não simulo nada, na verdade com essas mentiras estou dizendo a verdade. Mas existem coisas sobre as quais não posso mentir. Existem coisas que conheço a fundo, e que amo. Não brinco com essas coisas. Mentir sobre isso seria me diminuir, não posso fazê-lo, não exija isso de mim, não o farei.

Aqui partimos em direção dos próximos quadros em exposição e percebemos que também nestes haveremos de encontrar sempre o mesmo mote, o jogo que as precavidas suposições das personagens obrigam-nas a jogar. O jogo agora já não permeia apenas as relações de ofício, mas invade as relações amorosas, de amizade. Invade a intimidade. Até culminar no jogo que se origina das expectativas que as personagens têm para consigo mesmas, onde o sempre presente riso de Deus mostra também quão improvável é o controle que elas pretensamente têm sobre seus desejos e pulsões.

Extrapolemos agora os limites da obra de Kundera. Finkielkraut anuncia que vivemos a vitória do riso. Que nosso tempo é o do escracho e o da zombaria, onde já não guardamos mais lugar nenhum em que não se imiscua o riso [exemplificando: tempo de Pânico ou Cqc]. Tempo em que sacrificamos todos os valores no altar do riso [perde-se o amigo mas não a piada]. Aquele grito em prol do que se conhece a fundo, do que se ama, parece ter sido emudecido pela necessidade onipresente de parecer ser, de se conformar as expectativas, de dizer sempre o inteligente, o engraçado e o perspicaz pré-concebidos.

Esse jogo a que nossas expectativas nos obrigam, parece fazer recair sobre o outro a mofa, aqui partimos sempre de certezas, das certezas de mercado, das certezas de ocasião, que parecem nos condenar a perda do outro, porque simplesmente não o escutamos, pois já sabemos o que ele quer ouvir. A nossa resposta se torna reflexa, pouco nossa. Joga-se. Blefa-se. E por consequência temos também a perda do sujeito, que agora não é senão reflexo de um outro sem substância.

Como sair desta enrascada? Pois parece que o caminho escolhido pelo Jorge de O nome da rosa, condenar o riso ao desaparecimento, envenenar as páginas da Estética que tratam sobre a comédia parece estar interdito. Pelo menos àqueles que não crêem na prescrição pura e simples da verdade de Estado, religiosa ou outras que tais. Teremos de ser acometidos de paralisia facial, para que não possamos rir? Mesmo isso não apagaria a nossa intenção de rir, o riso se faz antes do esgar dos lábios.

Aqui talvez coubesse lembrar a cena final do Symposium. Os convivas dialogam e bebem, a noite acomete-os, o cansaço, o torpor aos poucos os dominam. Poucos restam. Por fim Sócrates é quem sobra, após ter posto para dormir a comédia [Aristófanes] e a tragédia [Ágaton]. A filosofia quer superar esse par de opostos. Aqui havemos de conhecer a ironia socrática, que não deixa de guardar lugar para o riso. Mas este riso não quer se chocar com um outro suposto, e sim ser meio para chegar ao encontro com um outro substancial. Um outro a ser descoberto, a ser desvelado no percurso do diálogo. Talvez nunca encontremos a Cidade dos Imortais, mas cabe-nos a tarefa de buscá-la.

jaime medeiros júniorJaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz(crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica no seu blog Simples Hermenáutica.

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22
jun
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Epinúmeno: primeiro artefato

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Epinúmeno: primeiro artefato, por Jaime Medeiros Júnior

A vista híbrida de descomeços cheia de esperança queria assentar-se sobre a coisa, mas não tinha paradeiro. Esperava descortinos, mas desconhecia outra sorte que não o vagar intermitente e brando sobre os fotogramas que guardara a muito custo de todo o impreciso que tudo o que havia sido se tornara.

A voz reticente nada sabia além de um desdizer constante. Imperfeito. Perenemente assombrada, desalmada, furiosamente tomada pelas potestades do desabrigo de si. Vitoriosas figuras embaladas no bêbado lavradio do esmaecer de si, agora, nada, senão adormecer.

Acorda. Olhos impolutos e tensos. Bebe da água sobre o escravo mudo. Veste-se da manhã. Sai para a vida. Só, consagra-se a descobrir a velocidade das coisas. No bolso busca a chave. Não esquecera nada?

Ele tinha de ir ao centro. Tudo ainda estava por se fazer. Máquina de despropósitos. Burlas a uma acidez intestina. Graças inverossímeis vindas como que num pespegar notícias em jornal alheio. Prazos. Horas de reclames trôpegas de anúncios a se derramarem sobre ele. Sim, ele contristezado e pronto, bem pronto, de querer ser feliz.

No centro do dia. Confluências de descuidos sós sobram ao trote dos cotovelos que brindam o inequívoco repetir. Repentes consequentes seguem a ordem ominosa da horda. Vejam, contudo, as pululantes vísceras frugais dos que se compartem sem-saberes. A hora é sempre hora da morte. Justa hora das justas de mercado. O que ainda funciona?

Funcionam gonzos gostos gordos de malmequeres bemquerentes carentes de luz.  E vivem não só nele. E despem-se da urdidura. E fundam o fim. Pois os vestígios presumíveis de todo o tolo tesouro, ainda cálido debruça-se sobre o horizonte. E tudo ficou ali, um pouco antes do mergulho. E agora? Somente adormecer.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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17
maio
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior.: Pequena anotação após ler Augusto dos Anjos

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Pequena anotação após ler Augusto dos Anjos, por Jaime Medeiros Júnior

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O que há de se buscar num poeta? Nada mais do que aquilo que nele se ergue como belo. Creio que de todo perdemos quando, como modernos, nos acostumamos a medir o mundo com o acento futurístico do novo. Tendemos a escorar o entendimento de tudo o que por ventura surja das páginas lidas em uma qualquer linha evolutiva. Criamos o limite a ser ultrapassado [um mito?], não se devendo tomar nada do que ficou atrás. Vivemos o modernocentrismo do verso.

Reli Augusto dos Anjos. Foi bem bom relê-lo. Pois meio acomodado à batida dos modernos, estava algo satisfeito de roer o meu ossinho feito de essências e medulas. Augusto parece habitar um grande entroncamento de estilos, pois que apresenta rompantes de moderno encrustado em seus poemas, como:

Caía um ar danado de doença

Sobre a cara geral dos edifícios!

 

Parece, contudo, que sua temática funda-se bem mais em temas simbolistas, como:

em tudo, igual a Goethe, reconheço

o império da substância universal.

 

Poesia que sempre está a metamorfosear-se no entrechoque dos opostos e na efemeridade das coisas, isso tudo com um acento lúgubre – há algo de barroco no nosso poeta?

Como há de se dormir com este barulho? E aqui o poeta, que não fora educado no gosto moderno pelo sintético, acabou por carregar nas tintas. Grandes doses de adjetivos e sonoridades esdrúxulas, que parecem aproxima-lo do povo [um dos nossos poucos best-sellers em poesia], que parece sentir para além do dito, o que guarda de ribombos e ventanias entretecidos no aparente abstruso de seus versos.

Paro aqui e penso. Talvez o melhor que possa tirar da leitura de Augusto dos Anjos neste momento é o poder tomá-lo como exemplo de que a nossa receita moderna de síntese não deva ser considerada como a única válida. E que talvez devêssemos nos desacostumar com entenderes postos sobre linhas evolutivas. E nos aproximar mais de um entendimento baseado no movimento ondulante entre opostos; do exagero a síntese, da síntese ao exagero.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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21
dez
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Um mundo en su vejez [das sentenças]

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Um mundo en su vejez [das sentenças], por Jaime Medeiros Jr.

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A qualquer momento, supondo nenhum atraso, a mãe haveria de descer do trem. Naquela gare a saudade não se colava mais aos fatos, era apenas a brusca síntese do que lhe restara.

Lá na outra ponta do banco, só aquele homem, quieto, ensaiava dormir.

Se pusera, então, por dentro de um bulício que o arrastara até aquele rancho a se sumir por trás dos tempos. A sentença do avô ainda não se lhe apagara da lembrança:

– Não volte mais a esta fazenda, por favor, isto hoje é tão-somente terra de mortos e não podemos mais ter parte contigo.

A gare o fazia recordar que era preciso se por nos trilhos, mas a estação era indecisa por natureza, um grande entroncamento de linhas. Sempre haveria de vacilar quanto a que rumo tomar.

Lembrava, tinha aprendido das ovelhas o como tratá-las na sua prenhez, quando doentes e até mesmo o jeito de as olhar na hora de levá-las à morte. Umas mergulhavam silenciosamente, outras berravam. Todas haveriam de atingir igualmente a eternidade. Eternidades, e contudo sem nenhum ponto de contato entre si.

Ele, ainda ali na gare, a esperar a mãe que não chega – ainda tinha de haver um ponto de contato – põe aqueles olhos que não existem, e que contudo carregamos, sobre si. Mais uma sentença:

– Estou a parecer um pastor.

Lembra de si naquele ponto junto ao fogo onde se tomava de silêncio, onde se ouvia atento a conversa desfiada de quem se punha a falar. Ali aprendera, meio aos tranquitos, que todos tinham um só seu jeito de desfiar uma história. E um só seu jeito de morrer.

Agora lá no outro extremo do banco, parece, se fez algum ruído. Então, o homem quieto põe os seus olhos quietos sobre ele, e diz:

– Pastor, nossa senhora me disse que devemos orar não só por nós, mas por todos!

Cessa, então, o bulício por dentro daquele homem, quieto, que agora se ajeita no banco e novamente ensaia dormir.

Ele, por fim, acorda de si. Adivinha que a mãe nunca haverá de chegar, pois desde muito tudo é tão-somente atraso. Se levanta e deixa a gare. Sabe que tem de tornar à casa.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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07
dez
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Da pragmática 2 [em resposta a Leila], por Jaime Medeiros Jr

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Da pragmática 2 [em resposta a Leila], por Jaime Medeiros Jr


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Leila

a tua pergunta – não deveríamos voltar aos pais do pragmatismo, pragmatismo que era preocupado em promover o altruísmo, onde uma religião, por exemplo deveria ser avaliada por sua capacidade de nos fazer dispensar cuidados e atenções entre nós? – me dá a oportunidade de repensar o que estou a fazer.

Contudo comecei a pensar tudo isto a partir da leitura de Interpretação e superinterpretação [Eco, Rorty, Culler]. Seminário que me pareceu poder ser lido em pelo menos dois níveis. O primeiro, mais evidente, o do debate que discute todos os meandros da interpretação do texto literário. O segundo, onde ao falarmos da interpretação nessa nossa época que descrê da possibilidade de experimentarmos o mundo, senão como representação, senão como interpretação, poderíamos, talvez, também entendê-lo como um debate sobre as interpretações do real.

Deste modo me furtei de citar autores e de me responsabilizar pela exata reprodução de suas vozes, mas sim, acabei por os entender como tipos mais ou menos universais, aos quais denominei atitudes [atitude estética, atitude pragmática e uma atitude que crê na coerência interna do texto, a qual talvez pudéssemos denominar realista – em um determinado momento pensei denominar as duas primeiras atitudes como o artista e o político, mas creio que acabaríamos por reduzir o âmbito de ação das mesmas]. Portanto Leila, de certo modo, não estou a falar bem de pragmatismo, mas, isto sim, de pragmática.

Tentando por mais a claro, falamos de pragmatismo desde William James, talvez, mas de pragmática, que é a relação que possamos ter com uma prática [práxis], desde sempre. Aqui poderíamos, por exemplo, revisitar Maquiavel e o velho problema se os fins justificam os meios.

Em determinado ponto do debate a voz do pragmático fala, e nos diz que deveríamos deixar de pensar a nossa leitura como uma interpretação que busca se aproximar de uma intenção do texto. Pra ele o que vale não é a interpretação, mas sim o uso que dela faremos, esta interpretação está condicionada aos fins que tenciono dar a ela, de certa forma aqui interpretar é persuadir. O que me parece não ser mais que uma reedição de Trasímaco, que afirma, respondendo a Sócrates, que a Justiça não é outra coisa que não a conveniência do mais forte. Este tipo de atitude anti-essencialista, como a denomina o pragmático do nosso debate, parece, por fim, nos obrigar a disputa, ao enfrentamento. Estamos nos círculos do vale tudo, onde o princípio que devo seguir se pauta unicamente pela tentativa de atingir os meus objetivos.

Nisto abro Anne Cheng, quando fala na introdução de a História do pensamento chinês: a ausência de teorização à maneira grega e escolástica explica, sem dúvida, a tendência chinesa ao sincretismo. Não há verdade absoluta e eterna, mas dosagens. Daí a contradição não ser entendida como termos que se excluem, mas sim, como termos complementares … … … nesse  pensamento prevalece a reflexão menos sobre o conhecimento em si do que sobre sua relação com a ação. Isto nos afasta da guerra frontal, pois podemos entender que posições antagônicas se complementam.

Podemos observar que estes dois modos de conceber a pragmática se comportam também de modo diferente frente à tradição: de um lado estamos no campo da disputa, onde a minha tese se pretende exclusiva ela não se permite conviver com outras. Estamos sempre trabalhando no sentido de refundar o mundo, de reinventá-lo, apostamos todas as nossas fichas no novo, no ser original. Do outro lado não vivemos sob a óptica do conflito, mas sim nos inserimos no grande barco da tradição, atuando de modo complementar, aceitando as contradições que se refletem no pensamento de quem pensa uma realidade contraditória, aqui quem pensa é muito menos o eu e bem mais as relações entre os modos diferentes, mas complementares, de conceber a realidade. De um lado temos a ação corrosiva do lógos que nos leva ao nada. De outro temos o vazio que emerge da contradição, que compreende o caráter proteico da realidade e não pretende imobilizá-lo com uma qualquer trama teórica.

Após ter tentado me explicar um pouco melhor, tento agora responder mais objetivamente a tua pergunta. Sim creio que deveríamos viver de um modo mais altruísta; ter mais consideração pelo outro e fomentar o bem estar geral da humanidade. Por outro lado me parece que uma das principais dificuldades que temos para atingir este objetivo é fundarmos nossa prática sobre a matriz da disputa, do confronto, do partido e da guerra. Uma matriz de exclusão, que no mais das vezes aniquila qualquer outro possível a que pudéssemos demonstrarmos nosso altruísmo, nosso afeto. Portanto a questão me parece menos a de ser pragmáticos, que por fim, me parece todos somos, mas de qual pragmática adotaremos. Acho que seria bom juntarmos um coraçãozinho aos nossos arrazoados e experimentarmos um espaço de convívio.

Espero que possa ter respondido de algum modo a tua pergunta Leila. No mais te deixo um abraço e até a próxima

Jaime

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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31
ago
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Brincar seria uma coisa séria?

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Brincar seria uma coisa séria?, por Jaime Medeiros Júnior

 

E tudo parece ter começado mais ou menos assim:

– Ele [numa quase interjeição de contentamento]: é brincadeira o que fizeste!

– Ela: não, não, não é brincadeira, é coisa séria!

– Ele: pois então, brincadeira é uma coisa séria!

 

 

As palavras lhe pareciam ter saltado da boca. Logo percebia ter-se deixado levar pela força da retórica. O pitoresco ali, no entanto, era o gostinho de verdade que parecia se combinar àquelas palavras. Algo no que dissera dizia e dizia bem, dizia coisa com coisa. E tudo parecia estar contido naquele susto, naquele despreparo, com que vieram a ter ali.

Agora se queria sério. E numa tentativa de explicar-se, diz: já notaste o nível de atenção e envolvimento com que as crianças brincam? – Isto, contudo, não parecia suficiente para convencê-la da arguição. E nem mesmo ele parecia tão convencido do que dissera, tão rápido tudo acontecera para que se pudesse ter qualquer certeza que fosse. Certezas são todas feitas de tempo, o tempo certo do certo cair do pé.

Outros chegam, sentam a mesa. O que os obriga a mudarem o rumo da prosa. A noite finda.

[mais tarde em casa]. O engasgo, aquela promessa de verdade, nele inda não se resolvera, não falhara, mas também não se confirmara. Foi remexer seus guardados. Topou com uma citação do Houaiss onde se explicava: o étimo Brinc- advém de vinc- “que segundo Antenor Nascentes deriva-se de brinco, do latim vincùlum,i  [liame, laço, atadura]”. Aqui começava a se confirmar aquilo que ele intuíra [lembrara?]. Brincar parece ter relação com a nossa necessidade de nos sentirmos pertencentes a algo maior, este maior começa já ali no outro ao nosso lado. É um convite a festa, a pôr-se em volta de um aparente nada central, a andar em roda, e estabelecer um espaço de estreitamento das relações, de comunhão. Também parece uma forma de nos organizarmos no universo. Aqui, no mais das vezes, o tempo é cíclico, e o espaço circular. Aqui ninguém perde, ninguém ganha, todos tem o seu lugar na roda. É lembrar os escravos de Jó, as rodas das cantigas de roda, o telefone sem fio.

Então dá-se conta num repente, o universo pacífico da brincadeira está diametralmente oposto ao do jogo, que é o da disputa, o da guerra, o da busca da perfeição no desempenho. O brincar normalmente nos põe em círculo [e mesmo quando o circulo não se destaca numa figura, num desenho, há de se encontrar um círculo na estrutura cíclica da brincadeira, lembremos a amarelinha ou das cinco marias (a que Pessoa chama cinco pedrinhas – clique no link para o poema do menino jesus, talvez uma das brincadeiras mais sérias que já se viu)]; a disputa, o jogo obriga a nos pormos em campos antagônicos, a termos um antagonista, um enfrentamento, portanto precisamos de uma figura como o quadrado ou retângulo que em sua formação tem a dualidade por base. Aqui o tempo costuma nos contar uma história. Não quer se repetir. Estas estruturas simples, circular e quadrangular, constroem visões de mundo também antagônicas. A da guerra e a da paz. O mais interessante é que ambas parecem lidar com a questão da morte e da impermanência, mas enquanto uma parece querer compreender a morte, reservando-lhe um lugar na economia do universo, a outra parece querer negá-la, lutando contra o mal. O outro, nesse caso a morte, torna-se o nosso inimigo.

Talvez, pensa ele, tudo isto possa nos fazer entender porque os alquimistas herdaram dos geômetras o problema da quadratura do círculo e, quem sabe, também lembrar a ela porque brincar é uma coisa das mais sérias que há.

Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira.

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

 

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13
jul
11

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Querendo voltar pra casa

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Querendo voltar pra casa, por Jaime Medeiros Júnior

Ele não gostava da escola. E aquele dia em especial não lhe fora nada agradável. Há tempo esperava pelo pai. Tumulto grande por dentro. Borrasca de aborrecimentos. E o transcorrer sempre espichado do tempo de criança parecia ainda mais espichado.

A mão foi ao bolso. Tinha uns trocados que davam a passagem. Ele só queria voltar pra casa. Por fim o impulso vence. Desceu do colégio até a avenidona que era caminho de casa, mui íngreme, feito da subida de onze ou doze quadras, inimaginavelmente extensas, para aquele par de pernas – que, de vida, tinha sete anos – pôr em passos.

Na avenida, depois de atravessar até o outro lado, se põe em direção à parada. Os corredores ainda não corriam a cidade. O ônibus [para todos] estava na parada. Um pouco antes, poucos, não muitos passos antes da parada o coletivo começa a se desprender do lugar.

Ele despensadamente corre e salta [num momento de pleno e natural arrivismo] e toma o primeiro degrau da porta de trás, por onde, naqueles dias, se embarcava em um ônibus. Ele, ainda se equilibrando naquele outro movimento do grande continente que o acolhia, se comprazia com a consecução daquele lance. O salto viera num esforço sem cálculos, e numa confiança absoluta no se por em movimento. Futuramente o Watts de O Budismo Zen ainda haveria de lhe ensinar: as artes zen procuram atingir um tipo de ação sem esforço, sem intenção. A qual o mesmo Watts acha de comparar àqueles momentos em que um atleta faz um lance, uma jogada perfeita. O que faz não é fruto de cálculo, mas sim do fazer. O atleta é a jogada.

Voltemos ao nosso pequenino. Ele está ali na parte de trás do ônibus. E já pode tomar assento entre as gentes, mas está afoito, quer cruzar logo a roleta e tomar assento ali na frente, o que certamente lhe facilitaria a descida. Entrega os trocados para o cobrador. E num segundo tudo muda.

O tempo aqui ainda era o anterior a unificação das tarifas. E, por descuido, tomara o ônibus errado e a passagem já não cabia naqueles poucos trocados que trazia. O Estatuto da Criança e do Adolescente [ECA] inda não vigia, portanto inda não era um pequeno cidadão, e sim, somente um moleque que ousava tomar um para todos e não podia pagar. O que lhe resta senão descer pela porta dos fundos, um tanto envergonhado? Desce. E ainda terá de percorrer mais da metade do caminho. E sabe-se lá porque ele resolve fazer todo o restante a pé.

Ele chega em casa. E depois de todo um necessário contorcionismo nas justificativas do injustificável, pois o pai fora à escola. E houve corações intranquilos. Mas com sorte e com o tempo a passar tudo teima em se resolver. O dia busca o fim. E ele, tomado novamente daquele arrivismo natural, dorme – aqui imaginando-se que o caminho dos sonhos também possa ser uma íngreme subidona.

Anos mais tarde, quando acorda, já sem pai ou mãe a quem se justificar, mas tendo de confirmar tintim por tintim se o ônibus que tomara desta vez ele podia pagar com os seus poucos trocados, toma outros para todos [o dicionário Houaiss eletrônico, 0 dicionário Webster inglês-português e o petit Robert]. Logo aprende, arrivista é um galicismo que se origina no verbo arriver, que comporta muitos sentidos, dentre eles o que primeiro se apresenta é o de chegar, o que se confirma com arrive em inglês. Mas, por fim, todos os veículos que tomamos nos mostram que isto parece advir de uma imagem, qual seja, estamos chegando ao fim de nossa travessia, que termina na outra margem do rio, porém não uma margem qualquer, e sim, a quem olha do rio, uma pequena elevação, uma ribanceira [do latim ripa], ou uma pequena descida para quem está a margem [Há de bastar consultares o étimo rib- no Houaiss eletrônico para constatares os inúmeros vocábulos que ele origina]. Dito isto, talvez pudéssemos depreender como um primeiro sentido de arrivista – liberto de todo o conteúdo negativo a ele arrojado pelo uso das gentes no decorrer do tempo – aquele que quer subir a margem do rio e se pôr em lugar seguro, longe do furor das águas.


Jaime Medeiros Jr
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr. aparece neste blog quinzenalmente às quartas-feiras.

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