Posts Tagged ‘A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior

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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Por que ler Províncias

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Por que ler Províncias, por Jaime Medeiros Júnior

Provincias

Santa Maria, feira do livro de 2012, paro para escutar Marcelo Canellas falar em entrevista em meio à praça Saldanha Marinho. Tema: jornalismo e jornalismo literário. Escuto e aprendo. Nenhuma notícia vem às páginas de um jornal ou vira matéria de TV com isenção. Quem refere fatos, fatalmente terá de alguma forma escolher como contá-los. Essa escolha nunca será isenta e não o deve ser. Então ele nos oferece exemplos de como uma mesma história pode ser dita de modos totalmente diferentes e sem falseá-la e com recepções totalmente diferentes. Não saberei aqui reproduzir os exemplos dados. Mas creio poder explicar o sentido da coisa. Busco alguns fatos, muito provavelmente já um tanto coloridos pela memória que tenho deles. Porto Alegre, década de 80, sessão da meia-noite no Cine ABC. Na tela,Tom Conti, encantado com os estupendos dotes de Kelly McGillis, apanha, em meio a relva da praça da pequena cidade onde estão, um raminho de Loranthacea e, tentando lhe explicar porque as palavras não são isentas de valor, pondera: imagine se deixássemos de chamar a isto erva de passarinho e o chamássemos de olhos de Maria. Muito provavelmente deixaríamos de descuidadamente pisar sobre a erva, e procuraríamos ver onde haveríamos de pousar nossos pés, cheios de medo de feri-la. Contar bem os fatos parece não ser mais que atinar, que descobrir o nome mais capaz de nos desvelar aqueles mesmos fatos.

Marcelo escolheu começar pelos espinhos. Santa Maria teve motivos pra chorar, ele nos situa dentro dessa dor. Mas aqui os cardos também podem coroar alguém, alguém que habita uma das tantas curtas histórias que ele vem nos contar. Histórias de gente, principalmente. Histórias de lembrar. Histórias de encontros. E aqui vale retornar à praça Saldanha Marinho e ouvir Marcelo dizer quão diferentes hão de ser a história na qual os fatos acabam por se submeter às expectativas que guardamos a respeito deles daquela que se registra a partir da escuta, história que é capaz de submeter nossas expectativas à realidade que nasce da capacidade de se surpreender com o que se escuta, escuta que é capaz de desentortar o sentido das coisas. O diagnóstico não é sequestrar a realidade dentro da letra morta do livro de patologia ou de clínica, mas sim ser capaz de construir sentido com o que se colheu na história e no exame do outro a nossa frente.

Se você aceitar o convite de se entregar a leitura do livro Províncias (Ed. Globo), haverá de saber o que acontece quando um menino se encontra com o elefante do circo, também do encontro de duas trôpegas criaturas em uma praça, do que acontece com uma balzaquiana após sua sombrinha ter-se quebrado pelo vento, ou com um beija-flor ao invadir uma biblioteca. E muito provavelmente descobrir o acento de um mundo que quer se fazer distante da nossa comum, apressada e citadina indisposição para com a vida. Pequenas histórias contadas pelo jornalista, pelo homem, e porque não confessar, pelo meu amigo Marcelo Canellas.

jaime medeiros júniorJaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Mantém o blog Simples Hermenáutica.

 

 

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12
dez
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Breves considerações sobre uma leitura de Se um viajante numa noite de inverno de Ítalo Calvino

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Breves considerações sobre uma leitura

de Se um viajante numa noite de inverno de Ítalo Calvino

 

Por que escolhi ler este livro? Primeiramente porque Ítalo Calvino habitava o rol daqueles autores que são por mim mui admirados, e, contudo, pouco lidos. Explicando-me melhor, havia lido alguns ensaios de Por que ler os clássicos, algumas Cosmicômicas, e algum que outro dos seus contos. Guardei bons sentimentos. Depois, amigos, que tenho na conta de bons leitores, sempre faziam arrebatados elogios ao autor, e muitos especificamente a Se um viajante numa noite de inverno. Além disso, quando arguidos sobre o tema do livro, todos estes referidos amigos, calavam-se mantendo-se dentro dos limites de um sorriso sensível. Outro motivo, do qual me dou conta só agora no momento em que me ponho a escrever estas considerações, este foi um dos últimos livros que minha mãe leu com real contentamento.

Podemos agora começar a jornada de Se um viajante. E aqui a palavra jornada parece nos remeter direto ao clima mítico heroico em que se inscreve o livro. Talvez este tenha sido o motivo, de que mesmo sem planejar, vez ou outra me pegasse a lê-lo em voz alta. E, ao mesmo tempo, temos também um livro feito em matriz moderna, que não se esquiva de se utilizar de aparatos metalinguísticos para a construção do romance. Haveremos de descobrir por aqui, pois que a tudo permeia, uma verve irônica que não nos desmonta, mas que, de certo modo, até mesmo nos ergue, redime.

Mas se temos aqui a jornada de um herói, precisamos saber quem são os nossos protagonistas. O autor nos brinda com o casal Leitor e Leitora. E a narrativa se conduzirá na forma de uma fingida conversa entre o autor e o Leitor, fingida por que ouve-se só a voz do autor nesta conversa. Aqui estamos na bruma dos inícios e o autor escolhe um tom cinzento, incapaz de dar rosto ao nosso herói, e que nos leva, mesmo que sem sentir, a emprestar algo nossos próprios olhos, ouvidos, nariz e duas ou três lascas de nosso coração a este herói que passamos curiosamente a seguir.

Se a jornada de um herói se começa nas incertezas de um primeiro gesto, ela tem um percurso, e se destina à realização [a um fazer] da obra. Qual há de ser a obra de um leitor, senão ler? Mas todo herói há de travar algum embate para consecução de sua obra. Portanto nosso herói também terá de conhecer inimigos e que, neste caso, habitam o mais comezinho de nosso mundo.

Aqui haveremos de nos defrontar com todas as provas, peripécias, a que se sujeita passar um herói. O que nos conduz ao mundo mítico da repetição. Que nos obriga a entender que toda obra se faz de ritmo, marcação e tempo. Repetição que tem a ver com a experiência de estar condenado, de se viver uma sina. Há de se realizar os doze trabalhos. Mas o que será que está a se repetir por aqui? Já que as histórias porque passa o Leitor são sempre novas. O que aqui se repete é um mesmo mecanismo, que nos aprisiona neste movimento pendular entre a expectativa e a frustração, entre o prazer e a dor, entre a vida e a morte. Toda história em que se embrenha o leitor-herói se interrompe abruptamente, frustrando sempre e novamente suas expectativas. Este é o aspecto mítico da repetição.

De outro lado [e só agora, após o encontro do grupo de leitura, quando me ponho a escrever, é que me dou conta disso], poderíamos opor esta repetição que aprisiona àquela repetição que ensina, que nos redime, que nos liberta – Aqui é bom lembrar a pergunta que Calvino faz no apêndice de Se um viajante: Será mesmo que estas histórias não acabaram? Será que já não alcançaram seu fim? Elas não poderiam ser coligidas num volume de contos e serem aceitas em seu próprio metro? O que, talvez, nos levasse a concluir que o que nos frustra não é a história em si, mas a nossa expectativa de que não acabasse ali, mas sim um pouco mais adiante – Será esta a repetição que ainda nos levará a tentar saltar por sobre o abismo em direção ao outro, instaurando-se uma nova ordem, onde não há mais vítima para o sacrifício. Esta é a repetição de quem imita conscientemente seu mestre. Aqui o herói se entrega conscientemente a morte e dela há de tornar inda mais consciente [como todo herói que se preze, que sempre há de visitar o mundo inferior e dele tornar, veja-se os casos de Héracles, Odysseus, Orpheu, Teseu e Psiquê]. Aqui o herói se abandona ao fluxo da vida. E é, somente, esta experiência que há de nos conduzir a uma outra visão das coisas do mundo, pois se antes víamos apenas os pedaços, as partes, agora alcançamos ver o todo, inteiro. Por fim, tudo ganha outro sentido. E o Leitor, então, já pode pôr fim a jornada de Se um viajante numa noite de inverno de Ítalo Calvino repousando o livro sobre o criado-mudo.

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jaime medeiros júniorJaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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05
set
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Do deslocamento [ou da ferida de Zênon],

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Do deslocamento [ou da ferida de Zênon], por Jaime Medeiros Júnior

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Parto de um sim imenso, um sim sem refúgio, um sim presente, um sim sem par. Antes de haver esperança e de se prender o feixe das coisas com este tênue fio de entendimento, ele já sofria de se ser, perene curso do meu e do teu desejo. Mas mesmo assim talvez possa haver algum deslocamento. Ou há alguma descoberta na solidão?

Não sei. Quero me aquietar diante dele. Sonho com outras terras. A flor no vaso. O prato de sopa. A cama no quarto de dormir. O sonho. E, no entanto, todo santo dia o sol inda fere a pele da noite. Será que já sei morrer?

Jerusalém inda está tão distante. Como não estar deslocado, não estar em outra parte? E a luz-menino ainda não se apagou no fim da história? E, contudo, agora já posso dizer, por desventuras de todo cavaleiro, que tudo vem sempre um pouco antes das coisas, nesse sim sem tamanho, que todo santo dia fere a natureza que percebe e que aqui nesse meu olhar te vê.

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Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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15
ago
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Da criação

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Da criação, por Jaime Medeiros Júnior

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Depois da nossa última prosa me tomei de ânimo de abrir nova frente de leitura. Releio a Bíblia. Sigo ao ritmo desordenado das disponibilidades de tempo e gosto. Escolhi duas versões, ricas em notas e comentários: a Bíblia de Jerusalém [BJ] e a Nova Versão Internacional [NVI] [versão que vim a conhecer após o comentário a nossa última prosa feito pela minha amiga Ana Cristina Aço].

Leio em Gênesis [Bereshit] o relato da criação. Em um determinado ponto me defronto na NVI com uma nota ao versículo 2 do primeiro capítulo, que quer chamar a atenção para os paralelismos com que foi construído o relato: terra. O centro deste relato. sem forma e vazia. Essa locução, que só ocorre depois em Jr 4.23, dá estrutura ao restante do capítulo. O “separar” e o “ajuntar” que Deus realizou do primeiro ao terceiro dia produziu a forma; o “fazer” e o “encher” do quarto ao sexto dia eliminaram o vazio. A BJ por sua vez traz a seguinte nota a mesma locução: em hebraico: tohû e bohû, “o deserto e o vazio”, expressão que se tornou proverbial para toda a falta de ordem.[…]. Este versículo descreve a situação de caos que precede a criação. Notas que se completam com o seguinte quadro que nos demonstra a ordem vertical e o horizontal dos dias no primeiro capítulo do Gênesis [NVI]:

 

Dias de formação

Dias de preenchimento

  1º dia – “luz”   4ºdia – luminares
  2º dia – “aguas […] abaixo do   firmamento das que ficaram por cima”   5ºdia – “seres vivos que povoam as águas […] todas as aves”
  3º dia –A: a parte seca   6º dia-A1: “rebanhos domésticos, animais selvagens e os demais seres vivos da terra”A2: o homem
  B: “vegetação”   B: todos os vegetais como alimento

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Lido isto, me ocorre a lembrança de Mircea Eliade falando a respeito dos mitos, histórias exemplares que devem, de certa forma, ser recordadas e imitadas. E quanto aos mitos cosmogônicos afirma que toda história das origens, de certa forma, repete a história da criação. De certa forma, todo ato criativo quer repetir a criação.

Isto posto, pensei que talvez fosse possível perceber algo do processo de criação naquele relato do Gênesis. E aquele era a terra sem formas e vazia certamente anuncia o quanto a matéria inicial é incapaz de se apresentar senão como uma rude esperança da coisa que se há de fazer. Mas aqui parece importante assinalar que não se põe o espírito sobre o nada. Mas sim sobre águas primordiais – a que tendo nomear sempre por mar de saudadesejo. E a luz posta com intenção sobre a coisa há de alumiar e discernir nomes, e há de poder separar o que é noite e escuridão [que convida ao repouso e ao simples estar em si, que é como um fechar olhos para o mundo e um pôr ouvidos ao tempo] daquilo que é dia e claridade [que convida à ação e a estar no mundo das coisas e de suas visões] e também de separar o que está em cima [céu] do que está embaixo [terra], e contudo não só pela separação, mas também pelo discernimento da matéria que une este par de opostos é que há de se pôr curso a obra. Por certo aqui nos defrontamos com subidas ideias, mas também com os ditames materiais e comezinhos do fazer.

Depois de tanto separar é preciso também juntar. Juntando o úmido [água] em um grande mar sobra uma parte seca. E depois há se fixar sobre o seco nova luz em forma de flora, mãe dos frutos e das sementes que em promessa prefiguram toda forma viva.

Agora há de se pintar o recheio dos contornos. E neste ponto já conhecemos muito da nossa obra, já temos olhos com que ver durante o dia [o sol] e com que ver à noite [a lua]. Aqui somos já capazes de ler o mundo no que tem de explícito e no que tem de subposto. Agora já se é capaz de se conhecer o que há de vivo nas profundezas do mar e o que há de vivo nas alturas do céu, já se emprestou fôlego ao que pensa e sente em nós. Depois ainda haverá de se pôr ali, naquela parte seca, uma casa, donde tudo se admira. Agora já se tem um cercado [paradeisos, παράδεισος], que determina o que é de casa [animais domésticos] e o que é de fora [besta fera]. E, por fim, ainda há de se ver um rosto [um outro em que se espelhar]. E assim talvez se consiga abençoar esta obra, e fazer dela um território de paz, onde bestas feras se alimentem junto com os animais da casa, só de vegetais.

Por certo esta é a história da obra divina, a qual deveríamos recordar e se possível imitar, mas contudo nem sempre a obra se faz a contento. E muitas vezes acontece de que quem faz acaba por se perder em algum desses passos e toma o mesmo infeliz destino do que aquela galinha, que se pôs a chocar ovos de serpente, que por ventura couberam de cair em seu ninho.

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Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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01
ago
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: Das muitas vozes do Espírito [outro labirinto]

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Das muitas vozes do Espírito [outro labirinto], por Jaime Medeiros Júnior

Faz muito não que tudo começou. O início, uma conversa com o amigo Heron, que me conta ter andado atrás de um texto bíblico, a modo de rememorá-lo. Encontrou. Pô-se a lê-lo. Mas qual a surpresa!? O texto já não coincidia com aquele que ecoava em sua memória.

Esta semana, dia do amigo, aniversário de minha prima, fui a Santa Maria. Resolvi pôr na bagagem um exemplar da TEB [tradução ecumênica da Bíblia, que segue o modelo da TOB francesa]. O exemplar em capa dura, tamanho de bolso, estava à mão e parecia ser mais fácil convidá-lo a adentrar a bolsa que eu estava a preparar para a viagem.

A viagem: algum cansaço a pôr ainda mais peso no corpo da gente. Sono que se recusava, assim tão facilmente, a resolver-se. Chego a Santa Maria. Conversa vai, conversa vem. Felicito minha prima. Entrego o presente. Em algum momento tento confundir o cansaço, descansando. Fui parcialmente bem sucedido. Durmo, não muito, depois acordo. Abro a bagagem. Topo com a TEB a um canto. Abro e caio no salmo 19. Leio os versículos de 2 a 5, que dizem:

2- Os céus narram a glória de Deus, o firmamento proclama a obra de suas mãos.

3- o dia transmite a mensagem ao dia, e a noite a faz conhecer à noite.

4- Não é um discurso, não há palavras, não se lhes ouve a voz.

5- sua harmonia se estende sobre toda a terra, e sua linguagem até as extremidades do mundo.

Tomo um susto, pois, apesar de simpático, o texto parecia participar mais de nosso espírito moderno. Aqui os céus narram, o dia transmite a mensagem [um salmo apropriado a era da informação?], e, por fim, se estende a sua linguagem até as extremidades do mundo. De outra parte, algo em mim também desconfiava de tudo aquilo. Pois aquela não era voz que estava acostumado a escutar na palavra do senhor.

Aqui adianto as minhas escusas a todos os sábios tradutores. Não escolhi falar a partir da perspectiva do especialista, pois não o sou, mas sim, a partir do que me suscitam enquanto leitor desarmado, mas não desalmado, de grandes recursos.

Abro novamente ao acaso a TEB. Caio em Gálatas 3 [versículos 1 e 3]. Leio Paulo a admoestar:

1 Ó gálatas estúpidos, quem os seduziu; depois que, aos vossos olhos, foi exposto Jesus Cristo crucificado?

3- Sois a tal ponto estúpidos? Vós que a princípio começastes pelo espírito será agora a carne que vos leva a perfeição?

Que susto grande! Era a primeira vez que lia no texto bíblico a palavra estúpido, que a mim parece tão inapropriada à admoestação de quem quer que seja, e sim, mais própria ao xingamento.

Resolvo então consultar as bíblias da casa. A de minha avó que hoje encontra-se aos cuidados de minha tia e a que minha prima recém comprara, em letras grandes. Ambas publicadas pela Sociedade Bíblica do Brasil e que contemplam a mesma tradução de João Ferreira de Almeida na sua versão Revista e Atualizada, versão que lia na igreja metodista, nos tempos de minha fé adolescente e militante, que nos apresenta o Salmo 19: 1-4:

1- Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras de suas mãos

2- Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite

3- Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se houve nenhum som;

4- No entanto, por toda terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo.

Quando chego em Porto Alegre busco a bíblia que ganhei de meu avô. Uma João Ferreira de Almeida Revista e Corrigida, na grafia simplificada, onde se trata o mesmo texto desta forma:

1- Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos

2- Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.

3- Sem linguagem, sem fala, ouvem-se suas vozes

4- Em toda a extensão da terra, e suas palavras até o fim do mundo

Conheci também mais tarde, à época do segundo grau a Bíblia de Jerusalém, era o tempo de uma igreja Metodista que ainda participava do movimento ecumênico das igrejas cristãs. Quando acabei o segundo grau no Colégio Centenário de Santa Maria [colégio metodista] ganhei, bem como todos os meus colegas, o novo testamento, exemplar em capa dura, desta edição da bíblia fruto das pesquisas da École biblique de Jérusalem, que congrega pesquisadores que não se filiam a uma denominação específica. Bíblia que no Brasil era editada pelas Paulinas [hoje pela Paulus, editoras católicas], mas que em alguns países é editada por editoras protestantes. Onde assim se nos apresenta o mesmo salmo:

2-Os Céus contam a glória de Deus,

e o firmamento proclama a obra de suas mãos

3-O dia entrega a mensagem a outro dia

e a noite a faz conhecer a outra noite

 

4-Não há termos, não há palavras,

nenhuma voz que deles se ouçad,

5-e por toda a terra sua linha aparece

e até os confins do mundo sua linguagem

Edição que se acompanha de notas como aquela d aposta ao versículo 4: as versões compreendem o contrário: “dos quais não se ouve o som”, mas a sequência faz alusão ao tema assírio-babilônico dos astros, silenciosa “escritura dos céus”.

Quando fiz a minha profissão de fé na igreja metodista com a idade de treze anos, recebi um novo testamento da Bíblia na linguagem de hoje. Uma das fortes tendências de tradução do texto bíblico desde então, onde assim encontramos os primeiros versículos do salmo 19:

1- Os céus falam da glória de Deus e anunciam o que ele tem feito!

2- Um dia fala dessa Glória ao dia seguinte, e uma noite repete isso à outra noite.

3- Não há discurso nem palavras, e não se ouve nenhum som.

4- No entanto a voz do céu se espalha pelo mundo inteiro, e as suas palavras alcançam a terra toda.

Resolvi, por fim, sair em busca de alguma outra tradução. Encontrei a Bíblia Sagrada Edição Pastoral [Paulinas], que faz assim o Salmo 19, a qual me pareceu algo singela e simpática nas suas escolhas para a tradução do mesmo salmo:

2- O céu manifesta a glória de Deus, e o firmamento proclama a obra de suas mãos,

3- o dia passa a mensagem a outro dia, a noite sussurra para a outra noite

4- Sem fala e sem palavras, sem que sua voz seja ouvida,

5- a toda terra chega o seu eco, aos confins do mundo a sua linguagem

Terminada essa pequena viagem pelas traduções do Salmo 19, faço então percurso semelhante pelas traduções dos versículos 1 e 3 de Gálatas 3. A maioria, em discordância com a TEB, preferem o termo insensatos, ao invés de estúpidos. Já A Bíblia na linguagem de hoje o primeiro versículo traz tolos e o terceiro sem juízo ao invés dos estúpidos escolhidos pela TEB.

Néscios, como muitas vezes nos tornamos, certamente poderíamos prolongar indefinidamente a nossa busca. Empilhando aqui ainda outras tantas traduções, tanto católicas quanto protestantes. Mas acreditamos já ter demonstrado suficientemente a profusão labiríntica das traduções do texto bíblico no Brasil.

Retomando. Na mesma viagem a Santa Maria releio Borges [Borges Oral – o Livro] que comenta, referindo-se ao espirituoso Shaw: uma vez perguntaram a Bernard Shaw se ele acreditava que o Espírito Santo havia escrito a Bíblia. Ele respondeu: “todo livro que vale a pena reler foi escrito pelo Espírito”.

Talvez, no entanto, você possa crer que o Espírito escreva apenas em Hebraico, Grego ou talvez em Sânscrito ou Pali. Mas talvez possamos nos abrir a uma outra possibilidade, a de que o único livro o qual devamos realmente reler seja aquele em que não há termos, não há palavras e que por toda a terra a sua linha aparece, e até os confins do mundo sua linguagem. Onde estará este livro? Senão em todo o lugar onde o Espírito está. E onde ele haveria de não estar? Isto talvez confira muito mais importância a quem lê, que para encontrar o Espírito no texto-fonte, certamente há também de precisar ler com Espírito. E, por fim, incidentalmente, me ocorre, ler com espírito talvez seja, fundamentalmente, reler.

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Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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06
jun
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A prosa ligeira de Jaime Medeiros Júnior: O truque

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O truque, por Jaime Medeiros Júnior

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A minha penúltima prosa acabava por se interrogar das causas. Não muito depois fui a Santa Maria visitar tia e primas. Visito também as livrarias. Acabo por encontrar o que não procurava – A magia do mundo grego antigo, Derek Collins, Madras – que acaba por nos impor algumas perguntas quanto a razão das causas e por desvelar vários indícios do quão inconsequente pode ser esta mesma razão.

Agora estamos numa competição atlética, o jovem atleta lança seu dardo e alveja outro jovem, mata-o. Que estrupício! Como hão de se ajeitar as coisas? O truque parece ser sempre o mesmo, recorrer as causas. Neste causo causa se confunde com responsabilidade e responsabilidade com culpa. Por fim se nos apresenta a pergunta: quem é o culpado?

Bem, aqui, entre este e o próximo parágrafo, paro para te recordar e recomendar: procure ver também o verso das coisas, pois tudo tem o seu próprio metro. Produz a ti mesmo. Já é bastante. O suficiente?

Protágoras e Péricles agora tinham problema bastante para encantar com belos discursos a cidade, por dias. Quem é o culpado? O jovem que disparou o dardo: tinha ele alguma querela com o jovem alvejado? Guardava algum crime insuspeito e por isso fora punido pelos deuses? Ou quem sabe o culpado era o transpassado pelo dardo: pois não fora suficientemente imprudente para adentrar o campo bem no momento da arremetida do dardo arremessado? Ou culpado fora, isto sim, o instrutor daquele jovem que não tivera a habilidade necessária para impedi-lo? E como estamos na Grécia, podemos ainda entender, pois aqui é possível que entendam também os tribunais, que o dardo é o culpado, pois eles também guardam em si intenções, assim se explica a presença da magia, agora não só como palavra, ali no título de nosso livro.

E aqui façamos mais uma paradinha para tomar um arzinho. Pois deste modo aproveito para recordar história a mim contada na infância. A família na Kombi sobe a serra em direção a Cruz Alta, não tenho bem por certo, ou um pouco antes ou um pouco depois da Garganta do Diabo, a pedra grande rola desde lá de cima da ribanceira, cai bem sobre o pai que vinha à direção, ele morre. O restante da família, fora ter ganho, por certo, alguns muitos lanhos, permanece vivo. E, por fim, sempre fica em algum lugar, à sombra da vida, algo a se interrogar, quem é o culpado de todo este absurdo?

Para espichar com mais dois dedos de prosa esta nossa conversa, é interessante como outras culturas se encorajaram a responder esta pergunta que teima em não calar. O chefe era o responsável pelo mana da comunidade. Viesse a seca, a colheita não desse muito, a fome grassasse, e ele não fosse capaz de reverter a situação e ele era deposto, sacrificado, inteiramente desmembrado e devolvido à terra na esperança de que o mana da comunidade tomasse novo curso [que pensam disso os nossos chefes?].

Mas para além do simples e puro fato de ter menor ideia de como responder nossa pergunta. Sempre acabo por ter a sensação que, a par de termos ciência sempre renovada a dar de tentar fazer razão com que vestir as causas, nossa ignorância quanto a tudo, algo teimosamente, continua sempre a mesma.

Jaime Medeiros Jr (1964). Médico pediatra. Escritor portoalegrense. Publicou Na ante-sala (poemas, 2008) e Retrato de um tempo à meia-luz (crônicas, Modelo de Nuvem, 2012). Publica bissemanalmente no blog da Palavraria e no seu blog Simples Hermenáutica.

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21
mar
12

A prosa ligeira de Jaime Medeiros Jr.: Onde está Wally?

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Onde está Wally?, por Jaime Medeiros Jr.

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Que atrapalho pode ser ter de encontrar um dromedário em meio ao deserto! Toma-se então dum punhado de grãos de areia e deixa-se que escoe entre os hemisférios da rígida translucidez encontrada por preparo em vidro de um outro qualquer punhado do que outrora também denominou-se areia. Agora já se tem tempo de transformar existência em trabalho para procurar o dromedário. Mas cum grano salis, guardando-se a devida atenção, há de se escutar aquele grão de areia, que se situa a 77,639 centímetros ao norte donde fincou-se o primeiro pododáctilo do teu pé direito, a gritar assim: mas como esse idiota não percebe que eu sou totalmente diferente deste mar de idiotas que me cercam? Faz-se um pé de vento, a ampulheta cai. A rigidez do tempo esfacelada mistura-se a areia. Tentas colhê-la para que os pequenos cacos de rígido não possam fazer mal algum. Fere-te. Matizas de sangue outro punhado de areia. Um pouco de existência se escoa em dor. Alguns grãos se depositam em teu corte, e junto deles, o sossego inesperado de tua existência.

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Jaime Medeiros Jr. é poeta portoalegrense (1964), pediatra. Autor do livro de poemas Na ante-sala. Mantém os blogs Tênues Considerações e O Arco da Lira

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